José ainda não tinha visto tudo que Deus planejara para sua vida. Parte disso estava a ponto de acontecer.
Gênesis 37. Para os irmãos, não basta descartar José como a
um impostor e ignorá-lo. Ele deve ser eliminado. Após considerar a idéia de dar cabo do irmão, eles o vendem a mercadores que iam a caminho do Egito. Em um único versículo, esses mercadores são chamados tanto “midianitas” como “ismaelitas”. Juntamente com outros fatos presentes na narrativa, tal fenômeno é muitas vezes interpretado como uma indicação de duas histórias independen tes acerca de José: um relato J (“ismaelitas”) e um relato E (“midianitas”). Para derrubar a credibilidade de tal teoria, basta
o texto de Juizes 8.22-24, que claramente identifica midianitas e ismaelitas como um único grupo. Além disso, era comum na anti güidade que grupos e indivíduos tivessem mais de um nome (a respeito desse fenômeno, leia Kidner e Kitchen). Poder-se-ia su gerir que o termo “ismaelita” inclui todos os viajantes nômades do norte da Arábia e sul da Palestina, enquanto “midianitas” se ria um termo mais específico com respeito à etnia. Quando os ir mãos os vêem a distância, os viajantes parecem ser um grupo de nômades beduínos (vv. 25,26), “ismaelitas” . Quando o grupo che ga suficientemente perto para conversar com os irmãos de José, o texto os identifica como “midianitas” (v. 28a) (veja Longacre).
Ao retornarmos à narrativa, devemos nos perguntar quais os pensamentos de José durante todo aquele pesadelo. Embora ti vesse em mente uma posição de liderança, ele se acha vendido como escravo, por seus próprios irmãos, a estranhos que rumavam a uma terra sobre a qual ele nada sabia! E quanto aos planos de Deus? Como tudo isso se encaixa?
Gênesis 39. Tudo vai bem por algum tempo. José serve a um
empregador respeitável e tem um trabalho bom e seguro. Isso, entretanto, dura apenas algum tempo. Na ausência do marido, a esposa de Potifar se oferece a José. Possivelmente, trata-se ape nas de uma mulher vítima do tédio e de sua própria luxúria de senfreada. Há, porém, um outro fator que contribui nesse cená rio. Potifar é chamado de “oficial” de Faraó. Trata-se de uma óti ma tradução do termo hebraico, mas a mesma palavra serve para “eunuco” . Alguns reis da antigüidade, por razões óbvias, exigiam que seus cortesãos mais poderosos fossem eunucos. Anteriormen te vítima do ódio e da inveja, José seria agora vítima de uma cruel mentira. Por um crime do qual é inteiramente inocente, José vai parar na prisão. Mas e quanto aos sonhos, aos planos de Deus para sua vida?
Quase todos os comentaristas observam a semelhança entre essa história e o “Conto dos Dois Irmãos” egípcio, oriundo do sé culo XIII a.C. Um irmão solteiro, Bata, vive com o irmão mais velho, Anubis, e sua esposa. Durante a ausência do marido, a es posa tenta seduzir o cunhado: “Venha, vamos dormir [juntos] por uma hora” . Bata recusa com veemência e foge “como um leopar do” . A esposa, ao pôr a culpa em Bata, é bem-sucedida durante algum tempo. Salvar Bata de Anubis exige um milagre por parte de Re, o deus do sol, que coloca um rio cheio de crocodilos entre os dois. Quando Anubis descobre que sua esposa é a culpada, “ele chega a sua casa, mata sua esposa e a lança aos cães” .
Uma das principais diferenças entre as duas histórias é o des tino da esposa sedutora. Não nos é informado o destino da esposa de Potifar. Nahum Sarna sugere que “o motivo desse desinteresse reside no fato de que nossa história não possui um propósito em si mesma, não tendo sido escrita para o lazer. O enfoque da histó ria é a reação de José”. E até possível que Potifar tenha desconfi ado da história da esposa, o que explicaria o porquê de José ter sido aprisionado e não executado.
Nem passava pela cabeça de José que a odiosa mentira da es posa de Potifar, com sua subseqüente prisão, serviriam para ele atrair a atenção de Faraó e, no devido tempo, surgir como salva dor da nação e de sua própria família. Se ele tivesse permanecido na casa de Potifar pelo resto de sua idade adulta, nunca teria captado a atenção de Faraó e jamais se tornaria uma pessoa tão influente no Egito. Temos aqui, no relato de sua vida, mais um exemplo de Deus operando o bem a partir do mal perpetrado por humanos.
Curiosamente, o capítulo 39 é o único capítulo em 37— 50 cujo enfoque é José (o que exclui o capítulo 38 e a maior parte do capí tulo 49), que menciona “Jeová / Senhor” (vv. 2, 3 [2x], 5 [2x], 21, 23 [2x]). Todas as menções são do narrador. Em quatro delas, ele declara que “o Senhor estava com José” (vv. 2,3,21,23). Assim como a presença de José significou a diferença entre a morte e a sobre vivência do Egito, a presença de Jeová significou a diferença en tre morte ou vida para José.
Gênesis 40. Na prisão, José faz amizade com dois servos de
Faraó que haviam caído em desgraça, o copeiro-mor e o padeiro- mor e interpreta-lhes os sonhos. Seu único pedido de auxílio é dirigido ao copeiro: por favor, diga a Faraó que fui preso injusta mente e que desejo minha liberdade (vv. 14,15). “O copeiro-mor, porém, não se lembrou de José” (v. 23), que permaneceu preso por mais dois anos (41.1). Onde estava Deus em meio a tudo isso?
Será que não havia uma “serpente astuta” por perto, que suge risse a José: “Deus não disse que teus irmãos se curvariam diante de ti? E assim que Deus te trata como paga por tua obediência?” Todas as tentações estavam presentes: raiva, amargura, ressen timento, pessimismo, autopiedade.
Gênesis 41. Os dois sonhos de Faraó, no mínimo perturbadores,
proporcionam uma oportunidade para a libertação de José. Como no caso dos sonhos do copeiro-mor e do padeiro-mor (40.8), José rapidamente nega ter um dom inato para a interpretação de so nhos (41.16).
Após interpretá-los, José aconselha Faraó a nomear alguém para a supervisão do armazenamento de víveres e sua posterior distribuição. Um homem prevenido vale por dois. Faraó escolhe José para esse serviço (v. 41).
Até aqui, seguimos a sua vida desde os dezessete anos (37.2) até seus trinta anos de idade (41.46). Após um início estimulante, vimos José mergulhar num pesadelo que duraria treze anos. Uma luz, contudo, começava a surgir. Seus treze anos de perplexidade foram apenas a metade do que seu bisavô tivera de suportar. Aos setenta e cinco anos de idade, Abraão recebera de Deus a promes sa de um filho, mas somente ao completar cem anos ele pôde ter nos braços o filho da promessa.
Seu fértil e exogâmico matrimônio com a egípcia Asenate nos faz perceber que a sorte de José está a ponto de melhorar (v. 45). Desse casamento nascem dois filhos, a quem ele chama Manassés e Efraim (vv. 51,52). O nome do primeiro filho evoca o fato de que Deus o está ajudando a esquecer as mágoas do passado. Hoje em dia, algumas pessoas chamam isso de “curar lembranças” ou, nas palavras de Filipenses 3.13: “esquecer das coisas que atrás ficam”. O nome do segundo filho lembra que Deus faz de José um servo útil mesmo em uma terra de sofrimentos, incertezas e decepções. O esquecimento das agruras passadas e uma vida produtiva es tão entre as mais seletas bênçãos divinas sobre aqueles que en frentam vicissitudes semelhantes às de José.