Gênesis 28.10-22. Não é correto afirmar que tais episódios na
vida de Jacó querem dizer que a trapaça é digna de recompensa. De um ponto de vista ético, a falha no comportamento de Jacó é inquestionável - um exemplo clássico de alguém que se apropria da vontade de Deus. Estaria Jacó predestinado a prevalecer so bre seu irmão (25.23)? Sim. Isso lhe dava o direito de ser manipulador, aproveitador e enganador? Mil vezes não. Os fins não justificam os meios.
Os capítulos acerca de Abraão se iniciam com Deus falando ao patriarca: “Ora, o Senhor disse a Abrão” (12.1). Em contraparti da, a vida de Jacó passa por muitos acontecimentos antes de Deus se revelar de maneira direta. Ao longo de todo o incidente envol vendo Isaque, Esaú e Rebeca, Deus não fala palavra. Deus tam bém não se manifesta durante a primeira parte da fuga de Jacó.
Isso muda em Betei. Pela primeira vez, em um sonho, Deus fica frente a frente com Jacó (meio de revelação que é utilizado pela primeira vez com alguém da linhagem de Abraão [possivel mente com exceção de 15.12-16, quando Abraão está adormecido,
mas a revelação não é chamada de sonho], apesar de ter sido an teriormente utilizado para chamar a atenção do rei filisteu Abimeleque [20.3]). Também precisamos observar que essa é a primeira vez que vemos Jacó sozinho. Anteriormente, ele estava sempre acompanhado de alguém: no útero, com Esaú (25.22); após a última caçada, com Esaú (25.29); com Rebeca, sua mãe (17.6 17); disfarçado de Esaú, com seu pai (27.18-29); com seu pai, como Jacó (28.1-5). Foi naquele momento de solidão que Deus entrou em sua vida. A reação de Jacó ao acordar é incomum, mas não inesperada: “E temeu” (28.17), temeu a Deus. Ele também temeu Labão (31.31) e Esaú (32.7,11).
Podemos considerá-la incomum ao compará-la com as demons tradas por seu pai, avô e até mesmo Ló. Eles, quando diante dos anjos de Deus, saudaram-nos. Em algumas ocasiões, ofereceram ate' comida e hospedagemí Anteriormente a Jacó, temos o medo de Adão: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi” (3.10). Trata-se do medo gerado por uma consciência culpada.
A presença divina é suficiente para fazer diferença. Deus não repreende Jacó em momento algum. Ele não ouve sermões, não é fulminado por Deus nem ouve algum Natã dizendo: “Tu és o ho mem” . Jacó, pelo contrário, depara-se com:
1. O presente da amizade divina: ele estava solitário.
2. A graça do perdão divino: a culpa em sua vida era mais pesa da que a pedra sobre a qual recostava a cabeça.
3. O objetivo de um propósito divino: nos versículos 13-15, ele recebe as mesmas promessas da aliança feitas a Abraão, pas sando a ser iam elo na corrente de Deus.
Não se deve ignorar o contexto e as circunstâncias dessas pro messas. Humphreys3 aborda esse aspecto muito bem: “Devemos lembrar que Deus promete tudo isso a um homem que fugia da Terra Prometida por ter tapeado seu irmão e enganado o próprio pai. Um “segurador de calcanhar” que fugia da ira de um irmão disposto a matá-lo” .
Algumas vezes, os comentaristas interpretam erroneamente o voto de Jacó (28.20-22) como se fosse uma tentativa de barganhar com Deus, a exemplo do que fizera antes com Esaú (“Se fizeres algo por mim, eis o que farei por ti”). Esse, sem dúvida e por di versos motivos, não é o caso. Trata-se de uma má compreensão do papel dos votos na Bíblia, cujo propósito certamente não é deter minar os termos sob os quais se serve a Deus, ou seja, um tipo de
discipulado remunerado. Além disso, boa parte das expressões do voto de Jacó são repetições do que Deus já lhe havia prometido. As palavras de Deus, por exemplo, em “eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores”, ressurgem na boca de Jacó como: “Se Deus for comigo, e me guardar”. Deus não fecha acor dos, mas pode ser cobrado quanto à veracidade de suas palavras.
Gênesis 29—31. Nessa preparação para a transformação, Deus
primeiramente se revela a Jacó. Então ergue um espelho para que ele possa se mirar. Isso é feito ao deixá-lo viver os vinte anos seguintes com uma pessoa cujo caráter é muito parecido com o seu: Labão.
A princípio, Labão é um bondoso anfitrião (29.13). Suas pala vras se assemelham às de Adão quando viu Eva pela primeira vez: “Verdadeiramente és tu o meu osso e a minha carne” (29.14). E um patrão generoso (29.15) e deseja que seu sobrinho / empre gado se torne seu genro (29.19). Porém Jacó, o enganador, acaba tornando-se vítima de um logro nas mãos de Labão. A ironia é clara: ele vê a si mesmo em Labão. O ingênuo Jacó descobre, para seu desapontamento, que havia dormido com Léia, e não com Raquel. Será que o ardil foi possibilitado pelo fato de ser noite, ou por Léia estar usando espessos véus, ou por Jacó estar tão bêbado que nem percebeu com quem dividia sua cama?
Se a providência de Deus agiu na teofania em Betei, mais uma vez, em meio ao caos, “Deus age de modo misterioso, para suas maravilhas realizar”4. O terceiro e quarto filhos de Léia foram Levi e Judá (29.34-35). De Levi veio a linhagem dos sacerdotes. De Judá veio a linhagem dos reis e, no devido tempo, Jesus. Duas das mais importantes instituições veterotestamentárias tiveram sua origem em um casamento indesejado, provocado por um ato de má-fé! Como comenta Gerhard von Rad5, “a obra de Deus mer gulhou nas profundezas da mundanidade e escondeu-se para não ser reconhecida” .
Jacó ainda tinha muito o que amadurecer. Isso é observado quando comparamos as múltiplas e belas referências a Deus, por parte das esposas e do narrador, com uma única referência de Jacó ao Senhor nos capítulos 29 e 30. Léia (29.32,33,35; 30.18,20), Raquel (30.6,23,24) e o narrador (29.31; 30.17,22) falam a respei to de Deus de forma comovente. Ele é um Deus que vê (29.32), ouve (29.33), é digno de louvor (29.35), recompensa (30.18), faz justiça (30.6), presenteia (30.20), lembra (30.22) e remove toda a vergonha (30.23). Que diferença entre isso e uma única menção a Deus por parte de Jacó, apesar de quatro mulheres terem lhe dado
12 filhos! Tal menção, nas palavras de Fretheim6, “foi negativa e em forma de uma pergunta encolerizada” : “Então, Jacó se irou contra Raquel e disse: Acaso, estou eu em lugar de Deus que ao teu ventre impediu frutificar?” (30.22).
O fato de Jacó ainda ser o enganador, o trapaceiro, é demonstra do pela narrativa de 30.25-43. Em uma tentativa de ludibriar Labão. ele planeja uma forma de voltar para Canaã, levando consigo uma parte significativa do rebanho do sogro. Os animais de Jacó seriam os animais malhados que nascessem dos animais de uma só cor que pertenciam a Labão — algo realmente raro (ou pelo menos era no que Labão acreditava!). Quer Jacó acreditasse que as varas no bebedouro faziam alguma diferença (30.37-39), quer fossem ape nas um engodo7, a essência do plano era um logro.
Jacó, como não podia deixar de ser, disse a suas esposas: “As sim, Deus tirou o gado de vosso pai e mo deu a mim” (31.9), o que foi apoiado por ambas as esposas (31.16). A fim de dar maior credibilidade a suas ações, ele cita Deus (31.12).
Seriam, no entanto, apenas suposições por parte de Jacó? Deus o abençoou com um reb anho p o r caz/sa de Jacó ou apesar de Jacó? Compare isso com a riqueza que Abraão obteve ilegalmente de Faraó (12.16). Sem dúvida, Deus não aprova todos os esquemas ardilosos de seus filhos.
O relato de 31.22-55 mostra pelo menos que Jacó e Raquel se merecem! Labão engana Jacó. Jacó ludibria Labão. Raquel ludi bria Labão ao furtar seus ídolos domésticos (31.30,34,35), provo cando um confronto entre Jacó e Labão.
Será possível percebermos algo nas entrelinhas? Labão e Jacó se reconciliam e Labão volta para casa. O que é então feito dos ídolos sobre os quais Raquel, que estava em período fértil, sen tou-se? E de se supor que tenha contado tudo ao marido após a partida de Labão. Será possível vermos Jacó tolerando tranqüila mente a presença de falsos deuses no meio de seu pessoal?
Gênesis 32.1-21. O tempo nem sempre soluciona relacionamen
tos arruinados; com freqüência intensifica ainda mais as diferen ças. Mágoas demoram bastante para passar. Embora já se tives sem passado vinte anos, Esaú continuava ressentido com as ati tudes do irmão; ou, pelo menos, era assim que pensava Jacó. Para pôr um fim a essa situação, o carnal Jacó traça um outro estrata gema, sem estar inteiramente convencido de que sua segurança vem de Deus e não de si mesmo.
Primeiro ele envia uma missão avançada (vv. 3-5), então pla neja uma forma de evitar uma destruição completa nas mãos de
Esaú (vv. 6-8). Em seguida, ora em desespero, mas sem expressar qualquer arrependimento, a menos que leiamos isso no versículo 10 (vv. 9-12). Para finalizar, tenta comprar o perdão de Esaú (vv. 13-21). Afinal, Jacó precisa encontrar Esaú ou Deus? A próxima seção responderá a essa questão.
Transformação (32.22-32)
Vinte anos antes, Jacó, também sozinho, fora confrontado por Deus em Betei. Naquela ocasião, ele estava fugindo da Terra Pro metida; agora, após um intervalo, ele estava voltando àquela ter ra. Em meio às trevas da noite, homem e Deus haviam se encon trado. Isso agora voltaria a acontecer. Jacó não é o que busca, mas o que é encontrado.
Deus, na forma de um “homem” , entra numa luta corpo-a-cor- po com Jacó que dura a noite toda, quase até o amanhecer (v. 24b). Não é difícil recordar a conversa noturna entre Jesus e Nicodemos, na qual Jesus, em uma luta verbal com aquele ho mem, destruiu sistematicamente as suas defesas e chegou ao cerne do problema: o coração de Nicodemos.
O episódio ressalta pelo menos três características de Jacó que, a partir daquele momento, formaram um divisor de águas em sua vida:
1. A consciência de sua fraqueza: “e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele” (v. 25b). Após sair vitorioso em suas lutas contra Esaú, Isaque e Labão, ele agora era a vítima. Ele não lutava, mas agarrava-se para não perder. Independentemente de sua dor ser temporária ou perma nente, Jacó sai daquele lugar com um lembrete de quem manda em sua vida. No caso de serem temporários, podemos comparar os efeitos de seu ferimento à circuncisão adulta que foi experimentada pela segunda geração de israelitas, antes de entrarem na Terra Prometida e em Jericó (Js 5). Tal incisão era certamente dolorida e necessitava de tempo para recuperação e cura (Js 5.8).
2. Uma intensa fome de Deus: “Não te deixarei ir, se me não abençoares” (v. 26b). A bênção de Isaque teria sido insignifi cante se não fosse acompanhada da bênção de Deus. A bên ção de Isaque fora conseguida de forma fraudulenta, mas a de Deus só poderia ser obtida por meio de uma súplica inten sa e sincera. Em favor de Jacó, contudo, é preciso admitir que, embora ferido, ele não largou o varão (v. 26).
3. Ele confessa ser indigno: “Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó” (v. 27). Seu problema é sua natureza (como Jesus em “Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome” [Mc 5.9]). O nome “Jacó” diz respeito tanto a o
que ele é como a quem ele é.
Após tal reação de Jacó, quais foram os resultados?
1. Um novo nome e um novo caráter: “Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel, pois, como príncipe, lutaste [em hebraico, sãrâ] com Deus [em hebraico, ’ê/e com os homens e prevaleceste” (v. 28). (Poder-se-ia comparar o objeto da luta de Jacó com a declaração “E crescia Jesus em [...] graça para com Deus e os homens” [Lc 2.52].) O hebraico bíblico não raro utiliza expressões como “não se dirá mais” ou “não se chamará mais” para indicar algum tipo de metamorfose es piritual. Verifique Gênesis 17.5 e, em especial, certas passa gens de Jeremias, em que tais expressões destacam mudan ças graças a alguma ação divina (Jr 3.16-1; 16.14,15; 19.6: 23.7,8; 31.29,30).
2. Uma nova força: “prevaleceste” (v. 28b). 3. Uma nova bênção: “E abençoou-o ali” (v. 29b).
4. Um novo testemunho: “Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva” (v. 30). Jacó confirma a veracidade de Exodo 33.20, na qual Deus diz: “homem nenhum verá a mi nha face e viverá”. A aurora que se aproximava não era um perigo para Deus, mas para Jacó. Por esse motivo, Deus diz a Jacó: “Deixa-me ir, porque já a alva subiu”.
5. Um novo dia, um novo começo: “E saiu-lhe o sol” (v. 31). 6. Um novo lembrete de sua própria fraqueza: “e manquejava
da sua coxa” (v. 31b). Seu nome é mudado, mas a perna não é curada, ao menos não de imediato.