• Nenhum resultado encontrado

Nosso conhecimento a respeito de Abraão é limitado àquilo que encontramos nas Escrituras. Assim como acontece com a maioria dos personagens bíblicos, não existem referências a respeito dele em nenhuma obra da época dos patriarcas. Alguns indivíduos ti­ veram (aparentemente) o mesmo nome — como, por exemplo, na antiga cidade de Ebla — o que atesta a antigüidade da tradição. Ainda assim, nenhuma dessas pessoas é o Abraão da Bíblia.

Uma única referência ao patriarca Abraão — ou a Moisés, diga- se de passagem — em algum texto cuneiforme ou hieroglífico, se­ ria suficiente para silenciar a multidão de especulações a respei­ to desses personagens da história primitiva. A ausência de tais referências, contudo, desencadeou as divagações de estudiosos modernos na busca do “Abraão histórico”. Mesmo aqueles que, baseados em descobertas arqueológicas, confirmam a autentici­ dade do ambiente cultural nas tradições patriarcais, relutam em admitir que o que temos em mãos é pura história. Até mesmo para estes, só vamos ter um legítimo registro histórico na narra­ tiva “objetiva” a respeito de Davi e de sua família no “Relato da

Sucessão” (2 Sm 9— 20; 1 Rs 1— 2).

Além disso, tais críticos, que expressam uma opinião histórica conservadora a respeito dos patriarcas, em geral também afir­ mam que tais relatos — misturas de fatos e lendas — foram com­ postas em Judá e Israel, da época da instituição da monarquia até o retorno do exílio (1000 a.C a 500 a.C). Como tal, todas as narrativas acerca dos patriarcas teriam sido parte de uma longa tradição oral que, posteriormente, passou por um processo de com­ pilação, revisão e edição, no qual a maioria das histórias foi afas­ tada de seu contexto e propósito original. Com essa visão, combi­ na a idéia de que algumas das narrativas dos patriarcas não pas­ sam de invencionices de uma época remota, histórias artificial­ mente localizadas em uma era longínqua.

Tal abordagem claramente minimiza ou ignora a importância do papel dos patriarcas no livro de Gênesis: serem os primeiros canais de transmissão das promessas de Deus. Nas palavras de Geerhardus Vos3: “Se, de acordo com a Bíblia, eles [os patriarcas] são atores reais no drama da redenção, o verdadeiro princípio do povo de Deus [...] a negação de sua historicidade torna-os sem efeito” . Eles se tornam, pelo contrário, indivíduos obscuros de um passado remoto e indecifrável ou, talvez, personagens de parábo­ las ancestrais, de onde as gerações posteriores podem extrair ver­ dades eternas com aplicação na realidade atual.

O importante papel desempenhado pelos patriarcas na his­ tória da redenção recebe maior destaque em Gênesis por meio de uma contínua ênfase na promessa divina. Tudo começa com Abraão, Isaque e Jacó, mas nada termina neles. Todos os três foram instrumentos para alcançar um fim que extrapolou em muito o tempo de suas vidas. São catalisadores de um processo e não sua conclusão. Assim, ao lermos sobre a vida de Abraão em Gênesis, nosso principal objetivo não é conhecermos o coti­ diano do segundo milênio a.C, mas as promessas de Deus para o futuro. Em última análise, nosso interesse é profético, não histórico.

Como veremos mais adiante, a vida de Abraão surge como uma curiosa combinação de fé e estupidez, com avanços e retrocessos. Na maioria das vezes, o leitor se sente à vontade para aplaudir Abraão, o homem de fé. Diversos incidentes, contudo, revelam ausência de fé.

O que é isso que, em uma mesma perspectiva, combina tanto acontecimentos positivos como negativos? Gerhard von Racf res­ pondeu a essa pergunta: “A história, como um todo, possui um arcabouço que a sustenta e conecta: a suposta promessa para os patriarcas. Pode-se ao menos afirmar que todo esse mosaico de histórias diversas se mantém coeso em torno de um mesmo tema [...] aludindo constantemente à promessa de Deus” . Brevard Childs5, de forma semelhante, sugere que a promessa proporcio­ na “um elemento estável em meio a situações que se modificam a todo momento em um ambiente bastante conturbado” .

Além disso, são promessas absolutas e incondicionais. Tama­ nha ênfase retira-lhes a idéia de recompensa (algo conquistado) e atribui a noção de dádiva (algo imerecido). Podemos ver esse as­ pecto particularmente destacado em 12.1-3: a primeira promessa feita a Abraão (de bênçãos e crescimento). Em primeiro lugar há o imperativo: “Sai-te” (v. 1). Logo depois vem a promessa divina: "Far-te-ei” (vv. 2,3), seguida pela reação humana: “Assim, partiu Abrão” (v. 4). Se o versículo 4 precedesse os versículos 2 e 3, todo o propósito da passagem ficaria radicalmente diferente: as pro­ messas poderiam ser interpretadas como conseqüências da obe­ diência de Abraão. A palavra divina, de uma iniciativa, ficaria reduzida a uma reação.

Encontramos exatamente a mesma estrutura em 13.14-18, a segunda referência à promessa: o imperativo divino, “Levanta” (v. 14); a promessa divina, “hei de [...] farei” (vv. 15-17); a resposta humana, “E Abrão mudou as suas tendas” (v. 18). A terceira refe-

rência à promessa, em 15.1-6, demonstra o mesmo: o imperativo divino, “Olha” (v. 5); a promessa divina, “Assim será a tua semen­ te” (v. 5); a resposta humana, “E creu ele no Senhor” (v. 6).

Isso não quer dizer que Abraão foi absolvido de toda a respon­ sabilidade. A ele é ordenado: “anda em minha presença e sê per­ feito” (17.1). E preciso que ele obedeça ao mandamento: “guarda­ rás o meu concerto” (17.9). Ele deve agir “com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (18.19). Sugere-se um certo vínculo entre a obediência e o cum­ primento das promessas em “porquanto fizeste esta ação [...] de­ veras te abençoarei [...] porquanto obedeceste à minha voz” (22.15­ 18). Percebe-se a mesma nuança em 26.4,5: “E multiplicarei a tua semente [...] porquanto Abraão obedeceu à minha voz”. Essa últi­ ma passagem, contudo, promete a multiplicação dos descenden­ tes de Isaque por causa de Abraão, não em virtude da obediência de Isaque!

Não estou afirmando que a obediência humana é absolutamente inválida. Afinal, mesmo em uma aliança unilateral, deve haver alguma reciprocidade. E se Abraão não tivesse obedecido à pala­ vra do Senhor? E se ele não tivesse crido? E se ele tivesse insisti­ do em não andar na presença do Senhor, nem em agir com justi­ ça? E se ele tivesse se recusado a oferecer Isaque em sacrifício? E preciso considerar que tais opções eram uma possibilidade real para Abraão, a menos que admitamos que, para ele, como o esco­ lhido do Senhor (18.19), a graça de Deus foi irresistível. Meu ar­ gumento é que a responsabilidade humana é sistematicamente subordinada à palavra da promessa de Deus.

A primeira condição, em termos de conduta, é apresentada a Abraão (17.1) após ele ter recebido, em diversas ocasiões, pala­ vras de promessa (12.1-3, 7; 13.14-17; 15.1-6, 7-21). Em termos cronológicos, Abraão ouviu a primeira promessa de Deus aos 75 anos de idade (12.4). Já a primeira condição apresentada aAbraão foi aos 99 anos de idade (17.1), quase 25 anos depois.

As promessas de Deus aos patriarcas cobrem as seguintes áre­ as: o nascimento de um filho; o aumento do número de descen­ dentes; terra; a presença de Deus; bênçãos. Algumas dessas po­ dem se cumprir isoladamente (“Sara, tua mulher, terá um filho” [18.10]; “A tua semente darei esta terra” [12.7], mas, via de regra, ocorrem em grupo. Como exemplo, pode-se citar 22.15-18: inclui uma promessa de bênção (“deveras te abençoarei”); uma promes­ sa de aumento no número de descendentes (“multiplicarei a tua semente como as estrelas dos céus”); uma promessa de terras (“a

tua semente possuirá a porta dos seus inimigos”); e uma segunda promessa de bênçãos (“E em tua semente serão benditas todas as nações da terra”).

Mais promessas são feitas a Abraão que a seu filho ou neto. Ao listar as que se relacionam a descendentes, David J. A. Clines6 cita 19 passagens de Gênesis. Treze são dirigidas a Abraão, en­ quanto apenas uma é paraAgar (21.18), duas para Isaque (26.4,24) e três para Jacó (28.14; 35.11; 46.3). Clines lista treze passagens de Gênesis a respeito da promessa de terras. Nove dessas são dirigidas a Abraão, uma a Isaque (26.3) e três a Jacó (28.13,15 [também 48.4]; 35.12; 46.4).

No que tange à promessa de terras, observamos variações até mesmo na forma como é feita. Em 12.7, Deus dará a terra “à tua semente”. Em 13.15, Deus dará a terra “a ti e à tua semente”. Em 13.17, “a ti”. Mesmo o tempo verbal “eu darei”, nesses versículos, poderia ser substituído por “eu dou” (em 15.18, literalmente “te­ nho dado”).

Abraão, é claro, jamais possuiu a terra como os israelitas ao tempo de Josué. Sua “posse” se limitou a contemplar a terra que sua semente um dia ocuparia (“Levanta, agora, os teus olhos e olha desde o lugar onde estás, para a banda do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente”). Pelo menos é isso que percebemos em retrospecto. Nenhum texto antigo indica que Abraão tenha visto isso dessa forma. Aparentemente, ele esperava um cumprimento mais imediato da promessa, quando lhe foi anunciado pela pri­ meira vez em 12.7. Somente a explicação divina de um intervalo de quatrocentos anos (15.12-16) eliminou da mente de Abraão quaisquer dúvidas que pudessem existir. Por diversas vezes ele perguntou a Deus: “Onde está meu herdeiro?”, mas jamais per­ guntou: “Onde está minha terra?” Para ele, viver em tendas era plenamente satisfatório (Hb 11.9,10).

E óbvio que a maior parte das promessas feitas por Deus aAbraão, Isaque e Jacó não poderiam se cumprir ao longo da vida dos patriar­ cas. Isso é com certeza verdadeiro para as duas promessas que apa­ recem com mais freqüência, a saber, a promessa da terra e a pro­ messa de um vasto número de descendentes. Deus inicia comAbraão um processo cujo ápice se dará em um futuro distante.

E quanto a Abraão? Ele teve um filho, ou dois, mas não uma miríade de descendentes. Possuiu uma tenda e grande vigor, mas nenhuma terra, com exceção de um pequeno terreno comprado onde sepultou sua esposa (Gn 23). Ademais, ao longo dos últimos 75 anos de sua vida, quantas famílias da terra foram abençoadas com ele?

Uma grande bênção possuiu Abraão. Verdade seja dita, ele não possuiu, em termos de realização pessoal, todas as promessas de Deus, mas certamente desfrutou do Deus de todas as promessas. O próprio Deus foi escudo e recompensa a Abraão (15.1). O doa­ dor, não a dádiva, foi a sua maior recompensa, e uma intensa obsessão. Não sem razão, portanto, Abraão é mencionado por três vezes na Bíblia como “amigo de Deus” (2 Cr 20.7; Is 41.8; Tg 2.23). Quanto a essa expressão, vale a pena consultar o estudo de M. Goshen-Gottstein7, mormente sua interpretação do porquê de a Septuaginta transformar expressões do modo indicativo (Abraão é aquele que ama a Deus) em particípio (Abraão é aquele amado por Deus). Eles tinham um ótimo relacionamento.