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A Travessia do Mar de Juncos

No documento Manual-Do-Pentateuco - Vitor-P-Hamilton-.pdf (páginas 191-194)

A travessia do mar de Juncos (preferível a “mar Vermelho”, o qual não se baseia no texto hebraico, mas no grego erythra thalassa e no latim mare rubrurri) é descrita como um milagre. Ler o termo hebraico yam süp como “mar de Juncos” e não “mar Vermelho” re­ flete o fato de que süp, quando utilizado isoladamente, refere-se a juncos ou bambuzal, como em Exodo 2.3: “pondo nela o menino, a pôs nos juncos [süp] à borda do rio”, ou Exodo 2.5: “Nisso viu o cesto entre os juncos [süp] e mandou sua criada apanhá-lo” [NlVj. O povo de Deus atravessou entre duas paredes de água. Paredes de água que, logo depois, fecharam-se e afogaram os egípcios em fuga.

Dividir o mar Vermelho não seria um evento sem importância. Hoje em dia, o mar Vermelho tem cerca de dois mil quilômetros de extensão (incluindo, ao norte, os golfos de Aqaba e o canal de Suez). Sua largura varia entre 200 e 250 quilômetros. Sua pro­ fundidade média é de quase 500 metros, sendo que a mínima é de 180 metros e a máxima é de 2.500 metros. Além disso, o nome “mar de Juncos” (ou “bambuzal”) pressupõe água doce, e não sal­ gada, a fim de que os juncos cresçam.

Alguns teólogos concluem, portanto, que os hebreus provavel­ mente não cruzaram o mar Vermelho ou o golfo de Suez, mas al­ gum lago de água fresca no norte do Egito (talvez a parte sul do atual lago Menzala, perto de Port Said). Isso, contudo, não reduz de maneira alguma o caráter sobrenatural da história. Seiscen­ tos egípcios se afogaram: um fato que não é impossível, conside­ rando-se a tendência dessa região a terrem otos e possíveis tsunamis, como frisam Knights e Kitchen. Independentemente de ser um mar, um lago ou um riacho, Deus livrou seu povo das

garras da maior potência mundial, o Egito. O que para o Egito representou a destruição, para o povo de Deus, foi como um ritual de passagem rumo ao destino que lhes fora divinamente determi­ nado. Os meios pelos quais os Egípcios são afogados (Dt 11.4; Js 24.6) são os meios pelos quais o povo de Israel é salvo (Dt 1.40: 2.1; Js 4.21-24).

Seria de se esperar que, com um ato divino tão magnífico, fos­ sem apagadas quaisquer dúvidas que os israelitas pudessem ter quanto à capacidade de Deus para libertá-los e de Moisés para liderá-los. Mas não foi isso que aconteceu. Já em Exodo 16.2,3, o povo de Deus, há pouco libertado, já sentia saudades do Egito. A liberdade e o pioneirismo parecem não ser tão atraentes quanto a escravidão com três refeições por dia.

Exodo 14 se encerra com a seguinte observação: “e temeu o povo ao Senhor e creu no Senhor e em Moisés, seu servo” (v. 31). Tal crença, no entanto, precisava ser expressa em palavras, pois impressão, sem expressão, leva à depressão. No fim do capítulo 14, Moisés é mencionado juntamente com o Senhor, mas, nos cânticos do capítulo 15, Moisés é deixado de lado.

E adequado que, nos louvores de Exodo 15, Deus seja tratado principalmente por Jeová. O Tetragramaton é utilizado por dez vezes: versículos 1, 3 (2x), 6 (2x), 11, 16, 17, 18, 21. Em uma opor­ tunidade, aparece a forma abreviada de Jeová,yãh (v. 2); noutra aparece ’àdõnãy (v. 17) e, por duas vezes, ’ê l (v. 2). O hino é uma ratificação do senhorio de Deus. Alguns comentaristas (por exem­ plo, Fretheim) assinalam que Exodo 1.1— 15.21 segue o estilo fre­ qüentemente encontrado nos salmos de lamento: salmos compos­ tos por indivíduos ou comunidades em momentos de perigo, quando parecia difícil crer que Deus estava com seu povo. Eles começam descrevendo o problema e o clamor a Deus que ele causa (Ex 1— 2), passam ao relato da graciosa intervenção divina (aquilo que Deus planeja fazer [Ex 3.1— 7.7] e aquilo que realiza [Ex 7.8— 14.31]), e terminam com algum tipo de louvor (15.1-21). O clamor transforma-se em louvor.

Ao falar de Deus, o hino começa na terceira pessoa (w. 1-5), muda para a segunda pessoa (w. 6-17) e conclui voltando à terceira pessoa (w. 18-21). Trata-se, portanto, de um hino predominantemente diri­ gido a Deus, ao Deus “que habita nos louvores de seu povo”.

A ênfase é, antes de mais nada, naquilo que Deus realizou. Isra­ el serve um Deus que age de forma decisiva. Mexer com o povo de Deus é por demais arriscado. Um Faraó descobriu essa verdade já em Gênesis 12. Ferir o corpo é ferir a cabeça. Aliás, o apóstolo Pau­ lo descobriu que perseguir a igreja era perseguir a Cristo.

O hino celebra não apenas os grandes atos de Deus, mas tam­ bém sua natureza e quem Ele é. Ele é “glorificado em santidade” (v. 11). E um Deus de compromisso e amor constante (v. 13). Ele é incomparável (v. 11).

Dessa forma, tanto os atos como a natureza de Deus dão algu­ ma previsibilidade ao futuro (vv. 13-18). Filisteus, edomitas e moabitas, assim como os egípcios, haveriam de cair. Nenhuma força externa pode impedir a marcha do povo de Deus. Somente o pecado e a desobediência podem surgir como impedimento.

Em algumas linhas dos versículos 14-16, há uma curiosa dife­ rença de tradução entre as versões. Temos abaixo o texto da ARC, seguido pelo texto daACF (Almeida Corrigida e Fiel da Sociedade Trinitariana do Brasil) entre colchetes, com exceção do primeiro versículo listado.

1. 15.14: “Os povos o ouvirão, eles estremecerão [ouviram [...] estremeceram]” .

2. 15.15: “Então, os príncipes de Edom se pasmarão [se pas­ maram], dos poderosos dos moabitas apoderar-se-á um tre­ mor [apoderou-se um tremor], derreter-se-ão [derreteram- se] todos os habitantes de Canaã.

3. 15.16: “Espanto e pavor cairá [caiu] sobre eles [...] emudece­ rão [emudeceram] como pedra; até que o teu povo haja pas­ sado [houvesse passado], ó Senhor, até que passe [passas­ se] este povo que adquiriste.

Em outras palavras, a ARC (dentre outras) traduz a maioria dos verbos em 14-16 no futuro, enquanto que aACF as traduz no passado. Traduções como a ACF estão no passado porque essa é sua forma gramatical (tecnicamente, pretérito). Traduções como a ARC estão no futuro por tratarem de fatos que ainda não ti­ nham acontecido. O que Deus realizou (vv. 1-13) ele continuará a realizar (vv. 14-16) e, apesar dos eventos futuros não terem ainda acontecido, eles podem ser celebrados como um “fato consuma­ do”. Os incidentes mencionados em 14-18 poderiam ser tanto even­ tos em um futuro distante (por exemplo, a conquista de Canaã sob a liderança de Josué e a captura de Jerusalém por Davi) como acontecimentos mais imediatos nos capítulos subseqüentes de Exodo (a jornada no deserto, a chegada ao Sinai, a construção do Tabernáculo).

No documento Manual-Do-Pentateuco - Vitor-P-Hamilton-.pdf (páginas 191-194)