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A Torre de Babel (11.1-9)

Diversos acontecimentos em Gênesis 4— 11 são precedidos e sucedidos por notas genealógicas semelhantes. O relato sobre os filhos de Deus e as filhas dos homens (6.1-8) fica entre duas notas sobre os três filhos de Noé (5.32; 6.9,10). O relato do dilúvio é cercado por referências à progénie de Noé (6.9,10; 9.18,19). O in­ cidente da torre de Babel possui, antes e depois de seu registro, a genealogia de Sem (10.21-31; 11.10-32).

Podemos verificar uma grande ênfase no oriente nesses pri­ meiros capítulos de Gênesis. O jardim do Éden é no oriente (2.8). Ao oriente do Éden, Deus postou um querubim para impedir um retomo ao jardim (3.24). Caim partiu para habitar a terra de Node, da banda do oriente do Éden (4.16). Diversos descendentes de Sem habitaram a “montanha do Oriente” (10.30). Essa história sobre a torre começa com a migração de pessoas do oriente (11.2) para a planície de Sinar. Mais uma vez, o ambiente geográfico do relato fica fora da Palestina.

O pecado do povo não está no desejo de construir uma cidade, que é um ato neutro e destituído de implicações morais. É a moti­ vação por trás da empreitada que salta aos olhos: “Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus e façamo- nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 11.4). Esse é o conceito pagão de imortalidade. Muito tempo após o falecimento de um artista, escultor, poeta, músico, arquiteto e escritor, sua memória é perpetuada por suas obras. A imortalidade baseia-se em uma realização. O indivíduo torna-se imortal em virtude de suas habilidades.

Deus, contudo, não aceita essa idéia. A narrativa conta que as excentricidades desses construtores levaram Deus a agir. Seu gran­ dioso projeto foi subitamente interrompido quando Deus lhes “con­ fundiu a língua” e dispersou aqueles que insistiam em se tornar mais sedentários. Babel (v. 9), “o portão de Deus”, acabou se tor­ nando a “capital da confusão” .

Miller14 enfatiza que, ao longo de Gênesis 3— 11, há uma cor­ respondência entre a natureza do pecado e o tipo de juízo sobre ele. A serpente, por exemplo, que seduziu Eva, levando-a a comer o que não devia, terá de comer poeira pelo resto de sua vida. Caim, fazendeiro por vocação, para quem era essencial se estabelecer num local fixo, tornou-se um fugitivo e andarilho, encerrando seus dias na fazenda. No incidente da torre, em 11.1-9, Deus decretou seu juízo tanto sobre o instrumento do pecado, um idioma único,

que fez com que todo o projeto fosse possível; como sobre a inten­ ção por trás do pecado, ou seja, evitar que fossem dispersos pelo mundo. Ao longo de Gênesis 3— 11, não vemos Deus tendo nenhu­ ma reação arbitrária contra o pecado e a desobediência. Ele nun­ ca escolhe de forma aleatória dentre os muitos castigos possíveis. A correspondência entre ofensa e castigo destaca a natureza da transgressão e o caráter da justiça divina em ação.

A narrativa começa dizendo que toda a terra era “de uma mes­ ma língua e de uma mesma fala” . Isso quer dizer que, até aquele momento, a terra era lingüisticamente uniforme? Dificilmente! Na “tabela de nações” do capítulo anterior, vimos não por uma, mas por três vezes, que os filhos de Jafé, Cam e Sem foram dividi­ dos “segundo as suas famílias, segundo as suas línguas, em suas terras, em suas nações” .

Alguém poderá ver um conflito entre esses dois capítulos, a exemplo do que acontece com os defensores da hipótese documen­ tal. Nessa linha de pensamento, existem duas explicações para a dispersão da humanidade: a fonte P (capítulo 10), em que a dis­ persão é um sinal de bênção; e a fonte J (capítulo 11), em que a dispersão é vista como um castigo, sinalizando o descontentamento de Deus.

Podemos ainda explicar a justaposição desses capítulos ao su­ gerirmos que dois aspectos lingüísticos distintos são aqui consi­ derados. O capítulo 10 diria respeito aos idiomas e dialetos de cada povo. Em contrapartida, a “mesma língua” do capítulo 11 diria respeito a uma língua franca, a um idioma internacional que tornava possível a cooperação e o intercâmbio entre povos de diferentes idiomas.

Dessa forma, a afirmação do capítulo 11, como defende Cyrus Gordon15, não seria a de que Deus dividiu um idioma em muitos, mas que tornou incompreensível a língua comum que podia ser compreendida por todos os envolvidos no projeto de construção.

Uma terceira sugestão vem sendo oferecida por Clines: “Se o conteúdo do capítulo 10 tivesse vindo após o relato da torre de Babel, toda a Tabela de Nações teria de ser lida a partir de uma idéia de juízo. No lugar onde se encontra, a Tabela de Nações aparece como o cumprimento do mandamento divino de 9.1”16. Em minha opinião, essa última interpretação é a mais apropria­ da, visto que mais uma vez exemplifica algo consistente ao longo de Gênesis 3— 11: a voz de Deus tanto no juízo como na redenção, tanto na ira como na misericórdia. Em tudo, Deus opera em prol de um objetivo eterno; irritado pela estupidez de alguns, mas ja ­

mais desviado de seu rumo. É possível que, tendo um relato geral da criação do ser humano (1.26-30), seguido de uma narrativa mais pormenorizada da criação da vida humana (2.4,5), tenha­ mos o mesmo aqui: uma descrição geral das origens dos idiomas (10.1-32) imediatamente seguida por um relato mais específico das origens desse fenômeno (11.1-9).

Gênesis 4— 11

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11 “Noah’s Nakedness and the Course of Canaan: A Case of Incest?” , VTn°

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12 Genesis, tradução de J. H. M a r k s . OTL. Filadélfia: Westminster, 1972, p.

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13 Toward an Old Testament Theology. Grand Rapids: Zondervan, 1978, p. 82.

14 Genesis 1— 11: Studies on Structure and Theme. JSTOTSup n° 8. Sheffield: University of Sheffield Department of Biblical Studies, 1978, pp. 27-36. 15 B efore Columbus: Links between the Old World and Ancient Am erica Nova

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3

Abraão

Gê n e s i s 1 1 . 2 6 - 2 5 . 1 1

No primeiro livro da Bíblia, apenas dois capítulos são dedica­ dos ao relato da Criação, e apenas um ao relato da Queda. A histó­ ria de Abraão, no entanto, estende-se por 13 capítulos de Gênesis, atingindo partes de dois outros capítulos. Seria isso uma pista a respeito do principal propósito das Escrituras? Sua principal fun­ ção não é tratar de questões metafísicas e filosóficas, que natural­ mente ocupam a mente do homem moderno. Se um hebreu do passado fosse pressionado a definir Deus, ou a demonstrar como Deus opera na história do homem, daria uma resposta parecida com a de Louis Armstrong, quando lhe pediram para definir o que é jazz: “Cara, se você precisa perguntar, jamais ficará sabendo”.

O Antigo Testamento é mais teológico que filosófico. Como Deus e os humanos chegam a um acordo e entram em harmonia? As respostas estão em Levítico e em boa parte do livro de Exodo. Como Deus encoraja alguém que esteja enfrentando as mais som­ brias circunstâncias? Vá até a história de José. Como Deus tira uma pessoa do anonimato e a usa para alcançar e transformar o mundo? Olhe a vida de Abraão.

Em um sentido técnico, contudo, não encontramos a biografia de Abraão no livro de Gênesis e não somos capazes de traçar sua

vida em detalhes. Ainda assim, alguns eventos de sua vida são destacados, com ênfase em um período específico. A tabela 2 de­ monstra isso. Não dispomos de nenhuma informação sobre Abraão até seu 75° aniversário e, quanto aos seus últimos 75 anos de vida, dispomos de um mínimo de dados. Os 25 anos de fundamental importância vão dos 75 aos 100 anos.

Tabela 2

Passagem Bíblica Idade de Abraão Acontecimento

12.4 75 A braão parte de Harã

16.3 85 Abraão habita por 10 anos em Canaã

16.16 86 N ascim ento de Ism ael

17.1 99 A aliança

21.5 100 O nascim ento de Isaque

23.1 137 A m orte de Sara

25.7 175 A m orte de Abraão

De Adão à descendência de Noé (1— 11), os exemplos de infide­ lidade suplantam facilmente os exemplos de obediência. Abraão é contrastado com tais indivíduos perniciosos. Não se pode deixar escapar, por exemplo, a diferença entre “façamo-nos um nome” (11.4) e “engrandecerei o teu nome” (12.2). As maquinações hu­ manas são comparadas à iniciativa divina, a autopromoção é con­ trastada com a aceitação das promessas de Deus.

A transição do período pré-patriarcal para o patriarcal é marcada pelas palavras que iniciam Gênesis 12. Hans W. W olff foi bastante feliz em sua classificação gramatical das partes da passagem:

1. Um imperativo: “Sai!” (12.1)

2. Cinco verbos no futuro do presente, com Deus como sujeito: “far-te-ei [...] abençoar-te-ei [...] engrandecerei [...] abençoa­ rei [...] amaldiçoarei”.

3. Mais um verbo no futuro que, no original, carrega um senti­ do de conseqüência e obrigatoriedade: “em ti serão benditas [Gn 10— 11?] todas as famílias da terra” ou “abençoarão a si mesmas” . (Curioso que uma promessa para o futuro traga um sentido de obrigatoriedade. Estaria o nosso futuro à nos­ sa frente ou para trás de nós? Nossa caminhada é rumo ao futuro ou de volta para o futuro?)

Nesses dois versículos, o termo “bênção /abençoar”, quer como verbo quer como substantivo, aparece por cinco vezes. Wolff com­ para esse uso quíntuplo de “bênção” com o uso quíntuplo de “mal­ dição” em Gênesis 1— 11:

1. 3.14: “maldita serás mais que toda besta” 2. 3.17: “maldita é a terra por causa de ti” 3. 4.11: “maldito és tu desde a terra”

4. 5.29: “por causa da terra que o Senhor amaldiçoou” 5. 9.25: “Maldito seja Canaã”

(Em 8.21, o verbo hebraico utilizado é diferente do pre­ sente nesses casos)

Poder-se-ia ainda associar as bênçãos de Gênesis 12.1-3, profe­ ridas pelos lábios de Deus, ao mesmo número de bênçãos encon­ tradas em Gênesis 1— 11: “E Deus os abençoou” (1.22); “E Deus os abençoou” (1.28); “E abençoou Deus o dia sétimo” (2.3); “Macho e fêmea [...] os abençoou” (5.2); “E abençoou Deus a Noé” (9.1). Aque­ les que defendem a tese das fontes múltiplas, no entanto, não admitiriam tal correlação, pois sustentam que Gênesis 12.1-3 é de J e esses cinco de P.

Quais são então os eventos subseqüentes na vida de Abraão?

1. Abraão viaja com Sara para o Egito por causa da fome (12.10­ 20).

2. Ao voltar do Egito, Abraão e Ló repartem a terra entre si (13.1-18).

3. Abraão resgata Ló de seus seqüestradores (14.1-17, 21-24) e, nesse ínterim, encontra-se com Melquisedeque (14.18-20). 4. Deus firma uma aliança com Abraão (15), a qual é mais tar­

de selada com a circuncisão (17); nasce Ismael (16). 5. Deus condena Sodoma e Gomorra (18— 19).

6. Abraão, longe de casa, fracassa em uma nova tentativa de enganar um rei, ao identificar Sara como sua irmã (20). 7. Isaque nasce e, pouco tempo depois, é oferecido em sacrifício

(2122).

8. A morte de Sara (23).

9. Abraão envia seu servo de volta a sua casa, a fim de obter uma esposa para Isaque (24). (Observe que o mais longo ca­ pítulo de Gênesis aborda o assunto do casamento.)