CAPÍTULO I: O TEATRO NEGRO
1.4 Antecedentes do Teatro Engajado Negro
1.4.1 Experiências do Teatro Engajado Negro e Particularidades
Quanto aos vários modos de apropriação do legado cultural negro-africano por esse teatro destacamos, neste momento, três caminhos: Haiti, Cuba e Estados Unidos da América (sobre o Brasil falaremos mais adiante). Recortamos essas três experiências porque, em nosso entendimento, dentro de suas particularidades, elas têm caminhos relevantes na direção do desenvolvimento de um pensamento e de uma estética teatral a partir de matrizes negro-africanas.
69Sobre o teatro cubano, ver Moracen (2004) e Martiatu (2000); sobre teatro negro norte-americano, ver Elam. Jr. e Krasner (2001).
De acordo com Moracen (2004), o Haiti merece destaque dentro do painel do teatro negro pelas suas contribuições na elaboração de procedimentos técnicos, unindo componentes da tradição negro-africana, o vodu, à dramaturgia, universalizada pelo teatro grego clássico. É primeiro no Haiti que o “discurso da expressão de uma identidade caribenha e bolivariana” (MORACEN, 2004, 45) surge na dramaturgia. A forte espiritualidade, presente na cultura haitiana, acaba por produzir “um teatro de um legado popular como testemunho alegórico que une o real ao maravilhoso”, observa o estudioso (MORACEN, 2004, 46). É no Haiti que se inicia o desenvolvimento de um tipo de teatro que lança mão do transe como processo laboratorial e atuação70.
A influência mítica é também uma característica do teatro negro cubano. De acordo com Martiatu (2000), esse teatro se apodera do universo mítico religioso cubano (Santeria ou Regla de Ocha71, Palo monte ou Regla Conga72, Regla Arará73 e a Sociedade Secreta Abakuá74,) para criar toda uma dramaturgia para crianças e jovens em torno dos mitos e das figuras desse universo. Como exemplos, o texto “Ibeyi Añá”, de Rogelio Martinez Fure, que conta a estória de ibejis-orixás meninos, os quais protegem as crianças e simbolizam o princípio da dualidade (mitologia Yorubá); e “Okán deniyé, la dama Del averreal”, de Yulky Cary Córdoba, que traz como personagem principal Oxum, orixá feminino que representa a riqueza e o belo. Martiatu (2000) ressalta que, além da temática essa dramaturgia vale-se também do repertório das tradições orais cubanas. Por fim, a autora acrescenta que uma prática comum ao teatro negro cubano é a contínua
70 Sobre teatro no Haiti, veja Martiatu (2000).
71 Santeria refere-se ao culto dos negros cubanos que mescla elementos das religiões Yorubá a elementos do catolicismo popular (GARCIA, 2008,31).
72 Palo monte ou Regra conga – procedente da cultura bantu (Congo e Angola), seus cerimoniais são voltados para os ancestrais e o mundo natural (animal e vegetal). Seus rituais envolvem magia e segredo (GARCIA, 2008,31).
73 Tem sua origem no Benin, característica pela forte influencia da musicalidade em seus rituais. As entidades, cultuadas, na Regla Arará foram cooptadas de religiões como Santeria e catolicismo (GARCIA, 2008,31). 74 Sociedade secreta abakuá ou Ñañigos – sociedade composta exclusivamente por homens. De origem africana (Nigéria e Camarões), seus ritos envolvem segredos e seus integrantes devem respeitar preceitos
busca em torno de formas, de apropriação de elementos da cultura local, em todas as esferas: atuação, cena, e metodologia.
Por sua vez, em relação ao teatro negro norte-americano, Elam Jr et al (2001) afirmam que: “A imagem negra no teatro americano é sempre e já vem impregnada pelos significados político, cultural e social” (ELAM JR et al, 2001, 6)75. Ao longo de sua trajetória, o teatro negro norte-americano passou por diversas fases: produções orientadas por formas tradicionais negro-africanas e norte-americanas - o teatro inspirado no ritual é uma delas; produções experimentais que exploram a articulação de conteúdos negro-americanos a modelos estéticos variados; produções inspiradas em convenções hegemônicas. Conforme Harrison et al (2002), de modo geral, a expressão desse teatro é bastante permeada por elementos da oralidade afro-americana: repetição, multiplicidade de ritmos, sons e formas envolvendo o repertório de sonoridades das ruas (hip hop, gírias, break, entre outros), diálogo pergunta e resposta, improvisos e o vocabulário da fala cotidiana. Martins (1995) corrobora que esse teatro
já não se propõe ser a consciência do negro ou exercer um papel de controle dessa consciência (...), a questão da identidade do sujeito negro e a do próprio Teatro Negro são reelaboradas numa construção textual que se ostenta e se mostra como um objeto singular (MARTINS, 1995, 76).
Enfim, a grande marca desse teatro, atualmente, é a sua diversidade e a contínua busca por caminhos outros, que não sejam nem o radicalismo militante e nem a adesão aos padrões do status quo.
Realizamos essa trajetória até aqui com o intuito de melhor explicitar o percurso por onde tem se construído um pensamento teatral negro orientado.
Nesse recorte, procuramos mostrar o quanto essa associação - teatro e negro - pode assumir dimensões para além da mera discussão em torno da problemática, alcançando a poética da cena, o intérprete e os procedimentos teóricos e técnicos. Também, buscamos destacar suas distintas expressões e similaridades e, naturalmente, suas premissas: a religiosidade e a cultura como elementos de inspiração; discriminação racial como adversário a ser combatido; relevância de aspectos sociais, identitários, educacionais e bem-estar do cidadão negro; multiplicidade e amálgama de signos e referenciais técnicos e simbólicos; espectador como testemunha e parceiro (a); e, principalmente, a África negra como premissa.
Ao final deste tópico, cabe ainda uma pequena nota a respeito da importância da África para o desenvolvimento do pensamento de um teatro negro76. Em todas as experiências de teatro negro que aqui reportamos o elemento-chave é a África enquanto referencial e inspiração. Para isso é preciso ir, estar em contato com o lugar de onde veio seu legado. Assim, esse teatro negro da Diáspora já desde seus primórdios passa a percorrer também o caminho de volta a terra. Estreitando relações com o agora negro teatro africano e criando uma espécie de diálogo. E esse fenômeno vai além do aproveitamento de um legado, é uma espécie de consciência da particularidade de uma assinatura que eles começam a vislumbrar da particularidade de um teatro negro. Adiante, traremos mais sobre essas linhas de conexão com a África, pois, resta-nos, ainda, voltar o olhar para o nosso terreiro.