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CAPÍTULO I: O TEATRO NEGRO

1.2 Teatro Negro – Termo e Sentidos

(...) a denominação de teatro negro pode tanto ser aplicada a um teatro que tenha a presença de atores negros, quanto aquele caracterizado pela participação de atores negros, quanto aquele caracterizado pela participação de um diretor negro, ou, ainda de uma produção negra (DOUXAMI, 2001, 313).

Essa leitura apresentada por Douxami retrata bem a amplitude com que podemos tomar o termo teatro negro. Historicamente, o sentido do termo tem sido utilizado, por um lado, para se referir a manifestações negras, como as

brincadeiras (terno de reis34, capoeira35, bumba meu boi36, maculelê37, entre

34 Ou folia de reis. Manifestação popular de origem portuguesa relacionada às festividades do nascimento de Jesus. O principal mote da manifestação são os três reis que vêm avisar ao povo sobre o nascimento do de Cristo. De porta em porta, com cantos e danças, paramentados com figurino coloridos, eles vão de porta em porta anunciando a boa nova. Acontece em todo o Brasil. Ver Cascudo (1972).

outras); a expressões religiosas (Congadas38 e rituais das religiões de matriz africana) e a formas espetaculares propriamente ditas; e, por outro, para designar um teatro de reivindicação e afirmação da identidade negra, política ou culturalmente.

Um dos primeiros a definir teatro negro como aquele que abarca diversas manifestações profanas e religiosas negras foi Bastide (1983). De acordo com o autor, teatro negro pode ser dividido em dois tipos: um folclórico de duas faces (a branca e a negra) e um engajado (erudito). O folclórico de “face branca” apresenta formas que expressam a miscigenação à brasileira, pois reproduz o discurso do

status quo sobre o negro. O autor cita como exemplos desse teatro os folguedos: a luta dos Mouros e Cristãos39 e o bumba-meu-boi. Nessas manifestações,

enquanto o branco europeu é colocado como referencial de superioridade, beleza e ideal, o negro é retratado de modo depreciativo e inferior, pintado como irresponsável, violento, selvagem, feio, entre outros (BASTIDE, 1983). Já o teatro folclórico de “face negra” traz formas mais próximas de expressões negro- africanas na Diáspora. Expressões nas quais se sobressaem a linguagem da mímica, da dança e do gesto (BASTIDE, 1983). Por conta dessa proximidade, essas manifestações (como o samba rural e o candomblé, por exemplo) teriam

35 É uma das maiores manifestações culturais negro brasileiras. Espécie de arte marcial que se utiliza dos pés e das mãos para ataque e defesa. Seu jogo (em duplas) é acompanhado de instrumentos e cantos. Seus principais referenciais são Mestre Pastinha e Mestre Bimba. Ver Pastinha (1988).

36 Bumba-meu-boi – brincadeira popular que tem a morte e a ressurreição do boi como tema central. Em torno desse mote há toda uma dramatização, envolvendo música, dança e muita comicidade. Se chora a morte, se roga pelo seu renascimento, e se festeja seu restabelecimento. Acontece em todas as regiões brasileiras. 37 Espécie de dança- luta de origem negro africana que mescla elementos de danças populares como o frevo, a capoeira entre outros, que tem como seu principal mote o enfrentamento de em duplas portando bastões ou facões, num ritmo frenético ao som de atabaques e cantos de guerra. Ver Cascudo (1972).

38 Festa de origem negro africana (particularmente, bantu), de grande influencia católica cristã Ligada ao culto de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário. A manifestação consiste na coroação do rei do Congo. É acompanhada de músicas, cânticos e embaixadas. Ver Cascudo (1972).

39 Mouros e Cristãos ou cavalhada – brincadeira trazida pelos jesuítas. Consiste numa batalha entre cristãos e

conservado, em seu bojo, valores e referenciais que afirmam e veiculam um discurso através da difusão das formas expressivas negras40.

Quanto ao teatro negro do tipo engajado ou erudito, na definição de Bastide (1983), é como “aquele escrito por intelectuais de cor para seu povo e para o povo branco” (BASTIDE, 1983, 146) e, enquanto forma, esse teatro utilizaria um aporte similar ao “teatro branco”, baseado no verbo e orientado pelo viés político. O Teatro Experimental do Negro é citado por esse autor como a maior representação desse segundo tipo.

Christine Douxami (2000) define teatro negro como sendo “representação feita pelos afro-brasileiros, com a intenção de representar as suas raízes africanas, mostrando uma certa imagem da cultura afro-brasileira, valorizando justamente o seu cotidiano, o candomblé, ou o folclore” (DOUXAMI, 2000, 17). A pesquisadora também identifica duas distintas abordagens: a primeira que opta pela militância política, com enfoque maior na problematizaçao das questões que envolvem os negros-descendentes, cuja tendência é a de uma realização mais comumente dramatúrgica; e, a segunda, que se orienta mais notadamente pelo viés da cultura e que retira do universo mítico-religioso brasileiro e profano sua inspiração e estética. Como exemplo dessas abordagens, a autora cita o Teatro Experimental do Negro e as realizações do grupo Brasiliana (1949-1953, de Haroldo Costa41) e do Teatro Popular Brasileiro (1950, criado pelo poeta Solano Trindade42).

40A propósito da associação de expressões religiosas negras com o teatro, tal qual faz Bastide, cabe um à

parte. As religiões de matriz negro-africanas são consideradas grandes responsáveis pela sobrevivência de parte da cultura negra no novo mundo. E isso se dá, justamente, da maneira própria como que se configura essa cultura, inter-relacionando suas várias esferas – religiosa, artística e social, sendo uma, sem deixar de ser outra, e mesmo, sem ser confundida com outra. Para nós, a associação de expressões religiosas, dessa natureza, com o teatro, como o faz Bastide, é resultado de uma perspectiva de quem vê de fora. O que se relacionaria mais com a forma externa com que essa expressão se manifesta. À sua qualidade espetacular (no sentido etnocenológico – Pradier- 1999), mais do que sua função ou deliberação interna. Fazendo-se assim, capta-se, apenas um dos diferentes aspectos apresentados por essas manifestações religiosas.

41 Haroldo Costa (1930) – Carioca, ator, bailarino, coreógrafo, diretor de cinema, teatro e tv; jornalista e escritor. Obras: Fala Crioulo (1982), 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro (2001), Salgueiro: Academia do

De acordo com essa divisão, de um lado estaria o Teatro Experimental do Negro pregando o resgate da auto-estima e condição social do negro por meio da educação, formação, conscientização e cultura, realizando um teatro pautado nos mesmos moldes e convenções hegemônicas da cena de então; e, de outro, o grupo “Brasiliana”43, propondo um teatro inspirado nas músicas, danças, ambientação e dramaticidade dos rituais dos orixás, e nas composições, ritmos e performances de expressões folclóricas de matrizes negras; um teatro que funde e reinterpreta elementos oriundos do amplo leque de manifestações negro- ameríndias, brasileiras: cavalo marinho, bumba-meu-boi, maracatu, orixás,

capoeira, samba, entre outros (COSTA, 1988). O Teatro Popular Brasileiro,

também inserido nesse grupo, apresenta uma proposta que, apesar de repertório semelhante, põe enfoque na expressividade própria de cada uma dessas manifestações e não exatamente em sua espetacularização (MARTINS, 2006).

Para Moracen (2004):

Se o teatro negro está relacionado à identidade cultural do homem negro, este pode ser compreendido a partir de uma visão cronológica, de análise e de performances, como um movimento constituído por representações espetaculares, obras e encenações dramáticas negro-africanas - da origem e da diáspora (MORACEN, 2004, 33).

Em outras palavras, teatro negro abarcaria todas as

representações/recriações negras produzidas a título de reinvenção/reificação de

Samba (2003), Na Cadência do Samba (2000), Ernesto Nazareth: Pioneiro do Brasil (2005). Ver mais em:

www.haroldocosta.com.br.

42 Solano Trindade (1908-1974) - Natural de Recife, um dos maiores poetas negros brasileiros; também jornalista e militante socialista. Suas obras: Poemas de uma vida simples (1944); Seis tempos de poesia (1958), e Cantares de um povo (1963). Publicações Póstumas: Canto Negro (2006) e Poemas Antológicos de

Solano Trindade (2008), ambos seleção de Zenir Ventura.

Ver também: http://franciscosolanotrindade.blogspot.com/2009/02/solano-trindade-o-poeta-do-povo.html 43 Primeiro foi chamado de Grupo dos Novos, depois Teatro Folclórico Brasileiro, para depois assumir o

sua cultura. Estariam aí incluídas todas as esferas de manifestações espetaculares – música, dança, drama, rituais44. Observa-se nessa concepção do autor a influência da noção de espetacularidade, utilizada pela Etnocenologia45, como aquilo que se destaca do cotidiano, e uma conseqüente ampliação do termo teatro, o que acaba lhe imprimindo uma dimensão muito próxima daquela que se tem em África. No contexto do teatro tradicional africano, de modo geral, teatro- música-dança estão muito freqüentemente associados, além disso, os “aspectos religiosos, culturais, sabedoria popular e a proliferação dos elementos que envolvem que dão sustentação à comunidade” (TRAORÉ, 1972,19), também têm larga inserção nesse teatro.

Importante destacar também a noção de teatro do negro trazida por Moracen (2004) como o conjunto de manifestações culturais erigidas a partir da condição de exílio. O autor insere em sua concepção um princípio: a origem. De onde vêm as matrizes desse teatro? Dos negros, da África, dos descendentes, onde encontramos uma concepção um pouco mais ampla do que denominamos teatro. Então, é a partir da concepção africana de teatro que se deve buscar fundamentos para compreender e melhor conceituar esse teatro negro da Diáspora.

Essa ampliação da discussão para o terreno da origem abre caminhos para uma possível unificação desse conceito por nós pesquisadores dessa temática. É teatro do negro porque se enquadra em uma concepção particular do termo, que se distingue não somente por suas formas, cor ou discurso de seus praticantes,

44 Proposição similar à utilizada por Frigério (1992) – que opta por usar o termo ‘performance artística negra’ para se referir ao conjunto de expressões da mesma natureza que se refere Moracen (2004).

45 Etnocenologia - disciplina criada em 1999, definida como o estudo, nas diferentes culturas, das Práticas e dos Comportamentos Espetaculares Organizados – PCHEO (em francês PCHSO), o que compreende a análise das modalidades segundo as quais as práticas e os comportamentos humanos espetaculares organizados se inserem em seu contexto sociocultural; o estudo dos elementos que constituem os modelos sistêmicos das práticas e dos comportamentos espetaculares organizados; e a abordagem das estratégias cognitivas que sustentam a emergência dos comportamentos e das práticas. Manifesto, in Bião 1996 (ver, também, BIÃO,1995; 1999; 1996; SANTOS, A., 2009; PRADIER, 1999).

mas, sobretudo, por um conceito diferente de teatro. Conceito que pode vir a comportar, por exemplo, expressões que extrapolam a caixa e algumas convenções cênicas mais referendadas no teatro de orientação ocidental, particularmente, a greco-romana. Por essa razão, torna-se possível considerar manifestações como a capoeira, a congada, o balé folclórico Brasiliana e o Teatro Experimental do Negro, como faces distintas de um mesmo teatro – o teatro do negro.

Por último, acrescentaríamos a perspectiva da estudiosa Martins (1995), que circunscreve teatro negro enquanto conceito, dentro de um referencial e de uma postura política particulares: “O Teatro Negro não se constrói pela simples afeição étnica e racial, mas, fundamentalmente, pela elaboração de uma enunciação e de um enunciado que o distinguem, em todos os seus matizes” (MARTINS, 1995, 86). Essa acepção está entre as que mais resguardam o termo apenas para sua face engajada. A palavra seria utilizada, não como um adjetivo, mas como uma atitude política de afirmar e resgatá-lo de seu uso tantas vezes maculado. Nesse caso, fazer teatro negro seria mais uma atitude política do que a circunstância de ser negro.

O estabelecimento desse painel foi importante para que pudéssemos visitar as diferentes concepções associadas à denominação teatro negro. Também foi salutar, no que diz respeito à compreensão de que, nesse caso particular, parafraseando Shakespeare, um termo não é só um termo, é toda uma circunscrição expressiva que falam uma mesma língua – a cultura negra em todas as dimensões. Dessa maneira, considerando todas as posições aqui expostas, observamos que na concepção de práticos e especialistas no assunto, atitude política mais utilização de formas expressivas de matriz negro-africana representam fatores preponderantes para sua definição do termo – teatro negro. Como político, entenda-se, a transplantação dos valores, filosofia e corpus cultural feita pelos negros e seus descendentes em função das migrações forçadas das

várias nações de África. Essa transplantação “constitui um índice de resistência cultural e de sobrevivência étnica, política e social” (MARTINS, 1997, 24).

Entendendo atitude política nesse sentido se faz necessário, também como atitude política, partir da concepção de que, como teatro negro devemos compreender não somente as formas que literalmente se enquadram nos parâmetros consagrados ao termo teatro, mas é preciso ampliar esse olhar à altura do referencial em que se embasam as performances artísticas negras na Diáspora. E essa noção de teatro é como a tida, de modo geral, na África, um leque que engloba e expressa aspectos religiosos, culturais, sabedoria popular e a proliferação dos elementos que envolvem e que dão sustentação à comunidade (TRAORÉ, 1972).

Assim, na perspectiva do presente estudo, entenda-se: aquele que abrange

o conjunto de manifestações espetaculares negras, originadas na Diáspora, e que lança mão do repertório cultural e estético de matriz africana como meio de expressão, de recuperação, resistência e/ou afirmação da cultura negra. Este

teatro negro pode ser classificado a partir de três grandes categorias: uma primeira que, genericamente, denominaremos performance negra, abarca formas expressivas, de modo geral, e não prescinde de audiência para acontecer; a segunda, categoria (também circunstancialmente definida), teatro de presença

negra estaria mais relacionada às expressões literalmente artísticas (feitas para

serem vistas por um público) de expressão negra ou com sua participação; e a terceira categoria, teatro engajado negro, diz respeito a um teatro de militância, de postura assumidamente política.

Na primeira categoria, performance negra, incluiremos os folguedos populares (bumba meu boi, maracatu, congada, congo, tambor de mina, samba

rural, entre outros), formas expressivas como a capoeira e o samba; expressões

(partes do ritual, abertas à audiência em geral). Esse conjunto de manifestações é assim alocado por reunir uma mescla de manifestações para-teatrais as quais, por sua espetacularidade, podem também operar com fins teatrais (ou seja, feito para ser apreciado). No entanto, sua realização pode acontecer naturalmente, sem a necessidade de espectadores. Além dessas manifestações, pode ser alocado nessa categoria, todo um universo de experiência e história negra no novo mundo (no caso, o Brasil), com configurações, formas, conteúdos e personagens negros e brancos; todos esses representativos da herança cultural negro-brasileira e mestiça, miscigenada ao cotidiano vivido. De modo geral, nas produções dessa natureza, a reflexão crítica sobre o contexto social e a problematização das questões negras na sociedade podem, eventualmente, ocorrer de modo intrínseco, mas não necessária e exclusivamente.

A segunda categoria, teatro de presença negra, abriga em seu domínio conteúdos estritamente artísticos. Em outras palavras, estão aí inseridos, associados ou separados, o teatro, a dança e a música46. Nesta categoria estão incluídas performances que utilizam elementos oriundos da cultura negro- brasileira (tradicional ou popular) como fonte e material de inspiração47; e/ou produções que envolvam elencos de maioria negra, mas que não buscam, particular ou continuamente, espelhar-se no referencial negro descendente. O que não descarta a possibilidade de, eventualmente, isso vir a acontecer48, ou seja, para grupos enquadrados nessa categoria, montar indiferentemente Shakespeare ou Luis Cuti49, tão só e unicamente com o propósito artístico. Como expressões

46 Falando sobre a performance artística negra, Traoré (1972) observa que na maioria das vezes não é possível separar os gêneros como geralmente o fazemos no ocidente.

47 Tradicional, no sentido dado por Bastide (1983), seriam as manifestações mais enraizadas nas matrizes africanas.

48 Consideramos que, mesmo que um grupo formado por elenco negro não realize um teatro nos moldes do que comumente se classificaria de matriz negra, estamos ainda falando de um contingente de negro fazendo teatro, seja ele qual for. Novamente, devemos pontuar aqui que a utilização do termo ‘negro’ toma como perspectiva a associação direta, feita por quem vê, entre os traços que o indivíduo apresenta e sua filiação racial.

dessa categoria estão as várias companhias formadas por elencos mulatos (com rostos pintados de pó branco), no século XVII, em centros como Salvador, Diamantina e Rio de Janeiro, tais como o Teatro de Padre Ventura e o Teatro Manuel Luís (citados no início deste capítulo); e as companhias negras de revista, atuantes nas duas primeiras décadas do século passado.

Sobre essas revistas negras se faz oportuno um pequeno adendo. Elas fizeram um sucesso estrondoso no início do século XX, período em que a atuação do negro era ainda mais restrita e boicotada. Companhias como a Negra de Revistas (1926), a Bataclan Negra (1927) e a Mulata Brasileira (1930) conseguiram colocar em cena atores, escritores, diretores e músicos negros e, assim, fizeram a diferença não somente pela presença negra, mas, sobretudo, pela inserção e valorização de muitos dos elementos concernentes à população negro-mestiça da sociedade de então. Dessa maneira, tal qual avalia Nepomuceno (2006), mesmo sem tratar especificamente de questões raciais, mas de temas que “tavam na boca do povo”, criaram um espaço inusitado de crítica e contestação do cotidiano vivido por brancos, indígenas, negros e mestiços em nossa sociedade. Assim, camufladas, trouxeram um pouco da temática negra aos palcos nacionais e realizaram um grande feito num contexto histórico em que falar abertamente da discriminação e menos valia a que eram submetidos os cidadãos negros do país era rechaçado ostensivamente como “idéia separatista”.

Por último, temos a terceira categoria apresentada pelo teatro negro: a do

teatro engajado negro. Essa categoria distingue-se da anterior basicamente pelo

seu posicionamento político. Nesse teatro engajado, o principal propósito encontra-se atrelado à discussão de questões referentes à situação do negro na sociedade e à defesa e afirmação de sua identidade e cultura. Essa vertente

Linguagem - Unicamp. Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje-Literatura, de 1983 a 1994, e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros, de 1978 a 1993. Poemas da carapinha. São Paulo: Ed. do Autor, 1978; A Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro, 1991, Negros em contos,

teatral apresenta um posicionamento assumidamente crítico (seja no texto, no formato, ou em ambos) em relação à situação do negro e de sua cultura na sociedade, utilizando o teatro como ferramenta de sua contestação. Nesse teatro, a sociedade interpreta um papel dos mais expressivos: é a partir dela, para e/ou em oposição a ela, que ele se realiza. Entre os grupos que abriram esse caminho estão: Teatro Experimental do Negro, o qual, propondo um teatro feito nos mesmos moldes do status quo, com elenco, dramaturgia e comando negro, busca afirmar a identidade negra; o grupo Brasiliana, que vislumbrou a espetacularização de expressões populares de matrizes negras como um meio de enaltecer a cultura e auto-estima dos negro-descendentes; o Teatro Popular Brasileiro, que, utilizando-se de material semelhante, propôs estreitar ainda mais o olhar sobre as expressões folclóricas negras, enfatizando suas origens, riqueza e valores.

Em síntese, essas são as faces distintas que podem ser assumidas pelo teatro negro: a performática que abarca manifestações espetaculares negras, em geral; o de presença negra, apresentando formas mais especificamente teatrais; e o engajado que, por seu turno, prioriza atuar numa esfera de maior posicionamento político. Resumindo, poderíamos dizer que essas três categorias, nas quais classificamos o teatro negro, constituem as três principais vias de abordagem desse teatro: a dramaturgia, as formas expressivas negras e o discurso militante. Essa riqueza de pontos de vista só aponta para o caldeirão de possibilidades sugeridas pelo teatro negro. A aproximação e/ou fusão dessas variantes, ou sua exploração particularizada, são igualmente fundamentais, pois suas resultantes ecoarão naturalmente num discurso estético que desenha esse teatro: temática negra + perspectiva negra + formas inspiradas em elementos da performance artística negro-africana.

É sobre os traços característicos e insinuações similares, desvelados por esse teatro de aspecto estético, que será feita a discussão a partir desse momento.