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Expondo um tolo

No documento revista serrote (páginas 65-68)

�.Terão os historiadores reparado que a principal atividade secular do falecido William Jennings Bryan nesta terra foi a de capturar moscas? Um detalhe curioso e não desprovido de implicações sarcásticas. Ele foi o mais diligente caçador de moscas da história americana e, de longe, o mais bem-suce- dido. Seu alvo, ou seu prato preferido, não era a Musca domes- tica, mas sim o Homo neanderthalensis. Durante �� anos, ele o perseguiu com seu laço e seu bacamarte, para cima e para baixo em todos os rincões da república. Onde quer que a tocha do Chautauqua� ardesse e derretesse, que alguma reserva de

idealismo corresse nas veias, que pastores batistas represas- sem os córregos para poupar água e que alguém conseguisse reunir os homens extenuados ou fortemente oprimidos, com suas esposas obstinadamente multíparas e cheias de Peruna�

– ali, o incansável Jennings instalava suas armadilhas e espa- lhava suas iscas. Ele conhecia todas as cidades miseráveis do interior, no sul e no oeste, e podia levar a mais remota delas à asfixia simplesmente cortando suas asinhas. Em ����, o pro- letariado urbano, momentaneamente iludido por ele, rapi- damente percebeu sua conversa fiada e não quis mais saber do homem; durante �� anos, a cada Convenção Nacional dos Democratas, Bryan foi motivo de chacota na plateia. Mas ali onde a grama cresce mais alto, onde o gado fica sonhando nos dias lerdos e os homens ainda temem os poderes e as leis dos céus – ali, entre as plantações de milho, ele manteve sua velha força até o fim. Não havia necessidade de batedores para abrir o caminho. Bastava a notícia de que estava chegando. Os car- rinhos levantavam poeira por milhas e milhas nas estradas. E quando ele surgia, no final da tarde, para descarregar sua Mensagem, as pessoas ficavam sem respirar de tanto prestar �.No original em inglês o auor escreve

lieralmene “The Ku Klux Klergy”, criando com ese úlimo ermo um rocadilho com a palavraclergy, que significaclero. [�. do �.]

�. Andy Gump era o proagonisa de uma irinha iniciada em ���� e que era disribuída para vários jornais pelo Chicago Tribune Syndicae. Sua família represenava uma família ipicamene comum: não eram ricos, não eram brilhanes, não eram bonios. “Gump” ambém era sinônimo de pessoas do povo sem insrução. [�. do �.]

�. No original, Mecken escreveu Chauaqua sem o u anes do q. Traa-se do popular movimeno de educação de adulos que levava educação e enreenimeno para as zonas rurais dos ���, nas úlimas décadas do séc. �� e primeiras do ��. Aribui-se a Theodore Roosevel a frase que dizia que o Chauauqua “era a coisa mais americana na América”. [�. do �.]

�. Peruna era o nome de um remédio, usado desde o final do século ��, que inha em sua fórmula ��% de álcool. A Universidade Meodisa do Sul, de Dallas, deu o nome de Peruna a seu mascoe, um cavalo, segundo a radição por que, em ����, um esudane incluiu no grio de guerra da universidade o verso “lá vem ela bêbada de Peruna”, parodiando uma canção da época. [�. do �.]

A maior vítima de H.L. Mecken no caso, o político eexpert  na Bíblia William Jennings Bryan argui pela acusação no tribunal de Dayton, no Tennessee; depois, o julgamento passaria a ser feito ao ar livre © Huilon Archive/Gety Images

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a mesma coisa poderia ser dita em relação a Mary Baker G.

Eddy,� ao falecido sar Nicolau ou a Czolgoz. A verdade é

que provavelmene aé mesmo a sinceridade de Bryan ainda será submeida àquilo que em ouros campos se chama de uma críica definiiva. Esaria sendo sincero quando se opôs ao imperialismo nas Filipinas ou quando deu susenação a ele em Sano Domingo, ao lado dos carenes Democraas? Esaria sendo sincero quando enou empurrar os Proibicio- nisas� para debaixo da mesa ou quando assumiu a bandeira

deles e começou a liderá-los aos berros? Esaria sendo sin- cero quando bradou conra a guerra ou quando sonhou em ver a si mesmo como um soldadinho de chumbo uniformi- zado com uma sepulura garanida enre os generais? Esaria sendo sincero quando caluniava o falecido John W. Davis�

ou quando passou a acrediar piamene nele? Esaria sendo sincero quando adulava Champ Clark�  ou quando raiu o

mesmo Clark? Esaria sendo sincero quando pleieava ole- rância em Nova York ou quando apregoou o uso da fogueira e do pelourinho no Tennessee?

Confesso que essa conversa de sinceridade me cansa. Se o sujeito era sincero, então P.T. Barnum� também era. Essa

palavra perdeu o valor e se degradou com o uso que se fez dela. Ele era, na verdade, um charlatão, curandeiro, um sim- plório despudorado e indigno. A única coisa que o moveu, do começo ao fim de toda sua carreira grotesca, foi simplesmente a ambição – a ambição de um homem comum de apertar o pescoço de quem o supera ou, se isso não der certo, ao menos cravar-lhe um dedo nos olhos. Nasceu com uma voz pode- rosa, que tinha a habilidade de inflamar os espíritos medianos contra aqueles que lhes eram superiores, para que ele próprio pudesse brilhar. Sua última batalha será flagrantemente mal compreendida se for vista apenas como mero exercício de fana- tismo – seria isso se Bryan, O Papa Fundamentalista, fosse con- siderado, equivocadamente, mais um fundamentalista bucó- lico. O que estava em jogo era mais do que isso, como sabem todos aqueles que o viram em ação. O que o movia, no fundo, era apenas o rancor em relação à gente da cidade, que o havia ridicularizado por tanto tempo e que acabou por deixar a ele uma herança tão esfarrapada. Ele ansiava por vingança. Queria a todo custo jogar a ralé antropoide contra ela, atirar contra ela o Homo neanderthalensis, puni-la pela execução que ela infrin- gira contra ele, atacando-a nos pontos vitais de sua civilização. atenção, produzia-se um arrebatamento, um êxtase de encantamento, um

dócil murmúrio de améns como o mundo nunca vira desde a decapitação de João pelo carrasco de Herodes.

Encaixou-se particularmente bem o fato de que seus últimos dias foram pas- sados num vilarejo insignificante do Tennessee, e que a morte veio encontrá-lo ali. O homem se sentia em casa nesses lugares. Gostava de pessoas que suavam muito sem se preocupar com isso, que não haviam sido corrompidas pelos refinamentos da toalete. Avançando para cima e parabaixo pela Main Sree da pequena Dayon, cercado de primaas embasbacados vindos dos vales das regiões monanhosas do Cumberland Range, o paleó jogado de lado, os

braços nus e o peito peludo brilhando de suor, a careca salpicada de poeira – sentia-se visivelmente feliz assim vestido e exposto. Gostava de acordar cedo, ao som do canto dos galos no meio do esterco. Gostava da comida pesada e gor- durosa da cozinha da fazenda. Gostava de advogados interioranos, de pastores interioranos, de toda a fauna interiorana. Acredito que esse apego fosse sincero – talvez a única coisa sincera no sujeito. Seu rosto não denotava nenhum emba- raço quando um montanhês vestindo macacão desbotado e camisa de sarja o abordava na rua e lhe implorava para jogar uma luz sobre algum mistério da Sagrada Escritura. Para ele, a lengalenga simiesca das cidades interioranas não era uma lengalenga, mas uma sabedoria oculta, de tipo superior. Já na presença de gente da cidade, sentia-se escancaradamente incomodado. Suas roupas, des- confio, o irritavam, e ele suspeitava de seus modos demasiadamente delicados. Sempre soube que riam dele – quando não era de sua teologia barroca, era de suas calças de alpaca. Mas os caipiras nunca riam dele. Para eles, não se tratava de um caçador, e sim de um profeta, e já para o final, quando trocava a política mundana por preocupações puramente espirituais, começaram a alçá-lo ainda mais acima em sua hierarquia. Ao morrer, já rivalizava com Abraão. Outro deta- lhe curioso: seu velho inimigo, Wilson, que aspirava à mesma túnica branca e reluzente, caiu de uma tacada só. Mas Bryan tirou o diploma. Seu lugar na hagio- cracia do Tennessee está garantido. Se o barbeiro do vilarejo guardou um fio de cabelo seu, este, hoje, deve estar curando até pedra nos rins.

�. Mas qual será o rótulo que ele carregará nas regiões mais urbanas? Temo que seja de um tipo menos lisonjeiro. Bryan viveu tempo demais e afundou-se demais na lama para ser respeitado no futuro por pessoas instruídas, mesmo as que escrevem livros didáticos. Abundaram palavras afáveis sobre ele nas maté- rias referentes a seu enterro, mas nada ultrapassou o sentimentalismo banal. O melhor veredicto que o mais romântico editorialista conseguiu a seu respeito, com exceção do eloquente Sul, refere-se à impressão de que suas imbecili- dades podem ser justificadas pela franqueza – de que por trás de sua atitude cômica, como no caso do malabarista de Notre Dame, escondia-se a dedicação da alma inabalável. Mas isso era uma desculpa, não um elogio; exatamente

�.Mary Baker Eddy (����-����), fundadora do movimeno religioso Chrisian Science. [�. do �.]

�. Leon Frank Czolgoz (����-����) aproximou-se dos anarquisas americanos, mas suas aiudes desperaram suspeias. Em � de seembro de ����, com dois iros, ele assassinou o presidene dos ��� William McKinley. Condenado à more, Czolgoz foi elerocuado em �� de ouubro do mesmo ano. [�. do �.]

�. Defensores da proibição das bebidas alcoólicas. A Lei Seca, garanida pela ��.º emenda à Consiuição, durou nos ��� de ���� a ����. [�. do �.] �.John William Davis (����-����), foi

candidato à presidência dos ��� pelo partido Democrata em ����, perdendo para o reeleito Calvin Coolidge. [�. do �.] �. James Beauchamp Clark (����-����) foi presidene do Congresso americano de ���� a ����. Embora favorio, em ���� perdeu a indicação dos Democraas para concorrer à Presidência. O candidao do parido foi Woodrow Wilson. [�. do �.]

�.Phineas Taylor Barnum (����-����), alvez o primeiro milionário doshow business americano,entertainer , líder de rupes de arisas, dono de uma casa de espeáculos que apresenava dramas e aberrações em Nova York, auor de

best-sellers, invenor do circo moderno e dos concursos de beleza. A frase “nasce um oário a cada minuo” é aribuída a ele, sem comprovação. Um de seus sucessos foi a conferência “A are de ganhar dinheiro”. [�. do �.]

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desencadeou algo que não será fácil deter. Em mais de dez mil cidadezinhas do interior, seus velhos capachos, os pastores evangélicos, continuam a propagar seu evangelho, e a caipi- rada está sempre aberta, em todos os lugares, para recebê-lo. Quando desapareceu das cidades grandes, elas cometeram o erro fatal de considerar que ele estava acabado. Ouvia-se coi- sas a seu respeito, era apenas como um criador de problemas para os especuladores imobiliários – o heroico adversário da valorização indevida, procurando contê-la com as próprias mãos. Parecia ridículo, e por isso mesmo inofensivo. Mas ele trabalhava muito entre seus velhos vassalos, preparando-se para uma jacquerie que colocaria por terra todos seus inimigos num único golpe. Fez um trabalho competente. Tinha grande habilidade nesse tipo de empreendimento. Atire hoje um ovo pela janela de um vagão de trem e você fatalmente acertará um fundamentalista em quase todos os lugares nos Estados Unidos. Eles abundam nas cidades do interior, inflamados por seus pastores, e agora ainda contam com um santo para vene- rar. São frequentes nas ruas mais humildes atrás dos gasôme- tros. Estão em todos os lugares onde os estudos constituem um fardo pesado demais para as mentes tediosas, mesmo o vago e patético ensino disponível em escolinhas pintadas de verme- lho. Participam das marchas da Klan, da Christian Endeavor Society, da Junior Order of United American Mechanics, da Epworth League,�� de todas as associações exóticas que o povo

pobre e infeliz organiza para revestir suas v idas de algum pro- pósito. Viveram fortes emoções, e estão prontos para mais.

Eis o legado de Bryan para ese país. Ele pode não er sido presidene, mas conseguiu ao menos conribuir enor- memene na solene arefa de fechar as poras da presidên- cia para os homens ineli genes e providos de amor-próprio. Hisoricamene falando, a ormena alvez não dure muio. Pode aé mesmo ajudar a quebrar as ilusões democráicas, que agora já demonsram cero enfraquecimeno, e, assim, acelerar o próprio fim. Mas, enquano durar, desruirá vários elhados e inundará muios sanuários. (The Ameri- can Mercury, ouubro de ����).

Ultrapassou de longe os limites do arrebatamento religioso, por mais descomedido que este pudesse ser. Quando denunciou a noção de que o homem é um mamífero, até as cervas de Dayton ficaram boquiabertas. E quando, capturado pelo cruel anzol de Darrow, contorceu-se e esperneou com fúria malevolente, voci- ferando como um desvairado contra os mais óbvios elementos da razão e da decência, quando atingiu seu trágico clímax, as cer- vas exibiam risinhos disfarçados e exclamavam hosanas.

Preso àquele anzol, Bryan, na verdade, cometeu suicídio, fisi- camente e como lenda. Saiu da sede daquele pobre tribunal cam- baleando, diretamente para a morte, e desta avançou também cambaleando rumo ao esquecimento, a não ser como persona- gem de uma farsa de terceira categoria, estúpida e de péssimo gosto. Há grandes possibilidades de a história registrar a época em que ele viveu como o ponto mais elevado da democracia, que conhece, porém, uma curva declinante entre nós desde a campa- nha de ����. Ele será lembrado, talvez, como seu grande impos- tor, o reductio ad absurdum de sua essência. Bryan chegou bem perto de ser presidente dos Estados Unidos. Não se descarta que pudesse realmente eleger-se em ����. Viveu o bastante, porém, para levar os patriotas a agradecer aos desígnios inescrutáveis dos deuses por Harding, e até Coolidge.� A obtusidade invadiu a

Casa Branca, assim como o cheiro de repolho fervendo, mas pelo menos nada disso pode ser comparado à bufonaria que se pro- duziu no Tennessee. O presidente dos Estados Unidos não acha que a terra é quadrada, que bruxas devem ser sentenciadas à morte e que Jonas engoliu a baleia. Não se pinta o Texto Dourado toda semana na fachada da Casa Branca, e não há necessidade de deixar embaixadores esperando enquanto o pastor Simpson, de Smithville, reza por chuva no Salão Azul.�� Disso nós escapamos –

por uma margem estreita, mas, por enquanto, segura. �.  Assim é, pelo menos até agora. Os fundamentalistas conti- nuam ativos e a razão vive uma espécie de suspensão. Notícias dão conta de que, na Geórgia, os parlamentares tiraram da ordem do dia a lei antievolução, voltando as costas, portanto, para seus colegas do Tennessee. Em outros lugares, minorias preparam-se para a batalha, com garantia de êxito aqui e ali. Mas é cedo demais, parece-me, para dispensar os bombeiros; o fogo ainda arde em montanhas distantes, e pode retomar seu ímpeto a qualquer momento. Ainda se veem por trás delas os danos causados por esses sujeitos. Br yan, com sua malevolência, �.��.º e ��º presidenes americanos,

ambos republicanos: Warren G. Harding, enre ����-��, e John Calvin Coolidge Jr., enre ����-��. Mecken cobriu a convenção que indicou Coolidge à reeleição em ����. [�. do �.]

��. O Salão Azul é um dos salões para recepções no primeiro andar da Casa Branca. Tem o formao oval. Essas irônicas palavras de Mencken sobre Coolidge na Casa Branca ficaram famosas e são repeidas com cera assiduidade. [�. do �.]

��. Organizações proesanes originalmene dirigidas a jovens: a Chrisian Endeavor Sociey foi fundada em ����, em Porland, no Maine; a Junior Order of Unied American Mechanics, em ����, em Filadélfia, na Pensilvânia; e a Epworh League, em ����, em Cleveland, Ohio. [�. do �.]

O iconoclasta����� ����� ������� foi um dos mais influentes americanos das primeiras décadas do séc. ��. Baseado em Baltimore, no estado de Maryland, ele produziu extensa obra nos jornais da cidade e nas revistas que editou, The Smart Set  e The American Mercury.

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As imagens são um pouco confusas, pois as figuras pinadas sobre o vidro se sobrepõem ao roso e aos gesos de José Panceti. Nas folhas de conao guarda- das por Marcel Gauhero (hoje no acervo do Insiuo Moreira Salles) não há regisro sobre a daa do maerial. É muio provável que as foos sejam de ���� ou ����, sendo que a maior pare das obras de Panceti sobre a lagoa do Abaeé, Salvador, foi feia nesses anos, às vésperas de sua more, em fevereiro de ����. Também não se sabe o propósio das imagens, se ilusraram alguma maéria de imprensa, o que é provável, ou se o ensaio foi iniciaiva do foógrafo ou do pinor. O cero é que Gauhero preparou cuidadosamene a cena, ciene de que, ao reraar o arisa rabalhando sobre a superfície ransparene, criaria um plano de inerseção enre sua imagem, sua obra e a paisagem do Abaeé.

Reraos de Panceti pinando ao ar livre não são incomuns, já que desde suas primeiras paisagens, feias na década de ����, quando era marinheiro, maneve o hábio de rabalhar a parir do moivo. Assim que se ransferiu para Salvador, em ���� – ele v iveu nessa cidade aé ���� –, foi foografado por Pierre Verger pinando na praia da Barra. Na lagoa do Abaeé, ele aparece ambém em foos de Luis Carlos Barreo, auor da reporagem “Abaeé posa para Pan- ceti”, publicada na revisaO Cruzeiro, em � de fevereiro de ����. Em imagens coloridas e em preo e branco, o arisa é viso pinando as lavadeiras que ra- balhavam no lugar. Nessas foos, bem como nas de Verger, não há obsáculo para a leiura da cena: Panceti, a ela e a paisagem são apresenados em planos disinos. Os dois maeriais enfocam com clareza seu méodo de rabalho e a

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