1.3.3 As formulações do imperativo categórico
1.3.3.3 a fórmula da autonomia
A autonomia da vontade é definida na Fundamentação da metafísica dos
costumes, como o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza
racional e se constitui como o princípio da moralidade. A autonomia da vontade consiste na propriedade graças à qual ela é para si mesma a sua lei (independentemente da natureza dos objetos do querer). “O princípio da autonomia é portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal” (FMC, AK440, p.285). Isto posto, a tese de que a autonomia da vontade é o princípio supremo da moralidade pode ser considerada como que o ápice do argumento analítico das duas primeiras partes da FMC, mostrando, por conseguinte, que todas as tentativas de fundar o princípio moral sobre princípios heterônomos não podem pretender a universalidade e fracassam. Portanto, só a tese de uma vontade como propriedade da autonomia é capaz de agir sobre a base de um imperativo categórico e saber o que este mandamento da razão requer para agir sempre à luz da propriedade da vontade. A vontade segue rigorosamente o processo da universalização das máximas a ponto de tornar-se uma lei válida para todos os seres racionais, os quais num reino dos fins, devem ser, ao mesmo tempo, juízes e membros. Uma vontade legisladora universal, autônoma, deve ser capaz, ao mesmo tempo, de dar- se a própria lei, mas também se compreender e se reconhecer como obediente à lei, Destarte, para Kant, agir por respeito à lei, a qual o próprio ser racional dá a si mesmo, possui valor e padrão de lei moral.
Kant ao falar da fórmula da autonomia ou da autolegislação, apresenta-a com a missão de nos mostrar a origem do imperativo categórico, a saber, a razão prática na medida em que ela é a lei da vontade racional. De acordo com Kant, como um ser natural, pertenço ao mundo sensível e minhas ações são determinadas pelas leis da natureza, mas como ser racional, pertenço ao mundo inteligível, podendo ser, portanto, autônomo, capaz de agir de acordo com uma lei que decreto para mim mesmo. Ser livre para Kant é não depender de determinações do mundo sensível. Nessa perspectiva trazemos as palavras de Sandel:
Lembre-se de que Kant admite que não somos apenas seres racionais. Não habitamos apenas o mundo inteligível. Se fôssemos apenas seres racionais, sem nos submeter às leis e necessidades da natureza, todos os nossos atos seriam invariavelmente coerentes com a autonomia da vontade. Já que somos parte, simultaneamente, de ambos os domínios- o da necessidade e o da liberdade- existirá sempre uma lacuna potencial entre o que fazemos e o que devemos fazer, entre como as coisas são e como deveriam ser (SANDEL, 2014, p. 162).
Ainda sobre a terceira formulação do imperativo categórico, trazemos a seguinte afirmação de Weber:
A terceira formulação é a da autonomia, entendida como autodeterminação. “Age de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma, ao mesmo tempo, como legisladora universal”. Essa fórmula mostra que fazemos ou deveríamos fazer a lei que obedecemos. Vontade autônoma é a que obedece à lei da qual é autora. Isso é liberdade. Estamos sujeitos à lei não somente por sermos considerados seus autores. Se pudermos querer que nossas máximas sejam consideradas leis, então podemos ser tidos como legisladores universais (WEBER, 2013, p. 21).
Assim, a terceira formulação do imperativo categórico deve, por conseguinte, apresentar a vontade como vontade legisladora universal podendo ser expressa da seguinte maneira “Age de tal modo que a vontade pela sua máxima se possa considerar
a si mesma e ao mesmo tempo como legisladora universal” (FMC, AK421, p.215). A
presente formulação deve, por conseguinte, apresentar a vontade como vontade legisladora universal (FMC, AK432, p253). Com a definição da autonomia da vontade como o fundamento da dignidade humana e de toda natureza racional (FMC, AK436, p.269), pode-se sustentar que o princípio da autonomia da vontade a partir do qual se pode pensar não apenas uma vontade de um ser racional que obedece à lei por respeito, mas, por ser capaz de autarquia, a vontade se torna autônoma. Isso é possível, segundo Kant, porque a vontade, absolutamente boa e sem restrições, deve agir tão somente por
respeito à lei moral, limitando todo o interesse subjetivo e arbitrário do seu amor próprio (Selbstliebe) e se determinando como vontade legisladora universal, estabelecendo, por conseguinte, a autonomia como o princípio supremo do dever (FMC, AK432, p.253).
Após ter se ocupado da autonomia, em oposição à heteronomia, como o princípio supremo do dever, é introduzido o conceito do reino dos fins (Reich der
Zwecke), com o qual Kant entende a ligação sistemática de diferentes seres racionais
através de leis comuns, as quais mandam cada ser racional tratar a si mesmo e também todos os outros como fins em si mesmos e nunca como meios. E nesta perspectiva que Kant afirma: “O conceito de todo ser racional que tem de se considerar como legisladando universalmente mediante todas as máximas da sua vontade, a fim de ajuizar a partir desse ponto de vista si mesmo e suas ações, conduz a um outro conceito muito fecundo apenso a ele, a saber, o conceito de um reino dos fins” (FMC, AK433, p.259). Ainda neste viés, Weber, citando Paton, afirma:
Para Paton, a formulação do “reino dos fins” refere tanto à forma (a lei universal) quanto à matéria (os fins em si mesmos). Ela mostra que estamos tratando de um “sistema de leis” e um “sistema de fins” e não de leis e fins considerados isoladamente. O reino dos fins deve ser compatível com a lei universal. À semelhança do” véu da ignorância” de Rawls, para se chegar a esse “reino dos fins” requer uma “abstração das diferenças pessoais” e de todo “conteúdo” dos fins particulares dos seres racionais. São esses fins comuns que estabelecem uma ligação sistemática entre os seres racionais através de “leis objetivas comuns” (WEBER, 2013, p. 21).
A introdução do conceito reino dos fins à formula da autonomia parece trazer uma dificuldade na compreensão e interpretação acerca das formulações do imperativo categórico e a partir da qual não se alcançou até hoje uma interpretação unânime da terceira fórmula do imperativo categórico. Trata-se de uma polêmica em torno do modo como Kant elabora e entende a relação autonomia e reino dos fins, ou com outras palavras, se a introdução do conceito reino dos fins está inserida na fórmula da autonomia ou se constitui numa nova fórmula, ou ainda, se a terceira fórmula deve ser denominada fórmula da autonomia ou fórmula do reino fins.
Para Kant, que a natureza racional se põe a si mesma um fim e se constitui como matéria de toda a boa vontade (FMC, AK437, p.274) no sentido de querer que a vontade de todo ser racional seja concebida como vontade legisladora universal (FMC, AK431, p.251-253). Assim, parece importante lançarmos mão da utilização do conceito
do reino dos fins como um todo deste sistema de todos os fins que se deve buscar ainda que, como Kant ressalta, na verdade seja apenas um ideal (FMC, AK433, p. 261). Logo:
Essa ideia do “reino dos fins” coloca os indivíduos como membros de uma espécie de comunidade ideal. Apel reconhece nesse reino dos fins “uma prefiguração metafísica a priori da comunidade ideal de comunicação. Rawls salienta que não existe um reino dos fins já dado, com o qual devêssemos nos harmonizar quando legislamos. O que ocorre é que “nossa ação legisladora [...] constrói a lei moral pública para um reino dos fins. Autonomia significa que nos vemos não só como sujeitos à lei moral, mas sobretudo, como legisladores de um possível reino dos fins, mesmo que esse seja um ideal, uma comunidade moral ideal. (WEBER, 2013, p. 22)
A fórmula do Reino dos Fins consiste em um conceito comunitário de reino em que cada membro deste reino é legislador para si mesmo e para todos os outros e, é ao mesmo tempo, o fim supremo dessa legislação universal. Observa-se na redação dessa fórmula que a expressão meramente possível implica em saber que sua realização não pode ser efetivada por um indivíduo, mas unicamente por todos os membros chamados a pertencer ao reino. Indiscutível é o fato de que se trata, no entanto, de um ideal supremo da razão prática que visa a unificação de todos os seres racionais numa legislação comum e autônoma, um reino da razão, da liberdade e da paz. Neste viés, Sullivan explica:
No mundo ideal, o reino dos fins, no qual o raciocínio moral aspira, o Imperativo Categórico é, naturalmente, a lei última que define as relações formais entre as pessoas. (Veja Gr.74-75 / 433). O reino dos fins é mais uma comunidade na qual “cada indivíduo é seu próprio juiz” e os membros obedecem somente às leis que eles racionalmente prescreveram para si (Veja- se Rel. 95/87). Conseqüentemente, cada pessoa é tanto senhor e o súdito desse mundo, pois cada um está sujeito apenas às leis às quais ele ou ela pode racionalmente consentir como legislador, leis ordenadas ou permitidas pela Lei da Autonomia ou, alternativamente, pela Lei do Respeito a dignidade das pessoas (gr. 75/433). Como a primeira fórmula enfatiza, essas máximas são universais porque não se baseiam nos interesses particulares de nenhum indivíduo (ver Gr. 72/432). Como a segunda fórmula enfatiza, a dignidade da virtude de cada pessoa depende da obediência a essas mesmas leis
(SULLIVAN, 1989, p. 214, tradução nossa).14
14 In the ideal world, the kingdom of ends, at which moral reasoning aims, the Categorical Imperative is,
of course, the ultimate norm that defines the formal relations between persons. (See Gr.74-75/433). The kingdom of ends most be a community in which “each individual is his own judge” and the members obey only laws they can rationally prescribe for themselves (See Rel. 95/87). Consequently, each person is both head and subject of that world, for each is subject only to laws to which he or she can rationally assente as legislator, laws mandated by or pemited by the Law of Autonomy or, alternatively, by the Law of Respect for the Dignity of Persons (Gr. 75/433). As the first formula stresses, those maxims are universal because they do not rest on any individual’s group’s special interests (See Gr. 72/432). As the second formula emphasizes, the dignity of each person’s virtue depends on obeying those same laws.
Em tese, só a introdução do conceito do reino dos fins permite a Kant manter a obrigatoriedade do princípio prático da razão e, assim, sustentar, respectivamente, a coerência e correspondência de suas formulações e de suas exigências em relação á vontade imperfeita do ser racional. Afirma Kant que: “A moralidade consiste pois na
relação de toda a ação com a legislação, pela qual somente é possível um reino dos fins” (FMC, AK433, p.261). Deste modo, o reino dos fins é pensado como a ligação dos
seres racionais (FMC, AK433, p.259), os quais devem ser considerados sempre como legisladores, quer seja como membros, quer seja como chefe (FMC, AK433, p.261). Conclui-se, portanto, que o que proporciona ao ser racional participar na legislação universal e se tornar, membro de um possível reino dos fins consiste em ser livre com relação a todas as leis da natureza, não obedecendo senão às leis que ele mesmo se dá e segundo as quais suas máximas podem pertencer a uma legislação universal. Nesse contexto, antes de tecermos algumas considerações sobre a definição e relevância dos conceitos de lei moral e liberdade, faremos a seguir uma breve análise acerca da possibilidade ou não do imperativo categórico.