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Felicidade como imperativo

No documento Menos consumo, mais sentido: (páginas 52-56)

1.6 CONSUMO E FELICIDADE COMO IMPERATIVOS

1.6.3 Felicidade como imperativo

Não é verdade que o homem, propriamente e originalmente, aspira a ser feliz?

Não foi o próprio Kant quem reconheceu tal fato, apenas acrescentando que o homem deve desejar ser digno da felicidade? Diria eu que o homem realmente quer, em derradeira instância, não é a felicidade em si mesma, mas, antes, um motivo para ser feliz (FRANKL, 1990, p. 11).

Frankl (1990) entende o "vazio existencial" como um fenômeno social, que traz sensações constantes de frustação e tédio. Uma vida sem sentido leva a sentimentos de angústia e inferioridade, depressão, violência, uso de drogas ou até mesmo compulsão por sexo.

O que defenderemos aqui acerca da questão da felicidade é bem simples: é inerente à felicidade "a liberdade de se ser o que se é", e só assim a vida fará sentido, independente do que as subjetividades nos inferem a cada instante. Felicidade, portanto, não se vende como um produto e não se distribui como um direito. Felicidade tampouco se impõe, como num regime ditatorial.

potencial comunicativo do meio, Goebbels estatizou a companhia cinematográfica alemã para veicular a ideologia nazista de forma clara e visível, através de filmes que retratavam distrações e promessas de felicidade.

Hoje em dia, já não somos mais demandados por governos ou regimes políticos a desejar a felicidade, pois nós mesmos nos obrigamos a ser felizes em resposta a uma diversidade de estímulos que nos apresentam a felicidade como único fim existencial. Edgar Cabanas e Eva Illouz, autores do livro A Ditadura da Felicidade (2019), sugerem que a indústria da felicidade, avaliada em 4,3 bilhões de dólares, representa novas formas de narcisismo cuja obsessão se deve ao fato de que, não ser feliz nos dias de hoje é um demérito, uma vergonha, que deve ser evitado a qualquer custo. Segundo os autores, a atual ideologia, apoiada pela Psicologia Positiva, impõe-nos uma felicidade artificial cujo objetivo é culpabilizar os indivíduos e enaltecer o neoliberalismo. (CABANAS; ILLOUZ, 2019).

Figura 15 – Steve Cutts.

Fonte: Happiness (2017).

Contudo, como já pudemos observar, alguns autores baseiam suas teorias sobre a felicidade afirmando que esta não tem uma relação forte com o individualismo, muito pelo contrário. Em seu livro “A Conquista da Felicidade”, Bertrand Russell (2017) atribui uma boa dose de solicitude ao que ele considera ser um autêntico sentimento de felicidade. Para o autor, é preciso “dirigir o interesse para o mundo exterior”, pois o homem feliz é aquele cuja personalidade não está centrada em si, mas em consonância com o mundo (RUSSELL, 2017, p. 154-155). Há que se integrar para ser feliz, um ponto de vista que converge com o de Frankl

(2020) que atribui o "distanciamento de si" como fator indispensável para a autorrealização e, também, de Arendt (2018) quando a autora relaciona a felicidade com a ação, muito embora para Arendt a ação, como atividade relativa à vida ativa e à condição humana, seja de inclinação mais política do que social. Porém, a integração mencionada por Russell não é, contudo, exclusivamente social – embora o autor seja claro quanto à importância de mantermos o interesse por pessoas –, mas diz respeito a uma associação e ampliação de interesses sobre o fluxo contínuo da vida e de tudo o que ela oferece, inclusive a própria morte:

toda infelicidade se baseia em algum tipo de desintegração ou falta de integração. [...] O homem feliz é aquele que não sofre de nenhuma dessas duas falhas de unidade, aquele cuja personalidade não está cindida em si mesma nem em confronto com o mundo. Um homem assim sente-se cidadão do mundo e goza livremente do espetáculo que este lhe oferece e das alegrias com que lhe brinda, sem temer a ideia da morte, porque na verdade não se sente separado dos que virão depois dele. Nesta união profunda e instintiva com a corrente da vida é que se encontra a suprema bem-aventurança. (RUSSELL, 2017, p. 155).

Russell (2017), Arendt (2018) e mesmo Kant (2004) examinam com pesar essa distância entre o homem contemporâneo e sua própria natureza, ou a corrente da vida. Ao discorrer sobre a relação da infelicidade com a fadiga – e Russell deixa claro que se trata da fadiga mental, e não física –, o autor diz que este e outros males do mundo moderno tendem a nos levar a doenças, pois nada mais são do que “um castigo por havermos perdido o contato com a Terra”.

O animal humano, igual a todos os demais, está adaptado a um certo grau de luta pela vida e, quando sua grande riqueza permite a um Homo sapiens satisfazer sem esforço todos os seus caprichos, a simples ausência de esforço retira de sua vida um ingrediente imprescindível à felicidade. (RUSSELL, 2017, p. 21).

“Quem tenta ajudar uma borboleta a sair de seu casulo, a mata”, pois “certas coisas precisam acontecer de dentro para fora”, dizia Rubem Alves (2008). Porque é de dentro para fora que a energia da vida flui melhor, pois somos fonte de energia vital – a energia gerada por pensamentos e emoções. Para muitas correntes de pensamento holístico16, a energia vital ou psicoenergia quando bloqueada pode causar enfermidades em órgãos predispostos ou desequilíbrio no metabolismo do indivíduo.

16 O termo “holístico” surgiu a partir do termo holos, que em grego significa "todo" ou "inteiro". O holismo é um conceito criado por Jan Christiaan Smuts em 1926, que o descreveu como a "tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um "todo" que é maior do que a soma das suas partes".

Interessante a relação que Russell (2017, p. 14) faz sobre felicidade e disciplina externa ao mencionar que “um monge não será feliz enquanto a rotina do mosteiro não o fizer esquecer sua própria alma”, pois “o interesse em si próprio não conduz a nenhuma atividade de natureza progressiva”. O filósofo acreditava que a introspeção profunda prejudica o acesso à felicidade e relaciona três tipos de introspeção: a do pecador (absorto na culpa), do narcisista (absorto em sua vaidade) e do megalômano (absorto pelo desejo de poder). Suas causas – culpa, vaidade e desejo de poder – podem ser facilmente relacionadas às brechas utilizadas pela mídia neoliberal para seduzir nossas almas aflitas. Russell (2017) discorre sobre as causas destas introspecções, mas vamos aqui nos ater aos proveitos que o sistema capitalista neoliberal tira destes sujeitos e suas brechas – as “causas da infelicidade” –, que para o filósofo são competição, tédio e excitação, fadiga mental, inveja, sentimento de pecado, mania de perseguição (ou vitimismo) e medo da opinião pública.

A felicidade – a despeito de todo o ornamento poético e de todo o conhecimento científico que a recobrem de glórias – pode mobilizar premissas e aspirações problemáticas, responsáveis tanto por intensificar o amesquinhamento dos horizontes ético e político, quanto por promover o embrutecimento de nossas opções existenciais (FREIRE FILHO, 2010, p. 23).

João Freire Filho, em seus estudos sobre a Psicologia Positiva17, faz um importante alerta sobre a “exortação ao acúmulo incessante de felicidade” que esta nova ciência da felicidade vem pregando desde seu surgimento, algo bem alinhado ao pensamento de Han (2017) em sua obra Sociedade do Cansaço. Segundo o autor este imperativo da felicidade pode ser uma fonte de inquietudes e frustações para muitos que não se enquadram ao perfil de

“pessoas cronicamente felizes”, que, segundo ele, estariam “operando em prol do bem-estar e da ordem socioeconômica” (FREIRE FILHO, 2010, p. 76-77). Seus questionamentos sobre a ascendente demanda contemporânea por felicidade é instigante e coloca em questão este imperativo quanto à sua ética e efeitos a longo prazo, dado o crescente volume de propostas governamentais para o fomento de “cidadãos mais felizes” (FREIRE FILHO, 2010, p.78).

Binkley (2010, p. 94) é mais explícito quando afirma que “o discurso da felicidade, portanto,

17 Fundada em 1997 por Martin Seligman, “a psicologia positiva busca mapear, com a mesma medida de precisão científica, os estados mentais identificados com a alegria, o florescimento, a expressão de bem-estar e a felicidade em si” (BINKLEY, 2010, p. 85). Segundo o próprio Seligman e Christopher Peterson, autores do livro Strenghts and Virtues, A Handbook and Classification, “the positive psychology is a scientific approach to studying human thoughts, feelings, and behavior, with a focus on strengths instead of weaknesses, building the good in life instead of repairing the bad, and taking the lives of average people up to “great” instead of focusing solely on moving those who are struggling up to “normal” (PETERSON; SELIGMAN, 2004).

afeta uma subjetivação neoliberal específica”, e que “a felicidade é uma tecnologia do governo neoliberal” (BINKLEY, 2010, p. 85), pois sua recente e crescente demanda está alinhada à conduta de “gestão de si” dos indivíduos – a governamentalidade18, fenômeno sobre o qual Foucault (2009) se debruçou na década de 1970.

O sistema neoliberal, tanto no que diz respeito à felicidade quanto à liberdade, funciona como um corte no casulo da borboleta, ou seja, é o movimento de fora para dentro que atrapalha o fluxo de irrigação de “nossas asas”, forçando-nos a um voo perigoso e prematuro, muitas vezes fatal para a essência da existência.

Ao que tudo indica, a Constituição Americana, ao iniciar o processo de externalização da responsabilidade sobre a felicidade do indivíduo, facilitou o caminho para o mercado vendê-la como mercadoria, causando tais efeitos covendê-laterais nos indivíduos e na sociedade. A ideia de felicidade, portanto, mudou da esfera privada para a esfera pública, resultado do que William Davies (2016) vem chamando de indústria da felicidade. No mesmo formato e com o mesmo propósito do coaching midiático (CASTRO, 2016) que visa o self made man, a indústria da felicidade gera inúmeros artifícios para a maximização do bem-estar, como aplicativos de monitoramento do corpo e da mente, profissionais e gurus da “felicidade”, inúmeros livros de autoajuda, estratégias, cursos, remédios e tudo o que possa, enfim, “fazê-lo mais feliz”, qualquer que seja o custo para isso. Davies (2016) afirma que, no mundo narcisista do capitalismo tardio, o que importa não é o que você pensa ou faz, mas como você se sente. O sentimento foi cooptado com o propósito de maximizar lucros através da mercantilização da felicidade, porém, ainda podemos observar altas taxas de infelicidade no mundo, resultado das desigualdades sociais geradas pelas mesmas instituições que compõem a sociedade, pois esta estratégia política e psicológica serve bem somente às classes dominantes e muito atrapalha aos menos favorecidos e à crítica ao sistema. A tristeza deixou de ser um sintoma e passou a ser um problema, uma vergonha, cuja “culpa” recai sobre nossos próprios ombros.

No documento Menos consumo, mais sentido: (páginas 52-56)