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Felicidade e liberdade

No documento Menos consumo, mais sentido: (páginas 61-68)

1.6 CONSUMO E FELICIDADE COMO IMPERATIVOS

1.6.5 Felicidade e liberdade

segundo Zižek (2018), suas circunstâncias e parâmetros são de cunho político e com claros propósitos de ampliação da esfera de influência do país.

Mesmo sob suspeita de imperialismo cultural, a iniciativa do Butão vem rendendo grandes avanços nos estudos sobre felicidade, e em 2012 o pequeno reino budista encabeçou a reunião global da ONU sobre “Felicidade e Bem-estar: definindo um novo paradigma econômico”. Desde então a SDSN – Sustainable Development Solutions Network20 – desenvolve o Relatório Mundial da Felicidade (WHR – World Happiness Report), cujo objetivo é a medição da felicidade mundo afora. Em 2019 o documento classificou o estado da felicidade global em 156 países com base, segundo o próprio documento, em “quão felizes os cidadãos se sentem”. O WHR 2019 (HELLIWELL; LAYARD; SACHS, 2019) teve como tema “a felicidade na comunidade”, e traz estudos que revelam como a felicidade evoluiu nos últimos doze anos, enfocando três fatores que estariam impulsionando essas mudanças: a relação entre governos e felicidade, o poder do comportamento pró-social e as mudanças na tecnologia da informação.

O relatório leva em conta uma variedade de medidas de bem-estar bastante subjetivas que são: PIB per capita, suporte social, vida saudável, expectativa de vida, liberdade de escolha, generosidade e ausência de corrupção. Apesar de o Brasil ocupar o 32º lugar, os dados mostram uma queda de 16 posições do país no ranking global. De forma geral, o relatório aponta um aumento na infelicidade em todo o mundo, impulsionado pela desconfiança em líderes políticos e pelo intenso uso das redes sociais.

Eu sou uma putinha da pior espécie e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe. [...] meu credo: seja bela e consumista. Mergulhada na loucura policefálica das tentações ostentatórias, sou a musa da deusa Aparência, em cujo altar imolo alegremente todo mês o equivalente ao que você recebe como salário. [...] Não vim segurar a pena para descrever a existência de gente pobre e feia: em primeiro lugar, não sei nada a respeito, em segundo, esse não é um tema dos mais divertidos. [...] Se os ricos não são felizes, a felicidade não existe. (trechos do livro Hell, Lolita Pille, 2003) (CARLOS, 2004).

Em entrevista para a revista Trip (BRESSANE, 2005), fica evidente sua compulsão à autodestruição ao admitir que não deixa de levar esta vida consumista, frequentando baladas, bebendo e se drogando, embora admita encontrar a paz em livros de James Ellroy e Gilles Deleuze, e que “uma noite perfeita é ficar em casa com um ótimo livro e bebendo um chá verde”. Lolita não é feliz, e não acredita em felicidade, mas encontrou uma forma de extravasar suas inquietudes através da literatura, canal de fruição de seus pensamentos e críticas. Podemos não concordar com o estilo de vida de Lolita, mas não há como negar o alto grau de questionamento que ela faz de si mesma e de seu estilo de vida.

O paradoxo “feliz com a própria infelicidade” aponta para algo importante nesta nossa reflexão: a lucidez.

Quando Russell (2017) sugere que mantenhamos um equilíbrio entre esforço e resignação para conservarmos o senso crítico, acreditamos que é sobre isso que ele está falando.

O esforço é a ação necessária para validarmos o caminho, e certa resignação nos ajudará a enfrentar a verdade sobre nós mesmos. Provavelmente, Russell não associaria o que Lolita diz, do modo como diz, como exemplo de seu próprio pensamento, mas a carga de ousadia associada à crítica que a jovem escritora exibe, traz um novo sentido ao seu conceito e evoca outro aspecto que o autor sugere para a conquista da felicidade: a "autêntica criatividade" mencionada anteriormente, ou seja, a ousadia e coragem de ser quem você é.

A Psicologia Positiva demoniza a resignação interna e preconiza a docilidade externa.

Para sermos felizes, segundo ela, devemos negar nossos instintos hostis ou impulsos imorais e antissociais e abraçar um programa de condicionamento mental e emocional que nos levará ao sucesso e, portanto, à felicidade. Mas o que tem de liberdade neste contexto regrado de uma agenda dirigida a todos? Aparentemente, nenhuma. Adotando um programa deste tipo somos levados continuamente a sermos ou fazermos algo que não vem de dentro, mas de fora, até o ponto de não sabermos mais o que é dentro e o que é fora.

Tão instigante quanto a questão acerca da felicidade é a que aventa sobre a liberdade.

Ousamos dizer aqui que ambas são tão relacionadas, que poderiam ser uma só. Mas,

pretendemos agora direcionar a reflexão para o campo do consumo: até que ponto exercemos nosso livre-arbítrio ao consumir, nesta frenética busca pela felicidade?

Figura 18 – Banksy.

Fonte: https://www.banksy.co.uk/out.html

A pergunta empírica claramente não tem uma única e simples resposta. Talvez fosse melhor formulada se posicionada na esfera do preço que se paga para que “entremos de cabeça”, ou seja, sem reflexão crítica, no jogo do mercado capitalista. Ou, no âmbito da resposta, talvez esta esteja no domínio da ponderação sobre a questão de liberdade enquanto medida, justamente por não nos parecer ser possível que as escolhas sejam totalmente livres em sociedades contemporâneas, mesmo que resultado de reflexão crítica e obstinação, até o ponto em que isso seja possível e cabível. Ao que parece, seremos sempre “parcialmente livres” para fazer nossas escolhas “parcialmente outorgadas”. E a felicidade é somente mais um produto dentre tantos que nos compelem ao pertencimento.

No entanto, como nos diz Bauman (2008), abandonar o “consumo de pertencimento”

não é algo assim tão simples. Muito pelo contrário: é travar uma guerra contra o mundo como ele tem se apresentado e contra uma grande massa caracterizada pela obediência e medo de falhar ou de ser diferente. Somos, portanto, constantemente compelidos pela sociedade de consumidores desde a mais tenra infância e ao longo da vida através de “pressões coercitivas”.

A vocação consumista se baseia nos desempenhos pessoais, individuais: o consumidor é sugestionado continuamente a obter a posição social desejada, desempenhar suas obrigações sociais e proteger sua autoestima através do consumo. Para não se sentirem inadequados, deficientes e abaixo do padrão estabelecido, devem responder com prontidão aos apelos do mercado. [...] Na falha deste chamado, serão classificados como “anormais”, “inválidos”, caso de terapia – serão então desencorajados a “resistir a um retorno ao gradil”

(BAUMAN, 2008, p.73-74)

Um bom exemplo de “consumo de pertencimento” como resultado da “pressão coercitiva” a que Bauman se refere pode ser encontrado em uma recente produção da Netflix, o filme intitulado A Felicidade por um fio (Nappily ever after), de direção de Haifaa Al Mansour (FELICIDADE..., 2018).

Figura 19 – Cenas do filme A Felicidade por um Fio.

Fonte: Felicidade por um fio (FELICIDADE..., 2018).

Violet Jones (Sanaa Lathan) tem uma vida aparentemente impecável até que um acidente ao arrumar o cabelo faz com que as coisas em sua vida se desenrolem e ela começa a perceber que estava vivendo a vida que pensava que deveria viver, não a única que realmente queria. Violet começa a descartar algumas coisas que realmente não precisava, começando pelo cabelo perfeitamente endireitado e tenta encontrar um verdadeiro significado para a sua vida. (MELLO, 2018).

Apesar de se tratar de um filme relativamente clichê e de certa previsibilidade característica do estilo pop americano, a trama surpreende ao trazer o que Bauman (2008, p.73) classificou como “consumidor por vocação”, cuja “dependência das compras se estabelece nas crianças antes mesmo delas aprenderem a ler ou escrever”. As “pressões coercitivas” exercidas pela sociedade de consumidores ao longo da vida são evidentes no filme ao mostrar uma mulher de sucesso no ramo publicitário – ainda mais relevante pelo fato de ser negra –, cujas escolhas não eram tão espontâneas quanto lhe pareciam. Desde criança, a protagonista era levada a negar suas raízes afrodescendentes alisando o cabelo à exaustão e neurose, ou usando uma peruca lisa, sempre prontamente providenciada pela própria mãe, que não se poupava em relacionar a felicidade e o sucesso na vida profissional e amorosa àquela condição visual de cabelo liso, impecável e no padrão mais ocidental possível – e aqui nem preciso adentrar muito às questões de racismo estrutural da trama.

O filme denuncia o empenho do mercado americano em incentivar a grande quantidade de mulheres americanas afrodescendentes para a demanda alimentada por uma milionária indústria de perucas, produtos, serviços e mídia especializada voltada para este público que, a

exemplo de nossa protagonista, desconhece o real preço que se paga quando suas escolhas são submetidas a um sistema imposto e aceito sem qualquer questionamento, ou seja, a confiança na administração do próprio corpo (e alma) pelo mercado capitalista.

Brechas, reações ou recusas ao sistema estão em todo lugar, nas mais variadas formas possíveis de expressão para uma individuação mais genuína, mas constituem um campo social minado por perseguição e de grande risco de exclusão. Buscar a verdade – no caso, os meandros e artimanhas do mercado para cooptar mulheres afrodescendentes – nunca é tarefa fácil, ainda mais quando o assunto é a relação mercado-consumidor. A busca por esse território individualizado – entendido aqui como um lugar muito diferente dos “territórios-padrão do capitalismo”, vazios de sentido – é árdua e trabalhosa.

Platão, em sua Parábola da Caverna21, ilustrou como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona por meio da luz da verdade. Desde sua revelação pelo filósofo, muitas discussões e debates foram realizados pelo fato desta mostrar, de maneira tão elucidativa, o que é viver com ou sem consciência e que, conseguir enxergar o mundo e as pessoas como realmente são é algo quase impossível para a grande maioria, que prefere viver iludida, enxergando apenas as “sombras” da realidade. Sair da obscuridade implica em deparar-se com o desconhecido e com obstáculos, o que nos impulsiona a voltar para o “conforto da ilusão”. Ou seja, conscientizar-se da realidade é expor-se a uma “verdade” e assumir suas implicações, o que raramente é simples ou fácil de ser feito no âmbito do relacionamento social.

Assim, não é simples nem fácil a escolha por ser um membro da “sociedade de consumidores”, o que Bauman (2008, p. 79) relata como sendo uma “tarefa assustadora de esforço interminável”, cujo fantasma da exclusão faz ronda permanente. Os alicerces do mercado consideram a condição de consumidor como inerente à “natureza humana”, algo que deve ser reverenciado e correspondido, e que configura a coerção externa. Porém, Bauman (2008) entende que os indivíduos estão cada vez mais inclinados a rejeitar estas coerções, considerando-as destrutivas, caras e opressivas, e começam a entender que, ao contrário do que lhes foi apresentado, elas vão contra a natureza humana.

Em nenhum lugar e em circunstância alguma, concluiu Freud, a exigência da renúncia ao instinto será abraçada de bom grado. A maioria substantiva dos seres humanos obedece a muitos preceitos ou proibições naturais “apenas sob a pressão da coerção externa”. (FREUD, 1969 apud BAUMAN, 2008, p. 92)

21 Parábola que faz parte da obra intitulada A República – diálogo socrático escrito por Platão, filósofo grego, no século IV a.C. Todo o diálogo é narrado, em primeira pessoa por Sócrates, e o tema central da obra é a justiça.

Assim como no filme A Felicidade por um fio, em algum momento de uma trajetória conduzida pelo mercado, a luz da verdade poderá raiar, evidenciando a miséria que muitas vezes se encontra na escuridão estabelecida. Uma faísca, um “quase nada” muitas vezes pode despertar o instinto narcotizado, que virá cobrar suas desventuras.

Por fim, entendemos aqui a complexa necessidade de problematizarmos a questão da felicidade pelo prisma do neosujeito, entendendo que esta estabelece uma das maiores subjetividades que o constituem e o distanciam de si, levando-o ao vazio de sentido que pode arrastá-lo a doenças psicopatológicas e/ou a um desligamento parcial da sociedade de hiperconsumo como se apresenta.

Figura 20 – Quino, personagem Mafalda.

Fonte: Tejón ([20--]).

O excesso de oferta e consumo destas sociedades de hiperconsumo leva o indivíduo à dependência emocional e psíquica do "ter", condicionando a ideia de "felicidade" a compras e bens materiais com o intuito de se criar vínculos e estabelecer distinções sociais. Com isso, passou a viver para consumir: trabalha-se mais, para ter mais dinheiro para consumir mais.

Nesse processo de externalização, perde-se algo valioso pois, como diz Mujica (2015), "a única coisa que não se pode comprar é a vida", e "é miserável gastar a vida para perder a liberdade".

Na contramão do hiperconsumismo, surgem tendências que pregam uma vida menos focada em bens materiais. Vivemos essa complexa dicotomia onde, apesar da enorme influência da mídia e da tecnologia, é possível perceber uma pequena, mas crescente parte da sociedade que incita alternativas aos tantos preceitos “modernos”, buscando respostas em ações e no

“fazer”, ao invés do “ter” e do “ser”. Movimentos como Minimalismo, Lowsumerism, DIY Movement (Do It Yourself), Simplicidade Voluntária, Reducitarianismo, Tiny Houses Movement, e principalmente o Slow Movement entre tantos outros propõe alternativas ao establishment. A despeito de ainda assim fazerem parte do sistema – algo impossível de não ser dentro de sociedades modernas –, os indivíduos se engajam nestes movimentos, estilos de vida ou práticas por questões políticas, sociais ou realização pessoal. As adesões claramente se

baseiam nas condições socioeconômica e cultural destes indivíduos dentro da sociedade, mas busca-se, contudo, o sentido e o prazer da vida no cuidado direto com a casa e os afazeres domésticos diários, no zelo pelo bem-estar e a saúde da família, com o natural e a com natureza.

As escolhas tendem a ser movidas por uma visão de mundo distinta, na qual a ilusão material ou virtual pouco pode oferecer. Entende-se que qualidade de vida está diretamente associada ao “aqui e agora”, as oportunidades de viver a vida, curtir a família, descansar, contemplar, experienciar, ter tempo para si e para os outros. De forma mais ampla, os adeptos destes movimentos tencionam para um consumo mais comedido e hesitante, ou seja, menos coisas e mais sentido – a vivência do presente oportuno.

No documento Menos consumo, mais sentido: (páginas 61-68)