2 SLOWSUMERISMO: MENOS CONSUMO, MAIS SENTIDO
2.2 MENOS CONSUMO, MAIS SENTIDO: PRÁTICAS E TEORIAS
2.2.15 Slowsumerismo: por um "menos" mais abrangente
Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.
– José Saramago O levantamento dos movimentos e teorias que tratam da diminuição do consumo nos levou a questionar suas extensões, ou seja, qual ou quais desses seriam os mais efetivos e abrangentes, aptos a levar em conta o maior número de intenções nesse sentido. Pensamos em como poderíamos compará-los e classificá-los, de modo a melhor entender as questões que os interrelacionam direta ou indiretamente.
Com isso em mente, fizemos um levantamento das intenções de cada movimento e teoria que consideramos estarem alinhadas ao propósito de redução de consumo e iniciamos uma exploração teórico-conceitual, para enfim chegarmos a uma proposta de estilo de vida mais abrangente que compreenda também a realização pessoal e interpessoal, imperativas para uma boa transição de hábitos e ideias.
Movimentos e teorias que envolvem a diminuição do consumo têm suas próprias motivações centrais/principais, que aqui denominaremos "intenções-base". Mas, suas atuações não se limitam a elas, pois outras premissas também importantes são parte destes movimentos e teorias que nomearemos como "intenções secundárias". Na busca de uma melhor compreensão sobre estas intenções e suas amplitudes, elaboramos um quadro baseado nas quatro dimensões do programa educacional GEDS (Gaia Education Design for Sustainability), quais sejam: 1) ecológica, 2) econômica, 3) social e 4) visão de mundo (Figura 66). O GEDS (GAIA EDUCATION, 2017) utiliza os três pilares da sustentabilidade (ambiental, econômico e social) e acrescenta um quarto, a visão de mundo, também denominada como mundividência ou cosmovisão – este último termo muito utilizado por Krenak (2015) para designar um conjunto de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva e pessoal acerca do Universo.
A escolha destas quatro dimensões não se deu por acaso: o Gaia Education é uma organização internacional que vem crescendo e sendo reconhecida por seu amplo sistema de educação para o desenvolvimento sustentável.
Os programas do Gaia Education equipam os alunos de todas as idades e origens culturais com os conhecimentos, habilidades e ferramentas de pensamento crítico adequados para projetar uma sociedade que usa energia e recursos com maior eficiência, distribui riqueza de forma equitativa e torna a qualidade de vida o foco do pensamento futuro. Nossos alunos se tornam agentes de mudança capazes de desempenhar papéis ativos na transição de
suas comunidades, bairros, cidades e regiões existentes para práticas, estilos de vida e infraestruturas sustentáveis e regenerativas. (GAIA EDUCATION, 2017).
Figura 65 – As quatro dimensões da sustentabilidade, segundo o GEDS.
Fonte: Gaia Education (2017).
Com base nas informações do próprio GEDS, elaboramos uma breve descrição do que o curso da organização trata em cada dimensão:
Ecológica – abrange arquitetura verde, agricultura sustentável, engenharia ecológica, restauração ecológica e desenvolvimento regenerativo que pode sustentar o padrão de interdependências ecológicas e nutrir as condições para que todos os sistemas vivos prosperem sem causar um maior impacto da humanidade na Terra;
Econômica – objetiva uma melhor compreensão sobre alternativas viáveis para a economia e um melhor entendimento sobre o verdadeiro significado de economia e riqueza, de modo a criar um futuro mais resiliente e participativo;
Social – trata-se da busca de uma melhor compreensão sobre equidade social e ação participativa, de modo a promover uma mudança evolutiva de paradigmas através de formas mais compassivas e justas nas organizações sociais;
Visão de mundo – busca-se uma visão mais rica e holística sobre o mundo, questionando nossos pressupostos básicos de forma mais profunda e nos ajudando a transcender com sabedoria, previsão e precaução através da conexão entre saúde individual e saúde planetária.
Entendemos que estas quatro dimensões são suficientes para abarcar as principais intenções levantadas pelos movimentos e teorias, o que nos permitiu avaliar algumas questões:
• qual é a intenção-base de cada movimento/teoria;
• qual é a dimensão predominante de cada movimento/teoria;
• se intenção-base está contida na dimensão predominante em cada movimento/teoria;
• qual a amplitude destes movimentos/teorias em termos de intenções;
• qual a completudes destes movimentos/teorias, isto é, se há intenções em todas as dimensões ou não e se sua distribuição é balanceada;
Para cada dimensão foram estabelecidas quatro intenções com abrangência moderada – não tão amplas, nem tão restritas –, suficientes para não excluir nenhuma intenção observada durante o levantamento teórico (Quadro 1).
Quadro 1 – Quadro de Intenções, baseada nas quatro dimensões do GEDS
Fonte: Elaborado pela autora (2021).
Guardadas as devidas particularidades de cada movimento/teoria, o quadro mostrou-se congruente na medida em que cada uma das intenções é a intenção-bamostrou-se de um ou mais movimento/teoria, com exceção de apenas duas intenções, proximidade à natureza e atuação humanitária. Mesmo assim, ambas estiveram presentes como intenção secundária em 7 e 8, respectivamente, dos 22 movimentos/teorias. Outra observação importante é de que as intenções-base, em sua maioria, corresponderam à dimensão predominante de cada movimento/teoria, ou seja, se encontram na dimensão onde se tem um número maior de intenções (Quadro 2).
Quadro 2 – Amplitude de intenções e predominância de dimensões
Fonte: Elaborado pela autora (2021).
É importante observar que todos os movimentos/teorias tem implícito o objetivo de reduzir o consumo (dimensão econômica) sendo ele material ou imaterial – neste último caso a exemplo do movimento Faça Você Mesmo (DIY), que não propõe reduzir consumo material, mas sim de manufatura e serviços.
Os quadros também evidenciaram maior amplitude e completude no movimento de Ecovilas, o que o torna referencial: as quatro dimensões foram amplamente contempladas, tendo quase "gabaritado" as intenções. Quanto à amplitude, o Slow Movement fica em segundo lugar, embora seja um movimento que não exija uma mudança radical no estilo de vida, como é o caso da vida em Ecovilas. Este entendimento veio a resolver uma questão que nos persegue desde o início da pesquisa: como definir ou nomear o sujeito que reduz o consumo e sua prática de forma mais ampla e alinhada ao nosso entendimento neste estudo? Esta pergunta nos levou ao termo slowsumerismo – uma versão "aportuguesada" da junção entre o termo em inglês slow (devagar) + consumerismo (consciência do que se está consumindo). Claramente baseada no
termo que designa o movimento de redução de consumo Lowsumerism, esta nova denominação – que aqui nos serve teoricamente – traz em si o rico DNA do Slow Movement, e poderia ser definido como “consumo que propõe uma mudança sociocultural em prol da diminuição dos impactos ambientais através da desaceleração da vida cotidiana e do pleno exercício de cidadania planetária”.
Apesar do neologismo Lowsumerism (de low = "menos" em inglês) ter sido inicialmente muito sedutor, percebemos que o termo não era suficiente para designar o indivíduo que aqui nos interessa de forma mais abrangente: o Lowsumerism não tem a bagagem histórico-conceitual que o Slow Movement carrega, e o Quadro de Intenções deixa isso evidente.
As proposições-chaves também diferem: o Slow Movement recomenda muito mais do que uma forma reduzida e consciente de consumo: ele propõe um estilo de vida alinhado a uma visão de mundo específica, ausente na proposta do Lowsumerism.
Figura 66 – Comparativo conceitual dos neologismos em questão
Fonte: Elaborado pela autora (2021).
O termo em inglês consumerism é um falso cognato que causa muita confusão: sua tradução mais comum para o português é "consumismo", que significa um estilo de vida ou comportamento dirigido ao consumo exacerbado e impulsivo. Já a palavra em português
"consumerismo" tem uma definição oposta à do consumismo, e consiste em um consumo racional e responsável, geralmente dando maior ênfase às questões sociais, culturais e políticas do consumo. Contudo, ambos os conceitos – consumismo e consumerismo – nos servem bem ao propósito de criar um terceiro, como veremos a seguir.
É importante frisar que não temos pretensão de fundar um novo movimento, mas sim designar melhor nosso público-alvo de estudos e evoluir em nossas considerações, bem como nomeá-lo sem restrições conceituais. O nosso objeto de estudo idealizado agora passa a ser o
slowsumidor, ao passo que o seu oposto conceitual será o neosujeito – o indivíduo cujo consumo atende prontamente ao sistema capitalista neoliberal.
Figura 67 – Desdobramento do termo slowsumerismo
Fonte: Elaborado pela autora (2021).
Respeitando o processo de pesquisa – que se constrói no decorrer dos estudos –, julgamos ser mais adequado e preciso o termo slowsumo e seus desdobramentos e substituímos os demais que foram utilizados até então, de forma a proporcionar um melhor entendimento desde o início deste trabalho.