Capítulo 4. Filosofia e ciência sob crivo aristocrático: o domínio filosófico
4.3. Filosofia e ciência sob crivo aristocrático
Em nosso entender, Nietzsche considera a relação entre filosofia e ciência sob o prisma de sua concepção de aristocracia, cujos principais elementos formais têm sido estudados desde o início deste capítulo. Tal ponto de vista orienta tanto os aspectos críticos como os propositivos de suas reflexões.
Resultados da investigação empreendida acima mostram que, já à época de
Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino, a noção nietzschiana de
aristocracia repousa na ideia de uma desigualdade hierarquizada entre os homens. Tal dessemelhança deixa-se observar na diferença espiritual entre eles, que se expressa na relação inversamente proporcional entre capacidade intelectual e número de indivíduos. Com a imagem da pirâmide, evocada naquele escrito e igualmente trazida à baila em O
Estado grego, Nietzsche indica que a minoria dotada de maior aptidão espiritual ocupa,
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gradativamente até a base à medida que se reduzem suas respectivas competências intelectuais.
Em sua obra ulterior, o autor continua a fazer operar essa ideia de desigualdade hierarquizada entre os espíritos, aplicando-a em suas considerações sobre filósofos, estimados como minoria superior, e eruditos, vistos como maioria inferior. É o que se lê nesta passagem do último parágrafo do capítulo “Nós, eruditos”, de Para além de Bem e
Mal:
É difícil aprender o que é um filósofo, porque isso não se pode ensinar: há que “sabê-lo” por experiência [...]. Mas o fato de que hoje todos falem de coisas de que não podem [kann] ter qualquer experiência vale particularmente, e desgraçadamente, para os filósofos e estados filosóficos [philosophischen Zuständen]: pouquíssimos os conhecem, têm o direito [dürfen] de conhecê- los, e todas as opiniões populares acerca deles estão erradas. Assim, por exemplo, a maioria dos pensadores e eruditos não conhece por experiência própria essa coexistência genuinamente filosófica de uma espiritualidade vivaz e audaciosa, que corre de modo presto, e uma exatidão e necessidade dialética que não dá um passo em falso [...]. (BM § 213 (PCS, trad. complementada e modificada), KSA 5).
À diferença hierarquizada da capacidade espiritual entre os homens – vimos também Nietzsche apontar já em Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino – corresponde uma diferença hierarquizada de suas respectivas responsabilidades, isto é, das incumbências a cuja execução cada um é apto e, por conseguinte, tem direito, conforme a sua posição na escala intelectual. À minoria superior, diz o autor naquelas conferências, cabem “tarefas nobres e sublimes” (EE IV, KSA 1.729), as quais, em comparação com os encargos próprios à maioria inferior, distinguem-se em duplo sentido: são ao mesmo tempo diferentes e superiores.
Tal conexão entre hierarquia de espíritos e hierarquia de problemas opera igualmente no parágrafo mencionado de Para além de Bem e Mal, em que Nietzsche procura distinguir filósofos e eruditos:
Existe, afinal, uma hierarquia de estados anímicos, à qual corresponde a hierarquia dos problemas; e os problemas mais altos repudiam sem piedade todo aquele que ousa se avizinhar, sem estar predestinado a resolvê-los [Lösung] pela altura e o poder de sua espiritualidade. De que serve hábeis sabichões ou inábeis e honestos empíricos e mecânicos forçarem uma aproximação, como hoje é tão comum, tentando penetrar com ambição plebeia nessa “corte das cortes”. Mas pés grosseiros
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não poderão jamais pisar esses tapetes: disso já cuidou a lei primordial das coisas; as portas permanecem fechadas para esses importunos [...]. (BM § 213 (PCS), KSA 5).
Aptos a resolver os “problemas mais altos”, insiste a sequência do texto, são os efetivos filósofos, que têm “a disposição para grandes responsabilidades” (BM § 213 (PCS), KSA 5). Com efeito, em parágrafo anterior, Nietzsche caracteriza assim “o filósofo tal como nós o entendemos, nós, espíritos livres – como o homem da responsabilidade mais ampla, que se preocupa com a evolução total do homem” (BM § 61 (PCS), KSA 5). No mesmo sentido, logo no primeiro parágrafo do capítulo “Nós, eruditos”, o autor fala “na tarefa soberana e na soberania da filosofia” (BM § 204 (PCS), KSA 5), ao analisar e buscar neutralizar os motivos que supostamente justificariam a “descrença” nelas.
Aos eruditos, pelo contrário, encontra-se vetado o direito (nicht... dürfen) aos grandes problemas, precisamente em razão da mediocridade espiritual que Nietzsche julga identificar neles: “Das leis da hierarquia decorre que os eruditos, na medida em que pertencem à classe média espiritual, não podem [dürfen] ter visão dos problemas e interrogações realmente grandes [...]” (GC § 373 (PCS), KSA 3). Talvez resida também aí uma explicação para a tese de Nietzsche segundo a qual “o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência” (NT, Tentativa de Autocrítica, § 2 (JG), KSA 1): de fato, se a ciência está entre os grandes problemas e se os eruditos são insensíveis a eles, então não podem discernir “o problema da ciência mesma”, isto é, entender “a ciência [...] como problemática, como questionável” (NT, Tentativa de Autocrítica, § 2 (JG), KSA 1).
Assim como, quando aplicada à noção de cultura em Sobre o Futuro de nossos
Estabelecimentos de Ensino, a concepção nietzschiana de aristocracia comporta
seletividade e exclusão, o mesmo se dá quando ela se aplica à relação entre filosofia e ciência: “Estamos já agora no ponto em que ao homem de ciência como tal não é mais permitido falar a propósito de todas as questões universais de natureza séria, sobretudo a propósito dos problemas filosóficos mais elevados” (EE I, KSA 1.670). Em Para além
de Bem e Mal, conservando a ideia de seletividade e exclusão, o autor assegura que
apenas o “mundo elevado” tem “direito à filosofia” e que somente a esta é lícito o acesso aos altos problemas (BM § 213 (PCS), KSA 5); os eruditos, por seu turno, medíocres que são, não têm capacidade nem direito à filosofia nem às grandes
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interrogações: “as portas permanecem fechadas para esses importunos” (BM § 213 (PCS), KSA 5).
No entanto, como Nietzsche faz ver já em Sobre o Futuro de nossos
Estabelecimentos de Ensino e em O Estado grego, as ideias de seletividade e de
exclusão contidas em sua concepção de aristocracia não implicam completa incompatibilidade entre selecionados, de um lado, e excluídos, de outro. É bem verdade que os indivíduos medíocres se veem afastados das responsabilidades às quais, conforme a sua posição na hierarquia espiritual, não se encontram aptos e às quais, por conseguinte, não têm direito. Contudo, esses mesmos indivíduos medíocres devem desempenhar certo papel em relação às responsabilidades das quais estão excluídos, assim como em relação aos indivíduos aptos a tais responsabilidades. É nesse sentido que assinalamos o caráter relacional da noção de hierarquia presente na concepção nietzschiana de aristocracia.
Da análise de Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino, bem como de O Estado grego, depreendemos que entre a maioria inferior e a minoria superior se deve estabelecer uma relação justa, a qual consiste, basicamente, em uma ligação de meio e fim nos seguintes termos: compete aos indivíduos em posição hierárquica inferior servir de meio para o surgimento dos indivíduos destinados a ocupar o topo da hierarquia (naquele contexto, o gênio), bem como auxiliar na realização da obra destes últimos.
De um ponto de vista normativo, Nietzsche indica em sua obra ulterior que o mesmo vínculo de meio e fim deve caracterizar a relação entre ciência e filosofia. Uma vez que, conforme assinalado no terceiro capítulo deste trabalho, o conhecimento científico constitui uma condição indispensável à filosofia, é necessário que o filósofo, em sua educação, passe pela ciência. Por outro lado, é mister advertir que, na trajetória formadora do filósofo em potencial, o contato com a ciência também pode obstruir-lhe o caminho. Na realidade, não é somente possível, mas até mesmo provável que os filósofos em desenvolvimento que percorram as ciências não se tornem de fato filósofos:
Os perigos que ameaçam o desenvolvimento do filósofo são hoje tão variados, que chegamos a duvidar que esse fruto algum dia amadureça. O edifício das ciências atingiu altura e dimensão tremendas, e com isso cresceu também a probabilidade de que o filósofo se canse já enquanto aprende, ou se deixe prender e “especializar” em algum ponto: de modo que jamais alcança a
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sua altura, a partir de onde seu olhar abrange tudo em torno e abaixo. Ou chega demasiado tarde lá em cima, quando já passaram seu momento e seu vigor; [...] seu juízo global de valor já não significa muito. (BM § 205 (PCS), KSA 5).
A ciência, portanto, ocupa uma posição ambígua no desenvolvimento do filósofo: sendo ela uma condição necessária para o surgimento do efetivo filósofo, este só se torna tal ao frequentá-la de algum modo163; nessa frequentação, entretanto, ela pode acabar por exercer um papel obstrutivo na formação dele. De todo modo, embora não seja suficiente para o desenvolvimento do filósofo e possa até mesmo obstruí-lo, a ciência constitui uma condição necessária para o seu surgimento.
Além de meio indispensável para o desenvolvimento do filósofo, a ciência deve desempenhar o papel de meio do filósofo, como instrumento para as finalidades por ele estabelecidas:
O homem objetivo, [...] o erudito ideal, no qual o instinto científico vem florir por inteiro, [...] é seguramente um dos instrumentos mais preciosos que existem: mas isto nas mãos de alguém mais poderoso. Ele é apenas um instrumento; [...] não uma ‘finalidade em si’. [...] Tendo-o confundido tanto tempo com o filósofo, [...] honraram-no em demasia e não viram nele o essencial – ele é um instrumento, algo como um escravo, certamente a mais sublime espécie de escravo, mas nada em si [...]. (BM § 207 (PCS), KSA 5).
Assim, a especialização científica, embora possa impedir, conforme acabamos de mencionar, o pleno desenvolvimento do filósofo em potencial (BM § 205, KSA 5), é, para o efetivo filósofo, um instrumento necessário: “[...] o especialista é necessário, mas pertence à classe dos instrumentos”. Que o homem como instrumento constitui uma
163 Viu-se acima que, em Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino, Nietzsche admite para o
gênio uma “origem metafísica” (ver o tópico “Aristocracia no jovem Nietzsche”). Essa sua posição altera- se posteriormente, conforme se observa em Humano, demasiado Humano. No parágrafo 162 do referido livro (RRTF, KSA 2), o autor afirma que, nem no artista, nem no orador, nem no filósofo, a atividade genial encerra “milagre”; eles tampouco possuem, ademais, “uma espécie de óculos milagrosos com que veem diretamente dentro da ‘essência’”. No parágrafo seguinte (HH § 163 (PCS)), Nietzsche insiste na ideia de que o gênio vem a ser ao adquirir suas capacidades: “Só não falem de dons e talentos inatos! Podemos nomear grandes homens de toda espécie que foram pouco dotados. Mas adquiriram grandeza, tornaram-se ‘gênios’ [...]”. Parece sofrer mudança análoga a posição de Nietzsche a respeito da formação do filósofo, principalmente no tocante à relação deste com a erudição e às ciências. Nas Considerações
extemporâneas intituladas Da Utilidade e Desvantagem da História para a Vida e Schopenhauer como Educador, o autor apresenta a erudição e a ciência sobretudo como fatores obstrutivos da formação do
filósofo. Embora em escritos posteriores Nietzsche continue a reservar uma considerável importância a aspectos inatos do filósofo (BM § 213, KSA 5), este, para tornar-se filósofo, tem de perfazer um percurso de desenvolvimento (BM § 205) e de educação (BM § 211), durante o qual pode ser necessário passar pelas diversas ciências e pela erudição, como foi o caso do próprio Nietzsche (EH, Por que escrevo livros tão bons, CE § 3, KSA 6).
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espécie de escravo e que, aos olhos de Nietzsche, como já registramos, a escravidão se faz necessária em vista da elevação do homem, eis o que se lê, em formulação concisa e direta, numa anotação com o sobrescrito “Filosofia do futuro”: “A necessidade [Nothwendigkeit] da escravidão (o homem como instrumento –)” (FP 25[238]), KSA 11). Portanto, o erudito, como instrumento e escravo, é necessário ao filósofo164.
Ao examinarmos Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino e O
Estado grego, observamos que a relação instrumental de meio e fim entre os elementos
hierarquizados na aristocracia nietzschiana se caracteriza por certo vínculo de subordinação. Quando essa relação se estabelece de forma justa, segundo a avaliação de Nietzsche, aqueles que se situam no topo da hierarquia espiritual (naquele contexto, o gênio) devem desempenhar o papel de dirigentes dos que se situam em posição inferior, os não gênios: aos primeiros incumbe comandar; aos últimos, obedecer.
Até os seus escritos da segunda metade da década de 1880, a mesma disposição de relações se aplica às considerações normativas de Nietzsche sobre o vínculo que se deve instaurar entre filosofia e ciência. Conservando a ideia de que dirigentes (Führer) são indispensáveis para que certas finalidades se realizem e outras sejam evitadas, o autor atribui tal papel ao filósofo. De um lado, Nietzsche sinaliza “a necessidade de tais guias [Führer]”, ou seja, dos “novos filósofos”, para que, executando a parte negativa de sua tarefa, impeçam “a degeneração geral do homem [Gesammt-Entartung des Menschen]”, que pode e precisa ser cultivado (züchten) de outro modo (BM § 203 (RRTF), KSA 5); em termos positivos e em complemento à referida tarefa negativa, “como o homem da responsabilidade mais ampla”, conforme já mencionado, “o filósofo [...] se preocupa com a evolução total do homem [Gesammt-Entwicklung des
Menschen]” (BM § 61 (PCS), KSA 5). Na qualidade de dirigentes, os filósofos têm
obviamente a capacidade e, por conseguinte, o direito de comandar (befehlen): daí serem eles caracterizados como “detentores do mando [Befehlshabern]” (BM § 203 (RRTF), KSA 5) e “comandantes [Befehlende]” (BM § 211 (RRTF), KSA 5)165.
164 Aristóteles, na Política (1253b-1254a), classifica todo servidor ou homem que esteja sob as ordens de
outro (ὑπηρέτης) ou ainda todo escravo (δοῦλος) como um instrumento animado (ἔμψυχον) que pode ser útil à vida. Sobre divisão do trabalho, escravidão, instrumentalização e redução de tipos inferiores a mera função de um tipo superior, cf. FP 2[76], KSA 12. Em outro fragmento póstumo (FP 22[225], KSA 11), Nietzsche afirma que, “em verdade, sempre há escravidão” e menciona, para exemplificar essa situação, os eruditos.
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No tópico “Filosofia como erudição”, no terceiro capítulo deste trabalho, observamos que Nietzsche realça certos aspectos práticos de sua concepção de filosofia, que não deve desvincular-se da vida. Agora o vemos resgatar e sublinhar outro elemento prático, ligado ao comando. Embora em contexto completamente diferente, certa dimensão prática era constitutiva da noção de sábio, que é um dos termos
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Uma vez que, de acordo com o que já expusemos, colocada a noção de dirigente, coloca-se automaticamente a noção complementar de dirigido; dado que as duas noções se relacionam por intermédio da ideia de ordem, que é emitida pelo dirigente e obedecida pelo dirigido166; visto que o erudito, como homem de ciência, é espécie de escravo e instrumento do filósofo, o qual deve desempenhar a função de dirigente e comandante – então, não resta à ciência senão o papel de ser dirigida e comandada167.
Ademais, se o filósofo, como espírito superior, apto à resolução dos grandes problemas, dirigente e comandante, deve ser o responsável por evitar a degeneração total do homem (BM § 203, KSA 5), promovendo antes o seu desenvolvimento total (BM § 61, KSA 5)168; se aos eruditos, como espíritos medíocres, dirigidos e comandados, cumpre o papel de instrumento indispensável para os referidos filósofos – então, semelhante relação entre filosofia e ciência configura uma condição necessária para se evitar a degeneração do homem e para, ao contrário, promover a sua elevação. Portanto, aplica-se também ao caso particular da relação entre filosofia e ciência o princípio geral de que a organização aristocrática – entendida como uma forma de ordenação e subordinação em que comanda a minoria composta dos melhores e hierarquicamente superiores e em que a minoria formada pelos inferiores obedece qual instrumento e escravo – constitui uma condição incontornável para a elevação do homem (BM § 257, KSA 5).
O estudo de Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino e de O
Estado grego mostrou-nos que Nietzsche se contrapõe ao comportamento de sua época, que compõem a palavra grega “filósofo”. Denominados σοφοί, os Sete Sábios, por exemplo, eram considerados importantes mais na qualidade de dirigentes (Fûhrer), traduzindo seus dons espirituais em ações, do que simplesmente como pensadores, de acordo com Bruno Snell (1992, p. 12). Também nesse ponto, em nosso entender, a concepção nietzschiana de filósofo se assemelha à de Platão. Este, em A
República (473c et seqs.; 499b et seqs.), afirma que os filósofos devem reinar nas cidades, dirigindo e
comandando.
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Isso não impede que, sob certos aspectos, o dirigente seja dirigido e o comandante obedeça (cf. BM § 19, KSA 5).
167 Já o jovem Nietzsche afirma que a ciência, quando não incapaz de comandar, o faz apenas com vistas
à utilidade (FP 29[197], KSA 7).
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Desenvolvimento ou evolução, esclarece Nietzsche em Para a Genealogia da Moral (GM II § 12 (RRTF), KSA 5), não significa progresso em direção a uma meta, mas sim processos de subjugação. De todo modo, é com estes termos que Nietzsche apresenta a sua concepção de progresso: “A morte faz parte das condições do progresso efetivo: o qual sempre aparece na figura de uma vontade e caminho para
maior potência e é sempre imposto às custas de numerosas potências inferiores. A grandeza de um
‘progresso’ mede-se, até mesmo, pela massa, pela massa de tudo aquilo que teve de ser sacrificado a ele: a humanidade como massa sacrificada à prosperidade de uma única espécie mais forte de ser humano – isso seria um progresso” (GM II § 12 (RRTF), KSA 5). A ideia de sacrifício da maioria inferior pela minoria superior já aparece em escritos de juventude, como O Estado grego. Além do fragmento póstumo mencionado mais acima (FP 2[76]), KSA 12), cf. CI, Incursões de um extemporâneo, § 48, em que Nietzsche apresenta ainda outros aspectos de sua noção de progresso. A respeito deste assunto, considerado sob diversos ângulos, cf. Emmanuel Salanskis (2013; 2017).
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que desabona a obediência mesmo quando ela é indispensável e que, inversamente, enaltece a autonomia mesmo quando ela é desaconselhada. A posição do autor, naquele contexto, ampara-se na defesa de um modo de organização aristocrático no sentido descrito acima: para ele, a autêntica aristocracia, ao respeitar a desigualdade hierarquizada entre os espíritos, estabelece entre eles uma relação justa e assim constitui uma condição necessária para a verdadeira cultura.
Tomando o modo de organização aristocrático como condição para a elevação do homem e prescrevendo-o também à relação entre filosofia e ciência, Nietzsche, em seus escritos posteriores, opõe-se igualmente a qualquer tentativa de perverter essa forma de ordenação e subordinação que ele preconiza. Daí começar o capítulo “Nós, eruditos”, de Para além de Bem e Mal, exprimindo a sua reprovação ao que considera “uma imprópria e funesta inversão hierárquica que [...] ameaça hoje estabelecer-se entre a ciência e a filosofia” (BM § 204 (PCS), KSA 5). Nas linhas seguintes, atribuindo-se “o direito de opinar sobre essa elevada questão da hierarquia”, ele precisa:
A declaração de independência do homem científico, sua emancipação da filosofia, é um dos mais sutis efeitos da ordem e desordem democrática [...] “Liberdade de todos os senhores!”, assim deseja também aqui o instinto plebeu; e a ciência, tendo- se afastado vitoriosamente da teologia, da qual por muito tempo fora “serva”, pretende agora, com toda a altivez e incompreensão, ditar leis à filosofia e fazer papel de “senhor” – que digo? de filósofo mesmo. (BM § 204 (PCS), KSA 5).
A ciência, portanto, não busca apenas independência entendida como mera liberação de toda e qualquer relação com a filosofia – o que já sinalizaria a sua corrupção, uma vez que, conforme indicado mais acima, nas classes cuja especificidade é servir de modo subserviente, a degeneração se manifesta precisamente no aumento ou na reivindicação de autonomia. Mais do que independência, entretanto, a ciência pretende “ditar leis à filosofia e fazer papel de ‘senhor’”, o mesmo é dizer, dominar a filosofia e inverter a ordenação hierárquica e as atribuições funcionais prescritas por Nietzsche, visto que a filosofia é que deve desempenhar o papel de soberana (BM § 204, KSA 5) e legisladora (BM § 211, KSA 5)169.
Em tal pretensão de emancipação e inversão hierárquica por parte da ciência em relação à filosofia, o autor vê “um dos mais sutis efeitos da ordem e desordem
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No tópico “A ciência e sua ambição por autonomia e autoridade: três condições”, no terceiro capítulo deste trabalho, investigamos os fatores que tornam possíveis a declaração de independência e a tentativa de inversão hierárquica por parte da ciência.
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democrática”, bem como a manifestação de um “instinto plebeu” (BM § 204, KSA 5). A influência plebeico-democrática a que se acha suscetível a ciência, entretanto, não se faz notar apenas exteriormente em sua relação com a filosofia, mas também interiormente no conteúdo das próprias doutrinas científicas170.
É assim que, em censura aos físicos, Nietzsche assegura que a noção de lei natural significa “a satisfação aos instintos democráticos de alma moderna” e “a plebeia hostilidade contra tudo o que é privilegiado e senhor de si”: “‘Por toda parte igualdade diante da lei” e “‘Ni dieu, ni maître’”: eis o “maneiroso pensamento oculto” sob a ideia de lei natural (BM § 22 (RRTF), KSA 5). Contra essa visão democrático-plebeica da natureza, Nietzsche procura fazer valer a sua concepção de mundo como vontade de potência, para a qual a noção de tirania não oferece mais do que uma metáfora eufemística. Opondo-se aos físicos, ele aventa a possibilidade de um intérprete que “soubesse, na mesma natureza [...], decifrar precisamente a imposição tiranicamente irreverente e inexorável de reivindicações de potência – [...] a falta de exceção e a incondicionalidade de toda ‘vontade de potência’”, a tal ponto que a palavra “‘tirania’”