2 OS SENTIDOS DO SAMBA-ROCK
2.6 O FIM DOS BAILES?
No Brasil, os bailes voltaram a acontecer somente na periferia e a black music deixou de atrair os interesses da indústria fonográfica, que voltou-se inicialmente para a disco music e, depois, para o fortalecimento do rock e do pop, tanto nacional quanto internacional no mercado brasileiro. Os inúmeros músicos de black music foram deixando de gravar discos, depois que seus álbuns não mais alcançaram o sucesso de vendas esperado51. Mesmo vendendo menos que as músicas consideradas de “baixa qualidade” pela crítica musical, a MPB ocupou definitivamente o status de uma música socialmente valorizada, sinônimo de "bom gosto", oferecendo à indústria fonográfica a possibilidade de consolidar um catálogo de artistas e obras de realização comercial mais duradoura e inserção no mercado de forma mais estável e planejada em álbuns mais bem acabados, complexos e sofisticados. Ao mesmo tempo, as majors também se ocupavam em produzir álbuns de custo mais barato e artistas populares de menor prestígio, além das coletâneas (sobretudo as trilhas sonoras de novelas), garantindo um lucro de crescimento vertiginoso nos anos 70. Dada a lógica de segmentação de mercado a “faixa de prestígio” e a “faixa comercial” não se anulavam, sendo
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“Com a soul music – e de modo mais abrangente, com os modos negros e americanos de fazer música (...) surgiu, num primeiro momento, uma leva de compositores, cantores e grupos votados à cópia dos cânones exatos da soul music americana – alguns, como Tim Maia e Cassiano, vindos de uma reverência mais antiga ao gênero, já nos anos 60. E, com exceção quase única destes dois, este bloco de artistas foi rapidamente esquecido – tanto pelo público aficionado de soul, que continuou preferindo a música original, quanto por outras platéias em potencial” (BAHIANA, WISNIK e AUTRAN, 1979)
complementares, já que investir apenas em sucessos populares instantâneos não compensaria os riscos de não possuir um elenco estável de compositores-intérpretes, bem como um conjunto de obras de catálogo, de vendas mais duráveis ao longo do tempo (NAPOLITANO, 2002:5). Se em um primeiro momento a produção comercial nacional de apelo popular foi tomada pela black music brasileira, no começo dos anos 80, aos poucos, o lugar deste gênero passou a ser ocupado por outras vertentes, como a música romântica (Roberto Carlos, Fábio Jr.) e o “sambão-jóia”52
(Agepê, Benito di Paula), entre outros.
Nomes consagrados como Jorge Ben e Tim Maia deram continuidade a suas carreiras de forma, consolidando-se definitivamente dentro da MPB. Apesar de manterem ainda influências do soul e do funk em seus discos, passaram a incorporar também influências da disco music e da dance music em uma tentativa de tornar mais comerciais suas produções musicais. Guardando suas especificidades, os dois músicos conseguiram estabilizar-se no mercado fonográfico justamente por desenvolverem estratégias midiáticas nas quais foram capazes de incorporar na mesma medida elementos da black music norte-americana à dicção da canção brasileira, influenciada pela bossa nova e pelo samba, ao mesmo tempo em que mantinham-se conectados com a produção pop mundial. Bebeto, seguidor da batida de Jorge Ben Jor, também manteve um ritmo regular de produção de discos, vendendo milhares de cópias, e mantendo-se ativo em shows constantes nos bailes das periferias. Aos poucos, foi condicionando seu estilo mais para um tipo de samba de contornos românticos, que influenciou fortemente os novos grupos de pagode do final da década de 80 (Negritude Jr, Só Pra Contrariar, Raça Negra, Art Popular).
Nos subúrbios cariocas, durante a década de 80, DJs mais novos, influenciados pelo moderno R&B americano, como Corello e Fernandinho DJ, começaram a incluir nos set lists de seus bailes hits “melódicos”, mais lentos, de grande apelo comercial, ideais para o desenvolvimento de elaboradas coreografias, executadas pelos freqüentadores que, sempre bem vestidos, inspiraram o termo “charme” para designar o novo movimento. Os bailes charme rivalizavam com o funk, que retornou à mídia no final dos anos 80, a partir da atuação de equipes que haviam se tornado verdadeiras corporações, como a Hollywood e a Furacão 2000, ainda atuante, que, dirigida pelo empresário Rômulo Costa, se desmembrou em
52 Muitos críticos usavam o termo “sambão-jóia” de forma pejorativa, para designar o samba de qualidade
duvidosa. Ao lado de Agepê, Benito di Paula, nomes como Luiz Ayrão, Antonio Carlos & Jocafi foram enquadrados no rótulo, que englobou, inclusive, a produção da cantora Beth Carvalho daquela época. Pode-se dizer que o “samba-jóia” englobava um tipo de samba mais moderno, com canções românticas e particularmente dançantes e que, em determinadas manifestações, apresenta grande influência da música pop norte-americana, seja na utilização de alguns instrumentos, seja na forma de interpretação vocal. Apesar de consumido em grande escala inicialmente pelas classes mais baixas, o “sambão-jóia” foi responsável pela recolocação do samba nas principais emissoras de rádio e TV, angariando vendas expressivas para o gênero na década de 70.
gravadora, programa de TV e de rádio, organizando bailes que chegavam a reunir 30 mil “funkeiros” (inclusive muitos de classe média) no Rio e em outros estados. Este novo tipo de funk tocado nas festas era originário do subgênero Miami Bass.
Já um discurso musical mais politizado consolidou-se nas periferias paulistas através do advento do rap. Equipes de baile locais como a Chic Show e a Zimbawe (que depois se tornou um selo e lançou o grupo de rap Racionais MCs) rivalizavam entre si e continuavam organizando grandes bailes e shows. Ao longo dos anos 80, a Chic Show continuou atuante e foi responsável pela vinda ao Brasil de grandes nomes da black music americana, como Gloria Gaynor, Earth, Wind & Fire e Cheryl Lynn. A equipe lançou várias compilações em LP e produziu programas de rádio. Em seus megaeventos, enquanto os DJs se revezavam nos toca-discos, os primeiros videoclipes de rap eram exibidos nos telões, divulgando um novo estilo de dança, o break e, posteriormente, o rap e a cultura hip hop.