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3 ANÁLISE MIDIÁTICA DA OBRA DE JORGE BEN JOR

3.4 ÁFRICA BRASIL (PHONOGRAM, 1976)

3.4.1 Xica da Silva

Xica da, Xica da, Xica da Silva A negra (2x)

Xica da Silva, a negra, a negra De escrava a amante

Mulher, mulher

Do fidalgo tratador João Fernandes Xica da, Xica da, Xica da Silva A negra (2x)

A imperatriz do Tijuco A dona de Diamantina Morava com a sua côrte Cercada de belas mucamas Num castelo da Chácara da Palha De arquitetura sólida e requintada Onde tinha até um lago artificial E uma luxuosa galera

Que seu amor, João Fernandes, o tratador Mandou fazer

Só para ela

Xica da, Xica da, Xica da Silva A negra (2x)

Muito rica e invejada Temida e odiada

Pois com as suas perucas Cada uma de uma cor, Jóias, roupas exóticas Das Índias, Lisboa e Paris A negra era obrigada

A ser recebida como uma grande senhora Da corte do Reis Luís

Xica da, Xica da, Xica da Silva A negra (2x)

Xica da Silva tem 4 minutos e 5 segundos de duração. A sétima faixa do disco

começa com um ataque do baixo, que desenvolve uma pequena frase de poucas notas com duração de 5 segundos, antecipando um pequeno riff da guitarra, acompanhada logo em

seguida pela cuíca, que pontuará toda a faixa na condução dos timbres mais agudos. Aos 11 segundos, após um rápido riff nos pratos e um repique na caixa da bateria (cujo som é próximo das marchas militares), é introduzida a voz do cantor, entoando um lamento de vogais prolongadas, acompanhado pelo coral feminino e por todos os outros instrumentos participantes da faixa. A massa sonora tem sua condução rítmica composta também pelo agogô, contribuindo para os tons agudos, o afoxé121, na marcação rítmica média, e a parte grave da percussão conduzida pelo surdo e, principalmente, pelo conjunto de três atabaques, cujas diferenças de dimensão determinam diferentes tessituras (o atabaque mais agudo é chamado de lê, enquanto que o de registro médio é o rumpi, e o mais grave, rum). A predominância na faixa da batida dos atabaques sobre outros instrumentos percussivos, bem como a marcação constante do agogô (instrumento típico do ijexá122), tem a intenção de reproduzir virtualmente o imaginado ambiente sonoro dos tempos da escravidão negra e dos batuques das senzalas, de acordo com o tema da canção.

Xica da Silva foi escrita sob encomenda para a trilha sonora do filme homônimo,

dirigido por Cacá Diegues naquele mesmo ano de 76. Por conta do sucesso da película, um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro, a música, tema da personagem principal interpretada pela atriz Zezé Motta, ganhou circulação nacional. A história do filme narra as aventuras de uma escrava que, por sua beleza, acabou conquistando o amor do de um importante homem de negócios, dono de grande fortuna, e também o respeito da sociedade local. O filme é inspirado na vida real de Francisca da Silva de Oliveira, que viveu em Minas Gerais, na região de Diamantina (na época, Arraial do Tijuco), na segunda metade do século dezoito. Após ser alforriada viveu um romance com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com o qual teve treze filhos. A canção foi composta seguindo o argumento do filme, fornecido para Jorge Ben Jor pelo diretor, da mesma forma que foi criada

Hermes Trimegisto Escreveu: o texto foi musicado quase na íntegra, apenas com algumas

alterações, compatibilizando minimamente letra e melodia. Mais uma vez, Jorge Ben Jor cria um “pseudo-samba-enredo”, preservando e adaptando minimamente trechos de um texto para

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Afoxé é um instrumento musical composto de uma cabaça pequena redonda de madeira, recoberta com uma rede de pequenas esferas de plástico ou metal ao redor de seu corpo. O som é produzido quando se giram as contas em um sentido, e a extremidade do instrumento (o cabo) na direção oposta. Antigamente era tocado apenas em terreiros de candomblé, sendo posteriormente incorporado pelo samba e por outros gêneros musicais populares. O instrumento também dá nome a blocos negros de carnaval, tendo entre seus maiores representantes o afoxé baiano Filhos de Gandhy.

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Ijexá é um ritmo africano utilizado no candomblé e nos blocos negros de afoxés. Seu ritmo suave, mas de batida e cadência marcada, também dá nome a uma dança, executada nos rituais religiosos. A marcação do agogô é sua batida característica.

a canção. Assim, recorre mais uma vez ao recurso da figurativização no processo de compatibilização entre letra e melodia, para reproduzir literalmente um roteiro cinematográfico nos versos da canção.

Aos 26 segundos de execução da faixa, um novo riff da bateria (tocado apenas na caixa) introduz o refrão da canção (“Xica da, Xica da, Xica da Silva/ A negra”), cantado por Jorge Ben Jor, e repetido pelo coral feminino, em resposta. A repetição da primeira parte do nome da personagem acentuando a tonicidade da última sílaba (“dá”) contribui para a conformação entre letra e ritmo, neste momento de compatibilização temática do refrão. Mas este processo logo é substituído, no trecho seguinte da canção (que pode ser considerado uma ponte), por uma entoação mais calcada na passionalização. Este recurso, que remete a uma sinuosidade e a uma circularidade, contraposta ao ritmo marcado pelos instrumentos de percussão, pode ser interpretada como uma tentativa de reproduzir a sensualidade da personagem. A característica pode ser observada, apesar do caráter estritamente narrativo do fragmento, por um andamento menos acelerado do canto, também menos marcado ritmicamente, diante do prolongamento das vogais, especialmente na repetição das palavras ao fim de cada verso, auxiliando o compositor a preencher a melodia. Todo o trecho é demarcado por repiques na caixa da bateria, que introduz e fecha a entoação do refrão, e dialoga com a voz do cantor durante a ponte (e, de fato, riffs da bateria pontuam toda a execução da faixa). O refrão é repetido novamente em 1 minuto e 2 segundos da faixa, seguindo a mesma configuração do começo da canção, introduzindo a primeira estrofe, que vai detalhar fatos do cotidiano de Xica da Silva, descrevendo pormenores especialmente de sua moradia, em um momento extensivamente figurativo onde a entoação é acelerada para adequar-se à melodia. Não há preocupação em rimar o final dos versos, que são livres ou brancos, sem métrica, exceto ao final da estrofe, onde há uma rima intercalada (o primeiro verso rima com o quarto, na estrutura abba) e imperfeita123 (entre as palavras “galera” e “ela”).

Já na segunda estrofe, também essencialmente descritiva, a observação dos detalhes recai sobre aspectos do vestuário e da aparência da personagem, e também da forma como é vista pela sociedade da época. Como os versos são mais curtos, compostos em sua maioria por substantivos no lugar dos verbos mais extensivamente utilizados na primeira estrofe, a entoação figurativa também é associada a momentos passionais. Se na estrofe inicial, a

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As rimas são classificadas como imperfeitas quando há identidade apenas entre as vogais finais, mas sem existir necessariamente identidade entre os sons finais, ou quando a sonoridade é semelhante, mas a grafia das palavras é diferente.

aceleração do canto era utilizada para adequar os longos versos à melodia, agora a entoação dos versos é prolongada para preencher as frases musicais. Apesar da diferença da quantidade de versos entre a primeira e a segunda estrofe (11 e 9 versos, respectivamente), nota-se uma regularidade poética no final das duas estrofes, com a repetição da estrutura do final da estrofe anterior na conclusão desta, onde a estrutura abba da rima intercalada reaparece nos quatro versos finais (rimando as palavras “Paris” e “Luís”). Durante esta estrofe percebe-se a presença maior do coro feminino, que repete o último verso do trecho em resposta ao canto de Jorge Ben Jor, aumentando um pouco a tensividade da canção neste momento. O refrão é novamente repetido, seguido por vocalises do cantor e das backing vocals, sobrepostos a um solo mais intenso da guitarra, dedilhada, que vai, aos poucos, se destacando do fundo instrumental para dialogar com o coro, substituindo o vocal principal até o final da canção.

Esta irregularidade na estruturação dos versos e das estrofes da letra, bem como a presença de versos livres, é compreensível visto que a letra é uma adaptação direta de um texto em prosa para a estrutura cancional. Por conta deste desequilíbrio, e pela inserção assimétrica do coral em diversos momentos da faixa, a audição de Xica da Silva poderia causar certo desconforto e estranheza por parte do ouvinte, que possivelmente teria dificuldade na assimilação do excesso de informações dispostas sem muita previsibilidade na estrutura figurativa dos versos livres, sem rimas, da canção.

No entanto, este desvio no formato ideal da canção pop pôde ser revertido pela formulação de um refrão simples, de fácil apreensão, incentivando o engajamento e a repetição por parte do ouvinte. Da mesma forma, a regularidade rítmica e melódica, mantida ao longo da faixa, denota certa previsibilidade no ato da escuta. Esta base rítmica fortemente delineada pelos instrumentos de percussão incentiva estímulos e acompanhamentos físicos, desencadeados através da dança, também proporcionados pela forte linha do baixo, que se assemelha à sonoridade do soul de Detroit (difundido pela atuação da gravadora Motown), fortemente rítmico e influenciado pelo gospel.