2 OS SENTIDOS DO SAMBA-ROCK
2.5 O MOVIMENTO BLACK RIO
O movimento Black Rio, cujas primeiras manifestações podem ser localizadas no começo da década de 70, integrou a cultura e a música negra brasileira ao movimento Black Power norte-americano. A nascente reformulação do soul, o funk, trouxe um discurso mais engajado e combativo, na esteira da luta pelos direitos civis da população negra norte- americana que encontrou ecos no Brasil. A música negra, neste momento, passou a ganhar também uma dimensão política, integrando a agenda dos ativistas do movimento negro brasileiro, que lutavam pelo reconhecimento social, sendo articulada a um discurso importado da classe trabalhadora afro-americana. A soul music “made in Brasil” se tornou febre através dos bailes realizados não só nas periferias do Rio de Janeiro e São Paulo, como também se alastrou para outras cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador, onde grupos de discotecários organizavam festas onde se tocava basicamente o soul norte-americano. Através do trabalho dos DJs destas equipes, não só os grandes nomes norte-americanos como também músicos negros como Jorge Ben e Tim Maia começaram a ganhar mais destaque nos set lists dos bailes black. Neste contexto, os DJs tiveram um papel fundamental no processo de criação e consolidação dos gêneros da black music e de suas hibridações com a música brasileira. De forma geral, suas ações foram mais eficientes do que a de jornalistas e críticos, a partir da descoberta de novos mercados e da colocação em prática de novidades apreendidas nas experiências das pistas de dança (FRITH, 1996).
Cada vez atingindo um público maior, estas festas foram se profissionalizando e, em meados dos anos 70, surgiram as grandes equipes de som (ou “equipes de baile”, como eram
chamadas em São Paulo). Equipes como as paulistas Black Mad, Zimbabwe, Kaskastas, e a lendária Chic Show, e as cariocas, Black Power, Cash Box, Hollywood, Furacão 2000, entre outras. As equipes investiam intensamente em sonorização e divulgação, introduzindo novas músicas nos bailes, e organizando grandes shows com artistas nacionais e internacionais, em noites que chegavam a reunir 80 mil pessoas. Era a representação de toda uma cultura musical negra paralela, de sons que não chegavam à grande mídia e ao mercado fonográfico
mainstream nacional.
Estas festas soul tiveram início em clubes de bairros do subúrbio do Rio de Janeiro, mais precisamente em 1971, quando Mr. Funk Santos (Oséas Moura dos Santos) fez o primeiro baile de que se tem notícia onde só se tocou soul music, no clube Astória, no bairro do Catumbi. Também na zona norte carioca, em 72, o DJ Dom Filó, dono da equipe Soul Grand Prix, começou a realizar bailes soul no Clube Renascença, associação criada no Andaraí durante a década de 50 por uma classe média negra local cujo ingresso em clubes tradicionais era dificultado pelo preconceito racial. Através destas festas Dom Filó tentava propagar um discurso politizado voltado para a formação e a valorização de uma nova imagem dos afro-descendentes42. Durante os bailes do Renascença, conhecidos como “Noites do Shaft”, em referência ao personagem do seriado americano homônimo43
, eram realizadas projeções de slides de artistas e filmes especificamente do gênero Blaxpoitation44. Lemas do movimento Black Power como “I Am Somebody” (“Eu sou alguém”) e “I´m Black And I´m Proud” (“Eu sou negro e tenho orgulho”) passou a ser incorporado pelos freqüentadores dos bailes black, responsáveis pela aplicação direta da ideologia do poder negro na vida cotidiana de milhares de jovens negros das periferias brasileiras.
As festas eram 100% soul music. O movimento Black Rio nasceu ali, no Astória, no Catumbi. Antes da black music, o que havia para o povão era futebol, samba e jovem guarda. Só som burro, refrão cheio de laia-laiá. Foi com a soul music que o negro passou a se valorizar, cuidar do visual (MR. FUNK apud ASSEF, 2003:47).
42 Em 1972, Dom Filó convenceu a diretoria do Renascença a ceder o clube para a realização de eventos
culturais que atuassem como formadores de uma consciência racial e social junto à comunidade negra. A primeira atividade foi a montagem do espetáculo musical “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes. No entanto, a peça não atraiu o público esperado e Dom Filó teve a idéia de organizar grandes bailes para, através deles, propagar mensagens de valorização da cultura negra aos freqüentadores.
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Filme que narrava as aventuras de um policial negro protagonizado pelo ator Richard Roundtree, que rendeu três seqüências, dirigidas por Gordon Parks e lançado pela MGM em 1971.
44 Movimento cinematográfico dos anos 70 que reuniu produções artísticas produzidas e protagonizadas por
negros, voltadas para o público afro-americano, que utilizavam exclusivamente funk e soul music em suas trilhas sonoras.
No subúrbio fluminense, em pouco tempo, outras dezenas de equipes de som apareceram em bairros como o Catumbi, em Irajá, Rocha Miranda e Colégio. Os bailes dos subúrbios foram um sucesso, passando a atrair multidões de jovens negros, altamente influenciados pela cultura black americana, que buscavam, sobretudo, lazer, mas também participavam de uma mobilização em torno da conscientização racial. Mais que alternativas de entretenimento, os bailes serviam como rituais coletivos de coesão e estruturação social, cujos organizadores não estavam diretamente preocupados em articular políticas de ação quanto à questão do racismo, contudo pregavam a construção de um referencial positivo a partir da valorização da cultura negra45. A partir de então o movimento começou a se configurar, atraindo os holofotes da mídia. Os palcos paulistas e cariocas dos bailes black foram os locais ideais para a afirmação das estrelas da black music brasileira, como Jorge Ben, Tim Maia e Bebeto. Os bailes soul, por sua vez, eram uma opção de lazer barata e acessível, e seus produtores se esmeravam em torná-los sempre atraentes. Os DJs disputavam entre si para conseguir mais lançamentos e quando um DJ conseguia uma música ou disco novo, era capaz de retirar o rótulo do LP para que os concorrentes não tomassem conhecimento dos nomes dos artistas e das músicas, tornando-as exclusivas.
Os bailes black também começaram a acontecer pela zona sul, organizados principalmente pelo locutor de rádio Big Boy. Os famosos Bailes da Pesada aconteciam no Canecão, grande casa de shows carioca, reunindo centenas de pessoas nos finais de semana, para ouvir e dançar black music. Ao lado do DJ Ademir Lemos (que chegou a apresentar algumas edições do programa Som Livre Exportação promovendo a música negra), viajou por várias cidades do país, realizando a primeira turnê nacional só de DJs. Outro famoso DJ que aderiu ao movimento e contribuiu para a introdução da black music no gosto musical das classes médias foi o maranhense Monsieur Lima, que chegou a reunir mais de 20 mil pessoas em bailes black realizados no Maracanãzinho.
A imprensa, percebendo o efervescente movimento que mobilizava milhares de jovens pobres e negros, batizou o fenômeno de Black Rio. As festas no subúrbio e na zona sul foram responsáveis pelo enorme índice de venda de discos de black music, superando, inclusive, o rock dos Rolling Stones ou do Led Zeppelin (BAHIANA,1979). Os
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O mercado de roupas e, principalmente, de sapatos também encontrou no público negro um nicho de mercado, em lojas de bairros comerciais populares, como Madureira ou o centro de São Paulo. Calças boca de sino, sandálias plataforma e sapatos “cavalo-de-aço”, e, principalmente, cabelos usados naturalmente crespos, cortados ao estilo “afro” faziam parte de uma estética que refletia o movimento político e cultural do Black Power. Era um reconhecimento positivo de ser negro, dando as bases para a solidificação de uma auto-estima associada ao discurso da valorização da beleza negra.
freqüentadores destas festas eram vistos como um enorme mercado em potencial. Inicialmente foram lançadas coletâneas com os principais sucessos dos bailes. Muitas delas eram assinadas pelas equipes de som e pelos DJs de maior prestígio. A gravadora repassava uma parte das vendagens para as equipes, que se tornaram cada vez maiores e mais rentáveis. Artistas nacionais que cantavam soul music começaram a despontar e a gravar discos de grande sucesso. Além dos já consagrados Tim Maia e Jorge Ben, novos nomes como Gerson King Combo, Bebeto (chamado de “o rei dos bailes”), Hyldon e Cassiano (antigos parceiros de Tim Maia) angariaram excelentes resultados para a indústria fonográfica.
Tamanha repercussão animou as gravadoras e, em 77, a WEA – Warner Music do Brasil – encomendou a Oberdan Magalhães, a pedido da matriz norte-americana, uma banda que mesclasse a soul music com a música negra brasileira mais conhecida no exterior: o samba. Oberdan já vinha praticando experiências parecidas no grupo Abolição46, de Don Salvador47, desde o final da década de 60, mesclando o samba com o funk. Com a ida definitiva de Don Salvador para os Estados Unidos, o grupo se desfez. Convidando alguns ex- integrantes do Grupo Abolição, como Luiz Carlos Batera e Barrosinho (trompete), Oberdan convidou Cristóvão Bastos (piano e teclados), Jamil Joanes (baixo), Cláudio Stevenson (guitarra) e Lúcio Silva (trombone), todos oriundos da banda Impacto 8, para formar a Banda Black Rio. Aprofundando ainda mais o trabalho de Don Salvador na mistura do compasso binário do samba brasileiro com o quaternário do funk americano, conduzida pela bateria e baixo, o grupo lançou seu primeiro disco, Maria Fumaça (Atlantic/WEA, 1977). Dentre as faixas gravaram uma versão de Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, que se tornou emblema da proposta sonora da banda.
A música Maria Fumaça foi incluída na trilha sonora da novela Locomotivas (1977), da Rede Globo, e, em 78, a banda acompanhou Caetano Veloso na turnê do show “Bicho Baile Show”. O reconhecimento da banda foi considerável, em termos de crítica, mas não obtiveram grandes índices de vendagem. A mudança para a RCA Victor fez com que o grupo passasse por mudanças na sua proposta musical e midiática. Na tentativa de popularizar mais o trabalho da banda, que até então era instrumental, a nova gravadora impôs ao grupo a inserção de vocais, bem como roupagens mais pop para suas gravações. Esta tentativa de
46 Do Grupo Abolição participavam também Rubão Sabino, Luiz Carlos Batera, José Carlos Barroso, o “Barrosinho”, Zé Carlos, Serginho Trombone e Darcy Trumpete.
47 Dom Salvador é instrumentista, compositor e arranjador. Na década de 1960, integrou os conjuntos Copa Trio
e Rio-65, acompanhando Elis Regina e Jorge Ben Jor, entre outros. Em 1969, formou o grupo Abolição, formado exclusivamente por músicos negros, ajudando a consolidar o soul no Brasil. Mais tarde radicou-se nos Estados Unidos.
fazer um som mais comercial não foi bem visto por alguns integrantes, que deixaram o grupo. Mesmo assim, em 1978, gravaram o segundo álbum Gafieira Universal (RCA VICTOR, 1978). O terceiro disco, Saci Pererê (RCA Victor, 1980) foi lançado já no declínio do movimento Black Rio. A banda continuou fazendo shows até a morte de Oberdan, em um acidente de carro em 1984.
Inspirados na formação instrumental da Banda Black Rio e também no grupo Dom Salvador & Abolição, no subúrbio carioca alguns conjuntos oriundos de festas e gafieiras formaram um circuito paralelo aos bailes black, moldando um outro formato para o samba- rock. Influenciados por grupos de funk norte-americanos como Earth Wind and Fire e KC & The Sunshine Band e pelas tradicionais orquestras de gafieira, conjuntos de baile como o Copa 7, Os Devaneios e a Banda Brasil Show (todos ainda em atividade) mantinham uma cozinha de metais fortemente articulada a arranjos de teclados, baixos e guitarras, favorecendo o desenvolvimento de uma nova forma para a prática do samba de gafieira, típica dança de salão carioca.
Outros músicos que baseavam seus trabalhos em mesclas sonoras começaram a surgir em diferentes pontos do país, como o mineiro Marku Ribas, que inovou ao utilizar a base rítmica e melódica do reggae associada ao samba e a ritmos regionais, seguindo uma linha composicional parecida com a do gaúcho Luis Vagner (que havia começado sua carreira cantando rock no conjunto Os Brasas, nos moldes dos grupos da Jovem Guarda). Outro grande sucesso popular foi o pernambucano Paulo Diniz, cujo sucesso I Want to Go Back to
Bahia (Quero Voltar Pra Bahia, Odeon, 1970) associava o soul a uma levada caribenha e
sotaque nordestino. A dupla de compositores gaúchos Bedeu e Leleco Telles destacaram-se ao fundar o grupo Pau Brasil, que lançou dois discos, O Samba e Suas Origens (Beverly/Copacabana, 1978) e Pau Brasil (Continental, 1979). Bedeu, em especial, ficou conhecido por ter composições suas regravadas pelos Originais do Samba, Wilson Simonal e Bebeto, cantor paulista que se tornou o rei dos bailes dos subúrbios cariocas, cujo estilo, derivado da batida de Jorge Ben, tornou-o um grande sucesso popular48.
48 “Desde Abílio Manoel, com „Pena Verde‟ (68), a originalidade de Jorge Ben foi perseguida por copiadores. O
mais recente e bem sucedido é o paulista Roberto Tadeu de Souza, o Bebeto, lançado há seis anos, na gravadora Copacabana. Fenômeno inicialmente restrito ao mercado carioca, ainda assim ele conseguiu somados os três primeiros discos só no Grande Rio atingir quase 150 mil cópias, segundo informa, imprecisamente, sua ex- gravadora. Agora na RCA, lançado nacionalmente, até mesmo com o aval ingênuo do próprio Jorge Ben, Bebeto com „Batalha Maravilhosa‟, já se aproxima do primeiro disco de ouro, com 99 mil incautos adquirentes” (SOUZA, Tárik de. Jorge Ben: o acrobata sem rede. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 jan. 82).
Em torno de 1975, o boom mundial da disco music49 chega ao Brasil através de nomes como Donna Summer, Chic, KC and The Sunshine Band e Gloria Gaynor, entre outros músicos e grupos originalmente de black music e que agora voltavam-se para a nova moda. Criada nos Estados Unidos e voltada para as pistas dos clubs, a disco music mesclava ingredientes do rock e do soul, mas sem sombra de pregação racial. A gravação Soul
Makossa, do saxofonista camaronense Manu Dibango, lançada em 72, é considerada uma das
primeiras gravações do gênero, e tornou-se um hit mundial. Apesar do sucesso comercial, a música disco foi freqüentemente denegrida por alguns críticos por conta de sua influência pasteurizante sobre a música popular, a partir da utilização de baterias eletrônicas e sintetizadores (SHUKER, 1999:99). Para outros, no entanto, esta forma musical, apesar de considerada superficial e alienante, expressava, através da dança, uma vitalidade libertadora, inovadora e sensual. “A música disco emerge a partir de uma subcultura, no início dos anos de 1970, dominando a música pop por alguns anos, e depois recua. Durante seu breve domínio, porém, restaurou o hábito da dança como imperativo pop” (SMUCKER, apud SHUKER: 1999: 99). As gravações de disco music continham, basicamente, pouca ou nenhuma letra, baseando-se em ritmos marcados e de batidas repetitivas (DOURADO, 2004:109), e acabaram por influenciar toda a música pop mundial, dando origem à dance music e aos vários gêneros da música eletrônica.
A “diva disco” brasileira foi a cantora paulistana Lady Zu, cujo estilo era inspirado na cantora norte-americana Donna Summer. Lady Zu estourou com a música A Noite Vai
Chegar (Phonogram), carro-chefe do compacto de 1977, que vendeu um milhão de cópias (e
foi incluída na trilha sonora da novela Sem Lenço Sem Documento, da Rede Globo). O sucesso lhe valeu o título de Rainha da Discoteca Brasileira, e possibilitou a gravação do seu segundo LP, Fêmea Brasileira (Phonogram), em 79. Capturando a moda das discotecas da época, os arranjos do LP fundiam, de forma bem-sucedida, a fórmula da disco music com gêneros tipicamente nacionais como o baião e o samba. Tornaram-se grandes sucessos, além da faixa-título, Hora da União (incluída na trilha da novela global Dancin’Days50) e a versão “funkeada” de Boneca de Piche, de Ary Barroso.
49 O termo “disco music” deriva da palavra francesa “discothèque” – coleção de discos - que se refere ao clube
ou boate aonde as pessoas vão para dançar. Nos Estados Unidos, o gênero inicialmente foi associado a bares gays, se difundindo mais após o sucesso do filme Os Embalos de Sábado à Noite (1977), cuja trilha sonora foi composta, entre outras, por canções do grupo inglês Bee Gees.
50 A novela Dancin’Days, que foi ao ar entre 78 e 79, foi responsável pela difusão da disco music por todo o
Brasil. A canção-tema foi gravada pelo conjunto feminino As Frenéticas, formado por atrizes-cantoras arregimentadas pelo produtor e compositor Nelson Motta para, inicialmente, trabalharem como garçonetes em sua casa de shows Dancin'Days, cujo nome inspirou o título da novela global.
Da moda da discoteca também participou o produtor e tecladista Lincoln Olivetti, que gravou com Robson Jorge a música Aleluia (Robson Jorge e Lincoln Olivetti, Som Livre, 1982), grande sucesso nas rádios. Se por um lado, nessa época, Olivetti desfrutava de grande sucesso comercial, ficando conhecido como “o mago do pop" por renovar a carreira de vários artistas da MPB, por outro atraiu críticas, que o responsabilizavam pela "pasteurização" do gênero nos anos 80. Mentor do som funk-pop de Realce de Gilberto Gil (Realce, WEA, 1979) também trabalhou na produção de Salve Simpatia (Som Livre, 1979), disco que marcou uma nova fase na carreira de Jorge Ben Jor, de orientação musical e midiática mais voltada para as pistas de dança, cujas gravações fortemente marcadas pela presença de sintetizadores ajudaram a criar as bases de uma espécie de “disco-samba”.