2 OS SENTIDOS DO SAMBA-ROCK
2.1 É O SAMBA-ROCK, MEU IRMÃO: OS PIONEIROS
Considera-se que o primeiro músico de que se tem registro a empregar o termo “samba-rock” foi Jackson do Pandeiro18
, na letra da música Chiclete com Banana19, de 1959 (composição de Gordurinha e Almira Castilha), que fazia uma alusão crítica à invasão americana na música brasileira. Contudo, o disco lançado em 1957 pelo violonista Bola Sete,
E Aqui Está o Bola Sete, pela gravadora Odeon, já trazia na ficha técnica da faixa Bacará a
menção “samba-rock" como gênero musical. De fato, partindo de um riff20
clássico de
rock‟n‟roll, a música incorpora a levada de samba, transformando-se em algo raro para aquele momento. Bola Sete (Djalma de Andrade) foi um dos pioneiros a desenvolver o solo de guitarra acústica21. Desde o final dos anos 40, Bola Sete já vinha experimentando diversas fusões musicais, gravando vários choros com violão elétrico, além de foxtrotes22 e baiões,
18 O cantor e compositor paraibano Jackson do Pandeiro (José Gomes Filho) começou a atuar como
percussionista, e gravou seu primeiro disco em 53, logo depois ingressando no cast da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. Ele se tornou um grande sucesso de público e crítica por sua maneira de cantar baiões, cocos, sambas e marchinhas de carnaval.
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Só ponho bebop no meu samba/ Quando o Tio Sam pegar num tamborim/ Quando ele pegar no pandeiro e no
zabumba/ Quando ele entender que o samba não é rumba/ Aí eu vou misturar Miami com Copacabana/ Chiclete eu misturo com banana/ E o meu samba vai ficar assim/ Um batuqueiro raro/ Bap um bap pá pá/ Quero ver a grande confusão/ Um batuqueiro raro/ Bap um bap pá pá/ É o samba rock meu irmão/ É, mas em compensação/ Quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão/ Quero ver o Tio Sam de frigideira/ Numa batucada brasileira.
(Chiclete com banana/Forró de Surubim, compacto 78 rpm, Columbia, 1959).
20 Riff é um padrão rítmico ou melódico curto, repetido muitas vezes, enquanto as mudanças acontecem junto à
música.
21 Além de trabalhar no rádio, Bola Sete costumava se apresentava em boates cariocas acompanhando a cantora
Dolores Duran. Em 1959 mudou-se nos Estados Unidos e lá participou do célebre concerto do Carnegie Hall, em Nova York, que lançou a bossa nova no mercado americano em 1962. Gravou com célebres músicos de jazz como Vince Guaraldi e Dizzy Gillespie, lançando discos com relativo sucesso, reconhecido pelo guitarrista Carlos Santana como uma de suas maiores influências.
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Surgido no início do século XX nos EUA, o foxtrote é caracterizado por ritmos sincopados, em compasso binário ou quaternário, e acompanhamento de piano. Também denominava um tipo de dança de salão para casais, criada pelo ator norte-americano Harry Fox.
entre outros gêneros (em 58 também gravou outra música rotulada como samba-rock, Mister
Jimmy). De qualquer maneira, no selo do disco de 78 rpm de Jackson do Pandeiro, na
informação técnica sobre a faixa Chiclete com Banana, o gênero registrado da canção é o “samba-coco”.
Outros nomes também são defendidos como pioneiros do samba-rock. No circuito dos bailes paulistas, segundo a jornalista Cláudia Assef, em seu livro Todo DJ já Sambou (2003), disc-jóqueis e freqüentadores afirmam que Waldir Calmon23 seria o “verdadeiro” precursor do samba-rock, por conta da gravação, em 1957, de uma versão instrumental de
Rock Around The Clock, de Bill Haley, em ritmo de samba (incluída no disco Chá Dançante #3, Copacabana). Waldir Calmon24, pianista e tecladista, foi o responsável pela popularização no Brasil do solovox, pequeno teclado acoplado ao piano acústico, precursor dos sintetizadores. O músico tinha grande circulação entre as rádios e boates cariocas, e, na década de 50 foi pioneiro no Brasil a gravar LPs contendo faixas gravadas ininterruptamente, compostas exclusivamente por versões instrumentais de mambos, sambas e rocks, ideais para dançar e para animar festas, preconizando a prática dos futuros DJs da gravação de tracks em faixas únicas para as pistas de dança25.
Guardando suas especificidades, estes e outros músicos, no final dos anos 50, estavam desenvolvendo novas experimentações e fusões musicais, articulando a música brasileira à norte-americana, que tinha especial penetração no contexto cultural do Rio de Janeiro pré-bossa-nova. As raízes precursoras destas novas hibridações podem ser localizadas nos sambas-espetáculo ou sambas-exaltação compostos a partir do período do Estado Novo (1937-1945), onde compositores como Ary Barroso26 (autor de Aquarela do Brasil e Na
Baixa do Sapateiro), e, mais adiante, Luís Bandeira (O apito do samba e Na cadência do samba, cuja gravação de Waldir Calmon foi utilizada como tema do cinejornal esportivo
23 Ao lado de Waldir Calmon, o conjunto Bolão e Seus Roquetes também é considerado um dos pioneiros
sucessos nas pistas dos primeiros bailes de samba-rock de São Paulo. Bolão (Isidoro Longano) trabalhou como clarinetista, flautista e saxofonista em várias orquestras desde os anos 40. Como roqueiro, gravou o LP Viva A
Brotolândia (Columbia, 1958 - três anos antes do LP homônimo de Elis Regina) destacando-se por gravar covers
de clássicos do rock‟n‟roll instrumental americano. Bolão era músico de estúdio, e também participou da gravação, como saxofonista, dos sucessos Estúpido Cupido (Odeon, 59) e Banho de Lua (Odeon, 60) da cantora Cely Campello, precursora do rock no Brasil.
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Seu conjunto era formado por Paulo Nunes (guitarra), Milton Banana (bateria), Eddie Mandarino e Rubens Bassini (percussão), Gagliardi (contrabaixo) e o próprio Calmon, ao piano e solovox.
25 Fonte: http://www.waldircalmon.com 26
Dentre os sucessos do samba-rock e da black music brasileira, Ary Barroso foi um compositor bastante revisitado, vide “Boneca de Pixe”, gravada por Lady Zu em 79, e “Na Baixa do Sapateiro”, que ganhou uma interpretação funkeada de Wilson Simonal em 64 , além de se tornar carro-chefe da Banda Black Rio em 77.
Canal 100), reformularam o ritmo do samba, no sentido de englobar os passos largos da dança de salão, abrindo espaço para repiques e intersecções de percussão e metais. Alguns desses compositores, como Ary Barroso, figura forte da época de ouro do mercado fonográfico brasileiro, tinham larga experiência em teatro de revista. O programa de rádio de Ary Barroso foi um dos maiores sucessos da indústria do entretenimento brasileira, e suas composições eram regularmente gravadas por intérpretes famosos, influenciando a utilização de sonoridades mais grandiloqüentes nas novas composições de samba, absorvendo as influências do swing das big bands americanas.
O termo inglês swing significa balanço e oscilação, e é utilizado no jazz de duas formas diferentes. No sentido técnico, os pesquisadores e historiadores modernos preferem defini-lo como uma dinâmica musical específica que acabou derivando no estabelecimento de um subgênero do jazz. No swing, a pulsação é produzida por vários elementos, como o deslocamento dos acentos nos tempos fracos do compasso, o ritmo muito marcada, a superposição de diferentes planos rítmicos, o ataque decidido das notas e a execução melódica flexível e liberada de todo o rigor, porém marcada pela pulsação regular dos compassos. O
swing começa a se desenvolver nos Estados Unidos nos primeiros anos após à grande
depressão econômica dos anos vinte e chega ao seu ápice nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, aproximadamente entre 1932 e 1943. As big bands, grandes orquestras de jazz (também chamadas de dance bands), representavam o formato ideal para o acompanhamento instrumental do swing, constituídas, basicamente, por um conjunto de saxofones, trompetes, trombones, guitarra, bateria, baixo, piano, podendo ainda admitir outros instrumentos que variavam de uma banda para outra. O jazz tocado pelas big bands possuía, geralmente, arranjos mais elaborados, muito freqüentemente sendo previamente preparados e escritos em partituras, caracterizados por uma batida menos acentuada e menos complexa que os ritmos e harmonias do jazz moderno. No swing, os solos e improvisações são executados nos momentos determinados no arranjo, diferentemente das formas iniciais do jazz, onde se enfatizava a improvisação espontânea. À medida que as bandas de dança ganhavam fama, o
swing caiu no gosto popular, especialmente com a ascensão de band leaders como Benny
Goodman, Glen Miller, Duke Ellington, Count Basie entre outros, a partir da década de 30. Este formato de jazz tornou-se especialmente célebre pela execução de baladas suaves, colaborando para a consagração dos grandes clássicos da canção norte-americana (representada pelas composições de Cole Porter, Irving Berlin, Ira & George Gershwin, entre outros), difundido pela presença cada vez maior do rádio no cotidiano da família americana e pela popularização dos clubes de dança. Era o começo da construção de um formato popular
musical e massivo, em consonância com o desenvolvimento do mercado fonográfico dos Estados Unidos, bem como com o crescimento da indústria cinematográfica hollywoodiana. Nos anos 50, o crítico Stanley Dance cunhou o termo mainstream para descrever a música tocada pelos veteranos do swing.