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CAPÍTUL

O DESENVOLVIMENTO DA PARAÍBA E AS FONTES DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA

4.3 As áreas de abastecimento de água nos primeiros tempos da cidade

4.3.1 As fontes ou bicas nos extremos da cidade

4.3.2.1 A Fonte dos Milagres

A fonte dos Milagres localiza-se na Rua Augusto Simões, antigo Beco dos Milagres, próximo à esquina esquerda de quem desce a Ladeira de São Francisco, observar Figura 13.

Nos primeiros tempos da cidade, a ressurgência que posteriormente se chamaria Fonte dos Milagres, se localizava na porção mediana do principal eixo leste-oeste, que interligava o porto aos conventos, igreja Matriz e aos principais logradouros localizados na porção mais elevada da cidade. Certamente, deveria ser muito importante para a comunidade de então, não apenas por sua localização, como também pelo volume e a qualidade das suas águas. Rodriguez (1962, p 109) afirma que através das “...crônicas dos primeiros dias da cidade, deduz-se que o abastecimento d’água, da então resumida população, provinha [da fontes dos Milagres, localizada no] sítio do Padre João Vaz Salém, primeiro vigário da Freguesia de Nossa Senhora das Neves...”.

Segundo Honor (2006), a bica dos Milagres é a mais antiga referenciada na historiografia local. Seu primeiro registro consta no pedido de concessão, aos religiosos da ordem beneditina, das terras do Pe Vigário João Vaz Salém,

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confiscadas pela Fazenda Real, em 19 de setembro de 1599. Segundo Irineu Pinto os beneditinos tinham direito ao

[...] dito sitio do Padre João Vaz até o canto da rua que vae para a fonte e Varadouro, correndo pela dita rua abaixo até entestar com

fonte de que ora se serve esta Cidade, da qual fonte lhe dão 3a

parte da agoa do posso que está feito com condições que em tempo algum não façam outro posso mais fundo nem outro

bemfeitoria que faça prejuízo a dita Agua, nem tapem nem tolham ao povo, salvo a dita terça parte que lhe couber servindo-

se do dito posso somente com Caldeirão. A Cerca do Mosteiro irá donde a dita Agua corre directa aos Mangues e dos ditos mangues irá correndo até emtestar com o chão e terras que foi dadas aos Padres Capuchos com declaração que a pedreira da Cantaria que o dita Padre João Vaz descobriu ficará liberta para o povo com caminho para serventia della fora da Cerca, a qual tempo algum tolharão, por que lha não dão nem darão por dada por assim o aver por Serviço de Sua Majestade [...].(PINTO,1977, p. 31, grifo do autor)

Para Honor (2006) é provável que os beneditinos pouco tenham utilizado a água da fonte dos Milagres, uma vez que, dentro dos limites do convento, existia a Cacimba da Jaqueira.

Em termos de representação cartográfica, não se tem, até o momento, referência dessa ressurgência. Conforme posteriormente será abordado nos mapas elaborados na primeira metade do século XVII, estão mapeadas as fontes de Santo Antônio, no interior do mosteiro dos Franciscanos e, em função do posicionamento nos mapas, as outras mapeadas devem ser as de Tambiá e Gravatá.

Rodríguez (1962) afirma que as primeiras referências às fontes urbanas datam do Período Imperial, momento em que o Vice-Presidente em exercício, Manoel Lobo de Miranda Henriques, sancionou lei para execução de vários serviços, dentre os quais a construção de um chafariz na Bica dos Milagres e conserto na de Gravatá. Ainda no mesmo parágrafo, Rodríguez (1962, p 110) argumenta que “... possivelmente a idéia não passou do orçamento...” porque em 1847, o governo do Presidente Frederico Carneiro de Campos destinaria outra cifra para o mesmo fim.

Na fala que o sucessor de Manoel Lobo, Dr Joaquim Teixeira Peixoto de Albuquerque, proferiu na primeira Sessão da segunda Legislatura da Assembleia Legislativa Provincial, em 24 de junho de 1838, ele se referia a edificação da fonte dos Milagres, como melhor solução para o abastecimento do Varadouro. É possível que, naquele momento, ele estivesse fazendo referência à lei sancionada no governo anterior. Assim foi sua fala:

Em vez de se conduzir a agoa do Tambiá para o Varadouro, plano bastante custoso de ser desempenhado, não só pelo Orçamento que há de ser subido necessariamente, como pela difficudade que incerra; por que seria preciso rasgar o morro que fica por detras do Convento de S. Francisco, milhor será que com muito menor trabalho, e despesas trateis da edificação da fonte denominada

dos Milagres, aqual tem todas as proporções necessárias, e

capacidade de suprir d’agoa toda gente da Cidade, inda mesmo nos anos de maior seca.(ALBUQUERQUE, 1838, grifo do autor) 98

Na segunda sessão da segunda Legislatura da Assembleia Legislativa, em 16 de janeiro de 1839, o sucessor de Joaquim Teixeira, Dr. João José de Moura Magalhães, fazendo referência ao abastecimento da cidade, assim se posicionou:

[...] Como porém essa fonte [Tambiá], apezar da bondade das suas águas, por estar um pouco arredada do centro da Cidade, não presta utilidade a todos os habitantes, será muito conveniente, que cuideis da formação de mais algum chafariz em lugar apropriado, attendendo-se á comodidade dos moradores da Cidade. Lembro, como fizera o meu Antecessor, a

construcção d’um chafariz no lugar onde está a chamada – Fonte dos Milagres – que encerra em si um olho d’água

abundante, que nunca seca, e que póde abastecer toda a cidade. Esta obra, segundo a opinião do Engenheiro, á quem mandei ouvir, não será muito despendioza, por não ser precizo trazer a agoa de longe, sendo bastante construir-se um reservatório no lugar onde se acha a fonte, ou antes cacimba, e o chafariz um pouco mais abaixo. Devo também participar-vos, [...]. (MAGALHÃES, 1839, grifo do autor)99.

Mas não seria nesse governo que a construção do chafariz na fonte dos Milagres seria realizada. Só dez anos depois, no relatório apresentado à

98

Fala do Presidente da Província em 24 de junho de 1838 (disponível em anexo). 99

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Assembleia Legislativa Provincial, em 01 de agosto de 1849 é que o Presidente da Província João Antonio de Vasconcellos declara que as obras da referida fonte estão em andamento. Assim ele se posiciona e justifica-se por não fazer uma obra de maior envergadura.

[...] Acha-se em andamento a obra de um chafariz que mandei

construir na fonte dos Milagres, orçado em 1:300 rs.; ficando

colocado entre a cidade alta e o Varadouro, terá de servir commodamente a sua excellente agoa para todos os habitantes. Talvez pareça que uma fonte que se fizesse com menos custo, serviria. O olho d’agoa, pelo local em que se acha, não pode ser bem aproveitado se não mediante obra mais dispendiosa, alem disso, não sendo a veia muito abundante era necessário que se lhe dessem depósitos com amplidão calculada a poderem guardar sempre agoa a ponto de nunca faltar ás precisões do povo pedindo pois esta obra de necessidade um chafariz segundo o que tenho exposto e informações do Engenheiro, foi preciso que entrasse elle no seu plano; e nem podia deixar eu de ceder a esta exigência do bem publico por uma questão de economia, que a ser decidida contra o plano traria consigo o prejuízo publico. (VASCONCELLOS, 1849, grifo do autor)100.

Finalmente, na exposição feita pelo Presidente da Província João Antonio de Vasconcellos ao novo presidente Coronel José Vicente de Amorim Bezerra, no ato de passar-lhe a administração da Província, em 23 de janeiro de 1850, fica ratificado o encerramento da construção da Bica dos Milagres.

Foram essas as palavras proferidas por João Antonio de Vasconcellos em seu discurso de transmissão do cargo:

Acha-se pronto o chafariz dos Milagres; e bem assim achão-se concluídos os reparos da ponte do Sanhauá, a nova obra da mudança do despejo do quartel de primeira Linha, e o concerto do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, [...] (VASCONCELLOS,

1850, grifo do autor)101,

100

Relatório apresentado pelo Presidente da Província em 01 de agosto de 1849 (disponível em anexo).

101

Exposição feita pelo Presidente da Província, João Antonio de Vasconcellos, em 23 de janeiro de 1850 (disponível em anexo).

Rodríguez (1962) a descreve como sendo semelhante às fontes portuguesas da época (Figura 19); tinha duas torneiras de bronze e era delimitada por pilastras de pedra. Na porção superior havia o símbolo das armas imperiais e a data 1849 como marco da conclusão da obra.

Figura 19 – Fotografia da Fonte dos Milagres

Fonte: Cópia do livro “Roteiro Sentimental de uma Cidade”, (RODRÍGUEZ, 1962 p.120). Fotografia sem data de referência, possivelmente obtida na primeira metade do século XX .

Apesar de não ter sido encontrado nas demais obras pesquisadas alusão ao nome “dos Milagres”, Walfredo Rodríguez afirma que:

“...Pelo que se tem notícia, só no começo do século passado [XIX] é que essa fonte ficou conhecida por "Bica dos Milagres". Para situar um horripilante crime que alarmou a cidade, em 31 de julho de 1801102, ...”. (RODRÍGUEZ, 1962, p.109)

No “Livro que dá razão ao Estado do Brasil”, seu autor, ao descrever as qualidades ambientais da cidade da Paraíba faz alusão à água de sua fonte como tendo qualidades especiais. Assim se reportou: “...[a cidade tem] aguoas com sua fonti particular, q’ a sua aguoa é remédio notável contra o mal da pedra;...” (LIVRO QUE DÁ RAZÃO AO ESTADO DO BRASIL, 1968, p. 72). Deve-se destacar que, quando esse "Livro" [relatório] foi elaborado, a cidade

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Assassinato de uma mulher, com requintes de maldade, atribuído a um religioso da Ordem Franciscana, de nome Frei José de Jesus Maria Lopes.

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era extremamente diminuta, limitando-se apenas ao forte existente nas imediações do porto e algumas construções no alto da colina. A principal fonte referenciada pelo autor deveria ser a dos Milagres, pois, localizava-se na porção intermediária dessa pequena comunidade. Portanto, em função da crendice sobre a natureza medicinal de suas águas, é possível que tenha sido considerada milagrosa, e como consequência dessa qualidade, passou a chamar-se Fonte dos Milagres. Portanto, contrariamente ao que pensou Rodríguez (1962), é possível que o nome Milagres, atribuído a essa fonte, seja bem mais pretérito.

Atualmente, o que resta da fonte dos Milagres é uma discreta moldura delimitada por duas pilastras e uma cornija esculturadas em pedra calcária incorporada ao muro de uma residência. Entre as mesmas, ao alto, está registrado o ano 1849, provavelmente fazendo referência ao ano de conclusão da obra e embaixo, próximo às laterais, dois orifícios demarcando a posição das torneiras. Hoje, o liquido que flui desses orifícios apenas nutrem musgos e liquens, diferentemente de outrora, onde as águas que ali verteram alimentaram a emergente cidade da Paraíba, (Figuras 20 e 21).

A referida fonte está dentro da poligonal do Centro Histórico que foi tombado pelo IPHAN em 06 de dezembro de 2007. A área abrange um sítio de 370.000m2, compreendendo boa parte dos bairros do Varadouro (Cidade Baixa) e da Cidade Alta. Ao todo são 502 edificações, 25 ruas e seis praças, bem como o antigo Porto do Capim, local de fundação da cidade.