• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTUL

CONSIDERAÇÕES PALEOGEOGRÁFICAS E CARACTERIZAÇÃO FÍSICA DO SÍTIO ONDE FOI FUNDADA A CIDADE DE NOSSA SENHORA DAS

5.3 Topomorfologia da área e processos associados

Toda região costeira da Paraíba é constituída por três compartimentos geomorfológicos. Dois desses compartimentos são bem definidos em relação à topografia e constituição litológica. São eles: as Planícies (fluvial, flúvio-marinha e costeira) e os Baixos Planaltos Costeiros ou, segundo a toponímia regional, os Tabuleiros. O terceiro compartimento é representado pelas vertentes, unidade que constitui uma superfície inclinada que faz a ligação entre o topo dos tabuleiros e os diversos tipos de planícies.

Através da imagem SRTM (Figura 38) é possível perceber, com bastante nitidez, o compartimento das Planícies e o dos Baixos Planaltos Costeiros. As vertentes, por serem áreas inclinadas, têm pouca nitidez, em função, sobretudo, do excesso ou ausência de luminosidade. Além da possibilidade da delimitação das unidades topomorfológicas, essa imagem evidencia as marcas ou registros deixados pelos processos geológicos que se desenvolveram a partir do Cretáceo superior164 e que constituem aspectos importantes na configuração da morfologia atual (SAADI, 1993). Esses processos respondem por soerguimentos de blocos, basculamentos de superfícies e por uma intrincada rede de falhas e fraturas que orientaram a dissecação, definindo o relevo. Por outro lado, os processos da dinâmica superficial aumentam os entalhes, esculturando no relevo o modelado (FURRIER, ARAUJO, MENESES, 2006).

164

Neotectônica ou o estudo das deformações tectônicas recentes, que se desenvolveram após a reorganização tectônica mais significativa da área - abertura do Oceano Atlântico, (SAADI, 1993)

196

Figura 38 – Imagem SRTM da área de estudo e entorno.

Fonte: Elaborado pelo autor. Imagem SRTM da área do município de João Pessoa e adjacências onde fica evidente o compartimento dos Tabuleiros e o das Planícies. Observar que o vale do rio Gramame se desenvolve segundo zonas de descontinuidade estrutural (Falhas) e que sobre os Tabuleiros duas áreas estão sob forte processo de dissecação (2 círculos amarelos maiores). Legenda: (1) Rio Marés, (2) Rio Jaguaribe, (3) Rio Cuiá, (4) Rio Sanhauá, (ST) Superfície dos Tabuleiros, (PC) Planície Costeira, (PFM) Planície Fluviomarinha, (PF) Planície Fluvial, (A e B) Falhas Geológicas, (Circulo amarelo menor) Sítio inicial da cidade de Nossa Senhora das Neves, (Linhas vermelha/preta) Limite do Município

Relevo e modelado são expressões plásticas, momentâneas da dinâmica interna e externa do planeta. Sendo que, a dinâmica interna determina as linhas gerais do relevo e se desenvolve quase na totalidade dos casos, em extensos períodos de tempo. A externa comanda o modelado, que constitui um estado de equilíbrio provisório das formas, e se desenvolve, na maioria dos casos, em períodos de tempo mais curtos que os processos da dinâmica interna.

No entorno do município de João Pessoa podem ser observadas áreas deprimidas e alinhadas segundo diversas direções (Figuras 37 e 38). Essas áreas constituem zonas de descontinuidades, resultantes do desenvolvimento de falhas (NEVES, et al. 2009; FURRIER, ARAÚJO, MENESES, 2006). Em função da diversidade de movimentos associados ao longo dos planos dessas falhas pode haver ou não soerguimento e/ou rebaixamento de blocos, decorrentes dos esforços tectônicos ocorridos. As áreas deprimidas e as zonas de falhas podem constituir vias de acesso, e as soerguidas, obstáculos ao escoamento das águas pelos rios e a constituição de bacias hidrográficas.

Como exemplo dessa dinâmica pode ser citada a área no entorno da bacia do Rio Gramame. Nas Figuras 37 e 38 é possível observar, através do comportamento retílineo e da mudança brusca na direção do rio, em dois segmentos da calha principal, que essa bacia escoa através de duas falhas ortogonalmente dispostas. A denominada falha “A” (Figuras 36 e 37), tem direção aproximada sudeste – noroeste, correspondendo ao trecho do baixo curso e constitui a fronteira natural (o vale) entre os municípios de João Pessoa e do Conde, localizado ao sul. A falha denominada de “B” tem direção nordeste – sudoeste e corresponde ao setor onde os afluentes Mumbaba e Mamuaba deságuam no médio curso do rio Gramame.

Ao norte da área, onde o Rio Mumbaba deságua no vale do Rio Gramame, a Falha “B” tem continuidade sob os tabuleiros, da porção oeste do Município de João Pessoa. As evidências dessa continuidade são registradas através do modelado dissecado que se desenvolve sobre os tabuleiros, segundo a mesma direção da zona de descontinuidade “B”. Esse fato pode ser observado na Figura 38, na área dentro da elipse. É possível, também, que em

198

função dessa zona de descontinuidade todo bloco rochoso localizado a leste do atual município de João Pessoa tenha sofrido pequena inclinação nesse mesmo sentido. Corroborando essa hipótese, além da existência do intenso processo de dissecação ao longo da zona de descontinuidade “B”, pode ser destacada: (a) Ausência de afloramento dos calcários da Formação Maria Farinha no litoral de João Pessoa. Os mesmos desaparecem bruscamente logo ao sul da desembocadura do rio Gramame, no município do Conde (Figura 37). Portanto, conforme foi representado na Figura 36, o mesmo pode estar em profundidade no litoral do município de João Pessoa; (b) As bacias hidrográficas que escoam sobre os tabuleiros do município de João Pessoa drenam linearmente, para leste, obedecendo ao sentido do maior gradiente ou da área que sofreu rebaixamento; (c) A existência de diversos afloramentos do calcário da Formação Gramame na porção oeste do Município de João Pessoa, na margem direita do rio Sanhauá (Figura 37), nas imediações do local onde foi fundada a cidade de Nossa Senhora das Neves. Esses afloramentos possivelmente são função simultânea do processo de dissecação e do basculamento que se desenvolveu na porção leste do município de João Pessoa.

No município do Conde, através dessa mesma zona de descontinuidade (Falha “B”), os calcários da Formação Gramame também são marcantemente aflorantes a oeste do município, conforme pode ser observado na Figura 37. Esses afloramentos se repetem, aproximadamente segundo a direção norte- sul, através de outras zonas de descontinuidade até próximo do Estado de Pernambuco. Possivelmente em função dessas características estruturais da área e fundamentado apenas em conhecimento empírico, foi que um mestre em cantaria relatou sobre a existência das rochas calcárias na Paraíba:

... com o tempo se tem averiguado ter principio nas bayxas, e beiras deste Rio da Paraíba, e entranhando-se por a terra dentro [o calcário] corre athe os Arrebaldes de Goayana por alguãs doze legoas, pois em muitas partes nesta grande distancia se tem descuberto a mesma, com as qualidades, e serventia da que se acha na Paraiba...” (JABOATÃM, 1861, p.357).

Relacionado aos movimentos de blocos ao longo das falhas “A” e “B”, pode ser citado também o soerguimento de todo o setor localizado ao sul do baixo curso do Rio Gramame, que atualmente corresponde à área do Município do Conde (círculo amarelo maior na Figura 38). Esse soerguimento, decorrente da existência de um alto estrutural denominado por Barbosa e Lima Filho (2005) de “Alto Conde/Garapu”, conforme pode ser visto na Figura 39,

Figura 39 - Perfil geológico da Bacia Paraíba.

Fonte: Barbosa e Lima Filho (2005), com adaptações. Perfil geológico elaborado a partir de informações obtidas em poços tubulares, evidenciando a estratigrafia e contorno do embasamento. Em destaque na elipse amarela o “Alto do Conde/Garapu”, soerguimento associado aos processos de dissecação na região do Conde (área do circulo preto) e a mudança brusca na direção da calha principal do rio Gramame (FURRIER, ARAÚJO e MENESES, 2006).

responde pela alta densidade de drenagem e intenso processo de dissecação em desenvolvimento sobre os tabuleiros dessa área (FURRIER, ARAÚJO, MENESES, 2006 e ROSSETTI et al., 2009). Simultaneamente, também justifica a existência dos afloramentos da Formação Maria Farinha ao longo do