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2.1 Teoria dos Clusters

2.1.6 Formação e Dinâmica de Cluster (Clusterização)

Atualmente verifica-se o crescente interesse de grupos industriais na formação de clusters de negócios, através da associação de empresas, aproveitando a interdependência cooperativa e competitiva. A formação e o crescimento de clusters são frequentemente assistidos por associações empresariais e outras organizações baseadas no conhecimento, tais como centros de investigação e universidades. Deste relacionamento resulta uma interligação de múltiplos clusters, espalhados por todo o mundo e abrangendo uma multiplicidade de setores.

Diversos estudos descrevem os elementos essenciais para a criação e sustentação de clusters. Para A.T. Kearney (2000), no estudo Joint Venture: Silicon Valley, existem seis fatores essências na formação de clusters:

Grupo forte e diversificado de interessados;

Existência de empresas nucleares interessadas no cluster; Tolerância a capitais de risco e incentivos de investimento; Serviços de suporte especializados e empresas relacionadas;

Universidades que forneçam talentos e a necessária investigação conducente à melhoria e comercialização dos produtos;

Programas de governo fortes que facilitem o crescimento económico, o desenvolvimento local e a melhoria da qualidade de vida.

Para P. Cooke (2001) o conceito de cluster não deve ser estático, como referem algumas definições, mas deve ser dinâmico, apontando os seguintes fatores:

Um cluster mostra uma identidade partilhada e uma visão de futuro;

O cluster provoca “turbulências”, pela criação de novas empresas e no arranque e transformação de outras instituições;

O cluster é uma arena onde ocorrem constantes mudanças em termos de ligações verticais de entradas e saídas e de redes horizontais de empresas;

Devem estar representadas as associações governamentais que providenciem serviços comuns e políticas de mudança no governo;

O cluster deve obrigar os governantes a reformar políticas que proporcionem o seu desenvolvimento, especialmente onde existam falhas de mercado;

Para Andersson et al. (2004) os clusters são idiossincráticos na sua natureza, proporcionando aplicações e conceitos diferentes consoante as situações que se apresentem. Este autor refere sete fatores essenciais para a dinâmica do cluster:

1. Concentração geográfica – as empresas localizadas em proximidade geográfica podem beneficiar de economias de escala, capitais sociais e processos de aprendizagem;

2. Especialização – os clusters centram-se em torno de uma atividade nuclear, a partir da qual todos os atores se relacionam;

3. Múltiplos atores – os clusters e as iniciativas de clusterização não consistem apenas de empresas, mas também envolvem administrações públicas, universidades, empresas financeiras e outras empresas conexas;

4. Competição e cooperação – esta combinação carateriza as relações e ligações entre as empresas;

5. Massa crítica – é necessária para adquirir dinâmica própria;

6. Ciclo de vida do cluster – os clusters e as iniciativas de clusterização não são de curto prazo, mas devem ser de perspetivas de longo prazo;

7. Inovação – as empresas do cluster devem estar envolvidas em processos de constante mudança em termos tecnológicos, comerciais e organizacionais.

Segundo o mesmo autor Andersson et al. (2004), também existem constrangimentos que devem ser tidos em atenção e que podem conduzir ao declínio do cluster, sendo apontados como fatores mais marcantes uma especialização relativamente vulnerável, uma baixa pressão na competitividade, os efeitos de bloqueio e a criação de rigidez. Para evitar estes constrangimentos na dinâmica do cluster é fundamental o constante recurso à inovação.

O interesse na dinâmica de desenvolvimento de clusters é uma vantagem competitiva e um instrumento para garantir o crescimento económico. Nesse sentido, resumindo as abordagens anteriores, os clusters apresentam condições específicas, na medida em que:

Os seus parâmetros de localização geográfica variam de áreas restritas locais a áreas alargadas a uma região ou país;

A sua maior ou menor dependência resulta da proximidade de universidades, parques de ciência e centros de investigação;

As suas características dependem do relacionamento das empresas que o constituem e dos seus diferentes impactos na procura de terrenos, instalações, habitação, transportes e serviços locais;

O seu desenvolvimento varia com a idade, situando-se numa fase relativamente precoce ou relativamente madura;

A sua localização situa-se em áreas de maior sensibilidade ambiental ou em zonas de menor constrangimento.

Qualquer que seja o tipo de cluster pretende-se que esteja focalizado na existência de externalidades que cruzam várias indústrias e atividades. Estas externalidades podem revestir a forma de acesso facilitado a um conjunto de trabalhadores qualificados ou a relações com fornecedores e com empresas em indústrias relacionadas, ou ainda o acesso a instituições ligadas à ciência e à tecnologia, cada vez mais importantes para a competição no mundo global de hoje. Os clusters também devem integrar alianças entre empresas e universidades, institutos de investigação, serviços intensivos em conhecimento, agentes de interface (corretores e consultores) e clientes. No estudo realizado para a OCDE sobre “parcerias locais, clusters e internacionalização das pequenas e médias empresas (Bologna 2000 SME Conference

Business Symposium)”, foram evidenciados os seguintes aspetos:

A globalização da atividade económica e a tendência das empresas que operam em áreas de negócio afins, devem-se localizar em proximidade e atuar como forças motrizes do desenvolvimento económico, não esquecendo que a globalização se tem revelado compatível com a “localização” de vantagens competitivas, em numerosas atividades industriais e de serviços;

A necessidade imperiosa de ajustamento à competição global e os exemplos de regiões prósperas cujas economias se estruturam em torno de clusters, entendidos na sua forma mais simples como aglomerações de empresas que operam em áreas afins de negócio (podendo envolver muitas ou poucas empresas, grandes, pequenas e médias empresas (PME) ou predominantemente PME), tem levado as autoridades nacionais e regionais de numerosos países a reorientar políticas públicas, no sentido de limitar os obstáculos e de favorecer processos de “clusterização”;

As políticas públicas relativas a clusters fornecem, no essencial, um enquadramento favorável ao diálogo e à cooperação entre as empresas, ou entre estas e as autoridades públicas e outras organizações (como as universidades, os centros de investigação e os institutos de difusão de tecnologias);

O relacionamento entre empresas pode levar a colaborações mais eficazes, em especial nas áreas do marketing, na criação de associações para a prestação de garantias de crédito mútuo, na formação profissional, na maior divisão de trabalho, na endogeneização de tecnologias, etc.

Figura 8: Estrutura elementar do cluster

Num estudo realizado pela Segal Quince Wicksteed - SQW Ltd (The ICT Cluster

strategies first developed in 2002 and subsequently updated and modified in 2005 - Segal Quince Wicksteed LIMITED, economic development consultants, United Kingdom) sobre processos de “clusterização” para os setores das tecnologias da informação, comunicações e eletrónica no Reino Unido, foram identificados quatro tipos chave de relacionamento, que se estabelecem entre empresas polarizadas geograficamente (num local, numa proximidade ou numa região), sendo os seguintes:

Ligações que se estabelecem entre as empresas dos setores que definem a aglomeração (pela importância que revestem), para além da competição entre si nos mercados;

Ligações que se estabelecem com os fornecedores especializados de bens intermédios, bens de equipamento e serviços, bem como com os clientes;

Ligações que se estabelecem com as universidades, os centros de investigação e os serviços de suporte;

Ligações a nível das infraestruturas, que podem facilitar as atividades das empresas, tendo em conta os níveis anteriores.

Consoante os modos de ligações que se estabelecem entre os níveis de relacionamento anteriormente referidos, os autores consideram três tipos de polarização geográfica:

Co-localização – consiste numa localização do cluster geograficamente próxima de empresas e com fracas consequências funcionais. As empresas não dão importância ao local, nem às outras empresas nele presente, para a sua

Fornecedores Produtores Compradores Instituições de Investigação e Desenvolvimento Mercados de Produtos Nacionais e Internacionais Organizações de Suporte Serviços, Logística, Financeira, etc. Infraestruturas Tecnologias

própria competitividade. Neste caso, são fracas ou inexistentes os quatro modos de ligações atrás referidos;

Aglomeração – consiste numa localização geograficamente próxima de empresas que contribui para a sua competitividade, mas de um modo que se poderá designar como “passivo”. Neste caso são fracas as ligações entre as empresas que concorrem no mesmo setor, bem como entre fornecedores e clientes. Predominam as relações com as universidades locais (nomeadamente por razões de disponibilidade de recursos humanos qualificados), com o setor de serviços de suporte e com as infraestruturas;

Clusterização – consiste numa localização geograficamente próxima de empresas em que, com maior ou menor intensidade, funcionam os quatro níveis de ligações atrás referidos.

Atualmente as economias desenvolvidas são atravessadas por um conjunto de processos que interagem entre si e provocam inevitavelmente consequências sobre a dinâmica dos clusters industriais e regionais. Entre esses processos destacam-se os seguintes:

A globalização da economia – nos seus aspetos financeiro, de conhecimentos e de organização da produção, arrastando a extensão geográfica e a reorganização interna das cadeias de fornecimentos;

A mutação das tecnologias – com o forte crescimento das ciências da computação e das tecnologias de informação e comunicação, bem como das ciências da vida, biotecnologias, engenharias biomédicas, tecnologias de materiais, estruturas artificiais, tecnologias da automação e robótica, etc.;

A terciarização das economias - com o crescimento das atividades que se ligam ao conhecimento, à informação e à intermediação financeira e comercial e ainda à produção do “capital simbólico”.

Torna-se importante perceber em que medida a clusterização pode ser vista como uma parte do processo de criação de empresas. De um modo geral, as políticas baseadas na abordagem de clusters iniciam-se pela fundação de vários tipos de fóruns, com encontros regulares entre empresas e outras organizações relacionadas, com indústrias particulares ou com uma cadeia de valor, por vezes sob a forma de parceria público- privada. Tais fóruns podem, posteriormente, transformar-se num determinado tipo de associação. Isto é particularmente importante para as regiões que geralmente têm falta de um relacionamento forte entre o Estado e o setor empresarial.

a atividade empresarial. A abordagem baseada nos clusters permite identificar as potencialidades e as debilidades das economias regionais. No processo de formação de um cluster é necessário que a aglomeração possa ocorrer em determinadas áreas, pelo que se tornam indispensáveis as seguintes condições:

Disponibilidade de recursos humanos, com vários níveis de qualificação e diversidade de competências profissionais, necessários ao desenvolvimento e multiplicação de atividades fortemente baseadas na qualidade;

Existência de instituições de formação e de investigação que permitam, com relativa rapidez, atualizar e renovar os recursos humanos face às evoluções tecnológicas e de mercados;

A acumulação de atividades complementares quer ao longo das mesmas cadeias de produção material ou imaterial, quer orientadas para as mesmas funções (processamento da informação, entretenimento, saúde, serviços financeiros), criando uma base mais sólida de competências que permita a adaptação a novas tendências tecnológicas ou de mercados e explorar, com maior profundidade, as potencialidades das redes de empresas;

Existência de canais, formais e informais, de difusão das inovações de base tecnológica ou organizacional;

Acumulação de conhecimentos relacionados com a economia mundial e a mercados específicos ou a determinadas regiões;

Fácil inserção nas redes internacionais de trocas de capitais, de mercadorias e de informações.

Noutra perspetiva, o Economic Competitiveness Group (2001) apresenta a evolução de um cluster em quatro fases:

1. Pré-cluster – verifica-se apenas a existência de empresas e indústrias independentes numa determinada área geográfica;

2. Cluster emergente – verifica-se a existência de um agrupamento de empresas e de concentração da indústria;

3. Cluster em expansão – verifica-se a intensificação das interligações entre o agrupamento de empresas;

4. Cluster independente e em transformação – verifica-se um alto nível de interligações entre empresas e de intensa massa crítica entre os participantes.

Figura 9: Etapas de evolução do cluster (adaptado de Economic Competitiveness Group,

Initiatives, 2001)

De acordo com Niko Wijnolst (2003), para que um cluster ganhe forma, é essencial identificar o seu domínio exclusivo e, em termos de gestão, conhecer os fatores da responsabilidade coletiva dos empresários e dos órgãos de governo que tornem possível a sua criação. Os viabilizadores ou facilitadores dos clusters são, segundo esse autor, os seguintes:

Definir o cluster, estabelecer o seu significado e promover a sua visibilidade.

É prioritário definir os setores que formam o cluster, estabelecer os indicadores chave de desempenho económica e divulgar esses elementos. Este é um facilitador importante no nível conceptual, orientado principalmente para a perceção de empresários e também de políticos e governantes, de setores laborais, de instituições de formação e do público em geral.

Definir uma política industrial.

Depois de ter sido dada visibilidade ao cluster, é fundamental compreender a sua dinâmica interna e as relações entre os setores e subsetores. É importante que os governantes reconheçam o cluster como um pilar valioso para a economia. A existência de uma política industrial, da responsabilidade do governo, é um facilitador importante para qualquer cluster. Na ausência de tal orientação os empresários sentem-se mais abandonados e ficam mais vulneráveis a se adaptarem à mudança. Fortalecer os setores que incentivam a procura.

Os setores podem dividir-se em dois grupos: os que incentivam a procura e os que estimulam a oferta. Os que incentivam a procura podem adquirir o seu equipamento principal no próprio cluster nacional ou recorrendo ao exterior (como acontece com o setor do transporte). Os que estimulam a oferta estão mais expostos

Etapas de Evolução do Cluster

baratos). A viabilidade e a solidez de um cluster dependem sobretudo dos setores que incentivam a procura. Como exemplo, os governos norueguês e holandês demonstraram um perfeito entendimento da importância dos setores de incentivo à procura, implícito nas suas políticas de apoio ao transporte marítimo.

Vigiar e combater a concorrência desleal.

As empresas e os setores, no seu todo, são confrontados com a concorrência desleal. De facto, não basta ser uma excelente empresa, se houver concorrência desleal (exemplo da construção naval) pode conduzir à sua decadência. Por vezes, as administrações nacionais são suficientes para garantir oportunidades iguais, mas noutras situações é preciso ir mais longe, como aconteceu com a União Europeia (exemplo do setor da construção naval). É, pois, importante vigiar continuamente a concorrência e fazê-lo em cooperação com os seus membros e com as organizações do comércio.

Promover as exportações e a internacionalização.

A dimensão do mercado nacional é muito reduzida, pelo que o crescimento tem de ser apoiado nas exportações e na internacionalização. A competitividade é fundamental para as empresas, setores e cluster no seu todo, de forma a conferir-lhe dinâmica.

Privilegiar a inovação, a investigação e desenvolvimento e as empresas de topo. Apenas é possível às empresas manter uma posição de relevo nas exportações, se procurarem melhorar constantemente os seus produtos, serviços e processos de produção. Para isso, é necessário dispor de uma infraestrutura de investigação e desenvolvimento e de políticas que estimulem os empresários a inovar, a partilhar informação e a correr riscos em conjunto. As empresas de topo constituem as âncoras do cluster, determinam os padrões da procura, estimulam a inovação e promovem o aparecimento de empresas no setor do abastecimento, capazes de assumirem os desafios da inovação e do aperfeiçoamento das outras empresas do cluster.

Formação e mercado de trabalho.

A interligação da formação e do mercado de trabalho é um fator de viabilização do cluster. Só com pessoas de sólida formação e com razoáveis perspetivas de carreira, podem assegurar o futuro do cluster. De facto, só com pessoal de qualidade se podem satisfazer requisitos da gestão moderna e da inovação dos setores. O cluster para ser exequível deve contar com uma infraestrutura de formação de elevado nível, conseguir uma imagem positiva e uma boa comunicação com o público em geral.

Figura 10: A interligação da economia de mercado (adaptado de Economic

Competitiveness Group Inc., 2001)