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A Formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os elementos

Mapa 3 Mapa representando o número de cursos superiores oferecidos (1998-

2.6 A Formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os elementos

A luta contra a expropriação e a exploração dos trabalhadores do campo teve várias frentes de organização, que se fortaleceram principalmente após o período de redemocratização do país na década de 1980. Oliveira (1988) destaca naquele período o fortalecimento e o surgimento de novas frentes de luta pela terra, pautadas na diversidade de suas origens. O campo brasileiro diverso e contraditório, como afirma o mesmo autor, repetimos: constituía-se na luta das nações indígenas, dos posseiros, dos peões, dos camponeses subordinados, dos desapropriados, dos Brasiguaios, dos Sem Terra e a dos boias- frias (OLIVEIRA, 1988).

Apesar da posição do Estado de buscar em alguns momentos desarticular esses movimentos, o que se viu foi o fortalecimento dos mesmos na luta pela terra por todo país. No que tange à luta dos Sem Terra, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) constituiu-se como importante articulador da luta pela terra, fortalecendo-se no debate quanto ao modo de produção na terra de forma coletiva entre as famílias. O MST pode ser considerado, ao longo da trajetória de luta pela terra, como o responsável pela organização nacional e pela descoberta de novas formas de luta pela reconquista da terra (OLIVEIRA, 2004).

Diante desse protagonismo no campo, a seguir, propomo-nos a discorrer sobre a constituição do MST enquanto movimento de luta, o que convergirá para o debate sobre a Educação do Campo.

O MST surge do enfrentamento dos trabalhadores do campo contra o modelo agropecuário instaurado pelo regime militar. O desenvolvimento do capitalismo no campo se apresentava a partir de uma prática de expropriação da terra e exploração do trabalhador, impulsionando a classe trabalhadora, motivada pela efervescência social que se estabelecia, a retomar a luta e estabelecer o seu território.

A redemocratização do país estava em pauta no final de 1970, várias manifestações aconteciam e uma diversidade de mobilizações tomava conta do cenário brasileiro. Os

movimentos de luta no campo se uniam a outros movimentos do campo e da cidade. A bandeira da Reforma Agrária parecia poder novamente ser hasteada, tendo como propósito, além dos direitos trabalhistas, o direito à terra para trabalhadores que haviam sido expropriados de suas terras ou que buscavam a terra de trabalho (MEDEIROS, 2010).

A formação do MST se encontra dentro desse período político de redemocratização, compreendido entre 1978 a 1985. Apesar da articulação do movimento ter se iniciado ainda na década de 1970, oficialmente o Movimento definiu o encontro realizado na cidade de Cascavel (PR), em janeiro de 1984, como sua fundação. Naquele momento histórico, as lutas populares que impulsionaram as mudanças no país rompiam estruturas partidárias existentes e criavam uma nova forma de organização junto aos trabalhadores rurais, iniciando um processo de conquistas na luta pela terra (FERNANDES, 2010).

Em quase quatro décadas desde o início de sua organização, o MST presenciou mudanças conjunturais frente à luta pela terra, indo de um momento de abertura política, que trouxe com a Constituição de 1988 avanços nos direitos sociais, ao distanciamento da política fundiária em face da legitimidade de propriedade no Brasil, que serviu como brecha para que o capital financeiro acumulasse e valorizasse seu patrimônio fundiário, definido legalmente como improdutivo (DELGADO, 2010).

Em Delgado (2010) podemos encontrar esse paradoxo da questão fundiária brasileira vivenciada pelo MST. Nos anos de 1980, com o fim do regime militar, “abre-se uma temporada de oxigenação das forças sociais submetidas a duas décadas de domínio autoritário” (DELGADO, 2010, p. 88), favorecendo a articulação ampla dos movimentos sociais e organizações que se uniam a luta por terra. No século XXI vemos o “relançamento do capital financeiro na agricultura em uma nova aliança do grande capital e da grande propriedade fundiária, sob tutela das políticas públicas”, que favoreceu a “desmobilização das forças sociais normalmente aliadas da Reforma Agrária” (DELGADO, 2010, p. 105)

O que podemos perceber é que o Movimento também foi se reinventando ao longo de sua existência. Em meados da década de 1990, o MST fortaleceu sua identidade como movimento camponês, o que acentuou a questão territorial da luta, haja vista que um “movimento camponês não existe sem os territórios do campesinato” (FERNANDES, 2008, p.3).

O surgimento desses movimentos que se formavam fora dos modelos partidários foi, para Martins (2004, p. 75), “de certo modo uma grande novidade na sociedade brasileira, uma nova forma de expressão social que se combinou com o florescer de novos sujeitos sociais e político.”

Nesse contexto de organização das lutas populares emerge o MST, em consonância com movimentos de luta pela terra já existentes nos estados do Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Além do elemento socioeconômico, indissociável da luta pela terra, o aspecto ideológico foi importante na formação do movimento. O trabalho pastoral realizado pela Igreja Católica através da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Igreja Luterana pode ser reconhecido como responsável por essa formação ideológica e pela reorganização desses movimentos.

A CNBB, por meio da CPT, assume um papel fundamental na organização dos camponeses e trabalhadores rurais que haviam sido expropriados de suas terras e se reuniam dentro das Comunidades Eclesiais de Base (CEB). Junto à Igreja Católica, o MST lutava para que a Reforma Agrária fosse capaz de reparar as injustiças fundiárias da propriedade individual da terra, impostas pela Lei de Terras, e desse aos trabalhadores os direitos coletivos através do uso social do solo (MARTINS, 2004).

Dentro desse viés ideológico houve uma aproximação desses movimentos com as instituições que se apresentavam dentro de uma vertente socialista e entusiasta da Reforma Agrária. A nova organização dos trabalhadores sem terra representada pelo MST se distanciou do sindicalismo defendido pela ULTAB por meio do PCB em anos anteriores e se aproximou da bandeira de luta levantada pelas extintas Ligas Camponesas, que tinham como lema “Reforma Agrária na Lei ou na Marra”. O prisma ideológico do movimento também é atribuído à CPT e à aplicação da Teologia da Libertação, movimento iniciado dentro da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II e que se aproximava das ideias socialistas, inspirando a luta do MST (STÉDILE; FERNANDES, 2012).

As CEBs coordenadas pela CPT nas comunidades foram importantes instrumentos na organização do MST, inspirando, por exemplo, o processo de espacialização e territorialização do movimento através dos trabalhos de base realizado pelo movimento para abrir novas frentes de luta. Durante as reuniões das CEBs, além da parte espiritual realizada por meio das orações e da partilha da palavra bíblica, os agentes pastorais realizavam a organização de diferentes formas de reivindicação, promovendo trabalhos cooperativos e frentes populares capazes de vislumbrar mudanças estruturais. Através desse espaço coletivo de conscientização popular, a questão da terra vai retornando como questão política (POLETTO, 2010).

Em Fernandes (2000,2010), é possível compreender como a espacialização e a territorialização da luta são responsáveis pelo fortalecimento do MST. Neste sentido, o espaço e/ou território são elementos fundantes na formação desse movimento. A espacialização da

luta se dá dentro de um conjunto de fatores organizacionais do movimento (ocupação, trabalho de base, acampamento, negociação política, organicidade), levando a territorialização a se consolidar através da ocupação das terras e da conquista de assentamentos rurais, constituindo assim novos espaços para que o campesinato possa se recriar e reproduzir a luta pela terra.

Enquanto um movimento organizado, o MST vai se constituindo e fortalecendo suas ações. O reflexo do papel do movimento no avanço da Reforma Agrária pode ser observado pelo salto quantitativo apresentado por dados do relatório do INCRA de 2018. Até 1995 somente 58.317 famílias haviam sido assentadas em todo país. Em 1996, foram assentadas 49.912 famílias, número bem próximo do total de famílias assentadas até 1995. Esse número pode ser analisado a partir das políticas iniciadas pelo então presidente Itamar Franco e retomadas no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), que fora seu sucessor, realizando uma expressiva criação de assentamentos.

A partir do ano de 1990 o movimento se fortaleceu em sua estrutura organizativa. O Setor de Educação surge nos primeiros anos do movimento, tendo em vista que desde as primeiras ocupações já havia a preocupação com a presença da escola nos acampamentos e assentamentos. Naquele momento, segundo Dalmagro (2017), duas concepções de escola estavam presentes: “necessidade da escola” e “escola necessária à luta”. A predominância de uma das concepções estava muito ligada ao estágio da luta e ao local onde ela se estabelecia.

Em 1999, a integrante do Setor de Educação do MST e pesquisadora Roseli Salete Caldart defendeu em sua tese de doutorado que o Movimento Sem Terra possuía uma pedagogia própria, que daria ao sem-terra as vivências educativas necessárias para se educar como Sem Terra. Nascia assim a Pedagogia do Movimento, que seria a orientadora dos debates e proposições realizadas pelo Setor de Educação (DALMAGRO, 2017).

Em 2003, o MST inaugurou a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). A escola é referência na formação da militância política do movimento e reconhecida por unir a prática com a teoria política. A ENFF é mantida pelo MST e conta com o apoio de outros movimentos. As atividades desenvolvidas na instituição concentram militantes, simpatizantes e outros agentes sociais interessados no estudo dos clássicos da teoria política. Com a realização de alguns convênios com instituições formais de ensino superior foi possível oportunizar que militantes do campo e da cidade realizassem cursos de graduação e pós-graduação na ENFF (MST, 2020).

À medida que o Setor de Educação vai se fortalecendo dentro do MST, há a necessidade de criar novos setores com uma função social dentro do Movimento. Os setores

internos fazem parte da estrutura organizativa do Movimento e são essenciais na organização da luta pela Reforma Agrária, ao passo que apoia outros movimentos sociais do campo.

A seguir, apresentamos a organização do MST, conforme Fernandes (2002, p.26): COORDENAÇÃO NACIONAL

DIREÇÃO NACIONAL COORDENAÇÃO ESTADUAL

DIREÇÃO ESTADUAL COORDENAÇÕES REGIONAIS

COORDENAÇÃO DOS ASSENTAMENTOS E ACAMPAMENTOS SETORES NACIONAIS

______________|_______________ 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9

1 - Relações internacionais, 2 - Secretaria Nacional, 3 - Sistema Cooperativista dos Assentados, 4 - Frente de massa, 5 - Educação, 6 - Formação, 7 - Comunicação, 8 - Finanças ,

9-Projetos

De acordo com Fernandes (2002, p. 26), “as Coordenações de Assentamentos e Acampamentos são formadas por membros de vários setores [...] “Em nenhuma das instâncias existem cargos tipo: chefes, presidentes, diretores etc. Os dois graus da hierarquia são coordenadores e membros.”

A luta pela terra conduzida pelo MST alcançou 27 estados brasileiros e ainda se mantém sob o lema OCUPAR, RESISTIR e PRODUZIR. Os enfrentamentos pela Reforma Agrária ainda se fazem resistentes, pois, como “movimento” não é possível se manter imóvel diante da luta. A territorialização do MST vai impulsionar algumas proposições ao longo deste trabalho, que, tal como o Movimento, vê a Educação do Campo como uma territorialidade do MST dentro do campo do saber.