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Fun¸ c˜ oes Caracter´ısticas sobre R

No documento T´opicos em Probabilidade Avan¸cada (páginas 126-141)

Nesta se¸c˜ao iremos estudar resultados espec´ıficos para f.c’s definidas sobre R, em particular a importante f´ormula de invers˜ao.

Teorema 7.5. Seja X uma v.a com f.c ϕ. (a) Se E(|X|k) < ∞, ent˜ao a k-´esima derivada ϕ(k)(t) existe, ´e cont´ınua e

ϕ(k)(t) = Z

(ix)keitxdP(x). (7.6)

Tamb´em, ϕ(k)(0) = (i)k·E(Xk).

(b) Seϕ(k)(0) existe e se k´e par, ent˜ao E(|X|k)<∞.

Prova: (a) Vamos dar a prova somente para o casok= 1. Temos ϕ(t+h)−ϕ(t)

h =

Z ei(t+h)x−eitx

h dP.

O m´odulo do integrando ´e limitado por|x|, que ´e intergr´avel por hip´otese; fa¸ca h→ ∞ e use o TCD para obter o resultado.

(b) Parak= 2,

ϕ00(0) = lim

h→0

ϕ(h)−2ϕ(0) +ϕ(−h)

h2 = lim

h→0

1 h2

Z

[eihx−2+e−ihx]dP =−2 lim

h→0

Z 1−coshx h2 dP.

Ent˜ao, Z

x2dP = Z

h→0lim

1−coshx

h2 dP ≤ lim

h→0

Z 1−coshx

h2 dP =−1

00(0)<∞.

Para o caso geral k par, suponha o teorema v´alido para k−2 e defina H(x) = Rx

−∞yk−2dP(y). A fun¸c˜ao H ´e crescente, logoH(x)/H(∞) ´e uma f.d. Sejaψ a f.c.

dessa f.d. Ent˜ao,

122 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS

ψ(t) = Z

eitxdH(x) H(∞) =

Z

eitxxk−2dP(x) H(∞). Aplique o casok= 2 a essa f.c. e obtenha

∞>−1

00(0)≥ Z

x2dH(x) H(∞ =

Z

x2xk−2dP(x)

H(∞ = 1

H(∞

Z

xkdP(x).

Observe que o resultado n˜ao ´e v´alido sekfor ´ımpar.

Exemplo 7.1. ϕ(t) =e−t4 n˜ao ´e uma f.c. A segunda derivada deϕexiste e ´e igual a zero parat= 0. Pela parte (b) do teorema,E(X2)<∞. Por (a)E(X2) = 0, logo X= 0, mas ϕn˜ao ´e na f.c. de X= 0.

Corol´ario 7.2. (Expans˜ao de Taylor). Seja X uma v.a com f.c ϕ e suponha que E(|X|k)<∞. Ent˜ao, para t pr´oximo de zero:

(a)ϕ(t) =Pn k=0

(it)kE(Xk)

k! =o(|t|n).

(b)ϕ(t) =Pn k=1

(it)kE(Xk)

k!nE(|X|n!n)|t|n,

ondeθn´e tal que|θn| ≤1 (Esses resultados valem parat pr´oximo de zero).

Prova: Veja o Problema 12.

Teorema 7.6. (M´etodo dos momentos) Sejam {Xn} v.a’s com distribui¸c˜oes{Pn}.

Suponha E(|Xn|k)<∞, para todok e n. Suponha que:

(a) limn→∞

R xkdPn(x) =µk<∞;

(b) limn→∞n)1/n

n =λ <∞.

Ent˜ao, existe uma medida de probabilidade P e Pn⇒P.

Prova: Sejankqualquer subsequˆencia. Vamos provar que existe outra subsequˆencia n0k tal que Pn0

k

⇒ P, eP ´e uma probabilidade que n˜ao depende das subsequˆencias consideradas. Note que supnR

x2dPn < ∞, por (a). Segue-se que {Pn} ´e uma fam´ılia fechada (veja o Problema 13). Pelo teorema de Prokhorov, existe uma sub-sequˆencia n0k de nk e uma probabilidade P tal que Pn0

k

⇒ P. Provemos que P independe de subsequˆencias. Para cada j, temos que R

XjdPnk → R

XjdP (sabe-mos que Xj

n0k → Xj, em distribui¸c˜ao, logo E(Xj

n0k) → E(Xj), pois {Xn} ´e u.i).

Logo, como R

xjdPn → µj, para todo j, segue-se que todos as P limites tˆem os

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mesmos momentos. Para mostrar queP ´e ´unica, basta mostrar que ´e univocamente determinada por seus momentos.

Se ϕ´e a f.c de P, usando uma expans˜ao de Taylor,

|ϕ(t+h)−ϕ(t)−ϕ0(t)−ϕ(2)(t)h2

2 −. . .−ϕ(k)(t)hk

k! | ≤ E(|X|k+1)|t|k+1 (k+ 1)! , ondeX ´e a v.a com distribui¸c˜ao P. Pela parte (b) e uma aproxima¸c˜ao envolvendo a f´ormula de Stirling, se |t| < 1/(4λ), o lado direito converge para zero, quando k→ ∞.

Conclu´ımos queϕadmite uma expans˜ao de Taylor ao redor de qualquer ponto da reta, ou sejaϕ´e anal´ıtica em uma vizinhan¸ca da reta, de modo que ´e univocamente determinada por sua s´erie de potˆencias ao redor do zero. Mas essa ´e dada por P(it)kE(Xk)

k! , logo P ´e univocamente determinada por seus momentos.

Provaremos, a seguir, a chamada f´ormula de invers˜ao para f.c’s. Uma motiva¸c˜ao para tal f´ormula ´e a seguinte. Para dadaf, satisfazendo determinadas condi¸c˜oes, a transformada de Fourierde f ´e definida por

fˆ(ξ) = Z

−∞

eiξxf(x)dx.

Sabe-se, tamb´em, que sob condi¸c˜oes, temos a transformada inversa de Fourier f(x) = 1

2π Z

−∞

e−iξxfˆ(ξ)dξ.

Se f for uma densidade de probabilidade, com f.d F, ˆf ´e a f.c de f. Ent˜ao, F(b)−F(a) =

Z b a

f(x)dx= Z b

a

[ 1 2π

Z

−∞

e−iξxϕ(ξ)dξ]dx.

Os seguintes fatos s˜ao necess´arios:

(i) R 0

sinx

x dx=π/2;

(ii) lima→−∞,b→∞Rb a

sinx

x dx=π;

(iii) R

−∞

sin(αx) x dx=

(π, α >0 0, α= 0

−π, α <0.

(iv) Rc

−c sin(αx)

x dx´e limitada como fun¸c˜ao dec.

124 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS Teorema 7.7. (F´ormula da invers˜ao) Seja F uma f.d e ϕ a f.c correspondente.

Ent˜ao, para a < b, temos F(b) +F(b−)

2 −F(a) +F(a−)

2 = 1

2π lim

c→∞

Z c

−c

ϕ(t)e−ita−e−itb

it dt. (7.7)

Prova: A integral em (7.7) ´e dada por 1

2π Z c

−c

ϕ(t)e−ita−e−itb

it dt= 1 2π

Z c

−c

e−ita−e−itb it

Z

−∞

eitxdP(x)

dt=

= 1 2π

Z

−∞

"

Z c

−c

eit(x−a)−eit(x−b)

it dt

#

dP(x).

O teorema de Fubini ´e necess´ario, pois

eit(x−a)−eit(x−b) it

e−ita−e−itb it

=

Z b a

eitxdx

≤b−a.

Seja

hc= Z c

−c

eit(x−a)−eit(x−b)

it dt=

Z c

−c

sint(x−a) t dt−

Z c

−c

sint(x−b) t dt, que ´e uma fun¸c˜ao limitada dec, por (iv) acima. Logo, podemos tomar o limite para c→ ∞, sob o sinal da integral, para obter

c→∞lim 1 2π

Z c

−c

ϕ(t)e−ita−e−itb

it dt== 1 2π

Z c

−c

c→∞lim hcdP.

Mas, limc→∞hc=









(−π)−(−π) = 0, x < a 0−(−π) =π, x=a π−(−π) = 2π, a < x < b

π, x=b

0, x > b,

e, portanto, o limite acima fica

1 2π

Z

−∞

c→∞lim hcdP = 1 2π

"

Z

{x=a}

πdF + Z

{a<x<b}

2πdF + Z

{x=b}

πdF

#

=

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= 1

2[F(a)−F(a−)]+[F(b)−F(a)]+1

2[F(b)−F(b−)] = F(b) +F(b−)

2 −F(a) +F(a−)

2 .

Corol´ario 7.3. Duas medidas de probabilidade sobre R, tendo a mesma f.c., s˜ao iguais.

Esse resultado fornece um teorema de unicidade para R. Teorema 7.8. Suponha que R

R|ϕ(t)|dt < ∞, onde ϕ´e a f.c da v.aX. Ent˜ao, X tem uma densidade de probabilidade limitada e cont´ınua.

Prova: (a) SejaF a f.d deX; ent˜ao, F ´e cont´ınua. Tamb´em, F(x+h) +F(x+h−)

2 −F(x) +F(x−)

2 = 1

2π Z

−∞

ϕ(t)e−xt−e−i(x+h)t

it dt.

O integrando ´e limitado por |ϕ(t)|h. Para h → 0 e pelo TCD, o lado esquerdo tende a a zero. Pelo mesmo argumento, F(x)+F2 (x−)F(x−h)+F2 (x−h−) tende a zero, parah→0.

(b) Para mostrar que F ´e deriv´avel, considere F(x+h)−F(x)

h = 1

2π Z

−∞

ϕ(t)e−itx−e−it(x+h)

ith dt.

O integrando ´e limitado por |ϕ(t)|; pelo TCD conclua que F0(x) =f(x) = 1

2πϕ(t)e−itxdx.

Corol´ario 7.4. Se R

R|ϕ(t)|dt <∞, ent˜aoF0(x) existe, ´e limitada e cont´ınua, e F0(x) = 1

2π Z

R

ϕ(t)e−itxdt. (7.8)

Aplica¸c˜oes

[1] Sabe-se que, se 0≤α ≤ε, ent˜ao ϕ(t) =e−|t|α ´e uma f.c (na realidade, essa ´e a f.c de uma distribui¸c˜ao est´avel sim´etrica, veja o Cap´ıtulo 8). Pelo teorema, seX for sim´etrica e est´avel, ent˜ao X tem uma densidade limitada e cont´ınua.

[2] Suponha que Pn ⇒ P, e Pn, P tenham densidades fn, f, respectivamente. Sa-bemos que n˜ao ´e necessariamente verdade que fn(x) → f(x) q.c. Contudo, se R

Rn(t)−ϕ(t)|dt→0, ent˜ao fn(t)→f(t).

126 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS O teorema limite central na sua forma mais simples decorre de uma aplica¸c˜ao das f.c’s.

Teorema 7.9. Sejam X1, X2, . . . v.a’s i.i.d, E(X1) = 0, Var(X1) = 1. Ent˜ao, (X1+. . .+Xn)/√

n→D N(0,1).

Prova: Sejaϕa f.c deX1 eSn=X1+. . .+Xn. Seψn´e a f.c deSn/√

n, mostremos queψn(t)→e−t2/2. Temos que

ψn(t) =Eh eitSn/

ni

=

ϕ t

√n n

=

= [1 +ϕ0(0) t

√n+ϕ00(0) 2! ( t

√n)2+o(t2/n)]n,

pela independˆencia dosXi e usando expans˜ao de Taylor. Mas, ϕ0(0) = i·E(X1) = 0, ϕ00(0) =i2E(X12) =−1, de modo que ψn(t) = [1−t2/(2n) +o(t2/n)]n → et2/2, quando n→ ∞.

Problemas

1. Prove queϕ(t) ´e uniformemente cont´ınua.

2. Prove (7.3).

3. Prove (7.4).

4. Prove (7.5).

5. Prove que a f.c da distribui¸ao de Cauchy padr˜ao (densidade [π(1 +x2)]−1) ´ee−|t|. 6. SejamP, Qprobabilidades sobreR. Prove que: (a) SeP for absolutamente cont´ınua,

ent˜aoP ? Q´e absolutamente cont´ınua; (b) Se P for n˜ao atˆomica,P ? Qtamb´em n˜ao o ser´a.

7. Prove que, se hfor uma fun¸ao integr´avel, ent˜ao Z

h(x)dP ? Q(x) = Z Z

h(x+y)dP(x)dQ(y).

8. (a) Se uma fam´ılia Φ de f.c’s sobreRfor equicont´ınua no zero, ent˜ao a fam´ılia corres-pondente de medidas de probabilidade ´e fechada.

(b) Seja{Qn} uma fam´ılia de f.c’s convergindo uniformemente numa vizinhan¸ca do zero. Prove que existe uma subsequˆencia convergindo para uma f.c.

9. Suponha que (X1, . . . , Xn) seja norma multivariada. Mostre queE(Xn|X1, . . . , Xn−1) = Pn−1

k=1akXk, para constantesak.

[Sugest˜ao: Determineak por meio deE{(XnPn−1

k=1akXk)Xj}= 0.]

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10. Seja{Xn, n1}uma sequˆencia de v.a’s com f.c’sϕn. Suponha quen(t)| →1, para todot, quandon→ ∞. Mostre que existem constantesan tais queXnan converge para zero em lei.

[Sugest˜ao: Simetrize e tome an= mediana{Xn}.]

11. (a) SejamX1, X2, . . .v.a’s i.i.d, m´edia zero e variˆancia 1. Prove que Pn

i=1Xi pPn

i=1Xi2

D N(0,1).

(b) Supomha Xn binomial(n, pn) enpn λ. Prove que Xn converge em distri-bui¸ao paraY Poisson(λ).

(c) Para o TLC simples (Teorema 7.9), prove queSn/

nao converge em probabili-dade, embora convergindo em distribui¸ao.

(d) Sejam X e Y independentes, cada uma normal com variˆancia um. Prove que X+Y eXY ao independentes, usando f.c’s.

12. Prove o Corol´ario 7.2. Use duas vers˜oes da f´ormula de Taylor.

13. Prove que a fam´ılia{Pn}do Teorema 7.6, ´e fechada.

14. Prove a seguinte f´ormula de invers˜ao (mesmo m´etodo de prova do Teorema 7.7):

1

2[F(x) +F(x−)] =1

2 + lim

c→∞,δ↓0

Z c

δ

eitxϕ(−t)e−itxϕ(t)

2πit dt.

15. Seja X uma v.a com f.cϕ. Prove que, seϕ(t) L2 e se X tem densidadef, ent˜ao f L2 e

Z

−∞

f2(x)dx= 1

Z

−∞

|ϕ(x)|2dx.

[Sugest˜ao: Considere a f.c de XX0, sendoX0 independente deX e com a mesma distribui¸ao queX.]

16. SuponhaP probabilidade sobreRcom f.cϕ.

(a) Se P for absolutamente cont´ınua com respeito `a medida de L´ebesgue, ent˜ao lim|t|→∞ϕ(t) = 0;

(b) Se |ϕ(t1)| = 1, para algum t1 6= 0, ent˜ao P ´e concentrada em um conjunto de pontos da formaxn=a+n(2π/t1).

[Sugest˜ao para (a): comece com o caso que a densidade deP ´e uma fun¸ao simples.

Sugest˜ao para (b): existe θ1, tal que 1 = e−iθ1ϕ(t1). Ent˜ao, note que 0 = R [1 cos(t1xθ1)dP(x) e o integrando ´e n˜ao negativo.]

128 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS 17. (Fun¸ao de concentra¸ao de L´evy) SePfor uma probabilidade sobreR, definaQP(ε) = supx∈RP(x+Sε), sendoSεuma esfera fechada de raioεao redor do zero. Prove que:

(a) o supremo ´e atingido,QP(ε)quandoεe limε↑1QP(ε) = 1.

(b) SeP =P1? P2, ent˜aoQP(ε)QP1(ε)QP2(ε).

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Teoremas Limites Centrais

Um teorema limite central (TLC) ´e qualquer teorema que trata da convergˆencia fraca de somas de v.a’s apropriadamente normalizadas. Os teoremas mais conhecidos tratam da convergˆencia de tais somas de vari´aveis independentes, satisfazendo certas condi¸c˜oes. O caso mais simples, visto no cap´ıtulo anterior, trata do caso de v.a’s i.i.d com variˆancia finita. Nessas situa¸c˜oes, a distribui¸c˜ao limite ´e a normal (ou gaussiana).

Para v.a’s que tenham alguma forma de dependˆencia, podemos ter TLC’s sob condi¸c˜oes de independˆencia assint´otica, tamb´em chamadas condi¸c˜es mixing. Por exemplo, temos TLC’s para processos estacion´arios satisfazendo condi¸c˜oesmixing.

H´a situa¸c˜oes em que a distribui¸c˜ao limite n˜ao ´e a normal. Por exemplo, veremos mais adiante, que uma soma normalizada de v.a’s i.i.d converge, em distribui¸c˜ao, para uma v.a est´avel. Tamb´em, o m´aximo de um n´umero finito de v.a’s i.i.d, apro-priadamente normalizado, tende para uma distribui¸c˜ao, chamada distribui¸c˜ao gene-ralizada de valores extremos, que pode ser uma de trˆes tipos: Gumbel, Weibull e Fr´echet.

A primeira vers˜ao de um TLC foi postulada por de Moivre, em 1733, que usou a distribui¸c˜ao normal como aproxima¸c˜ao da distribui¸c˜ao de um n´umero de caras, resultantes de lan¸camentos de uma moeda. Laplace, em 1812, estendeu o resultado de de Moivre, ao aproximar a distribui¸c˜ao binomial pela normal.

O termo “teorema limite central” foi usado pela primeira vez por Polya, em 1920, e ele se referia ao termo “central” como devido `a sua importˆancia em pro-babilidades. De acordo com L. Le Cam, a escola francesa interpretava o termo no sentido que “descrevia o comportamento do centro da distribui¸c˜ao, em oposi¸c˜ao ao comportamento das caudas.”

No Cap´ıtulo 9 trataremos do teorema de Donsker, que trata do limite de certos processos emp´ıricos, `as vezes denominado de TLC funcional. O processo limite ´e chamado uma ponte browniana.

130 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS

8.1 Os Teoremas de Lindeberg e Feller

Para provar o Teorema de Lindeberg precisaremos dos seguintes lemas.

Lema 8.1. Seja C0 a classe das fun¸c˜oes cont´ınuas e limitadas sobre R tais que limx→∞f(x) e limx→−∞f(x) eistem. Seja D a classe de todas as fun¸c˜oes tendo derivadas cont´ınuas e limitadas de qualquer ordem. Ent˜ao, qualquer fun¸c˜ao em C0 pode ser uniformemente aproximada por uma fun¸c˜ao deD(isto ´e,D´e densa em C0 na norma sup).

Prova: Seja f ∈ C0 e para h > 0 defina fh(x) = R

f(t)φh(x−t)dt, sendo φh a densidade da N(0, h). Ent˜ao, fh tem derivadas cont´ınuas e limitadas de qualquer ordem. Tamb´em,

|fh(x)−f(x)| ≤ Z

|f(t)−f(x)φh(x−t)dt= Z

|f(t−x)−f(x)|φh(t)dt.

Tome δ t˜ao pequeno de modo que |f(t) −f(s)| ≤ ε, sempre que |t−s| <

2δ. Separando a ´ultima integral acima em uma integral sobre [−δ, δ] e a outra sobre o complementar desse intervalo, obtemos que a integral ser´a menor ou igual a ε+M[1−Φh(δ) + Φh(−δ)], onde M ´e tal que|f(x)| ≤M, para todox e Φh ´e a f.d da normal. Parah→0, 1−Φh(δ) + Φh(−δ)→0, logo fh(x)−f(x)|< ε.

Lema 8.2. SejamPn, P medidas de probabilidade sobreRe suponha queR

Rf dPn→ R

Rf dP, para todaf tendo derivadas limitas e cont´ınuas de qualquer ordem. Ent˜ao, Pn⇒P.

Prova: Sejam Fn, F as f.d’s correspondentes a Pn, P e seja x um ponto de conti-nuidade deF. Sejaδ >0 arbitr´ario ef uma fun¸c˜ao definida como segue: f(t) = 1, parat≤x,f linear entrex e x+δ e f(t) = 0, parat≥x+δ. Seja fε uma fun¸c˜ao emD, tal que supx|fε(x)−f(x)|< ε. Ent˜ao,

lim sup

n

Fn(x)≤lim sup

n

Z

f dPn≤lim sup

n

Z

(ε+fε)dPn

=ε+ lim sup

n

Z

fεdPn=ε+ Z

fεdP ≤2ε+ Z

f dP ≤2ε+F(x+δ).

Para δ → 0, lim supnFn(x) ≤ 2ε+ F(x), e como ε > 0 arbitr´ario, obtemos lim supnFn(x)≤F(x). Por um argumento similar, obtemos lim infnFn(x)≥F(x), para x ponto de continuidade de F. Basta considerar f como acima, e os pontos x−δ ex na sua defini¸c˜ao, no lugar de x e x+δ.

Theorema 8.1. (Lindeberg) Para cada n, sejam Xn,1, . . . , Xn,kn v.a’s indepen-dentes, com m´edia zero, Var(Xn,j) = σ2n,j. Sejam Sn = Xn,1 + . . .+ Xn,kn e s2n=Pkn

j=1σn,j2 . Suponha que

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n→∞lim 1 s2n

kn

X

j=1

Z

{|Xn,j|>εsn}

|Xn,j|2dPn,j = 0, ∀ε >0. (8.1) Ent˜ao,Sn/snD N(0,1).

A equa¸c˜ao (8.1) ´e chamada condi¸c˜ao de Lindeberg.

Prova: Sejam Xn1, . . . , Xn,kn como no teorema e denotemos por N a v.a com distribui¸c˜ao N(0,1). Pelo Lema 8.2, ´e suficiente provar que

E{f(Sn/sn)} →E{f(N)}, paraf ∈D, (8.2) sendo D a classe definida no Lema 8.1. A ideia da prova ´e: suponha que as v.a’s Xni fossem normais, cada uma N(0, σ2n,i). Ent˜ao,Sn/snseriaN(0,1) e (8.2) valeria nesse caso. Suponha que Yn1, . . . , Yn,kn sejam independentes N(0, σn,i2 ), escolhidas de tal maneira que Xn1, . . . , Xn,kn, Yn1, . . . , Yn,kn sejam independentes.

Vamos substituir, sucessivamente, emSn,Xn,kn, Xn,kn−1,· · ·porYn,kn, Yn,kn−1,· · ·, de tal sorte que E{f(Sn/sn) seja substitu´ıda por E{(f(Yn1 +. . .+Yn,kn)/sn} = E{f(N)}.

Defina g(t) = supx∈R|f(x+t)−f(x)−f0(x)t−f00(x)t2/2|. Ent˜ao, por Taylor,

|g(t)| ≤M1|t|3. Tamb´em, |g(t)| ≤M2t2, poisg(t)≤supx|f(x+t)−f(x)−f0(x)t|+ supx|f00t2/2|.Segue queg(t)≤M(t2∧ |t|3). Note que

|f(x+t1)−f(x+t2)−f0(x)(t1−t2)−f00(x)(t21−t22)/2| ≤g(t1) +g(t2). (8.3) Defina

Zn,k= X

1≤j<k

Xn,j+ X

k<j≤kn

Yn,j. Observe que Zn,kn+Xn,kn=Sn eZn1+Yn1 ∼ N(0, s2n).

Considere

|Ef Sn

sn)

−Ef

Yn1+. . .+Yn,kn sn

| ≤

kn

X

k=1

|Ef

Zn,k+Xn,k sn

−Ef

Zn,k+Yn,k sn

|

kn

X

k=1

Eg Xn,k

sn

+X

Eg Yn,k

sn

, usando (8.3) e os c´alculos seguintes:

132 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS

Ef0(Zn,k(Xn,k−Yn,k)) =Ef0(Zn,k)E(Xn,k−Yn,k) = 0,

usando a independˆencia deXn,k, Yn,kdeZn,keE(Xn,k−Yn,k) = 0. De modo similar, obtemos Ef00(Zn,k(Xn,k2 −Yn,kr)) = 0, notando que E(Xn,k2 −Yn,k2 )) = 0.

Para terminar a prova, mostraremos que cada uma das somas acima tende a zero. Para a primeira,

X

k

Eg Xn,k

sn

=X

k

Z

{|Xnk|≤snε}

g(·)dPnk+X

k

Z

{|Xnk|>snε}

g(·)dPnk

≤MX

k

Z

{|Xnk|≤snε}

|Xnk|3

s2n dPnk+MX

k

Z

{|Xnk|>snε}

|Xnk|2

s2n dPnk

≤M εX

k

Z |Xnk|2

s2n ≤M ε, para todoε >0, levando em conta que a soma ´e igual a um.

Para a segunda soma, escrevendo a integral como a soma de duas integrais, como no caso anterior, ou seja uma sobre {|Ynk| ≤snε} e a outra sobre o complementar desse conjunto, obtemos que

X

k

Eg Ynk

sn

≤εM+MX

k

Z

{|Ynk|>εsn}

|Ynk|2 s2n dPnk. Mas,

X

k

Z

{|Ynk|>εsn}

|Ynk|2

s2n dPnk ≤ 1 ε

X

k

|Ynk|3

s3n dPnk ≤ M2

ε X

k

σnk3 s3n , poisE(|N|3)≤σ3×constant, logo a ´ultima parcela da rela¸c˜ao anterior

M2 ε

X

k

σnk3 s3n ≤ M2

ε max

k

σnk sn

kn

X

k=1

σnk2 s2n ,

notando que a soma ´e igual a um. Logo, ´e suficiente mostrar que maxk σnk

sn → 0, para n → ∞. Mas, σs2nk2

n = s12

nE(Xnk2 ) e quebrando a integral em duas, uma sobre {|Xnk| ≤snδ} e outra sobre o complementar, obtemos que

max

k

σ2nk

s2n ≤δ2+ 1 s2n

Z

{|Xnk|>snδ}

|Xnk|2dPnk,

Morettin - mar¸co/2018

sendo que o segundo termo tende a zero por (8.1). Como δ > 0 ´e arbitr´ario, o resultado segue.

Exemplo 8.1. [1] Sejam {Xn, n≥1} v.a’s i.i.d, m´edia zero e variˆancia comum σ2. Ent˜ao, (X1+. . .+Xn)/(σ√

n)→D N(0,1).

De fato, temos que nesse caso, Xn,j = Xj, kn =n, s2n =nσ2 e a condi¸c˜ao de Lindeberg fica

1 σ2

Z

{|X1|>σ nε}

|X1|2dP →0.

[2] (Teorema de Lyapunov) Com a mesma nota¸c˜ao do Teorema 8.1, suponha que 1

s2+δn kn

X

j=1

E(|Xn,j|2+δ)→0, para algum δ >0. (8.4) Ent˜ao, Sn/snD N(0,1).

Basta observar que 1

s2n

kn

X

j=1

Z

{|Xn,j|>εsn}

|Xn,j|2 ≤ 1 s2+δn εδ

kn

X

j=1

E(|Xn,j|2+δ)→0, para cadaε >0,pois|Xn,j|δ/(εδsδn)>1.

Na condi¸c˜ao de Lindeberg (8.1), substituaXn,iporXn,i/sn=Yn,i, i= 1, . . . , kn. Note quePkn

i=1Var(Yn,i) = 1. Obtemos, ent˜ao, a seguinte reformula¸c˜ao do teorema 8.1. Suponha que

kn

X

i=1

Z

{|yn,i|>ε}

|y|2dPn,i→0, n→ ∞. (8.5) Ent˜ao,Pkn

i=1Yn,iD N(0,1).

Note que se (8.3) vale, ent˜ao

n→∞lim max

k P{|Yn,k|> ε} →0, (8.6) pois maxkP{|Yn,k|> ε} ≤ ε12 Pkn

i=1

R

{|Yn,i>ε}|Yn,i|2dPn,i→0, por (8.3), sendo que a desigualdade segue de Chebyshev.

Se as v.a’s Yn,1, Yn,2, . . . satisfazem (8.4), elas s˜ao chamadas:

(i) u.a.n (uniformly asymptotically negligible - Lo`eve);

134 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS (ii) null array(Feller);

(iii) holouspoudic (Chung).

Teorema 8.2. (Feller) Sejam Xn,1, . . . , Xn,kn v.a’s independentes, de m´edia zero, Var(Xn,i) =σn,i2 , comP

σn,i2 = 1. Seja Sn=Pkn

i=1Xn,i. Suponha que:

(1) Sn

D N(0,1);

(2) limn→∞maxkP{|Xn,k|> ε}= 0, ∀ε >0.

Ent˜ao, Pkn

j=1

R

{|Yn,j|>ε}X2dPn,j →0, n→ ∞.

Prova: A condi¸c˜ao (1) implica que

kn

Y

k=1

ϕnk(t)→e−t2/2, (8.7)

quando n→ ∞, sendo ϕn,k(t) a f.c deXn,k. Provemos, agora, que (2) implica

n→∞lim max

kn,k(t)−1| →0, para cadat. (8.8) De fato,

nk(t)−1| ≤ Z

|eitx−1|dPnk(x)≤ Z

{|Xnk|>ε}

|eitx−1|dPnk(x)+

Z

{|Xnk|≤ε}

|eitx−1|dPnk(x)≤

≤2P{|Xnk|> ε}+ Z

{|Xnk|≤ε}

|tx|dPnk(x)≤2P{|Xnk|> ε}+|t|ε.

Logo,

n→∞lim max

knk(t)−1| ≤2 lim

n→∞max

k P{|Xnk|> ε}+|t|ε→0.

De (8.8), existe um inteiroN(t), tal que paran≥N(t), temos|ϕnk(t)−1| ≤1/2.

Logo, podemos escrever, usando (8.7):

kn

X

k=1

logϕnk(t)→ −t2/2, (8.9)

na qual os logaritmos s˜ao tomados com ˆangulo em (−π, π], e

logϕnk(t) = [ϕnk(t)−1] +M|ϕnk(t)−1|2, (8.10)

Morettin - mar¸co/2018

na qual M tem valor complexo e ´e limitada por 2 em valor absoluto. De fato, pela expans˜ao de Taylor do valor principal de logz, logz = P

k

(−1)k−1

k (z−1)k, que ´e v´alida para|z−1|<1. Logo, como |ϕnk−1|<1/2, obtemos

|logϕnk(t)−(ϕnk(t)−1)| ≤X

k≥2

1

k|ϕnk(t)−1|k≤ |ϕnk(t)−1|2X

k≥2

1 2k. Temos, tamb´em,

X

k≥1

nk(t)−1|2 ≤max

knk(t)−1|X

k

nk(t)−1|. (8.11) Mas

X

k

nk(t)−1| ≤X

k

| Z

(eitx−1)dPnk(x)|=X

k

|

Z t2x2

2 dPnk(x) =t2/2, poisP

kσnk2 = 1. Logo,P

k≥1nk(t)−1|2 →0, paran→ ∞, por (8.11) e (8.8).

Usando esse fato, (8.9) e (8.10), temos que P

klogϕnk(t) → −t2/2, quando k→ ∞, de modo que

X

k

nk(t)−1]→ −t2/2. (8.12) Tome a parte real de (8.12) para obter

X

k

Z

[1−costx]dPnk(x)→ −t2/2.

Portanto,

lim sup|t2 2−X

k

Z

{|Xnk<ε}

[1−costx]dPnk(x)|= lim sup|X

k

Z

{|Xnk|>ε}

[1−costx]dPnk(x)|

≤lim sup|X

k

Z

{|Xnk|>ε}

2dPnk(x)| ≤2 lim supX

k

Z |x|2

ε2 dPnk(x) = 2 ε2. Segue que

2

ε2 ≥lim sup

"

t2

2 −XZ

{|Xnk|<ε}

[1−costx]dPnk(x)

#

136 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS

≥lim sup

"

t2

2 −XZ

{|Xnk|<ε}

t2x2

2 dPnk(x)dnk(x)

# . Ent˜ao,

1

ε2t2 ≥lim sup[1−XZ

{|Xnk|<ε}

x2dPnk(x)]≥0.

Fa¸ca t → ∞, para obter P R

{|Xnk|<ε}x2dPnk(x) → 1. Conclui-se que a soma P

k

R

{|Xnk|>ε}x2dnk(x)→0, pos P

k

R x2dPnk(x) = 1.

O seguinte teorema foi provado independentemente por Berry (1941) e Esseen (1942). Veja Feller (1966) para uma prova.

Teorema 8.3. (Berry-Esseen) Sejam {Xn, n ≥ 1} v.a’s i.i.d, de m´edia zero e variˆancia σ2 e suponha E(|X1|3) < ∞. Seja Fn a f.d de (X1+. . .+Xn)/(σ√

n) e Φa f.d de uma normal padr˜ao. Ent˜ao,

sup

−∞<x<∞

|Fn(x)−Φ(x)| ≤ 33 4

E(|X1|3) σ3

√1 n.

O teorema ´e caso particular de um resultado mais geral. Seja ∆n(x) =|Fn(x)− Φ(x)|. Sob as condi¸c˜oes do teorema (suponhaσ = 1), existe uma constante absoluta C0(δ), para δ∈(0,1], tal que

sup

x

n(x)≤C0(δ)L2+δn , onde L2+δn = E(|X1|2+δ) nδ/2 .

Observe que o teorema anterior ´e um caso particular paraδ= 1. V´arios trabalhos subsequentes foram provados no sentido de tornar mais preciso o limite superior do resultado. Veja Korolev e Shevtsova (2010) para uma resenha hist´orica.

No documento T´opicos em Probabilidade Avan¸cada (páginas 126-141)