Nesta se¸c˜ao iremos estudar resultados espec´ıficos para f.c’s definidas sobre R, em particular a importante f´ormula de invers˜ao.
Teorema 7.5. Seja X uma v.a com f.c ϕ. (a) Se E(|X|k) < ∞, ent˜ao a k-´esima derivada ϕ(k)(t) existe, ´e cont´ınua e
ϕ(k)(t) = Z
(ix)keitxdP(x). (7.6)
Tamb´em, ϕ(k)(0) = (i)k·E(Xk).
(b) Seϕ(k)(0) existe e se k´e par, ent˜ao E(|X|k)<∞.
Prova: (a) Vamos dar a prova somente para o casok= 1. Temos ϕ(t+h)−ϕ(t)
h =
Z ei(t+h)x−eitx
h dP.
O m´odulo do integrando ´e limitado por|x|, que ´e intergr´avel por hip´otese; fa¸ca h→ ∞ e use o TCD para obter o resultado.
(b) Parak= 2,
ϕ00(0) = lim
h→0
ϕ(h)−2ϕ(0) +ϕ(−h)
h2 = lim
h→0
1 h2
Z
[eihx−2+e−ihx]dP =−2 lim
h→0
Z 1−coshx h2 dP.
Ent˜ao, Z
x2dP = Z
h→0lim
1−coshx
h2 dP ≤ lim
h→0
Z 1−coshx
h2 dP =−1
2ϕ00(0)<∞.
Para o caso geral k par, suponha o teorema v´alido para k−2 e defina H(x) = Rx
−∞yk−2dP(y). A fun¸c˜ao H ´e crescente, logoH(x)/H(∞) ´e uma f.d. Sejaψ a f.c.
dessa f.d. Ent˜ao,
122 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS
ψ(t) = Z
eitxdH(x) H(∞) =
Z
eitxxk−2dP(x) H(∞). Aplique o casok= 2 a essa f.c. e obtenha
∞>−1
2ϕ00(0)≥ Z
x2dH(x) H(∞ =
Z
x2xk−2dP(x)
H(∞ = 1
H(∞
Z
xkdP(x).
Observe que o resultado n˜ao ´e v´alido sekfor ´ımpar.
Exemplo 7.1. ϕ(t) =e−t4 n˜ao ´e uma f.c. A segunda derivada deϕexiste e ´e igual a zero parat= 0. Pela parte (b) do teorema,E(X2)<∞. Por (a)E(X2) = 0, logo X= 0, mas ϕn˜ao ´e na f.c. de X= 0.
Corol´ario 7.2. (Expans˜ao de Taylor). Seja X uma v.a com f.c ϕ e suponha que E(|X|k)<∞. Ent˜ao, para t pr´oximo de zero:
(a)ϕ(t) =Pn k=0
(it)kE(Xk)
k! =o(|t|n).
(b)ϕ(t) =Pn k=1
(it)kE(Xk)
k! +θnE(|X|n!n)|t|n,
ondeθn´e tal que|θn| ≤1 (Esses resultados valem parat pr´oximo de zero).
Prova: Veja o Problema 12.
Teorema 7.6. (M´etodo dos momentos) Sejam {Xn} v.a’s com distribui¸c˜oes{Pn}.
Suponha E(|Xn|k)<∞, para todok e n. Suponha que:
(a) limn→∞
R xkdPn(x) =µk<∞;
(b) limn→∞(µn)1/n
n =λ <∞.
Ent˜ao, existe uma medida de probabilidade P e Pn⇒P.
Prova: Sejankqualquer subsequˆencia. Vamos provar que existe outra subsequˆencia n0k tal que Pn0
k
⇒ P, eP ´e uma probabilidade que n˜ao depende das subsequˆencias consideradas. Note que supnR
x2dPn < ∞, por (a). Segue-se que {Pn} ´e uma fam´ılia fechada (veja o Problema 13). Pelo teorema de Prokhorov, existe uma sub-sequˆencia n0k de nk e uma probabilidade P tal que Pn0
k
⇒ P. Provemos que P independe de subsequˆencias. Para cada j, temos que R
XjdPnk → R
XjdP (sabe-mos que Xj
n0k → Xj, em distribui¸c˜ao, logo E(Xj
n0k) → E(Xj), pois {Xn} ´e u.i).
Logo, como R
xjdPn → µj, para todo j, segue-se que todos as P limites tˆem os
Morettin - mar¸co/2018
mesmos momentos. Para mostrar queP ´e ´unica, basta mostrar que ´e univocamente determinada por seus momentos.
Se ϕ´e a f.c de P, usando uma expans˜ao de Taylor,
|ϕ(t+h)−ϕ(t)−ϕ0(t)−ϕ(2)(t)h2
2 −. . .−ϕ(k)(t)hk
k! | ≤ E(|X|k+1)|t|k+1 (k+ 1)! , ondeX ´e a v.a com distribui¸c˜ao P. Pela parte (b) e uma aproxima¸c˜ao envolvendo a f´ormula de Stirling, se |t| < 1/(4λ), o lado direito converge para zero, quando k→ ∞.
Conclu´ımos queϕadmite uma expans˜ao de Taylor ao redor de qualquer ponto da reta, ou sejaϕ´e anal´ıtica em uma vizinhan¸ca da reta, de modo que ´e univocamente determinada por sua s´erie de potˆencias ao redor do zero. Mas essa ´e dada por P(it)kE(Xk)
k! , logo P ´e univocamente determinada por seus momentos.
Provaremos, a seguir, a chamada f´ormula de invers˜ao para f.c’s. Uma motiva¸c˜ao para tal f´ormula ´e a seguinte. Para dadaf, satisfazendo determinadas condi¸c˜oes, a transformada de Fourierde f ´e definida por
fˆ(ξ) = Z ∞
−∞
eiξxf(x)dx.
Sabe-se, tamb´em, que sob condi¸c˜oes, temos a transformada inversa de Fourier f(x) = 1
2π Z ∞
−∞
e−iξxfˆ(ξ)dξ.
Se f for uma densidade de probabilidade, com f.d F, ˆf ´e a f.c de f. Ent˜ao, F(b)−F(a) =
Z b a
f(x)dx= Z b
a
[ 1 2π
Z ∞
−∞
e−iξxϕ(ξ)dξ]dx.
Os seguintes fatos s˜ao necess´arios:
(i) R∞ 0
sinx
x dx=π/2;
(ii) lima→−∞,b→∞Rb a
sinx
x dx=π;
(iii) R∞
−∞
sin(αx) x dx=
(π, α >0 0, α= 0
−π, α <0.
(iv) Rc
−c sin(αx)
x dx´e limitada como fun¸c˜ao dec.
124 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS Teorema 7.7. (F´ormula da invers˜ao) Seja F uma f.d e ϕ a f.c correspondente.
Ent˜ao, para a < b, temos F(b) +F(b−)
2 −F(a) +F(a−)
2 = 1
2π lim
c→∞
Z c
−c
ϕ(t)e−ita−e−itb
it dt. (7.7)
Prova: A integral em (7.7) ´e dada por 1
2π Z c
−c
ϕ(t)e−ita−e−itb
it dt= 1 2π
Z c
−c
e−ita−e−itb it
Z ∞
−∞
eitxdP(x)
dt=
= 1 2π
Z ∞
−∞
"
Z c
−c
eit(x−a)−eit(x−b)
it dt
#
dP(x).
O teorema de Fubini ´e necess´ario, pois
eit(x−a)−eit(x−b) it
≤
e−ita−e−itb it
=
Z b a
eitxdx
≤b−a.
Seja
hc= Z c
−c
eit(x−a)−eit(x−b)
it dt=
Z c
−c
sint(x−a) t dt−
Z c
−c
sint(x−b) t dt, que ´e uma fun¸c˜ao limitada dec, por (iv) acima. Logo, podemos tomar o limite para c→ ∞, sob o sinal da integral, para obter
c→∞lim 1 2π
Z c
−c
ϕ(t)e−ita−e−itb
it dt== 1 2π
Z c
−c
c→∞lim hcdP.
Mas, limc→∞hc=
(−π)−(−π) = 0, x < a 0−(−π) =π, x=a π−(−π) = 2π, a < x < b
π, x=b
0, x > b,
e, portanto, o limite acima fica
1 2π
Z ∞
−∞
c→∞lim hcdP = 1 2π
"
Z
{x=a}
πdF + Z
{a<x<b}
2πdF + Z
{x=b}
πdF
#
=
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= 1
2[F(a)−F(a−)]+[F(b)−F(a)]+1
2[F(b)−F(b−)] = F(b) +F(b−)
2 −F(a) +F(a−)
2 .
Corol´ario 7.3. Duas medidas de probabilidade sobre R, tendo a mesma f.c., s˜ao iguais.
Esse resultado fornece um teorema de unicidade para R. Teorema 7.8. Suponha que R
R|ϕ(t)|dt < ∞, onde ϕ´e a f.c da v.aX. Ent˜ao, X tem uma densidade de probabilidade limitada e cont´ınua.
Prova: (a) SejaF a f.d deX; ent˜ao, F ´e cont´ınua. Tamb´em, F(x+h) +F(x+h−)
2 −F(x) +F(x−)
2 = 1
2π Z ∞
−∞
ϕ(t)e−xt−e−i(x+h)t
it dt.
O integrando ´e limitado por |ϕ(t)|h. Para h → 0 e pelo TCD, o lado esquerdo tende a a zero. Pelo mesmo argumento, F(x)+F2 (x−)−F(x−h)+F2 (x−h−) tende a zero, parah→0.
(b) Para mostrar que F ´e deriv´avel, considere F(x+h)−F(x)
h = 1
2π Z ∞
−∞
ϕ(t)e−itx−e−it(x+h)
ith dt.
O integrando ´e limitado por |ϕ(t)|; pelo TCD conclua que F0(x) =f(x) = 1
2πϕ(t)e−itxdx.
Corol´ario 7.4. Se R
R|ϕ(t)|dt <∞, ent˜aoF0(x) existe, ´e limitada e cont´ınua, e F0(x) = 1
2π Z
R
ϕ(t)e−itxdt. (7.8)
Aplica¸c˜oes
[1] Sabe-se que, se 0≤α ≤ε, ent˜ao ϕ(t) =e−|t|α ´e uma f.c (na realidade, essa ´e a f.c de uma distribui¸c˜ao est´avel sim´etrica, veja o Cap´ıtulo 8). Pelo teorema, seX for sim´etrica e est´avel, ent˜ao X tem uma densidade limitada e cont´ınua.
[2] Suponha que Pn ⇒ P, e Pn, P tenham densidades fn, f, respectivamente. Sa-bemos que n˜ao ´e necessariamente verdade que fn(x) → f(x) q.c. Contudo, se R
R|ϕn(t)−ϕ(t)|dt→0, ent˜ao fn(t)→f(t).
126 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS O teorema limite central na sua forma mais simples decorre de uma aplica¸c˜ao das f.c’s.
Teorema 7.9. Sejam X1, X2, . . . v.a’s i.i.d, E(X1) = 0, Var(X1) = 1. Ent˜ao, (X1+. . .+Xn)/√
n→D N(0,1).
Prova: Sejaϕa f.c deX1 eSn=X1+. . .+Xn. Seψn´e a f.c deSn/√
n, mostremos queψn(t)→e−t2/2. Temos que
ψn(t) =Eh eitSn/
√ni
=
ϕ t
√n n
=
= [1 +ϕ0(0) t
√n+ϕ00(0) 2! ( t
√n)2+o(t2/n)]n,
pela independˆencia dosXi e usando expans˜ao de Taylor. Mas, ϕ0(0) = i·E(X1) = 0, ϕ00(0) =i2E(X12) =−1, de modo que ψn(t) = [1−t2/(2n) +o(t2/n)]n → et2/2, quando n→ ∞.
Problemas
1. Prove queϕ(t) ´e uniformemente cont´ınua.
2. Prove (7.3).
3. Prove (7.4).
4. Prove (7.5).
5. Prove que a f.c da distribui¸c˜ao de Cauchy padr˜ao (densidade [π(1 +x2)]−1) ´ee−|t|. 6. SejamP, Qprobabilidades sobreR. Prove que: (a) SeP for absolutamente cont´ınua,
ent˜aoP ? Q´e absolutamente cont´ınua; (b) Se P for n˜ao atˆomica,P ? Qtamb´em n˜ao o ser´a.
7. Prove que, se hfor uma fun¸c˜ao integr´avel, ent˜ao Z
h(x)dP ? Q(x) = Z Z
h(x+y)dP(x)dQ(y).
8. (a) Se uma fam´ılia Φ de f.c’s sobreRfor equicont´ınua no zero, ent˜ao a fam´ılia corres-pondente de medidas de probabilidade ´e fechada.
(b) Seja{Qn} uma fam´ılia de f.c’s convergindo uniformemente numa vizinhan¸ca do zero. Prove que existe uma subsequˆencia convergindo para uma f.c.
9. Suponha que (X1, . . . , Xn) seja norma multivariada. Mostre queE(Xn|X1, . . . , Xn−1) = Pn−1
k=1akXk, para constantesak.
[Sugest˜ao: Determineak por meio deE{(Xn−Pn−1
k=1akXk)Xj}= 0.]
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10. Seja{Xn, n≥1}uma sequˆencia de v.a’s com f.c’sϕn. Suponha que|ϕn(t)| →1, para todot, quandon→ ∞. Mostre que existem constantesan tais queXn−an converge para zero em lei.
[Sugest˜ao: Simetrize e tome an= mediana{Xn}.]
11. (a) SejamX1, X2, . . .v.a’s i.i.d, m´edia zero e variˆancia 1. Prove que Pn
i=1Xi pPn
i=1Xi2
→D N(0,1).
(b) Supomha Xn ∼ binomial(n, pn) enpn →λ. Prove que Xn converge em distri-bui¸c˜ao paraY ∼ Poisson(λ).
(c) Para o TLC simples (Teorema 7.9), prove queSn/√
nn˜ao converge em probabili-dade, embora convergindo em distribui¸c˜ao.
(d) Sejam X e Y independentes, cada uma normal com variˆancia um. Prove que X+Y eX−Y s˜ao independentes, usando f.c’s.
12. Prove o Corol´ario 7.2. Use duas vers˜oes da f´ormula de Taylor.
13. Prove que a fam´ılia{Pn}do Teorema 7.6, ´e fechada.
14. Prove a seguinte f´ormula de invers˜ao (mesmo m´etodo de prova do Teorema 7.7):
1
2[F(x) +F(x−)] =1
2 + lim
c→∞,δ↓0
Z c
δ
eitxϕ(−t)−e−itxϕ(t)
2πit dt.
15. Seja X uma v.a com f.cϕ. Prove que, seϕ(t)∈ L2 e se X tem densidadef, ent˜ao f ∈L2 e
Z ∞
−∞
f2(x)dx= 1 2π
Z ∞
−∞
|ϕ(x)|2dx.
[Sugest˜ao: Considere a f.c de X−X0, sendoX0 independente deX e com a mesma distribui¸c˜ao queX.]
16. SuponhaP probabilidade sobreRcom f.cϕ.
(a) Se P for absolutamente cont´ınua com respeito `a medida de L´ebesgue, ent˜ao lim|t|→∞ϕ(t) = 0;
(b) Se |ϕ(t1)| = 1, para algum t1 6= 0, ent˜ao P ´e concentrada em um conjunto de pontos da formaxn=a+n(2π/t1).
[Sugest˜ao para (a): comece com o caso que a densidade deP ´e uma fun¸c˜ao simples.
Sugest˜ao para (b): existe θ1, tal que 1 = e−iθ1ϕ(t1). Ent˜ao, note que 0 = R [1− cos(t1x−θ1)dP(x) e o integrando ´e n˜ao negativo.]
128 CAP´ITULO 7. FUNC¸ ˜OES CARACTER´ISTICAS 17. (Fun¸c˜ao de concentra¸c˜ao de L´evy) SePfor uma probabilidade sobreR, definaQP(ε) = supx∈RP(x+Sε), sendoSεuma esfera fechada de raioεao redor do zero. Prove que:
(a) o supremo ´e atingido,QP(ε)↑quandoε↑e limε↑1QP(ε) = 1.
(b) SeP =P1? P2, ent˜aoQP(ε)≤QP1(ε)∧QP2(ε).
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Teoremas Limites Centrais
Um teorema limite central (TLC) ´e qualquer teorema que trata da convergˆencia fraca de somas de v.a’s apropriadamente normalizadas. Os teoremas mais conhecidos tratam da convergˆencia de tais somas de vari´aveis independentes, satisfazendo certas condi¸c˜oes. O caso mais simples, visto no cap´ıtulo anterior, trata do caso de v.a’s i.i.d com variˆancia finita. Nessas situa¸c˜oes, a distribui¸c˜ao limite ´e a normal (ou gaussiana).
Para v.a’s que tenham alguma forma de dependˆencia, podemos ter TLC’s sob condi¸c˜oes de independˆencia assint´otica, tamb´em chamadas condi¸c˜es mixing. Por exemplo, temos TLC’s para processos estacion´arios satisfazendo condi¸c˜oesmixing.
H´a situa¸c˜oes em que a distribui¸c˜ao limite n˜ao ´e a normal. Por exemplo, veremos mais adiante, que uma soma normalizada de v.a’s i.i.d converge, em distribui¸c˜ao, para uma v.a est´avel. Tamb´em, o m´aximo de um n´umero finito de v.a’s i.i.d, apro-priadamente normalizado, tende para uma distribui¸c˜ao, chamada distribui¸c˜ao gene-ralizada de valores extremos, que pode ser uma de trˆes tipos: Gumbel, Weibull e Fr´echet.
A primeira vers˜ao de um TLC foi postulada por de Moivre, em 1733, que usou a distribui¸c˜ao normal como aproxima¸c˜ao da distribui¸c˜ao de um n´umero de caras, resultantes de lan¸camentos de uma moeda. Laplace, em 1812, estendeu o resultado de de Moivre, ao aproximar a distribui¸c˜ao binomial pela normal.
O termo “teorema limite central” foi usado pela primeira vez por Polya, em 1920, e ele se referia ao termo “central” como devido `a sua importˆancia em pro-babilidades. De acordo com L. Le Cam, a escola francesa interpretava o termo no sentido que “descrevia o comportamento do centro da distribui¸c˜ao, em oposi¸c˜ao ao comportamento das caudas.”
No Cap´ıtulo 9 trataremos do teorema de Donsker, que trata do limite de certos processos emp´ıricos, `as vezes denominado de TLC funcional. O processo limite ´e chamado uma ponte browniana.
130 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS
8.1 Os Teoremas de Lindeberg e Feller
Para provar o Teorema de Lindeberg precisaremos dos seguintes lemas.
Lema 8.1. Seja C0 a classe das fun¸c˜oes cont´ınuas e limitadas sobre R tais que limx→∞f(x) e limx→−∞f(x) eistem. Seja D a classe de todas as fun¸c˜oes tendo derivadas cont´ınuas e limitadas de qualquer ordem. Ent˜ao, qualquer fun¸c˜ao em C0 pode ser uniformemente aproximada por uma fun¸c˜ao deD(isto ´e,D´e densa em C0 na norma sup).
Prova: Seja f ∈ C0 e para h > 0 defina fh(x) = R
f(t)φh(x−t)dt, sendo φh a densidade da N(0, h). Ent˜ao, fh tem derivadas cont´ınuas e limitadas de qualquer ordem. Tamb´em,
|fh(x)−f(x)| ≤ Z
|f(t)−f(x)φh(x−t)dt= Z
|f(t−x)−f(x)|φh(t)dt.
Tome δ t˜ao pequeno de modo que |f(t) −f(s)| ≤ ε, sempre que |t−s| <
2δ. Separando a ´ultima integral acima em uma integral sobre [−δ, δ] e a outra sobre o complementar desse intervalo, obtemos que a integral ser´a menor ou igual a ε+M[1−Φh(δ) + Φh(−δ)], onde M ´e tal que|f(x)| ≤M, para todox e Φh ´e a f.d da normal. Parah→0, 1−Φh(δ) + Φh(−δ)→0, logo fh(x)−f(x)|< ε.
Lema 8.2. SejamPn, P medidas de probabilidade sobreRe suponha queR
Rf dPn→ R
Rf dP, para todaf tendo derivadas limitas e cont´ınuas de qualquer ordem. Ent˜ao, Pn⇒P.
Prova: Sejam Fn, F as f.d’s correspondentes a Pn, P e seja x um ponto de conti-nuidade deF. Sejaδ >0 arbitr´ario ef uma fun¸c˜ao definida como segue: f(t) = 1, parat≤x,f linear entrex e x+δ e f(t) = 0, parat≥x+δ. Seja fε uma fun¸c˜ao emD, tal que supx|fε(x)−f(x)|< ε. Ent˜ao,
lim sup
n
Fn(x)≤lim sup
n
Z
f dPn≤lim sup
n
Z
(ε+fε)dPn
=ε+ lim sup
n
Z
fεdPn=ε+ Z
fεdP ≤2ε+ Z
f dP ≤2ε+F(x+δ).
Para δ → 0, lim supnFn(x) ≤ 2ε+ F(x), e como ε > 0 arbitr´ario, obtemos lim supnFn(x)≤F(x). Por um argumento similar, obtemos lim infnFn(x)≥F(x), para x ponto de continuidade de F. Basta considerar f como acima, e os pontos x−δ ex na sua defini¸c˜ao, no lugar de x e x+δ.
Theorema 8.1. (Lindeberg) Para cada n, sejam Xn,1, . . . , Xn,kn v.a’s indepen-dentes, com m´edia zero, Var(Xn,j) = σ2n,j. Sejam Sn = Xn,1 + . . .+ Xn,kn e s2n=Pkn
j=1σn,j2 . Suponha que
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n→∞lim 1 s2n
kn
X
j=1
Z
{|Xn,j|>εsn}
|Xn,j|2dPn,j = 0, ∀ε >0. (8.1) Ent˜ao,Sn/sn→D N(0,1).
A equa¸c˜ao (8.1) ´e chamada condi¸c˜ao de Lindeberg.
Prova: Sejam Xn1, . . . , Xn,kn como no teorema e denotemos por N a v.a com distribui¸c˜ao N(0,1). Pelo Lema 8.2, ´e suficiente provar que
E{f(Sn/sn)} →E{f(N)}, paraf ∈D, (8.2) sendo D a classe definida no Lema 8.1. A ideia da prova ´e: suponha que as v.a’s Xni fossem normais, cada uma N(0, σ2n,i). Ent˜ao,Sn/snseriaN(0,1) e (8.2) valeria nesse caso. Suponha que Yn1, . . . , Yn,kn sejam independentes N(0, σn,i2 ), escolhidas de tal maneira que Xn1, . . . , Xn,kn, Yn1, . . . , Yn,kn sejam independentes.
Vamos substituir, sucessivamente, emSn,Xn,kn, Xn,kn−1,· · ·porYn,kn, Yn,kn−1,· · ·, de tal sorte que E{f(Sn/sn) seja substitu´ıda por E{(f(Yn1 +. . .+Yn,kn)/sn} = E{f(N)}.
Defina g(t) = supx∈R|f(x+t)−f(x)−f0(x)t−f00(x)t2/2|. Ent˜ao, por Taylor,
|g(t)| ≤M1|t|3. Tamb´em, |g(t)| ≤M2t2, poisg(t)≤supx|f(x+t)−f(x)−f0(x)t|+ supx|f00t2/2|.Segue queg(t)≤M(t2∧ |t|3). Note que
|f(x+t1)−f(x+t2)−f0(x)(t1−t2)−f00(x)(t21−t22)/2| ≤g(t1) +g(t2). (8.3) Defina
Zn,k= X
1≤j<k
Xn,j+ X
k<j≤kn
Yn,j. Observe que Zn,kn+Xn,kn=Sn eZn1+Yn1 ∼ N(0, s2n).
Considere
|Ef Sn
sn)
−Ef
Yn1+. . .+Yn,kn sn
| ≤
kn
X
k=1
|Ef
Zn,k+Xn,k sn
−Ef
Zn,k+Yn,k sn
|
≤
kn
X
k=1
Eg Xn,k
sn
+X
Eg Yn,k
sn
, usando (8.3) e os c´alculos seguintes:
132 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS
Ef0(Zn,k(Xn,k−Yn,k)) =Ef0(Zn,k)E(Xn,k−Yn,k) = 0,
usando a independˆencia deXn,k, Yn,kdeZn,keE(Xn,k−Yn,k) = 0. De modo similar, obtemos Ef00(Zn,k(Xn,k2 −Yn,kr)) = 0, notando que E(Xn,k2 −Yn,k2 )) = 0.
Para terminar a prova, mostraremos que cada uma das somas acima tende a zero. Para a primeira,
X
k
Eg Xn,k
sn
=X
k
Z
{|Xnk|≤snε}
g(·)dPnk+X
k
Z
{|Xnk|>snε}
g(·)dPnk ≤
≤MX
k
Z
{|Xnk|≤snε}
|Xnk|3
s2n dPnk+MX
k
Z
{|Xnk|>snε}
|Xnk|2
s2n dPnk ≤
≤M εX
k
Z |Xnk|2
s2n ≤M ε, para todoε >0, levando em conta que a soma ´e igual a um.
Para a segunda soma, escrevendo a integral como a soma de duas integrais, como no caso anterior, ou seja uma sobre {|Ynk| ≤snε} e a outra sobre o complementar desse conjunto, obtemos que
X
k
Eg Ynk
sn
≤εM+MX
k
Z
{|Ynk|>εsn}
|Ynk|2 s2n dPnk. Mas,
X
k
Z
{|Ynk|>εsn}
|Ynk|2
s2n dPnk ≤ 1 ε
X
k
|Ynk|3
s3n dPnk ≤ M2
ε X
k
σnk3 s3n , poisE(|N|3)≤σ3×constant, logo a ´ultima parcela da rela¸c˜ao anterior
M2 ε
X
k
σnk3 s3n ≤ M2
ε max
k
σnk sn
kn
X
k=1
σnk2 s2n ,
notando que a soma ´e igual a um. Logo, ´e suficiente mostrar que maxk σnk
sn → 0, para n → ∞. Mas, σs2nk2
n = s12
nE(Xnk2 ) e quebrando a integral em duas, uma sobre {|Xnk| ≤snδ} e outra sobre o complementar, obtemos que
max
k
σ2nk
s2n ≤δ2+ 1 s2n
Z
{|Xnk|>snδ}
|Xnk|2dPnk,
Morettin - mar¸co/2018
sendo que o segundo termo tende a zero por (8.1). Como δ > 0 ´e arbitr´ario, o resultado segue.
Exemplo 8.1. [1] Sejam {Xn, n≥1} v.a’s i.i.d, m´edia zero e variˆancia comum σ2. Ent˜ao, (X1+. . .+Xn)/(σ√
n)→D N(0,1).
De fato, temos que nesse caso, Xn,j = Xj, kn =n, s2n =nσ2 e a condi¸c˜ao de Lindeberg fica
1 σ2
Z
{|X1|>σ√ nε}
|X1|2dP →0.
[2] (Teorema de Lyapunov) Com a mesma nota¸c˜ao do Teorema 8.1, suponha que 1
s2+δn kn
X
j=1
E(|Xn,j|2+δ)→0, para algum δ >0. (8.4) Ent˜ao, Sn/sn→D N(0,1).
Basta observar que 1
s2n
kn
X
j=1
Z
{|Xn,j|>εsn}
|Xn,j|2 ≤ 1 s2+δn εδ
kn
X
j=1
E(|Xn,j|2+δ)→0, para cadaε >0,pois|Xn,j|δ/(εδsδn)>1.
Na condi¸c˜ao de Lindeberg (8.1), substituaXn,iporXn,i/sn=Yn,i, i= 1, . . . , kn. Note quePkn
i=1Var(Yn,i) = 1. Obtemos, ent˜ao, a seguinte reformula¸c˜ao do teorema 8.1. Suponha que
kn
X
i=1
Z
{|yn,i|>ε}
|y|2dPn,i→0, n→ ∞. (8.5) Ent˜ao,Pkn
i=1Yn,i→D N(0,1).
Note que se (8.3) vale, ent˜ao
n→∞lim max
k P{|Yn,k|> ε} →0, (8.6) pois maxkP{|Yn,k|> ε} ≤ ε12 Pkn
i=1
R
{|Yn,i>ε}|Yn,i|2dPn,i→0, por (8.3), sendo que a desigualdade segue de Chebyshev.
Se as v.a’s Yn,1, Yn,2, . . . satisfazem (8.4), elas s˜ao chamadas:
(i) u.a.n (uniformly asymptotically negligible - Lo`eve);
134 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS (ii) null array(Feller);
(iii) holouspoudic (Chung).
Teorema 8.2. (Feller) Sejam Xn,1, . . . , Xn,kn v.a’s independentes, de m´edia zero, Var(Xn,i) =σn,i2 , comP
σn,i2 = 1. Seja Sn=Pkn
i=1Xn,i. Suponha que:
(1) Sn
→D N(0,1);
(2) limn→∞maxkP{|Xn,k|> ε}= 0, ∀ε >0.
Ent˜ao, Pkn
j=1
R
{|Yn,j|>ε}X2dPn,j →0, n→ ∞.
Prova: A condi¸c˜ao (1) implica que
kn
Y
k=1
ϕnk(t)→e−t2/2, (8.7)
quando n→ ∞, sendo ϕn,k(t) a f.c deXn,k. Provemos, agora, que (2) implica
n→∞lim max
k |ϕn,k(t)−1| →0, para cadat. (8.8) De fato,
|ϕnk(t)−1| ≤ Z
|eitx−1|dPnk(x)≤ Z
{|Xnk|>ε}
|eitx−1|dPnk(x)+
Z
{|Xnk|≤ε}
|eitx−1|dPnk(x)≤
≤2P{|Xnk|> ε}+ Z
{|Xnk|≤ε}
|tx|dPnk(x)≤2P{|Xnk|> ε}+|t|ε.
Logo,
n→∞lim max
k |ϕnk(t)−1| ≤2 lim
n→∞max
k P{|Xnk|> ε}+|t|ε→0.
De (8.8), existe um inteiroN(t), tal que paran≥N(t), temos|ϕnk(t)−1| ≤1/2.
Logo, podemos escrever, usando (8.7):
kn
X
k=1
logϕnk(t)→ −t2/2, (8.9)
na qual os logaritmos s˜ao tomados com ˆangulo em (−π, π], e
logϕnk(t) = [ϕnk(t)−1] +M|ϕnk(t)−1|2, (8.10)
Morettin - mar¸co/2018
na qual M tem valor complexo e ´e limitada por 2 em valor absoluto. De fato, pela expans˜ao de Taylor do valor principal de logz, logz = P
k
(−1)k−1
k (z−1)k, que ´e v´alida para|z−1|<1. Logo, como |ϕnk−1|<1/2, obtemos
|logϕnk(t)−(ϕnk(t)−1)| ≤X
k≥2
1
k|ϕnk(t)−1|k≤ |ϕnk(t)−1|2X
k≥2
1 2k. Temos, tamb´em,
X
k≥1
|ϕnk(t)−1|2 ≤max
k |ϕnk(t)−1|X
k
|ϕnk(t)−1|. (8.11) Mas
X
k
|ϕnk(t)−1| ≤X
k
| Z
(eitx−1)dPnk(x)|=X
k
|
Z t2x2
2 dPnk(x) =t2/2, poisP
kσnk2 = 1. Logo,P
k≥1|ϕnk(t)−1|2 →0, paran→ ∞, por (8.11) e (8.8).
Usando esse fato, (8.9) e (8.10), temos que P
klogϕnk(t) → −t2/2, quando k→ ∞, de modo que
X
k
[ϕnk(t)−1]→ −t2/2. (8.12) Tome a parte real de (8.12) para obter
X
k
Z
[1−costx]dPnk(x)→ −t2/2.
Portanto,
lim sup|t2 2−X
k
Z
{|Xnk<ε}
[1−costx]dPnk(x)|= lim sup|X
k
Z
{|Xnk|>ε}
[1−costx]dPnk(x)|
≤lim sup|X
k
Z
{|Xnk|>ε}
2dPnk(x)| ≤2 lim supX
k
Z |x|2
ε2 dPnk(x) = 2 ε2. Segue que
2
ε2 ≥lim sup
"
t2
2 −XZ
{|Xnk|<ε}
[1−costx]dPnk(x)
#
136 CAP´ITULO 8. TEOREMAS LIMITES CENTRAIS
≥lim sup
"
t2
2 −XZ
{|Xnk|<ε}
t2x2
2 dPnk(x)dnk(x)
# . Ent˜ao,
1
ε2t2 ≥lim sup[1−XZ
{|Xnk|<ε}
x2dPnk(x)]≥0.
Fa¸ca t → ∞, para obter P R
{|Xnk|<ε}x2dPnk(x) → 1. Conclui-se que a soma P
k
R
{|Xnk|>ε}x2dnk(x)→0, pos P
k
R x2dPnk(x) = 1.
O seguinte teorema foi provado independentemente por Berry (1941) e Esseen (1942). Veja Feller (1966) para uma prova.
Teorema 8.3. (Berry-Esseen) Sejam {Xn, n ≥ 1} v.a’s i.i.d, de m´edia zero e variˆancia σ2 e suponha E(|X1|3) < ∞. Seja Fn a f.d de (X1+. . .+Xn)/(σ√
n) e Φa f.d de uma normal padr˜ao. Ent˜ao,
sup
−∞<x<∞
|Fn(x)−Φ(x)| ≤ 33 4
E(|X1|3) σ3
√1 n.
O teorema ´e caso particular de um resultado mais geral. Seja ∆n(x) =|Fn(x)− Φ(x)|. Sob as condi¸c˜oes do teorema (suponhaσ = 1), existe uma constante absoluta C0(δ), para δ∈(0,1], tal que
sup
x
∆n(x)≤C0(δ)L2+δn , onde L2+δn = E(|X1|2+δ) nδ/2 .
Observe que o teorema anterior ´e um caso particular paraδ= 1. V´arios trabalhos subsequentes foram provados no sentido de tornar mais preciso o limite superior do resultado. Veja Korolev e Shevtsova (2010) para uma resenha hist´orica.