IV. EXEMPLOS DE TRANSFERÊNCIAS INTERGOVERNAMENTAIS NO BRASIL
4.2. Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte (FNO), Nordeste (FNE) e Centro-Oeste (FCO).
Os recursos destinados ao financiamento regional encontram-se previstos no art. 159, inciso I, alínea c, da Constituição Federal de 1988, que dispõe:
I – do produto da arrecadação dos impostos sobre renda e proventos de qualquer natureza e sobre produtos industrializados quarenta e oito por cento da seguinte forma:
(...)
c) três por cento, para aplicação em programas de financiamento ao setor produtivo das Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, através de suas instituições financeiras de caráter regional, de acordo com os planos regionais de desenvolvimento, ficando assegurada ao semi-árido do Nordeste a metade dos recursos destinados à Região, na forma que a lei estabelecer;
Assim, com base nesse dispositivo constitucional, foi editada a Lei nº 7.827, de 27 de setembro de 1989, criando o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste — FCO, o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste - FNE e o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte — FNO209. A Lei nº 10.177/2001 introduziu algumas modificações na sistemática desses Fundos, em especial na utilização dos recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento, reduzindo os encargos das operações.
Assim, esses Fundos contam com uma fonte permanente de recursos, correspondente a 3% da arrecadação do Imposto sobre a Renda e proventos de qualquer Natureza (IR) e sobre Produtos Industrializados (IPI). Além desses recursos previstos na Constituição Federal de 1988, o artigo 6º da Lei nº 7.827, de 1989, determina outras fontes de recurso, quais sejam: (i) os retornos e resultados de suas aplicações; (ii) o resultado da remuneração dos recursos momentaneamente não aplicados, calculado com base em indexador oficial; (iii) contribuições, doações, financiamentos e recursos de outras origens, concedidos por entidades de direito público ou privado, nacionais ou estrangeiras e (iv) dotações orçamentárias ou outros recursos previstos em lei.
209 Nos termos do art. 2º da Lei nº 7.827, de 1989, temos que “os Fundos Constitucionais de Financiamento do
Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm por objetivo contribuir para o desenvolvimento econômico e social das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, através das instituições financeiras federais de caráter regional, mediante a execução de programas de financiamento aos setores produtivos, em consonância com os respectivos planos regionais de desenvolvimento”.
Nos termos do parágrafo único do artigo 6º da Lei nº 7.827, de 1989, no que se refere ao percentual de 3% fruto da arrecadação do IR e do IPI, deverá ser observada a seguinte distribuição entre os três Fundos: 0,6% para o FCO, 1,8% para o FNE e 0,6% para o FNO.
Esses recursos são repassados decendialmente pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) ao Ministério da Integração Nacional, que os transfere para as instituições financeiras de caráter regional e para o Banco do Brasil210.
A administração dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte, Nordeste e Centro- Oeste será distinta e autônoma e exercida pelos seguintes órgãos: (i) Conselho Deliberativo das Superintendências de Desenvolvimento da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste, (ii) Ministério da Integração Nacional e (iii) instituição financeira de caráter regional e Banco do Brasil (art. 13 da Lei nº 7.827, de 1989). O Conselho Deliberativo é o órgão gestor, estabelecendo, anualmente, as diretrizes, prioridades e programas de financiamento dos Fundos Constitucionais de Financiamento, em consonância com o respectivo plano regional de desenvolvimento.
Nos termos do art. 4º da Lei n º 7.827, de 1989, são beneficiários dos recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte, Nordeste e Centro-Oeste os produtores e empresas, pessoas físicas e jurídicas, além das cooperativas de produção que desenvolvam atividades produtivas nos setores agropecuário, mineral, industrial e agroindustrial das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
210 “Art. 16. O Banco da Amazônia S.A. - Basa, o Banco do Nordeste do Brasil S.A. - BNB e o Banco do Brasil
S.A. - BB são os administradores do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte - FNO, do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste - FNE e do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro- Oeste - FCO, respectivamente.
§ 1° O Banco do Brasil S.A. transferirá a administração, patrimônio, operações e recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste - FCO para o Banco de Desenvolvimento do Centro-Oeste, após sua instalação e entrada em funcionamento, conforme estabelece o art. 34, § 11, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”.
Percebe-se que, ao destinar parte da arrecadação tributária para as regiões mais carentes, a União propiciou a criação desses Fundos Constitucionais de Financiamento, com o principal objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social daquelas regiões, por intermédio de programas de financiamento aos setores produtivos.
Em consonância com a missão dos Fundos Constitucionais de Financiamento e com as diretrizes e metas estabelecidas para o desenvolvimento das regiões beneficiárias, os programas de financiamento buscam maior eficácia na aplicação dos recursos, de modo a aumentar a produtividade dos empreendimentos, gerar novos postos de trabalho, elevar a arrecadação tributária e melhorar a distribuição de renda.
Respeitadas as disposições dos planos regionais de desenvolvimento, na formulação dos programas de financiamento, devem ser observadas, dentre outras, as seguintes diretrizes: (i) o financiamento é concedido exclusivamente aos setores produtivos das regiões beneficiadas; (ii) será dado atendimento preferencial às atividades produtivas de mini e pequenos produtores rurais e de micro e pequenas empresas cujas atividades utilizem intensivamente matérias- primas e mão de obra locais e à produção de alimentos básicos para a população; (iii) a ação deve estar integrada às instituições federais sediadas nas regiões e (iv) o empreendimento precisa levar em conta a preservação do meio ambiente. Será dado, ainda, apoio à criação de novos centros, atividades e pólos de desenvolvimento que possam reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões (art. 3º da Lei nº n º 7.827, de 1989).
O foco de atuação do FCO, do FNE e do FNO são, respectivamente, as áreas da Região Centro-Oeste, as da Região Nordeste e Municípios dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, incluídos na área de atuação da extinta Sudene e as áreas da Região Norte211.
211 “Art. 5° Para efeito de aplicação dos recursos, entende-se por:
I - Norte, a região compreendida pelos Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Roraima, Rondônia, e Tocantins;
II - Nordeste, a região abrangida pelos Estados do Maranhão, Piauí, Ceára, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além das partes dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo incluídas na área de atuação da Sudene;
III - Centro-Oeste, a região de abrangência dos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal;
Não obstante o artigo 3º, inciso III, da CF/88 estabelecer que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil seja a redução das desigualdades sociais e regionais do nosso País, o fato é que, a despeito de atitudes como a criação desses Fundos de Financiamento Regional, ainda estamos longe de atingir esses objetivos.
Os Fundos de Financiamento Regional têm sido apenas parcialmente capazes de promover uma redistribuição regional de recursos fiscais eficiente, tendo em vista que os recursos provêm de Estados mais desenvolvidos (face a maior arrecadação do IR e do IPI nessas localidades), mas a sua aplicação não se dá primordialmente nos Estados menos desenvolvidos.
Marcos Mendes, Rogério Boueri Miranda e Fernando Blanco Cosio, em interessante estudo sobre o tema, afirmam que, no ano-calendário de 2006, os maiores receptores de recursos, em termos per capita, foram Mato Grosso do Sul, Tocantins, Sergipe, Goiás e Bahia. Entretanto, as unidades federativas com maior recebimento per capita não são as de menor PIB estadual
per capita. Esse fenômeno pode ser explicado, em parte, pois os recursos não são direcionados
para as unidades federativas e sim para os beneficiários, conforme determinação legal212. Assim, não é possível mensurar uma relação clara entre o saldo dos empréstimos per capita e o nível de desenvolvimento dos estados receptores.
Os autores afirmam, ainda, que, em análise realizada por região e por porte das empresas tomadoras de recursos, só foram detectados efeitos positivos no caso de microempresas da região Nordeste. Nas demais regiões e tipos de empresas, as empresas receptoras dos empréstimos não geraram, em média, mais empregos do que aquelas que não utilizaram essa forma de financiamento213.
IV - semi-árido, a região natural inserida na área de atuação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - Sudene, definida em portaria daquela Autarquia”.
212 Op. cit. p. 102. 213
Embora haja uma prioridade nos empréstimos a micros e pequenos produtores rurais, micros e pequenas empresas industriais, o crédito acaba sendo direcionado para os municípios mais desenvolvidos. Dessa forma, os fundos constitucionais de financiamento terminam por reforçar a tendência de concentração dos investimentos privados nas áreas mais dinâmicas de cada região214.
Assim, uma conclusão possível é que os empréstimos dos fundos constitucionais de financiamento não se direcionam de forma prioritária para os estados mais pobres ou para os municípios mais pobres, mas para empreendimentos selecionados em áreas já privilegiadas. Isso pode implicar um aumento da desigualdade intrarregional, pois os empréstimos estão sendo direcionados, sobretudo, para áreas de maior dinamismo econômico nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Assim, tais recursos poderiam ser destinados não a investimentos privados nas áreas incentivadas, mas para financiar investimentos públicos em infra estrutura, aspecto sabidamente carente nessas regiões. Tais recursos poderiam ser utilizados para reduzir desvantagens comparativas dos estados menos desenvolvidos nas áreas de transporte, telecomunicações e energia, reduzindo os custos de acesso de sua produção aos grandes centros consumidores do Sul e do Sudeste ou mesmo para exportação. Esses estados menos desenvolvidos poderiam, assim, utilizar em seu favor as suas vantagens comparativas, por exemplo, o custo de mão de obra menor, de modo a baratear o seu produto. Trata-se, entretanto, de sugestão que demanda alteração da legislação constitucional e infra constitucional.