“Hoje eu não fui trabalhar, porque a Vera e o José Carlos estão doentes. Eu fui vender uns ferros e um pouco de estopa. Ganhei só 31 cruzeiros” (Carolina Maria de Jesus, 2007, p. 169).
Nos últimos anos houve um crescente número de estudos que tratam gênero, raça e classe de forma interligada. As perspectivas da interseccionalidade e da consubstancialidade, cunhadas nos EUA e na França, respectivamente, auxiliam a reflexão articulada. Outra ferramenta analítica na mesma perspectiva é a ideia do Nó, cunhada por Saffioti no Brasil.
Como esta pesquisa foi realizada no Brasil, discutiremos as análises que apreendem a articulação a partir de um enfoque do processo histórico social, já que existe uma relação contextual sobre os processos reais e a formação de agentes e grupos sociais. A gênese e a operação das relações de exploração/dominação que englobam gênero, raça e classe precisam ser entendidas em cada contexto nacional, “Estas reflexões sobre as interações entre processos de formação de classes sociais e raças, ou entre estruturas de classe e de raças, devem ser situadas, pois, no quadro mais geral do processo de formação nacional brasileiro” (Guimarães, 2016, p. 162). Isso quer dizer que tais processos têm interações e determinações múltiplas.
A simples constatação de que a maioria nas cooperativas de catadoras e catadores de materiais recicláveis são mulheres, sendo a maior parte negra, poderia ser suficiente para uma proposta de pesquisa que envolvesse a articulação das categorias de classe, raça e gênero. Para além dessa constatação, visível a olhos cujas lentes estejam ajustadas para tais questões, as conversas travadas com essas trabalhadoras e a pesquisa feita durante o I Encontro Estadual de mulheres organizado pela SEMUC também apontaram a necessidade de uma visão interseccional. O importante é situar como a experiência em um trabalho que é fortemente estigmatizado, desvalorizado e pouco reconhecido no interior da sociedade brasileira se interconecta com as diferenciações de gênero e raça. É preciso fazer o esforço de compreender a vivência das catadoras com o olhar focado nas articulações, de modo a perceber como cada uma delas se forma na sua particularidade. A construção da identidade das mulheres catadoras é algo que cada uma realiza a partir da sua própria experiência e das representações da experiência coletiva na sua interação social com os outros e as outras (NASCIMENTO, 2003). A identidade é, portanto, um processo histórico- social: construída a partir de elementos históricos, culturais, religiosos e psicológicos. “Isso tudo não seria problema se a diferença não fosse tida e vivida como inferioridade na cultura ocidental, o que implica dizer que identidade é também algo que se constrói em oposição a alguma coisa, pressupondo, portanto, o outro” (CARNEIRO, 1994, p. 187).
Ainda que a imbricação de gênero, raça e classe, tenha sido percebida nas entrevistas, não se pode negar a incidência concreta destas relações no cotidiano das mulheres, considerando também a sua prerrogativa em organizar um encontro só para as mulheres, no qual as questões de gênero e de raça foram colocadas, assim como as questões de classe, principalmente a partir das experiências no trabalho com a catação.
A ideia de experiência, nos termos de Thompson, também é fundamental uma vez que interessa entender a agência das mulheres catadoras, no seu trabalho e especificamente na organização política, via SEMUC.
A intenção é apreender de que forma características raciais e de gênero operam como marcas sociais que hierarquizam posições e justificam a marginalização de grandes contingentes da população seja do sistema de produção seja da estrutura de poder da sociedade (SAFFIOTI, 2013).
Por outro lado, ainda que compreenda a formação de uma sociedade estruturalmente desigual, onde inclusive características de gênero e raça atuam com um importante papel de hierarquia e dominação, é importante pensar os processos de organização e articulação que as pessoas constroem para resistirem à sua situação social. Interessa entender como essas pessoas, a partir da sua situação social, se consolidam como grupos sociais, como movimentos reivindicatórios e como sujeitos políticos. Isso posto, o desafio teórico-prático é conseguir fazer a análise articulada num movimento que venha da teoria para prática e da prática para a teoria.
Com a intenção de facilitar o entendimento da análise propomos um aporte inicial sobre cada um dos conceitos (gênero, raça e classe). É importante colocar que para a perspectiva aqui defendida a separação dessas três categorias só é possível de ser feita no campo analítico, pois na realidade prática todas as dimensões estão interligadas (Saffioti, 1999, 2004, Kergoat, 2010, 2016). 2.1) Gênero e relações sociais de sexo
Foi a partir da década de 1960 que as teóricas feministas fizeram as primeiras formulações sobre o conceito de gênero. Haraway (2004) coloca o momento de apropriação do termo gênero como uma tentativa de mostrar que havia uma construção cultural em torno do entendimento do que era ser homem e mulher. Tal concepção se colocava em contraposição às ideias naturalizadas das diferenças entre homens e mulheres na sociedade. O termo gênero surgiu em contraposição ao determinismo biológico implícito nas noções de “sexo”, “diferença sexual” e “papel social”.
Foi na década de 1970, entretanto, com a segunda onda do movimento feminista que o conceito ganhou amplitude. No interior do movimento feminista o uso do conceito de gênero emergiu como uma crítica a uma visão homogênea e universal de “mulher”. Questionava-se a universalidade da opressão sofrida pelas mulheres e da ideia de patriarcado como origem dessa opressão. Além disso, a difusão do conceito de gênero permitiu que as análises feministas
trabalhassem não só com a heterogeneidade das mulheres, sem se centrarem apenas nelas51, já que
tal conceito mostra como as relações de gênero são construídas por homens e mulheres (PISCITELLI, 2002; SCOTT, 1995).
Foi na década de 1980 que se começou a disseminar o uso do termo gênero para pensar as desigualdades e diferenças nas relações de poder e no uso do masculino e do feminino como discurso na realidade social.
Dessa forma, trabalharemos com a ideia de que as relações de gênero são uma construção social, e devem ser analisadas não a partir das diferenças biológicas, mas da construção cultural em torno do que é ser homem e do que é ser mulher (SCOTT, 1995; HARAWAY, 2004). O surgimento do conceito de gênero abriu novas perspectivas metodológicas pois se consolidou uma noção social e cultural de gênero que passa por diferentes aspectos do social, devendo ser visto, portanto, de forma transversal (MACHADO, 1998).
Por outro lado, as feministas francesas, nesse debate, optaram pela utilização do termo “relações sociais de sexo”. Daniele Kergoat argumenta que a utilização de tal concepção se insere numa leitura materialista52 e histórica, percebendo a relação social de sexo como uma “relação de
produção material e ideal” (KERGOAT, 2010, p. 94). Para Kergoat (2009) as relações sociais de sexo estão presentes em todas as sociedades e estruturam o campo social, sendo assim, elas devem ser levadas em conta para as análises das relações de dominação.
Uma importante questão trazida pelas feministas francesas é a diferenciação entre apropriação e exploração. Segundo Guillaumin (2005) as relações sociais de sexo são relações de apropriação física e direta, individual e coletiva. Para a autora os meios de apropriação são: o mercado de trabalho, confinamento no espaço (restrição da mobilidade); violência; coação sexual (isso para as mulheres, principalmente); sistema jurídico (privação de direitos). A diferença relevante entre apropriação e exploração é que na apropriação está sendo apropriada a pessoa inteira e não somente a sua força de trabalho, colocando uma dificuldade de medir tal apropriação.
Além disso, outra questão que as feministas francesas colocaram nesse debate foi a relação indissociável entre as relações sociais de sexo e a divisão sexual do trabalho, explicitando a partir de tal categoria uma necessidade de revisão da teoria do trabalho no capitalismo (nos moldes de Marx). As autoras fizeram transparecer uma esfera do trabalho que é historicamente invisibilizada nas análises: o trabalho doméstico. Essas autoras situaram a importância do trabalho realizado pelas mulheres (de forma gratuita, invisibilizada e desvalorizada) para a continuidade de uma sociedade fundada na exploração do trabalho e, a partir da divisão sexual do trabalho, apontaram
51 Para uma análise detalhada do debate sobre a questão de gênero e a categoria mulher ver PISCITELLI 2002.
52 É interessante notar que essas autoras se intitulam materialistas e não marxistas. Isso porque se utilizam de
ferramentas de Marx e do marxismo, mas também são críticas à cegueira dessa vertente teórica sobre as relações de gênero.
que o tempo do assalariamento é condicionado pelo tempo do trabalho doméstico, colocando a necessidade de “tratar a produção do viver não como um efeito secundário da valorização do capital, ou como pura satisfação de necessidades vitais, mas como um questionamento social que permite estabelecer uma ponte entre as diferentes esferas da sociedade” (HIRATA e ZARIFAN, 2009, p. 256). A divisão sexual do trabalho é a separação entre as esferas produtivas e reprodutivas do trabalho, sendo esta última com baixo valor social agregado. Segundo Kergoat (2009: 67) a divisão sexual do trabalho é:
A forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo; essa forma é historicamente adaptada a cada sociedade. Tem por características a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a ocupação pelos homens das funções de forte valor social agregado.
Dessa forma, mesmo antes da proposição sobre articulação das relações de gênero, raça e classe, o debate sobre a necessidade de se considerar as relações de gênero para as análises das desigualdades sociais já foi trazido por essas pesquisadoras. Muitos estudos53 revelaram que uma
análise somente focada na exploração do trabalho não dava conta de entender as desigualdades de gênero, já que o conceito de exploração, a partir da existência das classes sociais, não explicava a opressão vivida pelas mulheres. Essas autoras explicitaram a dimensão estrutural das relações de gênero mostrando que a classe trabalhadora tem dois sexos e que era preciso olhar para as diferenças sociais construídas em torno disso. Dessa forma, foi fundamental a compreensão de que: “As relações de classe e as relações de sexo são, portanto, relações estruturantes e fundamentais da sociedade, em oposição a outras relações que são relações contingentes” (HIRATA e KERGOAT, 1994, p. 94). Por isso as desigualdades de gênero – das variadas formas que se desenvolveram e ainda se desenvolvem – devem ser pensadas no contexto das desigualdades sociais.
No Brasil, nos anos 1980 houve a incorporação da categoria gênero e da concepção da divisão sexual do trabalho nos estudos do mundo do trabalho. Houve uma redefinição da relação entre classe e gênero. Isso permitiu pensar os diferentes impactos que a mudança tecnológica nas formas de organização e gestão do trabalho traziam para homens e mulheres. Nos anos 1990, os estudos sobre a reestruturação do capitalismo deram um novo impulso para os estudos das relações de gênero no trabalho54. Era necessário entender se e como as mudanças na gestão da força de
trabalho, novas identidades das(os) trabalhadoras(es), as subjetividades e as políticas sociais trouxeram consequências diferentes para mulheres e homens (ARAUJO, 2005).
53 Muitos estudos já foram feitos apontando para a necessidade de analisar a classe trabalhadora a partir da perspectiva
das relações de gênero, visto que é composta por homens e mulheres. Ver: SOUZA-LOBO,1991; HIRATA 2002; HIRATA & KERGOAT, 1994.
Para a análise das relações de gênero no universo da catação é importante levarmos em conta as alterações nas relações de trabalho ocorridas nos últimos anos. Já existem pesquisas que, analisando as mudanças no mercado de trabalho a partir da variável de gênero, indicam a persistência da desigualdade entre homens e mulheres. Se por um lado houve o crescimento da ocupação feminina em profissões executivas e intelectuais de nível superior, por outro lado o crescimento do trabalho precário, em tempo parcial, mal pago e sem grandes perspectivas de carreira, atingiu, sobretudo as mulheres. Segundo Araujo e Lombardi (2013: 463) no período de 2001 a 2009
Enquanto a ocupação total masculina cresceu 2,07% ao ano, 4,34% no formal e 0,26% no informal, a feminina cresceu 3,28% ao ano, 4,99% no formal e 1,91% no informal. Portanto, da perspectiva da força de trabalho feminina, pode-se dizer que houve melhoria, na medida em que se teve um incremento importante da ocupação e um contínuo acréscimo da parcela feminina absorvida pelo mercado formal. A desigualdade de gênero é reforçada ao se identificar que, mesmo crescendo menos que o emprego formal, a informalidade absorveu mais mulheres do que homens.
Essas informações complexificam a análise das mudanças no trabalho das(os) catadoras(es) de materiais recicláveis, pois a dimensão de gênero constitui um importante fator para a análise das questões relacionadas ao ingresso majoritário das mulheres nas cooperativas e associações de catadoras(es), refletindo sobre os processos de mudança e continuidade das desigualdades, já que
As formas típicas de contrato, a crescente informalidade, a precarização e a deteriorização das condições de trabalho incidem de forma especial e mais aguda sobre as trabalhadoras. Para elas, as novas formas de segregação e precarização se sobrepõem aos antigos mecanismos de exclusão de gênero, potencializando-os (ARAUJO, 2005, p. 94).
Essa questão assume uma importância específica no trabalho cooperado, pois deve-se refletir sobre o porquê as pessoas, sobretudo as mulheres, optam pelo trabalho nas cooperativas e associações. De acordo com Araujo (2012) isso ocorre geralmente por conta da dificuldade de ingresso no mercado de trabalho, caso das mulheres com baixa qualificação e escolaridade ou em idade avançada.
É no contexto do debate das relações e desigualdades de gênero que emerge a reflexão sobre a articulação com raça e classe, as autoras feministas brasileiras inseridas nesse debate já traziam o debate sobre classe e gênero. Faltava, entretanto, incorporar a questão racial e colocar o debate em outra perspectiva, a da interseccionalidade/ consubstancialidade/nó.
2.2) Patriarcado como categoria de análise
O termo patriarcado é utilizado há bastante tempo e de diversas formas; segundo Delphy (2009) podemos pensar ao menos três sentidos para ele: o religioso (e de origem mais antiga), designando os dignitários da Igreja, onde “os patriarcas são os primeiros chefes de família que viveram antes e depois do Dilúvio” (DELPHY, 2009, p.174). O segundo sentido tem a ver com o modo de produção, comunidades agrícolas e familiares de produção e foi utilizado por autores do século XIX quando se referem ao modo de vida camponês, das pequenas comunidades agrícolas compostas de unidades de produção familiar regidas pelo chefe de família, sob a autoridade dos antepassados. E o terceiro e último sentido, que é o que nos interessa, é a acepção feminista do patriarcado, que indica a dominação masculina. É da perspectiva feminista que falaremos sobre o patriarcado.
Foi na década de 1970 que as feministas, sobretudo no interior do que ficou conhecido como feminismo radical, passaram a utilizar o patriarcado para denunciar a dominação dos homens sobre as mulheres bem como as relações entre esses (SAFFIOTI, 2015).
É importante situar a noção de patriarcado como um sistema de opressão das mulheres, pois uma das autoras importantes nessa pesquisa, Heleieth Saffioti reivindica o uso do termo. Minha intenção é trazer o debate feito pela Saffioti para que, mais adiante, possamos ter uma melhor compreensão da ideia da autora sobre a articulação das categorias de exploração/opressão.
A partir da ideia de gênero como uma forma de pensar as relações socialmente construídas entre homens e mulheres que a noção de patriarcado passou a ser questionada, acusada de ser uma maneira universal de relações de gênero, e que, portanto, tratava de forma única as relações de poder entre homens e mulheres nos diferentes contextos e lugares. Dessa forma, o termo patriarcado passou a ser considerado por muitas teóricas como a-histórico e insuficiente para tratar das relações de gênero. Penso, tal qual Hamlim que a “própria utilidade do termo “patriarcado” foi questionada, em vez de simplesmente se questionar seu status de universalidade e tentar delimitar suas fronteiras históricas e culturais” (2008, p. 72).
Não pretendo discutir aqui toda a polêmica acerca do conceito, mas apenas demonstrar a forma como, em concordância com a defesa de sua utilidade, feita por Saffioti, irei utilizá-lo como conceito explicativo para as relações de gênero, e suas articulações com raça e classe. Por isso, entendo que o patriarcado deve ser situado historicamente (assim como todos os conceitos que pretendo utilizar) e pensado como uma forma específica de relações de gênero dentro de um sistema específico. Segundo a autora:
Na base do julgamento do conceito como a-histórico reside a negação da historicidade do fato social. Isto equivale a afirmar que por trás desta crítica esconde-se a presunção de que todas as sociedades do passado mais próximo e do
momento atual comportaram/comportam a subordinação das mulheres aos homens (SAFFIOTI, 2015, p. 111).
Segundo Saffioti (2015) o conceito de gênero não explicita, necessariamente, desigualdade entre homens e mulheres; assim como o patriarcado da forma como foi cunhado não pressupõe uma relação de exploração, para a autora estas duas dimensões constituem faces de um mesmo processo de dominação-exploração ou exploração-dominação. Isso porque para Saffioti a dimensão econômica do patriarcado não repousa apenas na desigualdade salarial, ocupacional e na marginalização dos importantes papéis econômicos e políticos, mas inclui o controle da sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres.
A autora entende o conceito de gênero de forma mais ampla que o de patriarcado, mas ainda assim enfatiza a necessidade de que a sociedade, tal qual está constituída, se utilize do conceito de gênero junto ao de patriarcado para explicitar a desigualdade, sendo o patriarcado um caso específico das relações de gênero.
Para a autora em questão o abandono do uso do patriarcado é inconcebível e argumenta da seguinte forma:
Por que se manter o nome patriarcado? Sistematizando e sintetizando o acima exposto, porque: 1) não se trata de uma relação privada, mas civil; 2) dá direitos sexuais aos homens sobre as mulheres, praticamente sem restrição. 3) configura um tipo hierárquico de relação, que invade todos os espaços da sociedade; 4) tem uma base material; 5) corporifica-se; 6) representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência (SAFFIOTI, 2015, p. 60).
Saffioti concebe o Patriarcado como um fenômeno social em permanente transformação. Sendo o patriarcado um sistema de dominação anterior ao capitalismo, ele se molda para coexistir e potencializar o processo de dominação/exploração. Essa relação é alterada conforme o contexto social e os processos de desenvolvimento e crise por qual passa o capitalismo desde sua gênese. Portanto, “não há de um lado dominação patriarcal e, de outro, a exploração capitalista, não existe um processo de dominação separado de outro de exploração” (SAFFIOTI, 2015, p. 138), e o patriarcado serve aos interesses das classes dominantes. É importante destacar, entretanto que o patriarcado não é o único estruturador da sociedade, Saffioti trabalha com a ideia da fusão entre patriarcado-capitalismo, e junto delas o racismo. Concebe as diferentes origens dessas três relações sociais, mas aponta para a sua fusão e retroalimentação
O gênero, milênios anterior, historicamente, às classes sociais, se reconstrói, isto é, absorvido pela classe trabalhadora inglesa, no caso de Thompson, se reconstrói/constrói juntamente com uma nova maneira de articular relações de poder: as classes sociais. A gênese destas não é a mesma, nem se dá da mesma forma que a do gênero. (...) as classes sociais têm uma história muito mais curta que o gênero. Desta forma, as classes sociais são, desde sua gênese um fenômeno gendrado. Por sua vez, uma série de transformações no gênero são introduzidas
pela emergência das classes. Para amarrar melhor esta questão, precisa-se juntar o racismo. O nó formado por estas três contradições apresenta uma qualidade distinta das determinações que o integram (SAFFIOTI, 2015, p. 122).
Não é somente Saffioti que trabalha com essa perspectiva, Nascimento traz essa questão de forma similar e corrobora Saffioti quando coloca que
As formas patriarcal e racista de dominação são estreitamente interligadas. Sua especificidade não nega seu inter-relacionamento com a dominação econômica, sobretudo em sociedades coloniais com economias fundadas no regime escravista. Por isso mesmo, a crítica à dominação racial se entrelaça implicitamente com a crítica ao patriarcalismo (NASCIMENTO, 2003).
A respeito do patriarcado na realidade brasileira, Saffioti traz interessantes contribuições para a análise da formação social. O patriarcado é uma categoria fundamental para compreender o movimento histórico que conformou o capitalismo e nele a situação de desigualdade e opressão de gênero e raça. Já que é uma relação de dominação anterior à organização da sociedade em classes, mas esta as reeditou potencializando a exploração do sistema capitalista.
No percurso histórico da sociedade brasileira um dos temas que foi bastante discutido entre muitos pensadores e pensadoras (Freyre, 2004 Fernandes 2008a, 2008b, 2010, 2006; Saffioti, 2015, 2013) foi o da funcionalidade da família patriarcal para a ordem social escravocrata. É apontado o papel do chefe de família, do pai para a manutenção das relações de poder durante a colonização. A