parece inevitável. Portanto, vou ater-me a essa oposição, mesmo que neste caso ela designe não mais do que uma diferença (différance)2 em que cada termo afasta o outro para produzir o nosso discurso.
Já afirmei antes que, quando a Mulher é situada fora da filo- sofia pelo Sujeito Dominante, o debate sobre ela ocorrerá como debate sobre essa mesma exclusão, ela não será rasurada por um gesto retórico displicente; e que, por outro lado, quando se trata de raça, as artimanhas contra o outro são de outra ordem. Essas tendências textuais são a condição e o efeito das ideias preconce- bidas. A resistência e o seu objeto frequentemente encontram a sua melhor articulação nesse tipo de tendências, terreno ideal para toda interpelação. Posso identificar nelas as energias viru- lentas do feminismo burguês do século XIX no norte da Europa, das quais nós, as mulheres que publicamos no mercado interna- cional de livros somos, pelo menos em parte, herdeiras, tendo sido neste terreno interpeladas como uma resistência. Essas narrati- vas são "verdadeiras" porque elas mobilizam. Como em qualquer instauração, mesmo não sistemática, o sujeito do feminismo é pro- duzido pela performatividade de uma declaração de independên- cia, forçada a afirmar-se como anteriormente dada, num enunciado que coloca a identidade e/ou a solidariedade das mu- lheres como natural, histórica, social, psicológica. Quando essa solidariedade é enunciada de maneira triunfalista, ela, sem dú- vida, procura "celebrar a mulher mais do que desconstruir o homem"3. Mas que mulher é o sujeito dessa celebração, dessa de- claração de independência? Se esta leva a uma cumplicidade não reconhecida com os próprios homens que nos recusamos a des- construir, podemos, sem dúvida, deduzir daí que a necessidade de uma crítica permanente se impõe4. É um truísmo dizer que a lei é constituída pela sua própria transgressão; e que essa trivial intimidade define a relação entre o feminismo do século XIX e a axiomática do imperialismo.
2NT: O termo utilizado pela autora refere-se ao termo derridiano différence. Na ver-
são francesa, base para a tradução deste texto, está grafado différence. O orginal em inglês foi utilizado como base para a nossa desambiguação.
3Análise crítica de Shari Benstock, “Women of the Left Bank”, in News From Now-
here 6, printemps, 1989, p. 64.
4Para um anúncio semelhante, ver Ifi Amadiume, Male Daughters, Female Hus-
bands, Londres, Zed, 1987, p. 9.
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Lendo as mulheres que escrevem, os homens que celebram as mulheres e os homens e mulheres que criticam o imperialismo tanto na substância quanto na retórica dos seus textos, pareço ter feito pouco mais do que reiterar uma narrativa bem conhecida: os filósofos do sexo masculino do Norte da Europa rasuraram "o informante nativo" para impor o sujeito europeu do norte como "o mesmo", seja ele visto por que lado for. As mulheres que publi- cam são informantes não-totalmente-nativas, mesmo as acadé- micas feministas. Quando as mulheres que publicam vêm da "cultura" dominante, elas às vezes compartilham com os autores do sexo masculino a tendência de criar um "outro" mal concebido (frequentemente feminino), que nem chega a ser um informante nativo, mas uma evidência material, mais uma vez, colocando o sujeito do norte da Europa como "o mesmo". Mais uma vez, essas tendências textuais são a condição e o efeito do senso comum. No entanto, contra tudo e contra todos, devemos escrever na espe- rança de que este não seja um assunto encerrado para toda a eter- nidade e que seja possível resistir a partir de dentro.
Para resistir, devemos lembrar que não deveria ser possível, em princípio, ler a literatura britânica do século XIX sem ter pre- sente que o imperialismo, entendido como a missão social da In- glaterra, era então um aspecto crucial da representação cultural da Inglaterra aos olhos dos ingleses. O papel da literatura na pro- dução da representação cultural não deve ser ignorado. Quando escrevi estas palavras pela primeira vez, estes dois "factos" óbvios eram largamente negligenciados pelas análises da literatura bri- tânica do século XIX. Hoje, por outro lado, uma vertente do que chamamos feminismo pós-colonial insiste nesses mesmos factos com certo narcisismo. Isto, por si só, atesta o persistente sucesso do projeto imperialista, deslocado e disseminado sob formas mais modernas.
Uma vez mais, no momento da primeira redação deste ensaio, alguns de nós esperávamos que, se mantivéssemos esses "factos" em mente no estudo da literatura inglesa e das literaturas das culturas colonizadoras europeias da idade de ouro do imperia- lismo, poderíamos produzir dentro da história literária uma nar- rativa da "instauração de um mundo": aquele que costumávamos
chamar de "terceiro mundo" e que, considerando de maneira de- sigual o segundo mundo, se tende agora a chamar "o Sul". Assim, a situação atual produz uma dominante "culturalista" que parece muito ansiosa por preservar a imagem do velho terceiro mundo como um conjunto de culturas distantes, exploradas, mas ainda assim ricas em heranças literárias intactas, à espera de serem re- cuperadas, interpretadas e inscritas em tradução inglesa/fran- cesa/alemã/holandesa para os currículos escolares, produzindo o surgimento de um "Sul" que forneceria evidências de um inter- câmbio cultural transnacional.
É particularmente lamentável que a perspetiva emergente da crítica feminista reproduza os axiomas do imperialismo. Uma ad- miração isolacionista pela literatura do tema feminino na Europa e na esfera anglo-americana estabelece a norma para o alto femi- nismo. Esta, fundamenta-se e articula-se numa abordagem da li- teratura do "terceiro mundo" (um termo cada vez mais substituído pelo insultuoso "emergente") concebida no modelo do resgate de dados, muitas vezes aplicando uma metodologia deli- beradamente "não teórica" e bastante auto-indulgente quanto à sua retidão.
Escrevi extensivamente sobre esse fenómeno no mundo pós- soviético e quero examinar aqui sua prefiguração na literatura do século XIX, antes de estudar dois textos do século XX que pro- curam modificar essa situação recriando textos mais antigos com uma intimidade crítica. Termino com uma visão geral assimétrica de uma autora pós-colonial que extrapola esse itinerário.
Primeiro, um texto que se tornou um clássico do feminismo:
Jane Eyre5. Pretendo traçar o escopo e a compreensão do romance localizando os seus mecanismos estruturais. Em seguida, anali- sarei Wide Sargasso Sea como a re-inscrição de Jane Eyre e Fran-
kenstein como uma análise — até mesmo uma desconstrução —
de uma "construção de mundo" comparável à de Jane Eyre6. Rhys
5Ver Charlotte Brontë, Jane Eyre, New York, 1960 (de agora em diante, no texto, JE). 6Ver Jean Rhys, Wide Sargasso Sea, Harmondsworth, 1966. Em Francês La Prison-
nière des Sargasses, Paris, Galimard, 2004 (de agora em diante, no texto, WS) Ver
também Mary Shelley, Frankenstein: or The Modern Prometheus, New York, 1965 (de agora em diante, no texto, F). Mahasweta Devi, "Pterodactyl, Puran Sahay e Pirtha", em Imaginary Maps, trad. Spivak, NY, Routledge, 1994, p. 95-196 (de GAYATRICHAKRAVORTYSPIVAK
e Shelley criticam a axiomática imperialista em sua substância e retórica. O “Pterodáctilo, Puran Sahay e Pirtha”, de Mahasweta Devi transfere essa axiomática para o discurso pós-colonial.
Não será necessário mencionar que o objeto de minha inves- tigação é o livro impresso, não a sua autora. Fazer tal distinção é, obviamente, ignorar as lições da desconstrução. Um certo tipo de abordagem crítica desconstrucionista desataria a costura do livro, desfaria a oposição entre o texto verbal e a biografia do su- jeito chamado "Charlotte Brontë" e veria a ambos como sendo cada um a "cena da escrita" do outro. Em tal leitura, a vida que é escrita como "minha vida" é produto de um espaço psicossocial (podemos encontrar outros nomes para ela) tanto quanto o livro escrito pelo portador da vida em questão — livro que se encontra, assim, destinado àquilo que é mais frequentemente reconhecido como autenticamente "social": o mundo da publicação e da distri- buição7. No entanto, tocar na "vida" de Brontë seria aqui muito arriscado8. Devemos, antes, recorrer a uma abordagem mais con- servadora, com cuidado para não perder os importantes benefícios conquistados pelo feminismo americano, que continuará a honrar as oposições binárias suspeitas — o livro e o autor, o indivíduo e a história – e começar com a garantia de que as leituras que apre- sento aqui não pretendem desacreditar a excelência de um artista individual. Essas leituras terão alcançado seu objetivo se conse- guirem incutir certo grau de cólera dirigido à narrativização im- perialista da história, precisamente porque pode oferecer um programa tão abjeto a uma mulher que nós gostaríamos de cele- brar. As garantias que acabo de dar visam fornecer-me alguma margem para situar o individualismo feminista na sua determi-
agora em diante, no texto, IM). Sobre "A Instauração do Mundo", ver Martin Hei- degger, "A Origem da Obra de Arte". Aqui podemos empregar a ideia de Heidegger de que as linhas de conflito na produção de um texto são nele colocadas na medida em que é uma obra de arte. O que faço aqui com esses textos é obviamente influen- ciado pelo meu sentimento de que o modo de concretização da desconstrução é uma re-inscrição da arte privilegiada por Heidegger. Ver "De l’origine de l’oeuvre d’art”, em Chemins qui ne mènent nulle part, Paris, Gallimard.
7Foi o que tentei fazer no meu ensaio, Unmaking and Making in ‘To the Lighthouse’,
em Spivak, In Other Worlds, p. 30-45.
8Discuti em outro lugar a abordagem desconstrutiva de "uma vida" em "benefício
de um nome próprio".
nação histórica, em vez de me limitar a canonizá-lo como o femi- nismo enquanto tal.
Algumas feministas americanas que apoiam a minha aborda- gem afirmaram que não faço justiça à subjetividade de Jane Eyre. Uma palavra de explicação parece ser necessária aqui. Eu suponho que, em geral, para o feminismo individualista, o que está em jogo na era imperialista é precisamente a fabricação de seres humanos, a constituição e "interpelação" do sujeito não apenas como um in- divíduo, mas também como "individualista"9. Essa questão recai em dois registos: o parto e a fabricação de uma alma. O primeiro é o da “sociedade-doméstica-pelo-viés-da-reprodução-sexual”, reco- nhecida como "amor conjugal"; o segundo é o do projeto imperialista reconhecido como sociedade-civil-pelo-viés-da-missão-social. En- quanto a mulher individualista, não-suficientemente-não-mascu- lina, articula-se numa relação mutável com o que está em jogo, a "mulher nativa subalterna" (no interior do discurso, enquanto sig- nificante) é excluída de toda participação nessa norma emergente10. Se lermos essa história de um ponto de vista isolacionista num con- texto "metropolitano", não vemos nada mais do que a psicobiografia do sujeito feminista militante. Por outro lado, numa leitura como a minha, o esforço consiste em libertar-se do foco mistificador sobre a "constituição-como-sujeito" da mulher individualista.
9Como sempre, extraio a minha fórmula de Louis Althusser, «Idéologie et appareils
idéologiques d’État» in Positions, Paris, Editions Sociales, 1976. Para uma diferen- ciação aguda entre indivíduo e individualismo, ver VN Volosinov, Marxism and the
Philosophy of Language, trad. Ladislav Matejka e I. R. Titunik, Studies in Lan- guage, Vol. 1, New York, 1973. Para uma análise "clássica" das raízes e ramificações
do "individualismo" inglês, ver C. B. MacPherson, The Political Theory of Possessive
Individualism : Hobbes to Locke, Oxford, 1962.
10Eu construo uma analogia entre a poderosa noção de “not-quite/not-white” (não-
completamente/não-branco) formulada por Homi Bhabha em seu « Of Mimicry and Man :The Ambiguity of Colonial Discourse » October 28, (printemps 1984). Além disso, insisto em esclarecer que eu uso o termo "nativa" aqui em resposta ao termo "Mulher do Terceiro Mundo". Tal termo não poderia, é claro, ser aplicado com igual precisão histórica aos contextos indiano e caribenho, nem aos contextos do impe- rialismo por transporte. Eu defino em outro lugar a subalterna. Basta dizer que ela se define contra a burguesia emergente das colónias, cuja participação na emancipação das mulheres é outra história. Bertha Mason em Jane Eyre não é, nesse sentido, uma subalterna. Ela é excluída da mobilidade de classe da burgue- sia pela sua loucura; os loucos são subalternos de um tipo particular. Também deve ser acrescentado que a categoria de subalternidade, como a categoria do exí- lio, funciona de maneira diferente para as mulheres.
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Para melhor afirmar a ideia de que a minha postura não é necessariamente acusadora, vou me referir a uma passagem de
Caliban, de Roberto Fernández Retamar — embora eu não pense
que o pós-colonial deva tomar Caliban como um modelo incontor- nável.11. Em 1900, José Enrique Rodó afirmou que o modelo do intelectual latino-americano em sua relação com a Europa pode- ria ser a Ariel, de Shakespeare12. Em 1971, Retamar, negando a possibilidade de uma "cultura latino-americana" identificável, transferirá este papel de modelo para Caliban. Como esperado, esta poderosa substituição exclui novamente qualquer considera- ção específica da civilização Maya, Asteca, Inca ou de pequenas nações daquilo a que agora chamamos América Latina13. Notemos que, nesta fase da minha argumentação, esta “conversa” entre Europa e América Latina (sem especificamente tomar em consi- deração a economia política da “instauração de um mundo” do “nativo”) fornece uma descrição temática suficiente para a nossa tentativa de confronto, esboçada nos meus parágrafos introdutó- rios, com a dupla relação etnocêntrica e contra-etnocêntrica be- nevolente (que compreende o "nativo" como objeto de um entusiasmado resgate de dados, levando assim à negação da sua própria "instauração de um mundo").
Numa comovente passagem de Caliban, Retamar localiza tanto Caliban quanto Ariel como representações do intelectual dentro do neocolonialismo:
Não existe uma verdadeira polaridade Ariel-Caliban: ambos são escravos nas mãos de Próspero, o mago estrangeiro. Mas Cali- ban é o rude e indomável mestre da ilha, enquanto Ariel, cria- tura do ar, embora também seja filha da ilha, é a intelectual. Caliban, o deformado — escravizado, despojado de sua ilha, e a quem Próspero ensinou a linguagem — repreende-o da se-
11Caliban, «Notes Towards A Discussion of Culture in Our America», trad. anglaise
de Lynn Garafola, David Arthur McMurray et Robert Marquez, Massachusetts Re-
view 15, hiver-printemps 1974, p. 7-72 (de agora em diante, no texto: C).
12José Enrique Rodó, Ariel, Gordon Brotherston, Cambridge, 1967.
13Gordon Brotherson, editor de Ariel, escreveu em seguida The Book of the Fourth
World : Reading the Native Americas through Their Literature, Cambridge Univ.
Press, 1992, um livro inspirado no sentimento de rasura efetiva das Américas na- tivas no debate sobre a questão da identidade latino-americana.
guinte forma: "Tu ensinaste-me a linguagem e a vantagem que eu dái retirei foi aprender a insultar. (C, 28).
Na tentativa de esquecer o nosso pretenso privilégio de Ariel e de "procurar junto a [um certo] Caliban a honra de um lugar nas suas fileiras gloriosas e rebeldes", não exigimos que os nossos alunos e os nossos colegas nos imitem, mas, simplesmente, que nos prestem atenção (C, 72). Mas, se somos levados pela nostal- gia das origens perdidas, também corremos o risco de apagar o "nativo" e nos representar de agora em diante como "o verdadeiro Caliban", esquecendo que ele é um nome numa peça, um branco inacessível circunscrito por um texto interpretável. As encena- ções de Caliban funcionam paralelamente à narrativização da história: reivindicar ser Caliban é legitimar o próprio individua- lismo que devemos constantemente procurar minar a partir de dentro.
Num artigo consagrado à história e à história das mulheres, Elizabeth Fox-Genovese mostra-nos como definir o momento his- tórico do feminismo no Ocidente em termos do acesso das mulhe- res ao individualismo14. A luta pelo individualismo feminino trava-se no palco mais vasto do estabelecimento do individua- lismo meritocrático, indexado no campo estético pela ideologia da "imaginação criadora". A hipótese de Fox-Genovese nos guiará pela abertura soberbamente orquestrada de Jane Eyre.
Eis a cena que descreve a marginalização e o isolamento do personagem: "Era impossível andar naquele dia. (...) nenhuma excursão era possível. Isso encantava-me", escreve Brontë (JE, 9). O movimento continua à medida que Jane quebra as regras da topografia apropriada ao recolhimento. A família, ao centro, retira-se para o espaço arquiteturalmente consagrado da sala de estar; enquanto Jane se insere — "eu deslizava" — na margem — "[para dentro de] uma pequena sala de jantar [que] se abria sobre o salão" (JE, pág. 9, nosso itálico).
14Ver Elizabeth Fox-Genovese, “Placing Women’s History in History”, New Left Re-
view 133, mai-juin 1982, p. 5-29. Devo acrescentar aqui que é cada vez mais difícil
sintonizar-me com as consequências que Fox-Genovese tirou dessa visão geral nos anos que se seguiram.
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A manipulação da inscrição doméstica do espaço no seio das camadas ascendentes da burguesia dos séculos XVIII e XIX na Inglaterra e na França é um facto bem conhecido. Parece inteira- mente apropriado que o lugar para onde Jane se retira nem seja a sala de estar, nem a grande sala de jantar, local geralmente de- dicado às refeições em família. Do mesmo modo, não é a biblio- teca, o lugar apropriado à leitura. É dito sobre a pequena sala de jantar que "nela havia uma estante de livros" (JE, 9). Como Ru- dolph Ackerman escreve no seu Repository (1823), um dos muitos manuais de bom gosto que circulavam na Inglaterra do século XIX, essas prateleiras baixas eram projetadas para conter "todos os livros cuja presença pudesse parecer desejável num salão, sem referência à biblioteca"15. Mesmo dentro deste espaço, já descen- tralizado por três razões, "tendo puxado a cortina de damasco ver- melho, eu [Jane] encontrei-me encerrada em um duplo retiro" (JE, 9- 10).
Aqui, na singularidade auto-marginalizada de Jane, o leitor torna-se seu cúmplice: o leitor e Jane estão reunidos — ambos estão a começar a ler. No entanto, Jane preserva seu curioso pri- vilégio, pois ela continua a não fazer nunca exatamente a coisa certa no lugar certo. Ela preocupa-se pouco em ler o que deve ser lido: o "texto impresso". Ela lê as imagens. O poder dessa herme- nêutica singular reside justamente no facto de ela permitir trans- formar o exterior em interior. "De tempos em tempos, virando as páginas do meu livro, eu estudava o aspecto desta tarde de in- verno". Atrás das janelas, a chuva não penetra mais, e "este triste dia de novembro" é uma "imagem" plana que deve ser "exami- nada", e não descodificada como se faz com "o texto impresso" e que devemos, a exemplo das imagens, decifrar pela imaginação criativa singular do individualista marginal (JE, 10).
Antes de seguir os passos desta imaginação singular, dete- nhamo-nos por um instante na ideia de que a progressão de Jane Eyre pode ser representada por um esquema sequencial da díade família/contrafamília. No romance, primeiro conhece- mos os Reeds como uma família juridicamente legítima, e depois
15Rudolph Ackerman, The Repository of Arts, Literature, Commerce, Manufactures,
Fashions, and Politics, Londres, 1923, p. 310.
Jane, a filha da irmã do falecido Senhor Reed, como represen- tante de uma contrafamília quase incestuosa. Em segundo lugar, cuzamo-nos com os Brocklehurst, que administram a es- cola em que Jane é colocada, enquanto família juridicamente le- gítima, e Jane, Miss Temple e Helen Burns como contrafamília colocada sob o signo da falta, visto que se trata de uma comuni- dade estritamente feminina. Em terceiro lugar, Rochester e a Sra. Rochester, sob a influência da loucura, como uma família juridicamente legítima, e Jane e Rochester como uma contrafa- mília ilícita. Outros elementos podem ser acrescentados à cadeia temática desta sequência: Rochester e Céline Varens como uma contrafamília estruturalmente funcional; Rochester e Blanche Ingram como uma dissimulação da legalidade — e assim por diante. É ao longo dessa sequência que Jane passa da contrafa- mília para a família-de-direito. Na sequência seguinte, é Jane quem confere seu estatuto familiar pleno à ainda incompleta co- munidade, que é a frátria dos Rivers. A sequência final do livro é uma comunidade de famílias com Jane, Rochester e os seus fi- lhos no centro.
Em termos da energia narrativa do romance, como passa Jane da situação de uma contrafamília para a de uma família-de-