da pessoa, ambas as línguas são, na mesma medida, portadoras de marcas de género.
Ambas, de facto, dão lugar a um conceito ontológico primitivo que reforça na linguagem uma divisão dos seres em sexos. O "sexo fictício" dos substantivos ou o género neutro são apenas desen- volvimentos acidentais deste primeiro princípio e, como tal, são inofensivos. A manifestação de género que é idêntica em inglês e francês ocorre na dimensão da pessoa. Não diz respeito apenas aos gramáticos, embora seja uma manifestação lexical. Enquanto conceito ontológico que lida com a natureza do Ser, juntamente com toda uma nebulosa de conceitos primitivos pertencentes à mesma linha de pensamento, o género parece pertencer prima- riamente à filosofia. A sua razão de ser nunca é questionada na gramática, cujo papel é descrever formas e funções e não encon- trar uma justificação para elas. Porém, também não é mais ques- tionada na filosofia, porque pertence àquele corpo de conceitos autoevidentes, sem os quais os filósofos acreditam que não podem desenvolver uma linha de raciocínio e também por que, para eles, são óbvios, pois existem antes de qualquer pensamento, qualquer ordem social, existem na natureza. Desta forma, consideram o gé- nero uma delegação lexical dos "seres naturais", o seu símbolo. Suspeitando que algo está errado nesta noção aparentemente inó- cua de género, as feministas americanas usam o género como uma categoria sociológica, deixando claro que não há nada de natural nesta noção, já que os sexos foram construídos artificialmente como categorias políticas — categorias de opressão. Extrapolaram o termo género da gramática e tendem a sobrepô-lo à noção de sexo. E têm razão, na medida em que o género é o índice linguís- tico da oposição política entre os sexos e da dominação das mu- lheres. O género, como conceito, da mesma forma que o sexo, homem e mulher, é instrumental no discurso político do contrato social enquanto contrato heterossexual.
Na teoria moderna, mesmo nas premissas de disciplinas exclu- sivamente relacionadas com a linguagem, permanece-se na divisão clássica do mundo concreto, por um lado, e do abstrato, por outro. A realidade física ou social e a linguagem estão desconectadas. Abs- tração, símbolos, signos não pertencem ao real. De um lado está o
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real, o referente, e, do outro lado, a linguagem. É como se a relação com a linguagem fosse apenas uma relação de função e não de transformação. Às vezes há uma confusão entre significado e refe- rente, de modo que até são misturados em certas obras críticas. Ou há uma redução do significado a uma série de mensagens, onde re- verberações do referente permanecem o único suporte do signifi- cado. Entre linguistas, o russo Bakhtin, um contemporâneo dos formalistas russos, cujo trabalho foi finalmente traduzido, é o único que me parece ter uma abordagem à linguagem estritamente ma- terialista. Na sociolinguística, há vários desenvolvimentos neste sentido, principalmente entre feministas2.
Eu digo que até as categorias filosóficas abstratas agem sobre o real como sociais. A linguagem lança feixes de realidade sobre o corpo social, marcando-o e moldando-o violentamente. Por exem- plo, os corpos dos atores sociais são modelados por linguagem abs- trata e também por linguagem não abstrata. Pois há uma plasticidade do real em face da linguagem: a linguagem tem uma ação plástica sobre o real.
Quanto ao género, então, não é apenas importante desalojar da gramática e da linguística uma categoria sociológica que não fala em seu nome próprio. Também é muito importante conside- rar como o género funciona dentro da linguagem, como o género funciona sobre a linguagem, antes de considerar como funciona sobre os seus usuários.
O género ocorre numa categoria de linguagem totalmente di- ferente de qualquer outra, a qual é designada de pronome pessoal. Os pronomes pessoais são as únicas instâncias linguísticas que, no discurso, designam os seus locutores e as suas diferentes e su- cessivas situações em relação ao discurso. Estes são também os caminhos e os meios de entrada na linguagem. Para utilizá-los, é preciso conhecer as instruções. Pois é neste sentido — enquanto representam pessoas e não substantivos com o seu "sexo fictício"
2Ver Colette Guillaumin, "The Practice of Power and Belief in Nature," Feminist Is-
sues Vol. I, no. 2, and Vol. l, no. 3; Colette Guillaumin, "The Question of Difference," Feminist Issues, Vol. 2, no. l; Colette Guillaumin, "The Masculine: Denotations/Con-
notations," Feminist Issues Vol. 5, no. I: Nicole-Claude Mathieu, "Masculinity/Fe- mininity," Feminist Issues Vol. l, no. l; Nicole-Claude Mathieu, "Biological Paternity, Social Maternity," Feminist Issues Vol. 4, no. I..
— que nos interessam aqui. Sem dúvida que não há justificação de nenhum tipo para que, de alguma maneira, através da lingua- gem, os pronomes pessoais engendrem o género, levando-o com eles, por assim dizer, com naturalidade, em qualquer tipo de con- versa, discussão ou tratado filosófico. E embora sejam instrumen- tais na ativação da noção de género, passam despercebidos. Não sendo eles próprios marcados pelo género na sua forma subjetiva (exceto num caso), podem sustentar a noção de género enquanto parecem cumprir outra função. Em princípio, marcam a oposição de género apenas na terceira pessoa e não são portadores de gé- nero, per se, nas outras pessoas. Assim, é como se o género não os afetasse, não fizesse parte da sua estrutura, mas fosse apenas um detalhe na sua forma. Mas, na realidade, assim que o género se manifesta no discurso, há uma espécie de suspensão da forma gra- matical. Ocorre uma interpelação direta do locutor. O locutor é chamado pessoalmente. O locutor intervém, na ordem dos prono- mes, sem mediação, no seu sexo apropriado — isto é, quando o lo- cutor é uma mulher sociológica. Porque é só então que a noção de género revela completamente o seu efeito. Quando digo "locutor", é evidente que não me refiro à terceira pessoa, mas à primeira pes- soa, a pessoa do sujeito. Só se pode ser o sujeito do discurso. Sabe- se que, em francês, com je (eu), é preciso marcar o género logo que é utilizado em relação aos particípios passados e aos adjetivos. Em inglês, onde o mesmo tipo de obrigação não existe, um locutor, quando é uma mulher sociológica, deve, de uma forma ou de outra, isto é, com um certo número de cláusulas, tornar o seu sexo pú- blico. Pois o género é o reforço do sexo na língua, funcionando da mesma forma que a declaração de sexo no estado civil. O género não está confinado à terceira pessoa e a menção do sexo na lingua- gem não é um tratamento reservado à terceira pessoa. O sexo, sob o nome de género, permeia todo o corpo da linguagem e força cada locutor, se ela é do sexo oprimido, a proclamá-lo no seu discurso, isto é, a aparecer na linguagem sob a sua forma física própria e não sob a forma abstrata, que todos os locutores masculinos têm o direito inquestionável de usar. A forma abstrata, o geral, o uni- versal, é o que significa o chamado género masculino, pois a classe dos homens apropriou-se do universal para si. É preciso entender que os homens não nascem com a faculdade do universal e que as
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mulheres não são reduzidas ao particular no nascimento. O uni- versal tem sido, e é continuamente, a todo momento, apropriado pelos homens. Não acontece por magia, tem de ser feito. É um ato, um ato criminoso, perpetrado por uma classe contra outra. É um ato realizado ao nível dos conceitos, da filosofia, da política. E o género, por impor às mulheres uma categoria particular, repre- senta uma medida de dominação. O género é muito prejudicial às mulheres no exercício da linguagem. Mas há mais. O género é on- tologicamente uma impossibilidade total. Pois quando alguém se torna num locutor, quando se diz eu e, ao fazê-lo, reapropria-se da linguagem como um todo, procedendo de si próprio, com o poder tremendo de usar a linguagem como um todo3, é então ali, de acordo com linguistas e filósofos, que ocorre o supremo ato da sub- jetividade, o advento da subjetividade na consciência. É quando se começa a falar que cada um se torna Eu. Este ato — o devir do sujeito através do exercício da linguagem e através da locução — para ser real, implica que o locutor seja um sujeito absoluto. Por- que um sujeito relativo é inconcebível, um sujeito relativo não po- deria falar de todo. Quero dizer que, apesar da dura lei do género e da sua imposição sobre as mulheres, nenhuma mulher pode dizer eu sem ser para si mesma um sujeito total — isto é, um su- jeito sem género, universal, inteiro. Ou, na falta disto, ela está con- denada ao que eu chamo um discurso de papagaio (escravos ecoando a fala dos seus senhores). A linguagem como um todo dá a todos o mesmo poder de se tornar num sujeito absoluto através do seu exercício. Mas o género, um elemento da linguagem, fun- ciona por cima deste facto ontológico para anulá-lo no que diz res- peito às mulheres e corresponde à tentativa constante de privá-las da coisa mais preciosa que existe para um ser humano — a subje- tividade. O género é uma impossibilidade ontológica porque tenta realizar a divisão do Ser. Mas o Ser enquanto Ser não é dividido. Deus ou o Homem enquanto ser são Um e a unidade. Então, o que é este ser dividido introduzido na linguagem através do género? É um ser impossível, é um ser que não existe, uma piada ontológica, uma manobra conceptual para tirar das mulheres o que lhes per- tence por direito: conceber-se como sujeito total através do exercí-
3Cf. Emile Benveniste, Problems in General Linguistics (Coral Gables, Fla.: Uni-
versity of Miami Press, 1971).
cio da linguagem. O resultado da imposição de género, agindo como uma negação no momento exato em que alguém fala, é privar as mulheres da autoridade do discurso e forçá-las a fazer a sua en- trada como um caranguejo, particularizando-se e pedindo descul- pas profusamente. O resultado consiste em negar-lhes qualquer pretensão aos discursos abstrato, filosófico, político que estrutu- ram o corpo social. O género deve então ser destruído. A possibili- dade da sua destruição é dada através do próprio exercício da linguagem. Por cada vez que eu digo eu, reorganizo o mundo do meu ponto de vista e, por meio da abstração, reivindico a univer- salidade. Este facto permanece válido para todos os locutores.
II
Destruir as categorias de sexo na política e na filosofia, des- truir o género na língua (pelo menos para modificar o seu uso) é, portanto, parte do meu trabalho ao escrever, como escritora. Uma parte importante, uma vez que uma modificação tão central como esta não pode acontecer sem uma transformação da linguagem como um todo. Refere-se a (toca em) palavras cujos significados e formas estão próximos a, e associados com o género. Mas também se refere a (toca em) palavras cujos significados e formas são os mais distantes. Por uma vez a dimensão da pessoa, em torno da qual todas as outras são organizadas, é posta em jogo, nada é dei- xado intacto. Palavras, a sua disposição, o seu arranjo, a sua re- lação umas com as outras, toda a nebulosa das suas constelações muda, são deslocadas, engolidas ou reorientadas, colocadas de lado. E quando reaparecem, a mudança estrutural assim operada na linguagem faz com que pareçam diferentes. São atingidas no seu significado, mas também na sua forma. A sua música soa di- ferente, a sua coloração é afetada. Pois o que está realmente em questão aqui é uma mudança estrutural na linguagem, nos seus nervos, no seu enquadramento. Mas a linguagem não se deixa trabalhar, sem um trabalho paralelo na filosofia e na política, assim como na economia, porque, como as mulheres são marcadas
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na linguagem pelo género, elas são marcadas na sociedade como sexo. Eu afirmei que os pronomes pessoais engendram o género através da linguagem, e os pronomes pessoais são, se assim posso dizer, o assunto de cada um dos meus livros – exceto no caso de
Lesbian Peoples: Material For a Dictionary, escrito com Sande
Zeig. São os motores para os quais as partes funcionais tiveram que ser desenhadas e, como tal, eles criam a necessidade da forma.
O projeto The Opoponax, o meu primeiro livro, consistiu em trabalhar sobre o sujeito, o sujeito falante, o sujeito do discurso – a subjetividade, em geral. Eu queria restaurar um Eu indiviso, para universalizar o ponto de vista de um grupo condenado a ser particular, relegado na linguagem a uma categoria meta-andro- cêntrica4. Escolhi a infância como um elemento com forma aberta à história (é o que eu disse, o tema estava em outro lugar), a for- mação do ego em torno da linguagem. Foi necessário um esforço enorme para quebrar o feitiço do sujeito capturado. Eu precisava de um dispositivo forte, algo que fosse imediatamente além dos sexos, contra o qual a divisão por sexos não tivesse poder, e isso não poderia ser cooptado. Há em francês, assim como em inglês, um pronome ilimitado que é designado como indefinido, o que sig- nifica que não é marcado pelo género, um pronome que, na escola, nos ensinam a evitar sistematicamente. É one em inglês, on em francês5. De facto, é-nos ensinado tão sistematicamente que não deve ser usado que o tradutor do The Opoponax conseguiu nunca o usar em inglês. Deve-se dizer em favor do tradutor que soa e parece muito pesado em inglês, mas não menos em francês. Mas sem on, o livro fica totalmente transformado. Eu esperava, no en- tanto, que a natureza cómica do dispositivo, bem como a natureza cómica da narrativa, permitissem ao leitor gostar dela.
Com este pronome, que não tem nem género nem número, eu podia localizar as personagens fora da divisão social por sexos e anulá-la ao longo do livro. Em francês, a forma masculina — dizem os gramáticos — usada quando um particípio passado ou um ad-
4NT No original, ‘metaandric’.
5NT. Em português -se, pronome impessoal, sem género e sem número, como em
‘fala-se de crise mundial’ ou ‘circula-se com muita velocidade nesta estrada’.
jetivo é associado ao sujeito, é na verdade neutra. Esta questão in- cidental do neutro é de facto muito interessante, pois mesmo quando se trata de termos como l'homme, como Man (com uma maiúscula M em inglês), os gramáticos não falam do neutro no mesmo sentido que utilizam ao falar do Bem ou do Mal, mas falam do género masculino. Pois assimilaram l'homme, homo, cujo pri- meiro significado não é masculino, mas humanidade, a homo sum, tornando-se o homem como macho apenas um significado derivado e secundário.6Voltando ao one, on, aqui está um pronome do su- jeito que é muito maleável e acomodável já que pode ser dobrado em várias direções ao mesmo tempo. Primeiro, como já foi men- cionado, é indefinido, no que diz respeito ao género. Pode repre- sentar um certo número de pessoas sucessivamente ou de uma só vez — toda a gente, nós, eles, eu, tu, pessoas, um pequeno ou um grande número de pessoas — e ainda assim permanecer no sin- gular. Presta-se a todos os tipos de substituições de pessoas. No caso do The Opoponax, era um delegado de uma classe inteira de pessoas, de toda a gente, de algumas pessoas, do eu (o eu do per- sonagem principal, o eu do narrador e o eu do leitor).
One, On [Se] tem sido para mim, a chave para o uso não per-
turbado da linguagem, como acontece na infância, quando as pa- lavras são magia, quando as palavras são brilhantes e coloridas no caleidoscópio do mundo, com suas inúmeras revoluções na consciência ao serem sacodidas. One, On [Se] tem sido o caminho para a descrição da aprendizagem, através das palavras, em tudo o que é importante para a consciência, ocorrendo primeiro a sua aprendizagem na escrita, mesmo antes da aprendizagem do seu uso na fala. Graças a One, a On [Se], a experiência única de todos os locutores, que, ao dizer eu, podem a qualquer momento rea- propriar toda a linguagem e reorganizar o mundo a partir de seu ponto de vista, poderia ser restaurada para qualquer mulher lei- tora, tal como é dada a qualquer homem leitor. Eu não tive que
6A primeira manifestação do movimento de libertação das mulheres em França ocor-
reu no Arco do Triunfo, onde se encontra a sepultura do soldado desconhecido. Entre os motes inscritos nas bandeiras, lia-se: "Un homme sur deux est une femme" (Um homem em cada dois é uma mulher). O objetivo da manifestação era colocar uma coroa de flores em honra da mulher do soldado desconhecido (mais desconhe- cida até do que o soldado), e teve lugar como forma de apoio à manifestação das mulheres americanas, em agosto de 1970.
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esconder as personagens femininas sob patrónimos masculinos e, no entanto, a acreditar no que Claude Simon escreveu sobre o meu uso de One, On [Se], a tentativa de universalização foi bem- sucedida. Ele escreveu, referindo-se ao que aconteceu com a per- sonagem principal do The Opoponax, uma menina pequena: "Eu vejo, eu respiro, eu mastigo, eu sinto através dos olhos dela, da sua boca, das suas mãos, da sua pele…Eu torno-me infância”7. É somente no final do livro que eu permito ao narrador o uso do Eu, esperando que se tenha concretizado a transformação da perso- nagem Catherine Legrand, e de todos os outros do grupo dela, em sujeito soberano (operação que está aí implicada).
Antes de falar do pronome que é o eixo de Les Guérillères, gos- taria de recordar o que Marx e Engels disseram em The German
Ideology sobre os interesses de classe. Disseram que cada classe
nova que luta pelo poder deve, nem que seja apenas para alcançar o seu objetivo, representar o seu interesse como o interesse comum de todos os membros da sociedade ou, para expressar as coisas ao nível das ideias, que esta classe deve dar a forma da uni- versalidade aos seus pensamentos, para apresentá-los como os únicos razoáveis, os únicos universalmente válidos.
Quanto a Les Guérillères, há um pronome pessoal muito pouco usado em francês, não existindo em inglês — o plural coletivo elles (they em inglês [elas em português]) – enquanto, ao mesmo tempo,
ils (they [eles em português]) representa frequentemente o geral,
com o sentido de One, [Se]: eles dizem, ou seja, as pessoas dizem. Esse ils geral não inclui elles, da mesma forma que ele não inclui
ela, do mesmo modo que, desconfio, they não supõe a inclusão de she. Poder-se-ia dizer que é uma pena que em inglês não haja sequer
um hipotético pronome feminino plural para tentar obviar a ausên- cia de she no they geral. Mas para quê, já que quando existe, não é usado? Pelo menos quando é usado, as raras vezes que o é, elles nunca representa o geral e nunca é portador de um ponto de vista universal8. Portanto, um elles, que fosse capaz de suportar um ponto
7No L’Express, em 1964, no momento da publicação de L’Opoponax.
8Nathalie Sarraute usa elles com muita frequência ao longo de seu trabalho. Mas
não é para torná-lo universal, já que o seu trabalho é de outra natureza. Estou con- vencida de que sem o uso que ela deles fez, os elles não se me teriam imposto com tanta força. É um exemplo do que Kristeva designa por intertextualidade.
de vista universal seria uma inovação na literatura ou noutro qual- quer lugar. Em Les Guérillères, procuro universalizar o ponto de vista de elles. O objetivo desta abordagem não é feminizar o mundo, mas tornar obsoletas as categorias de sexo na linguagem. Eu, por- tanto, estabeleço elles no texto como o sujeito absoluto do mundo. Para ter sucesso textualmente, eu precisava de adotar algumas me- didas draconianas, como eliminar, pelo menos nas duas primeiras partes, qualquer ele, qualquer eles9, que têm sempre uma tendência
de se esconder em todos os lugares. Tive de criar um efeito de cho- que para o leitor entrar num texto em que elles pela sua presença única constituem um ataque, sim, até para as leitoras mulheres. Aqui, novamente, a adoção de um pronome como tema ditou a forma do livro. Embora o tema do texto fosse a guerra total, liderada por
elles sobre ils, para que esta nova pessoa surtisse efeito, dois terços
do texto tinham de ser totalmente habitados, assombrados, por
elles. Palavra por palavra, elles estabelecem-se como um sujeito so-