• Nenhum resultado encontrado

Neste tipo de conceção de relação sexual, do prazer da mulher nada é dito. O seu quinhão seria o da "falta", da "atrofia" (do sexo) e da "inveja do pénis" como o único sexo reconhecido como valioso. Ela tentaria, portanto, por todos os meios, apropriar-se dele: atra- vés do seu amor um tanto servil pelo pai-marido suscetível de lho dar, pelo seu desejo de um filho-pénis preferencialmente menino, pelo acesso aos valores culturais ainda apenas reservados aos ho- mens por direito e, portanto, sempre masculinos, etc. A mulher não viveria o seu desejo senão como expectativa de possuir final- mente um equivalente do sexo masculino.

Ora, tudo isso parece bastante estranho ao seu prazer, a menos que ela não saia da economia fálica dominante. Por exem- plo, o autoerotismo das mulheres é muito diferente do dos ho- mens. Ele precisa de um instrumento para se tocar: a mão dele, o sexo da mulher, a linguagem... E essa auto-afecção exige um mí- nimo de atividade. A mulher, ela, toca-se a ela própria e nela pró- pria sem necessidade de uma mediação, e antes de qualquer possibilidade de separação entre atividade e passividade. A mu- lher "toca-se a si mesma" continuamente, sem que, para além do mais, se se lhe possa proibir de o fazer, porque o sexo dela é feito de dois lábios que se beijam continuamente. Assim, nela, ela já é dois — mas não divisíveis em um(s) — que se acariciam.

A suspensão deste autoerotismo ocorre na violenta invasão, a separação brutal desses dois lábios por um pénis violador. O que deporta e desvia a mulher desta auto-afecção de que precisa para não incorrer no desaparecimento do seu prazer na relação sexual. Se a vagina deve substituir, embora não apenas, a mão do menino para assegurar uma articulação entre o autoerotismo e o heteroe- rotismo no coito — o encontro com o totalmente outro significa sempre a morte, — como será organizada na representação clás- sica da sexualidade, a perpetuação do autoerotismo para a mu- lher? Não será ela deixada na escolha impossível entre uma virgindade defensiva, ferozmente dobrada sobre si própria, e um corpo aberto pela penetração, não conhecendo mais neste "bu- raco", que constitui o seu sexo, o prazer do seu próprio re-toque? A atenção quase exclusiva — e, além disso, quão angustiada – di- rigida à ereção na sexualidade ocidental comprova até que ponto

LUCEIRIGARAY

o imaginário que a controla é estranho ao feminino. Não há aí, em grande medida, senão imperativos ditados pela rivalidade entre machos: o mais forte sendo aquele que "se estica mais", que tem o pénis mais longo, o mais duro, o que "urina mais longe" (cf. vejam-se os jogos entre os meninos). Ou ainda pela intervenção de fantasias sadomasoquistas, comandadas, elas próprias, pela relação do homem com a mãe: desejo de forçar, de penetrar, de se apropriar, o mistério desse ventre onde o conceberam, o segredo da sua geração, da sua "origem". Desejo-necessidade, também, de refazer o derramamento de sangue para reviver uma muito ar- caica relação — intrauterina, sem dúvida, mas sobretudo pré-his- tórica – com o maternal.

A mulher, neste imaginário sexual, não é senão um apoio mais ou menos complacente à realização das fantasias do homem. Que ela aí encontre, por procuração, prazer é possível e mesmo certo. Mas este é, acima de tudo, prostituição masoquista do seu corpo a um desejo que não é o seu; o que a deixa no estado que co- nhecemos de dependência do homem. Não sabendo ela o que quer, pronta para qualquer coisa, pedindo mesmo mais, desde que ele a "tome" como um "objeto" do exercício do seu próprio prazer mas- culino. Ela não dirá, portanto, o que ela deseja em nome próprio. Além disso, ela não o sabe. Ou mais ainda. Como Freud confessa, o que respeita ao início da vida sexual da menina é tão "obscuro", tão "branqueado pelos anos", que seria como cavar fundo na terra para encontrar por trás dos vestígios desta civilização aqui, desta história aqui, os vestígios de uma civilização mais arcaica que po- deria dar alguns indícios sobre o que seria a sexualidade da mu- lher. Essa civilização muito antiga não teria, sem dúvida, a mesma linguagem, o mesmo alfabeto... O desejo da mulher não falaria a mesma linguagem que aquela do homem, e ele teria sido recoberto pela lógica que domina o Ocidente, pelo menos desde os Gregos.

Nesta lógica, a prevalência do olhar e da discriminação da forma, da individualização da forma, é particularmente estranha ao erotismo feminino. A mulher desfruta mais do tocar do que do olhar, e sua adesão a uma economia escópica dominante significa para ela, novamente, uma sujeição à passividade: ela será o belo

objeto a ser observado. Se o seu corpo se encontra erotizado deste modo, e solicitado a um duplo movimento de exibição e de retrai- mento púdico para excitar as pulsões do "sujeito", o seu sexo re- presenta o horror do nada a ver. Uma falha neste sistema de representação e desejo. Um "buraco" no seu objetivo escoptofítico. Que este nada a ver deva ser excluído, rejeitado, de uma tal cena da representação já é admitido na estatuária grega. O sexo da mulher encontra-se simplesmente ausente: mascarado, costu- rado, na sua "fenda".

Este sexo que não dá a ver, também não tem forma própria. E se a mulher desfruta precisamente dessa incompletude da forma do seu sexo, que faz com que ele se re-toque in(de)finitamente a ele próprio, esse prazer é negado por uma civilização que privilegia o falomorfismo. O valor atribuído à única forma definível bloqueia aquela que está em jogo no autoerotismo feminino. O da forma, do indivíduo, do sexo, do nome próprio, do sentido próprio... suplanta separando e dividindo este tocar de pelo menos dois (lábios) que mantém a mulher em contato consigo mesma, mas sem discrimi- nação possível do que se toca. Daí o mistério que ela representa numa cultura que pretende tudo enumerar, tudo quantificar por unidades, tudo inventariar por individualidades. Ela não é nem um, nem dois. Não se pode, em rigor, determiná-la como uma pes- soa, nem mesmo como duas. Ela resiste à adequação de toda a de- finição. Ela não tem um nome "próprio/limpo"2. E o seu sexo, que não é um sexo, é considerado como nenhum sexo. O negativo, o in- verso, o reverso, de ter o único sexo visível e morfologicamente de- signável (mesmo que isto coloque alguns problemas de passagem da ereção à detumescência): o pénis. Mas essa "espessura" da forma, o seu inchaço como volume, tornando-se maior ou menor, e até o espaçamento entre os momentos em que ela se produz como tal, o feminino guarda-lhe o segredo. Sem o saber. E se alguém lhe pede para manter, para reavivar, o desejo do homem, não se su- blinha o suficiente o que isso supõe quanto ao valor do desejo dela. O qual, para além do mais, ela não conhece, pelo menos explicita-

2NT. A autora usa aqui o duplo sentido da palavra francesa ‘propre’, termo que coloca

entre aspas, podendo designar, neste contexto a não adequação de qualquer defini- ção para a mulher, quer pelo facto de a mulher não ter um ‘nome próprio’, quer pelo facto de ele não ser ‘limpo’.

LUCEIRIGARAY

mente. Mas cuja força e continuidade são suscetíveis de realimen- tar por muito tempo todas as mascaradas de "feminilidade" que dela se esperam.

É verdade que ela ainda tem o filho, em face do qual dá livre curso ao seu apetite de tato, de contato, a menos que isso não se tenha já perdido, alienado pelo tabu do tocar numa civilização amplamente obsessiva. Caso contrário, o seu prazer encontrará aí compensações e derivações para as frustrações que ela encontra com demasiada frequência nas relações sexuais em sentido es- trito. Assim, a maternidade compensa as carências de uma se- xualidade feminina reprimida. O homem e a mulher não se acariciariam mais a não ser por essa mediação entre eles que re- presenta a criança? De preferência rapaz. O homem identificado com o seu filho recupera o prazer do mimo materno, a mulher re- toca-se acariciando essa parte do seu corpo: o seu bebe-pénis-cli- tóris. O que isso implica para o trio amoroso, começamos a denunciá-lo. Mas o interdito edipiano parece uma lei um tanto formal e artificial – o meio, entretanto, de perpetuar o discurso autoritário dos pais — quando é promulgado numa cultura onde a relação sexual é impraticável pelo facto de o desejo do homem e da mulher serem estranhos um para o outro. E onde o(a) um(a) e o outro devem tentar encontrar-se por algum ângulo: aquele, ar- caico, de uma relação sensível com o corpo da mãe; aquele, pre- sente, da prorrogação ativa ou passiva da lei do pai. Comportamentos afetivos regressivos, troca de palavras dema- siado abstraídas do campo sexual para que não venham a consti- tuir-se num exílio em relação a ele: a mãe e o pai dominam o funcionamento do casal, mas como papéis sociais. A divisão do trabalho impede-os de fazer amor. Eles produzem ou reproduzem. Não sabendo como usar o seu tempo de lazer. Por pouco que eles o tenham, se é que, de resto, querem ter algum. Com efeito, o que fazer dele? Que substituto inventar para o recurso amoroso? Ainda.

Talvez regressar a esse reprimido do imaginário feminino? Então a mulher não tem um sexo. Ela tem pelo menos dois, mas não identificáveis em uns. Ela tem, no entanto, muitos mais. A sua sexualidade, sempre pelo menos dupla, é para além disso plural.

Como se quer agora que a cultura seja? Escrevem-se agora os tex- tos? Sem se saber suficientemente de que tipo de censura eles se afastam? Com efeito, o prazer da mulher não tem que escolher entre a atividade clitoridiana e a passividade vaginal, por exem- plo. O prazer da carícia vaginal não tem de se substituir ao da ca- rícia clitoridiana. Ambos concorrem, um e outro, de maneira insubstituível, para o prazer da mulher. Entre outros... A carícia dos seios, o toque vulvar, a entreabertura dos lábios, o vai e vem de uma pressão sobre a parede posterior da vagina: o afloramento do colo do útero, etc. Para não evocar senão alguns dos prazeres mais especificamente femininos. Um pouco desconhecidos na di- ferença sexual, tal como a imaginamos. Ou não se imagina: o outro sexo não sendo senão o complemento indispensável do único sexo. Ora, a mulher tem sexos um pouco por todo o lado. Ela retira pra- zer de qualquer um deles. Sem chegarmos mesmo a falar da his- terização de todo o seu corpo, a geografia do seu prazer é muito mais diversificada, múltipla nas suas diferenças, mais complexa, mais subtil, do que imaginamos... no interior de um imaginário que, ao invés, é demasiado centrado sobre a mesmidade.

"Ela" é in(de)finitamente outra nela própria. Daí advém, sem dúvida, que a considerem bizarra, incompreensível, agitada, ca- prichosa... Para não mencionar a sua linguagem, de onde "ela" parte em todas as direções sem que "ele" aviste a coerência de ne- nhum sentido. Palavras contraditórias, um pouco loucas para a lógica da razão, inaudíveis para quem as escuta com grelhas pre- viamente elaboradas, um código já totalmente preparado. É que nas suas palavras também — pelo menos quando ela ousa — a mulher (re)toca-se constantemente. Ela afasta-se ligeiramente de si mesma num balbuciar, numa exclamação, numa meia-confi- dência, numa frase deixada em suspenso... Quando ela aí re- gressa, é para voltar a partir para um outro lugar. De um outro ponto de prazer, ou de dor. Ela deveria ser escutada com um outro ouvido como um "outro" sentido, sempre em vias de se tecer, de se beijar com as palavras, mas também de se livrar delas para não se fixar aí, congelada nelas. Porque se "ela" diz isso, isso já não é, de todo, idêntico ao que ela quer dizer. Para além do mais, não é nunca idêntico a qualquer outra coisa, mas é sobretudo con- tíguo. Isso toca (a). E quando isso se distancia demasiado dessa

LUCEIRIGARAY

proximidade, ela corta e recomeça do "zero": seu corpo-sexo. Inú- til, portanto, encarcerar as mulheres na definição exata do que elas significam, fazê-las repetir(em-se) para que se torne claro, pois elas já estão noutro lugar que não o dessa maquinaria dis- cursiva na qual vós pretenderíeis surpreendê-las. Elas regressa- ram a elas próprias. O que não implica que se deva compreender da mesma forma que em relação a vós próprios. Elas não têm a interioridade que vocês têm, que vocês lhes supõem talvez. Em si próprias, significa na intimidade desse tato silencioso, múltiplo, difuso. E se vocês lhes perguntarem insistentemente em que é que elas pensam, elas não podem senão responder: em nada. Em tudo. Portanto, o que elas desejam não é precisamente nada, e ao mesmo tempo tudo. Sempre mais e outra coisa diferente deste um — do sexo, por exemplo — que vocês lhes dão, lhe emprestam. O que é frequentemente interpretado, e reduzido, como uma espécie de fome insaciável, uma voracidade que vos engolirá completa- mente. E, no entanto, trata-se de uma economia outra, que der- rota a linearidade de um projeto, mina o objeto-fim para um desejo, faz explodir a polarização num único objeto de prazer, des- concerta a fidelidade a um único discurso...

Este múltiplo do desejo e da linguagem feminina deve ser ou- vido como estilhaços, restos dispersos de sexualidade violada? Ne- gada? Pergunta para a qual não há uma resposta simples. A rejeição, a exclusão, de um imaginário feminino coloca certamente as mulheres em posição de não se experimentarem senão frag- mentariamente nas margens pouco estruturados de uma ideolo- gia dominante. Como desperdícios, ou excesso, de um espelho investido pelo "sujeito" (masculino) para aí se ver refletido, aí se multiplicar a ele próprio. O papel da "feminilidade" é, além do mais, prescrito por essa especula(risa)ção masculina e corres- ponde muito pouco ao desejo da mulher, que não se recuperará senão em segredo, às escondidas, de forma inquieta e culpada. Mas se o imaginário feminino pudesse vir a desenvolver-se, che- gasse a poder constituir-se de outra forma que não em pedaços, detritos, privados do seu sentido de completude, poderia ele ser então representado sob a forma de um universo? Seria ele próprio volume em vez de superfície? Não. A menos que se o entenda, de novo, como um privilégio do maternal sobre o feminino. De um

maternal, para além do mais, fálico. Fechado sobre a possessão ciumenta de seu produto valioso. Rivalizando com o homem na valorização de um excesso produtivo. Nesta corrida pelo poder, a mulher perde a singularidade do seu prazer. Com este encerrar-se no volume, ela renuncia ao prazer que lhe vem da não-sutura dos seus lábios: mãe, sem dúvida, mas virgem, papel que as mitologias lhe atribuem há muito tempo. Reconhecendo-lhe uma potência so- cial, desde que seja reduzida, com a sua própria cumplicidade, à impotência sexual.

(Re)Encontrar-se, para uma mulher, não poderia, portanto, significar senão a possibilidade de não sacrificar nenhum dos seus prazeres a um outro, de não se identificar com nenhum em parti- cular, de não ser nunca simplesmente um. Uma espécie de uni- verso em expansão ao qual nenhuns limites poderiam ser fixados e que, no entanto, não seria incoerência. Nem essa perversão po- limórfica da criança na qual as zonas erógenas estariam à espera de ser reagrupadas sob o primado do falo. A mulher permaneceria sempre várias, mas evitando a dispersão porque a outra já está nela e lhe é auto-eroticamente familiar. O que não significa dizer que ela se aproprie disso, que ela o reduza à sua propriedade. O próprio e a propriedade são, sem dúvida, bastante estranhos ao feminino. Pelo menos sexualmente. Mas não a proximidade. O tão próximo que toda discriminação se torna impossível. Portanto, toda a forma de apropriação. A mulher tira tal prazer da proxi- midade, que não pode possui-la3, nem possuir-se. Ela troca-se a si própria sem cessar com o/a outro(a)4sem qualquer identifica- ção possível do(a) um(a) ou outro(a). O que interroga toda a eco- nomia corrente. Que o prazer da mulher faz irremediavelmente fracassar nos seus cálculos: crescendo in(de)finitamente pela sua passagem, a sua perda, no outro.

Mas, é claro, para que a mulher chegue aí onde ela tem prazer enquanto mulher, será necessário um longo percurso pela análise dos diversos sistemas de opressão que se exercem sobre ela. E pretender recorrer de forma demasiado rápida à solução do pra- zer, faria correr o risco de lhe faltar o que se requer como reinter-

3NT. ‘proximidade’ é feminino em português, mas em francês le proche é masculino. 4NT. Ver nota anterior.

LUCEIRIGARAY

pretação de uma prática social. Porque a mulher é, tradicional- mente, valor de uso para o homem, valor de troca entre os ho- mens. Mercadoria, portanto. O que a deixa guardiã da matéria cujo preço será estimado pela bitola do seu trabalho e da sua ne- cessidade-desejo pelos ‘sujeitos’: trabalhadores, comerciantes, consumidores. As mulheres são marcadas falicamente pelos seus pais, maridos, proxenetas. E esta estampagem decide do valor delas no comércio sexual. A mulher não seria nunca senão o lugar de uma troca, mais ou menos rival, entre dois homens, incluindo aí a possessão pela terra-mãe. Como é que este objeto de transa- ção pode reivindicar um direito ao prazer sem sair do comércio estabelecido? Como é que esta mercadoria poderia ter com outras mercadorias uma relação diferente do ciúme agressivo em relação ao mercador? Como poderia a matéria tirar prazer dela própria sem provocar no consumidor a angústia do desaparecimento do seu chão nutritivo? Como é que esta troca de coisa alguma que se pudesse definir, sustentar em si mesma, como própria do desejo da mulher, não apareceria como pura isca, loucura, rapidamente recoberta por um discurso mais sensato e um sistema de valores aparentemente mais tangíveis?

A evolução tão radical quanto se quisesse de uma mulher não seria ainda assim suficiente para libertar o desejo da mulher. E nenhuma teoria nem prática políticas resolveram até ao presente, nem tomaram suficientemente em consideração, este problema histórico, embora o marxismo lhe tenha pressentido a importân- cia. Mas as mulheres não formam, para falar com rigor, uma classe, e a sua dispersão por diversas classes torna o seu combate político complexo, a sua luta política, as suas reivindicações por vezes contraditórias. Resta, no entanto, a sua condição de subde- senvolvimento que vem da sua submissão por/a uma cultura que as oprime, as utiliza, faz delas um meio de troca, sem que elas tirem disso grande proveito. Exceto no quase monopólio do prazer masoquista, do trabalho doméstico, e — até agora — da reprodu- ção. Poderes de escravo. Que, de resto, não são nulos. Porque, no que diz respeito ao prazer, o mestre não é forçosamente bem ser- vido. Portanto, reverter as coisas, pelo menos na economia sexual, não parece objetivo. E se a mulher pretende preservar e promover o seu autoerotismo, expandir a sua homo-sexualidade, renunciar

ao gozo heterossexual, tal corresponde ainda a essa amputação de poder que é tradicionalmente a sua. Novo encarceramento, novo claustro, que ela construiria de livre e espontânea vontade? Que ela faça taticamente a greve, que ela se mantenha longe dos homens o tempo de aprender a defender o seu desejo, especial- mente pela palavra, que ela descubra o amor das outras mulheres longe da escolha imperiosa dos homens que as colocam em posição de mercadorias em competição, que ela forje para si própria um estatuto social que force o reconhecimento, que ela ganhe a sua vida para deixar a sua condição de prostituída... são certamente etapas indispensáveis à saída da sua proletarização no mercado das trocas. Mas se o seu projeto visasse simplesmente inverter a ordem das coisas – admitindo mesmo que isso seja possível... — a história finalmente voltaria ao mesmo. Falocratismo. Nem o seu sexo, nem o seu imaginário, nem a sua linguagem, aí (re) encon- trariam o seu acontecer.

LUCEIRIGARAY

Cixous, Hélène. (1976). “Le sexe ou la tête?” in Les Cahiers du GRIF, nº13: “Elles consonnent. Femmes et langages II”, pp.5-151.Disponível

No documento Género e performance: textos essenciais 1 (páginas 61-71)