deveria ser colocada a uma mulher, sob pena de a ofender. Com efeito, ela só seria objeto de amor ou desejável na sua juventude, ou, por um outro motivo, durante os seus anos férteis.
Como compreender esta conceção da idade? Faltam aí, pelo menos, duas dimensões:
1Tradução do francês por Maria Manuel Baptista ([email protected]), Professora Ca-
tedrática do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro e Coordenadora do Grupo de Estudos Género e Performance (GECE) do Centro de Línguas Literaturas e Culturas (CLLC) da mesma instituição, e por António Pernas ([email protected]), Doutorando do Programa de Doutoramento em Estudos Culturais, na Universidade de Aveiro e investigador e membro do GECE.
Que idade tens?
1. A relação entre a idade que eu tenho e o tempo do universo. Um ano da minha vida representa uma primavera, um verão, um outono e um inverno. Durante estas estações muitas coisas acontecem, as quais não podem ser reduzidas a um(a). Nem os dias, nem as estações, nem os anos são pa- recidos. E a sua progressão não pode ser confundida com uma adição. Se olhar para uma árvore, verá que, num ano, a sua forma terá mudado, e não se trata simplesmente de um declínio, mas também de um crescimento – tamanho, número de braços, etc. Os humanos teriam, para além do vegetativo, a consciência. O seu crescimento, o seu desen- volvimento, poderiam também ser espirituais. Auxiliados pelas estações do ano, eles realizariam, a cada ano que passa, uma nova transformação, em continuidade com, mas diferente da do ano anterior. Estar um ano mais velho sig- nificaria, assim, estar um pouco mais a caminho na via da sua própria transformação.
Evidentemente que, o facto de vivermos numa paisagem urbana, habitua-nos a esquecer essa medida do tempo que representa o mundo vegetal. Nas cidades, os horários diá- rios variam muito pouco, independentemente da estação. Exceto nos domingos e férias, os ritmos urbanos permane- cem sensivelmente os mesmos ao longo do ano. Para além disso, o uso de produtos alimentares industrializados ou de exportação também contribui para esquecer a temporali- dade dos dias, das estações e dos anos. Neste sentido, um ano — = 365 ou 366 dias — e estar um ano mais velho, re- dunda num acumular de horas repetidas, dias e anos, todos muito semelhantes.
A repetição sem evolução cansa, desgasta, deteriora. Cada aniversário marcaria uma etapa deste futuro sem futuro, ou ainda uma soma muito abstrata de factos mais ou menos desprovidos de sentido e de articulação. A chave destes fac- tos não se encontraria mais no indivíduo que celebra o seu aniversário. A economia comercial desempenha aí um papel, suportado pelos indivíduos, mesmo se eles aí encon- tram prazeres secundários.
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2. O esquecimento de que o tempo na vida de uma mulher é particularmente irreversível, e ele adapta-se menos do que o do homem à economia repetitiva, cumulativa, entrópica, em grande parte não evolutiva e anuladora, própria do nosso ambiente atual. De facto, o ritmo temporal deste ajusta-se mais ou menos a um modelo tradicional da sexualidade mas- culina. Este modelo não é o único possível, mas tornou-se quase único nas nossas culturas, e ele é descrito por Freud como o único modelo sexual existente para ambos os sexos. Ele opera segundo os dois princípios da termodinâmica: ten- são (por acumulação), descarga, retorno à homeostasia. A sexualidade feminina não corresponde à mesma econo- mia. Ela está, antes, relacionada com a transformação, pre- ferencialmente ligada ao tempo do universo.
Isto quer dizer que a vida de uma mulher não pode ser re- duzida a uma série de factos ou de atos que se adicionam ou anulam. A vida de uma mulher está marcada por acon- tecimentos irreversíveis que definem as etapas da sua idade. Assim acontece com a puberdade (fenómeno que também existe nos rapazes), com a perda da virgindade, a conceção, a gravidez, o parto, a amamentação – aconteci- mentos que podem ser repetidos sem repetições; de cada vez apresentando-se de forma diferente: o corpo e o espírito mudaram, uma evolução física e espiritual está em curso. Há também o ser mãe e a educação das crianças, na qual a mulher está mais envolvida, o que a coloca em contacto per- manente com os problemas do crescimento.
Durante todo este tempo, a mulher vive a sua menstruação, ou regras, continuamente em conexão com a temporalidade cósmica, a lua, o sol, as marés, as estações.
Finalmente, a menopausa marca uma outra etapa na transformação do corpo e do espírito femininos, etapa em que existe um equilíbrio hormonal diferente, uma outra re- lação ao cósmico e ao social. O que é frequentemente defi- nido como o fim de uma vida de mulher, corresponde também ao acesso que ela terá a um tempo mais disponível para a vida social, a vida cultural e a vida política.
O aniversário não pode, portanto, reduzir-se a um ano a mais, numa espécie de soma sem progresso, ou mesmo retrocesso. Isto é especialmente verdadeiro para as mulheres. Nada na vida delas é um somatório de 1+1+1… a menos que renunciem à sua própria natureza. Elas estão – por causa do seu corpo feminino – em per- pétuo crescimento, incluindo na última parte da sua vida.
Viver a idade como uma forma de envelhecimento, resulta no esquecimento desta oportunidade de ter nascido num corpo femi- nino, uma oportunidade que nos pede, certamente, uma elabora- ção espiritual complexa, múltipla. Na verdade, a espiritualidade de uma menina não corresponde à de uma adolescente, nem à de uma amante, nem à de uma mãe, nem à de uma mulher de 45 anos ou mais velha. Talvez a complexidade desta transformação espiritual tenha implicado uma redução abusiva da identidade feminina à função de reprodutora do indivíduo, da espécie e da sociedade. Esta redução, simplificação e anulação subjetivas, acompanham uma transformação cultural centrada nas trocas entre homens, especialmente as económicas, em sentido estrito. Eles são encorajados, pelo menos na nossa época, pelas religiões monoteístas.
Como sair desta paralisia ou aniquilação subjetiva? Como manter e cultivar uma identidade feminina?
O que descobri como sendo o mais necessário para manter o progresso espiritual na minha vida de mulher, pode resumir-se assim:
1. A ideia de que eu nasci mulher, mas que devo tornar-me o espírito ou a alma deste corpo que sou. Eu devo desenvolver plenamente o meu corpo feminino, dar-lhe as formas, as palavras, o conhecimento dele próprio, um equilíbrio cós- mico e social, nas relações com o meio, os meios de troca com os outros, e não apenas através de artifícios de sedução que não lhe são próprios.
2.A ideia de que a virgindade e a maternidade comportam uma dimensão espiritual que me pertence. Estas dimensões foram colonizadas pela cultura masculina: a virgindade tor- nou-se objeto de comércio entre pais (ou irmãos) e maridos,
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condição também da encarnação do divino masculino. Ela deve ser hoje repensada como um bem das mulheres, um bem natural e espiritual, ao qual elas têm direito e em face do qual elas têm responsabilidades.
A virgindade deve ser redescoberta por todas as mulheres como um bem corporal e espiritual que é seu, o que pode devol- ver-lhes um estatuto de identidade individual e coletiva (e, entre outras coisas, a possibilidade de uma fidelidade à sua mãe, esca- pando, deste modo, ao comércio entre os homens). A maternidade deve, igualmente, ser pensada na sua dimensão espiritual, e não apenas material. É talvez mais fácil de imaginar e realizar. Ex- ceto entre mães e filhas?
As mulheres devem cultivar uma dupla identidade: virgens e mães. E isto em cada etapa da sua vida. Porque a virgindade, não mais do que a identidade feminina, não se recebe simplesmente à nascença. Nós nascemos virgens, sem dúvida. Mas também ti- vemos de nos tornar virgens, de desembaraçar os nossos corpos e os nossos espíritos de entraves familiares, culturais, etc. Tor- narmo-nos virgens significaria, para mim, a conquista do espiri- tual pela mulher. Nem sempre se trata de adquirir qualquer coisa mais, mas, antes, de sermos capazes de qualquer coisa de menos. Sentir-se então mais livre em face dos seus medos, dos fantasmas dos outros, afastar-se de saberes, deveres ou bens inúteis.
Uma vida não é demais para realizar esta tarefa! Ter mais idade pode ajudar-nos a realizá-la pela ultrapassagem de etapas que nos deixam mais livres para nos assegurarmos da realização da nossa identidade.
Irigaray, Luce. (1990). “Le coût des mots” in Je, Tu, Nous. S.l: Éditions Grasset & Fasquelle, s.pp.1
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e, nos últimos anos, há muita discussão sobre o salário do trabalho, da sua remuneração justa ou suficiente, é pouco considerado o contexto económico, no sentido mais amplo, onde o salário se aplica. Aqui vou discutir essa questão no hori- zonte da diferença sexual, a saber: qual é a relação entre a lin- guagem e o trabalho, especificamente no que diz respeito à diferença entre sexos?Já não é necessário recordar, pelo menos eu assim o espero, que o ideal de "trabalho igual, salário igual" está longe de ser al- cançado entre homens e mulheres, e que esse não ajustamento entre trabalho-salário pode ir até à inversão das normas de remu- neração, ou seja: para um trabalho mais duro, mais longo, melhor, um salário menor. Uma ideologia sexista, na maioria das vezes in- consciente, pesa, portanto, sobre a economia no sentido estrito.
1Tradução do francês por Maria Manuel Baptista ([email protected]), Professora Ca-
tedrática do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro e Coordenadora do Grupo de Estudos Género e Performance (GECE) do Centro de Línguas Literaturas e Culturas (CLLC) da mesma instituição, e por António Pernas ([email protected]), Doutorando do Programa de Doutoramento em Estudos Culturais, na Universidade de Aveiro e investigador e membro do GECE.