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3 PRATICANDO A MAGIA

3.1 HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (2001)

O primeiro filme da franquia, Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry

Potter and the Philosopher Stone), dirigido por Chris Columbus, foi lançado

16 de novembro em 2001 pela Warner Bros., arrecadou mais de 900 milhões de dólares mundialmente (BOXOFFICEMOJO, 2016) e sua sinopse oficial é a seguinte:

Harry Potter (Daniel Radcliffe) é um garoto órfão de 10 anos que vive infeliz com seus tios, os Dursley. Até que, repentinamente, ele recebe uma carta contendo um convite para ingressar em Hogwarts, uma famosa escola especializada em formar jovens bruxos. Inicialmente Harry é impedido de ler a carta por seu tio Válter (Richard Griffiths), mas logo ele recebe a visita de Hagrid (Robbie Coltrane), o guarda-caça de Hogwarts, que chega em sua casa para levá-lo até a escola. A partir de então Harry passa a conhecer um mundo mágico que jamais imaginara, vivendo as mais diversas aventuras com seus mais novos amigos, Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson). (ADOROCINEMA, 2016)

Somente pela sinopse já conseguimos encontrar algumas etapas da evolução narrativa da saga, pois, nesse filme, conhecemos um Harry criança, completando 11 anos de idade descobrindo que ele é um bruxo. Na exposição (BLOCK, 2010), conhecemos o mundo comum de Harry, o herói da história, na casa de seus tios, onde é maltratado e precisa aceitar a única opção de teto que existe.

Porém, cartas e cartas começam a aparecer pela casa vindas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, que podemos identificar como a segunda etapa da jornada do herói, o chamado à aventura. A terceira etapa acontece quase que simultaneamente, em que os tios de Harry o impedem de ler as cartas.

Após isso, presenciamos Hagrid introduzindo ao Harry o Mundo Mágico, ensinando pequenas características culturais, os artefatos e como a magia acontece, sendo esta a etapa de encontro com o mentor.19

19 Nas histórias de Harry Potter, Hagrid foi o primeiro mentor do herói, mas iremos

presenciar no restante da história que Harry é ensinado por diversos personagens.

Dumbledore, o diretor da Escola de Hogwwarts pode ser considerado o principal mentor do herói, por estar por trás de tudo que Harry faz e seus ensinamentos sempre virem em primeiro lugar.

A travessia do primeiro limiar acontece na transição entre a exposição e o conflito do filme, Harry descobre sua famosa história: quando possuía um ano de idade, perdeu seus pais, sobreviveu e ganhou uma cicatriz em forma de raio na testa por consequência do feitiço da morte, Avada Kedavra, lançado pelo bruxo mais poderoso das trevas, em que perdeu seu corpo e até então era um mistério de onde ele estaria. Este é um momento em que Harry percebe que não está ali por acaso, e Hagrid, de forma paternal, diz que Hogwarts é o melhor lugar ara ele ir agora.

Harry conhece seus melhores amigos Hermione e Rony e passa em seu primeiro teste dentro da jornada do herói: descobre que Voldemort está usando o corpo de um professor em busca da Pedra Filosofal para ganhar forças e adquirir um novo corpo. Felizmente, Harry, Rony e Hermione conseguem impedi-lo.

O primeiro filme da franquia possui características muito infantilizadas. Além dos personagens serem crianças, toda magia é introduzida de forma muito poética. O diretor do filme, Chris Columbus (2011), disse que buscou deixar “romântico, com a cara do livro, convidativo, colorido e vivo”.

Muito tempo de tela é dedicado para que se veja a beleza da magia, com forte trilha sonora e movimentações, o salão principal da escola e seu teto; o chapéu seletor que indica em que casa o aluno ficará20; os fantasmas; o correio feito pelas corujas; o quadribol, principal esporte do Mundo Mágico; voar; e até mesmo as escadas que se movem.

Além disso, assistimos um filme com grande presença de cores, com uma paleta diversa e muitas vezes possuindo algumas cores saturadas. Porém, uma iluminação fortemente azulada nos momentos de Hogwarts, e mais avermelhadas e com mais sombras em situações mais sombrias.

É um filme que nos transmite muito otimismo, apesar de já nos colocarmos frente ao principal vilão da história, trazendo uma narrativa e uma áurea mágica de leveza.

20 Hogwarts possui quatro casas: Grifinória, Corvinal, Lufa-lufa e Sonserina. O chapéu seletor

analisa como cada aluno é - sua personalidade - e escolhe qual casa mais se adapta a ele. Harry possuia grandes indícios para ir a Sonserina (conhecida como a casa dos bruxos das trevas), mas o chapéu seletor ouviu seu pedido e o deixou na Grifinória.

3.1.1 O primeiro ano

O primeiro cartaz de Harry Potter apresenta da forma fácil e muito frequente tudo o que muitas sagas novas no cinema fazem: as cabeças flutuantes21. Star Wars (1977), Os Senhor dos Anéis (2011), Eu Sou O Número Quatro (2011), Crepúsculo (2008), entre outros, apresentaram dessa forma o início de sua saga (tornou-se uma marca registrada de todos os cartazes de Star Wars), pois apresenta uma grande explosão de elementos, mostrando o lado do bem, o mal, o universo todo e como ele é. A figura 06 apresenta o cartaz de Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001).

Figura 06 – Cartaz de Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001)

Observamos um cartaz que segue os padrões do cinema, em formato vertical, com um Harry centralizado e, ao seu redor, diversos elementos que estarão presentes em sua nova vida, como Hogwarts no canto superior

21 “Cabeças flutuantes” é um termo coloquialmente usado na internet para os cartazes que

utilizam a estética de diversos elementos “voando” pela imagem.

esquerdo, Dumbledore logo abaixo, Hermione, Rony, professor Snape, professora Minerva, o Expresso Hogwarts, Hagrid e a coruja Edwiges. Podemos considerar um cartaz que representa um Harry saindo de seu mundo comum e entrando numa aventura.

Temos o rosto de Harry como um grande ponto central. É importante notar que os óculos e a cicatriz de raio vieram a se tornar um símbolo amplamente utilizados para representar o personagem, e é a principal característica inserida nesse centro.

A partir disso, podemos observar uma grande linha circular ao seu redor, como se todos os elementos do universo mágico estivessem ao redor do centro, de Harry. Arnheim (2011, p. 165) diz que o círculo vem das primeiras formas desenhadas pelas crianças, pois não apresenta forças para nenhuma direção, e sim para seu centro. É uma forma infantilizada de dizer que muitas vezes é como as crianças se enxergam em seus primeiros anos de vida, literalmente “o centro do universo”, e nesse caso, o centro do filme todo, tudo está ali por ele.

Olhando visualmente para as cores, vemos praticamente somente a cor azul, predominantemente usada na narrativa do filme. Podemos relacionar o uso dessa cor pois o azul atrai “para o infinito, desperta (…) o desejo de pureza e uma sede de sobrenatural” (KANDINSKY, 2000, p. 92). É nessa cor que associamos quase que instantaneamente como a cor “mágica” e, apesar de termos a sensação de distanciamento, é uma cor calma que cria profundidade (KANDINSKY, 2000, p. 92), fatores que a narrativa busca alcançar.

Outra cor que ganha destaque é a da logo do filme, a escrita “Harry Potter” na cor amarelada, tendendo para o dourado, é o elemento mais agressivo do cartaz, mesmo que ele ainda seja bem contido. O amarelo, como sabemos, nos aproxima, esquenta a imagem e é excêntrico (KANDINSKY, 2000, p. 89). Além de ser uma forma comercial para atrair o nome do filme aos olhos do público, ele também impede que a imagem resulte num afastamento muito grande.

Além disso, a logo é uma fonte de luz própria, ela produz feixes de luz oblíquos para ganhar mais destaque na imagem, mesmo que essa luz não produza claridade para o restante da imagem. Essa luz nos ajuda a perceber

a textura presente na logo, um dourado emborrachado, um efeito textural que remete ao sentido de “fofura”, que mesmo com uma tipografia pontiaguda não transparece agressividade. Suas letras desalinhadas nos dão a sensação de que estão levemente flutuando na figura.

Buscando outros aspectos, o cartaz de A Pedra Filosofal22 pode nos

mostrar como o gradiente cria profundidade (ARNHEIM, 2011, p. 263). O espaço do cartaz é muito profundo quando olhamos que a parte inferior do círculo está em primeiro plano e a parte superior em último. Temos um Harry num plano mediando, com o próprio Dumbledore num plano mais frontal, e isso pode ser associado com o papel de proteção que o Harry encontra no filme, pois, apesar de ser o centro da história, ainda é um garoto perdido entendendo o seu papel no mundo bruxo.

A névoa também cria uma grande profundidade, é através dela que notamos uma Hogwarts muito mais longe que o professor Snape, logo abaixo da palavra “Harry”. Essa névoa usa o artifício da transparência e da sobreposição (ARNHEIM, 2011, p. 115) para ajudar a separar os planos e permitir que os “corpos flutuantes” ignorem a escala dos objetos/pessoas do cartaz.

Não podemos apenas simplificar a névoa do cartaz como um simples truque de espaço. Se observamos, ela preenche praticamente todo os planos da imagem e é dela que sentimos a presença da cor azul. Essa névoa também possui o papel de transmitir como a magia funciona no Mundo Mágico, e essa textura de “nuvem” nos da a leveza poética, como uma magia totalmente sem agressividade.

Villafañe (2006, p. 109) diz que a textura dilata ou comprime o espaço, mudando a plasticidade. Podemos diferenciar a névoa da fumaça do trem Hogwarts Express que aparece no canto inferior direito do cartaz, com uma textura espessa e direcional, mais branca e mais pesada.

Todas essas características presentes até agora dizem muito sobre o equilíbrio encontrado na imagem, “cada relação é desiquilibrada em si; juntas elas todas se equilibram na estrutura de toda obra” (ARNHEIM, 2011, p. 32).

22 É usado abreviadamente o subtítulo do filme para se referir a ele, ou então a sigla HP e o

seu número correspondente de lançamento, no caso de Harry Potter e a Pedra Filosfal, o chamamos de HP1, Harry Potter e Câmara Secreta, HP2, e respectivamente até HP7.2.

A indiferença escalar e de profundidade ajuda a ter uma harmonização, temos um Harry muito maior que uma Hogwarts, mas seus pesos acabam se equilibrando (Harry ganha mais destaque por se apresentar num plano mais frontal). Uma Hogwarts mais distante possui mais peso, porém um Harry “leve”, muito próximo e com uma distorção escalar, acaba tornando a imagem equilibrada.

No cartaz não vemos uma movimentação totalmente uniforme, temos a sensação de que cada elemento possui uma independência, apesar da obra completa nos dar o dinamismo necessário. A linha circular nos ajuda a ver a dinâmica, podemos percorrer todos os elementos da imagem e encontrar o Harry em seu centro, mas nesses elementos podemos sentir a movimentação independente de cada um.

Além disso tudo, não podemos esquecer da importância da expressão, em que o comportamento nos diz muito sobre o resultado final da experiência visual (ARNHEIM, 2011, p. 437). No cartaz d’A Pedra Filosofal, percebemos um Harry de uma inocência muito forte, curioso, com seus olhos direcionados para a esquerda, como se estivesse olhando atentamente para algo novo. Isso representa muito sobre como o primeiro filme surge para introduzir todo um mundo novo, seja visual e cultural.

Por fim, podemos notar um cartaz muito rico, que busca destacar principais elementos do novo mundo do Harry, como se ele representasse a segunda etapa da jornada do herói, convidado ao mundo especial, e mesmo com grande quantidade de informações, faz isso de forma simplória, buscando elementos infantis, cores confortáveis, uma magia leve e poética.