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Heterogeneidade estrutural e a teoria evolucionária: do macro ao microeconômico

3. Heterogeneidade Estrutural e sua relação com a produtividade

3.2 Heterogeneidade estrutural e a teoria evolucionária: do macro ao microeconômico

A heterogeneidade estrutural, conceituada pelos diferenciais históricos de produtividade existentes no seio de uma mesma estrutura produtiva, é estudada primeiramente através dos diferenciais de produtividade. O efeito de se ter uma heterogeneidade produtiva intra e intersetorial em uma mesma estrutura produtiva que se reproduz ao longo do tempo é o que traz o cunho estrutural à heterogeneidade produtiva.

Sendo assim, a heterogeneidade estrutural, quando não considerado uma extensão de período de tempo, se expressa na heterogeneidade produtiva, que, decorrente dos diferenciais de produtividade, tem seu cerne na produtividade em si. A relação do macroeconômico e histórico da heterogeneidade estrutural, que se manifesta em um dado tempo na heterogeneidade produtiva, tem sua origem na microeconomia da produtividade.

Aprofundando da heterogeneidade estrutural à produtividade, ao se vincular a produtividade com a renda do trabalho, seus diferenciais são os causadores da desigualdade de renda associada a diversos tipos de assimetrias, dentre elas dos níveis educativos, que pode influir também na própria produtividade do trabalho. Os mesmos diferenciais de produtividade operam nas instituições do mercado de trabalho em aspectos como as negociações salariais e o salário mínimo, influenciando a capacidade dos trabalhadores de apropriação do arrecadado no processo produtivo assim como a repartição da remuneração entre capital e trabalho (CEPAL, 2012).

Além da relação da macroeconomia da heterogeneidade estrutural com a microeconomia do mercado de trabalho, a macroeconomia de aspectos como a exportação, políticas de apoio à inovação e ao aprendizado desempenham papel favorável no movimento da firma para os estratos de maior produtividade. A transformação da estrutura produtiva pode vir a representar um importante estímulo para a redução dos elevados níveis de desigualdades que caracterizam economias periféricas, como a brasileira (INFANTE e SUNKEL, 2009). Em um panorama ainda abrangente da heterogeneidade estrutural, esta, que se manifesta na coexistência em uma mesma economia de setores altamente produtivos junto com o grande peso relativo dos setores de baixa produtividade, dificulta a propagação do progresso técnico perpetuando a brecha produtiva dentro do país e em

relação a países mais dinâmicos na incorporação de progresso técnico (CEPAL, 2012).

A relação macroeconômica da heterogeneidade estrutural com a microeconomia da economia do aprendizado tem sua origem na compreensão do desenvolvimento e subdesenvolvimento trazida na teoria estruturalista do desenvolvimento. Esta busca explicar o porquê de certas regiões se manterem atrasadas em termos de renda per capita e o porquê deste atraso vir acompanhado de uma acentuada desigualdade distributiva. Prebisch (1949) apresenta a difusão lenta e desigual do progresso técnico na escala internacional como o ponto de partida para se entender o desenvolvimento e o subdesenvolvimento – é a partir dos movimentos desiguais da tecnologia que emergem as estruturas produtivas denominadas centro e periferia e que se perpetuam de maneira endógena no tempo (CIMOLI e PORCILE, 2011).

A ausência do progresso técnico gera estruturas produtivas pouco diversificadas e pouco dinâmicas, nelas o próprio progresso técnico se reproduz com ajustes pequenos ao longo do tempo – similar ao fluxo walrasiano ou circular descrito por Schumpeter (1834). A inserção do progresso técnico adotado através da inserção de novas tecnologias permite a implantação de novos setores e a diversificação da estrutura produtiva – característica das estruturas produtivas desenvolvidas – tornando-se mais densa, complexa e diversificada. O aumento da taxa de crescimento e da produtividade é associado à acumulação do capital, de conhecimento e à complementaridade dos setores econômicos. Os diferenciais de produtividade inerentes à concorrência capitalista e ao paradigma tecnológica de cada setor geram a difusão do progresso técnico em todo o seio produtivo. Ainda que diversificada, tal estrutura produtiva também se torna homogênea, pois a diferença de produtividades entre setores não é elevada e não tende a se ampliar ao longo do tempo (CIMOLI e PORCILE, 2011).

O movimento descrito acima, se assemelha com a definição schumpeteriana de desenvolvimento econômico. Para Schumpeter (1834) o desenvolvimento este intimamente relacionado à inovação e aos seus efeitos sobre a produtividade e a estrutura produtiva. A implantação da inovação faz surgir novos setores e desaparecerem outros via concorrência sob o impacto da “destruição criadora” schumpeteriana. Os portadores da inovação geram as ondas primárias do progresso técnico tirando a economia do fluxo circular e auferindo lucros extraordinários. Os imitadores e as inovações secundárias geram as ondas secundárias de progresso técnico difundindo a inovação e os incrementos produtivos a toda a coletividade (CIMOLI e PORCILE, 2011).

Tanto na visão cepalina quando na visão schumpeteriana de desenvolvimento o progresso técnico tem papel preponderante, em ambas, o desenvolvimento é impulsionado pela mudança estrutural e por desequilíbrios que redefinem a estrutura produtiva. Porém, a teoria estruturalista do desenvolvimento apresenta a hipótese do processo de destruição criadora ocorrer de maneira polarizada, concentrado seus efeitos somente em partes localizadas do sistema produtivo (CIMOLI e PORCILE, 2011).

A teoria estruturalista do desenvolvimento apresenta que o sistema produtivo capitalista não retorna ao equilíbrio onde todos se beneficiam dos aumentos de produtividades gerados pelo progresso técnico, senão, que este se concentra nas economias de centro e apenas chega a alguns setores das econômicas periféricas – exportadores. A absorção do progresso técnico assim como o processo de diversificação produtiva a ele associado penetra superficialmente na estrutura produtiva periférica gerando assimetrias que explicam a heterogeneidade da estrutural – que se manifesta nos fortes diferenciais de produtividade – e sua especialização – em poucos bens de exportação de baixa tecnologia (CIMOLI e PORCILE, 2011).

Assim sendo, centro e periferia é parte de um mesmo sistema e não fases adjacentes de processo econômico do desenvolvimento. Isto significa que, centro e periferia emergem e se reproduzem através de sua dinâmica conjunta. Desta maneira, cabe entender, por que o progresso técnico não se difunde na periferia como ocorre no centro. Assim, o estudo da microeconômica do progresso técnico se faz necessária assim como dos mecanismos de retroalimentação existentes entre as esferas micro e macroeconômica (CIMOLI e PORCILE, 2011).

A teoria estruturalista do desenvolvimento apresenta o progresso técnico como um bem privado e endógeno, porém, nos primórdios de sua concepção – década de 1950 – não existia uma teoria microeconômica do aprendizado e da inovação. No final da década de 1970, as teorias evolucionárias preencheram o hiato teórico existente para fundamentação microeconômica de forma rigorosa do comportamento macroeconômico de longo prazo anteriormente descrito pelos cepalinos (CIMOLI e PORCILE, 2011).

Segundo Catela e Pocile (2012) o complemento mais adequado para aprofundamento da visão macroeconômica do estruturalismo é a microeconomia do aprendizado e da construção de capacidades da teoria evolucionista. A teoria evolucionista apresenta a empresa como um agente acumulador de capacidades tecnológicas através de distintos processos de aprendizado (learning by doing, learning by using, learning

by interacting, learning by exporting). O processo de aprendizado é cumulativo fazendo com que as empresas inovadoras tenham maior probabilidade de seguir inovando.

A existência de cumulatividade faz com que a inovação dependa de uma trajetória tecnológica, isto é, seja path-dependence. Os fenômenos de path-dependence e histerese? são importantes de forma que podem fazer surgir armadilhas de baixo crescimento. Essas armadilhas somente podem ser superadas através de políticas ativas que afastem o sistema do círculo vicioso do atraso produtivo – falling behind..O capital humano assume importância na difusão tecnológica fazendo-se necessária a construção de um ambiente institucional adequado para o aprendizado. Aqui se destacam as políticas industrial e tecnológica como forma de alavancagem da inovação e da difusão (CATELA e PORCILE, 2012).

A teoria evolucionária identifica um conjunto de fatores do processo de aprendizado determinantes para os casos de êxito rumo à convergência com a fronteira tecnológica. Segundo Cimoli e Porcile (2011):

a) O aprendizado é localizado e as firmas aprendem no entorno da competência e das capacidades tecnológicas existentes; b) Há um forte componente tácito no aprendizado, assim muito

da tecnologia não pode ser copiada através do conhecimento codificado – a experiência é crucial;

c) O progresso técnico é path-dependence, isto é, depende da trajetória tecnológica, o que implica que o passado é projetado na evolução futura das capacidades;

d) O processo de inovação e difusão tecnológica está fortemente ligado, não há difusão sem um esforça das firmas imitadoras para adaptar a tecnologia estrangeira a sua realidade e melhorá-la. Assim, a difusão vem acompanhada por uma sequência de inovações menores. Os casos exitosos de catching up apresentaram esforços continuados para adaptação da tecnologia estrangeira como base para o processo de aprendizado local;

e) O aprendizado apresenta acentuados retornos crescentes o que explica fenômenos como a acumulação de capacidades. As firmas que inovam em um determinado período, são aquelas com maior probabilidade de inovar no período seguinte. Os retornos crescentes estão associados a complementaridade entre ativos produtivos e tecnológicos e a diversas formas de sinergia;

f) Aumento de produção induzem aumento de produtividade, como dita a lei de Kaldor-Verdoor, para abarcar a influência de uma ampla gama de processos de aprendizagem. Tais processos podem ser, segundo a literatura neoschumpeteriana, learning by doing, learning by using, learning by interacting, learning by exporting, entre outros; g) O padrão de especialização periférico de crescimento é tendencialmente mais baixo e flutua mais do que o do centro. Isso ocorre devido à restrição externa, ao comportamento dos termos de troca e à combinação destas variáveis com o fluxo de capitais externos e com o endividamento. Os ciclos de liquidez internacional geram ondas de expansão e contração reforçadas pelo comportamento do câmbio e por políticas monetárias e fiscais pró-cíclicas. Assim aumentam as incertezas que deprimem os investimentos de longo prazo e o processo de aprendizagem – via lei de Kaldor-Verdoor. Isso dá origem a uma armadilha de baixo crescimento e também de baixa aprendizagem, no qual o retorno crescente alimenta um ciclo vicioso de atraso tecnológico e produtivo; h) O progresso técnico tende a se concentrar em alguns setores da economia: alguns setores têm taxas de inovação e efeitos sobre a difusão do progresso técnico muito mais fortes que outros. Há uma relação direta entre os esforços de P&D realizados em uma economia e o peso nela, dos setores intensivos em tecnologia. O potencial para aprendizagem aumenta em decorrência da diversificação da estrutura econômica para setores intensivos em tecnologia;

i) O progresso técnico emerge de um processo de interação entre diversos agentes distintos, com objetivos diferentes, regras e estruturas organizacionais distintas, como empresas, universidades, centros de pesquisas, institutos. É chave para determinar a intensidade do progresso técnico, a existência de um marco institucional adequado que coordena a interação de tais agentes e induza o comportamento cooperativo a favor da inovação e da difusão do progresso técnico;

j) Não há trajetória definida para o progresso técnico. Seu próprio cunho tácito, idiossincrático e específico determina a diferença de diferentes trajetórias, porém, um desenho institucional, políticas industriais, tecnológicas e de educação podem afetar seu rumo. Assim sendo, há espaço

para a sociedade tomar decisões estratégicas quanto aos caminhos desejáveis a serem traçados;

k) Cada caminho tecnológico implica em uma trajetória de mudança estrutural distinta e, por tanto, de evolução do emprego e da distribuição de renda. Caminhos mais favoráveis à redução da heterogeneidade são frutos de decisões que se refletem em instituições e na política. Este conjunto de fatores define a taxa de inovação e difusão de cada país especificamente, a partir das características de suas estruturas produtivas e de suas configurações institucionais. Tais fatores afetam a acumulação de capacidades tecnológicas no longo prazo. O Sistema Nacional de Inovação se refere às distintas formas que o marco institucional (políticas tecnológica, industrial, educacional e macroeconômica) e a estrutura produtiva se combinam em cada país para definir a intensidade da inovação (CIMOLI e PORCILE, 2011).

Analisando tais fatores, percebe-se que o progresso técnico não se representa pelas mudanças de funções de produção bem definidas, senão em trajetórias de aprendizagem que se materializam na acumulação de capacidades tecnológicas. As políticas públicas assumem papel determinante de construir instituições que possibilitem mecanismos estáveis de coordenação de longo prazo entre os distintos agentes que atuam na inovação e difusão tecnológica (CIMOLI e PORCILE, 2011).