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Plano econômico como base para o crescimento (1964 – 1967)

Quadro 2 Quadro síntese: Heterogeneidade Estrutural e sua relação com a produtividade

4. Industrialização brasileira: transformações na estrutura produtiva

4.5 Plano econômico como base para o crescimento (1964 – 1967)

O período que se estende de 1964 a 1979 é conhecido pelas mudanças profundas na estrutura produtiva brasileira. Muitas das lacunas existentes na indústria nacional foram preenchidas em tal período através

0 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1961 1962 1963 1964 PIB FBKF

de um plano amplo e coordenado de industrialização encabeçado pelo Estado no interregno democrático.

O crescimento econômico e as transformações industriais vividas no período caracterizado como “Milagre Econômico Brasileiro” ocorreram sob as bases das reformas e propostas executadas no período anterior, inseridas, principalmente no Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) lançado no primeiro trimestre de 1964 e que vigorou até 1967. O PAEG indicava como problema central da economia brasileira a aceleração inflacionária e veio para solucionar os problemas herdados do Plano de Metas de JK (CARDOSO DE MELLO e BELLUZZO, 1998).

O Plano de Metas representou um avanço industrial importante, porém, o desenvolvimento só foi possível com o aprofundamento do endividamento. As emissões monetárias para saldar a dívida eram frequentes, o que proporcionou o aumento das pressões inflacionárias. Outros desequilíbrios econômicos ocorridos na época para financiar os investimentos na indústria e também a construção de Brasília fizeram com que o Brasil se encontrasse na década de 1960 com forte aceleração inflacionária e instabilidades.

O Plano de Metas de JK resultou em uma crise de superacumulação acompanhada de forte pressão inflacionária. O ápice da crise iniciada em 1962 foi em 1964, assim a solução para enfrentamento da mesma veio do governo político-militar através do PAEG. A aceleração inflacionária era o alvo central e seu principal diagnóstico elaborado pela equipe Campos-Bulhões, era o excesso de demanda e aumentos salariais (CARDOSO DE MELLO e BELLUZZO, 1998).

O PAEG visava além da aceleração do ritmo de desenvolvimento econômico conter gradualmente o processo inflacionário em prol de obter um razoável equilíbrio de preços, atenuar os desníveis econômicos regionais e setoriais e as tensões criadas pelos desequilíbrios sociais mediante melhora na condição de vida, assegurar oportunidades de emprego produtivo à mão de obra através de uma política de investimentos e corrigir a tendência a déficits do balanço de pagamentos (REZENDE, 1990).

A importância da recuperação e manutenção das taxas de crescimento da economia sem que essa viesse acompanhada de aceleração inflacionária era o objetivo central do PAEG. O combate da inflação seria, então, realizado de forma gradual, que não ameaçasse o ritmo das atividades produtivas. Assim a política implementada era de stop and go, com uma certa tolerância à inflação. Pontos como as restrições do balanço de pagamentos e a baixa poupança pública eram

vistos como entraves ao crescimento, para isso políticas de incentivo à exportação e a abertura da economia ao capital estrangeiro assim como de captação de poupança forçada vinham na direção de incentivo à produtividade industrial, fomento do crescimento e controle inflacionário.

A inflação era diagnosticada como sendo o resultado de inconsistências distributivas em dois pontos principais: gastos do governo superior à sua arrecadação e na incompatibilidade entre propensão a consumir e a poupar ou investir, associada à política de expansão de crédito às empresas. Desse quadro constatam-se três causas para a inflação brasileira: déficits públicos, expansão do crédito e aumentos institucionais dos salários acima do aumento da produtividade; assim sendo, as três normas básicas para combate à inflação no PAEG eram:: redução do déficit público por meio da contenção dos gastos e do aumento das receitas mediante reforma e racionalização tributária, bem como aumento das tarifas e preços públicos, causando, inicialmente, inflação corretiva; aumento dos salários reais proporcional ao aumento da produtividade; política de crédito às empresas, de forma controla visando impedir os excessos da inflação de procura, mas realista o suficiente para adaptar-se à inflação de custo (REZENDE, 1990).

Dentre as políticas de controle inflacionário, a política salarial do PAEG é vista como pilar central. As regras e os reajustes salariais, determinados pelo governo, tinham como normas básicas o cálculo do salário médio real dos últimos 24 meses incidindo sobre este a taxa de produtividade. Um resíduo inflacionário seria acrescentado calculado como a metade da inflação programada pelo governo para o ano seguinte. Na prática, a política de reajuste salarial representou um corte do salário real dos trabalhadores. Isso ocorreu devido à realidade política da ditadura militar – que controlava atividades sindicais reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores – e à subestimação pelo governo da inflação esperada, a inflação real sempre se apresentava superior a esta (REZENDE, 1990).

No tocante ao setor produtivo, a política monetária contracionista trouxe restrição creditícia e elevação de juros reais provocando aumento do passivo das empresas e levando empreendimentos pequenos a falir, principalmente de setores tradicionais, como o setor têxtil, o vestuário e a construção civil. Frente ao setor externo, o sistema cambial foi unificado, as agências do setor público ligadas ao comércio exterior foram modernizadas e houve maior integração com sistema financeiro internacional como fonte de acesso a créditos de médio e longo prazo (REZENDE, 1990).

O PAEG promoveu reformas institucionais importantes, que tinham como objetivo corrigir a desordem tributária, as deficiências de um mercado financeiro subdesenvolvido, a inexistência de um mercado de capitais e as ineficiências e restrições ligadas ao comércio exterior. Como exemplo: acaba-se a Lei de Usura – que limitava a taxa de juros nominais a 12% ao ano – propiciando captação de recursos via emissão de títulos e contendo a emissão monetária; institui-se a correção monetária e as Obrigações Reajustáveis do Tesouro (ORTN); criou-se o Conselho Monetário Nacional (CMN), o Banco Central do Brasil (BCB), o Sistema Financeiro da Habitação (SFH), Banco Nacional de Habitação (BNH), entre outros.

Obteve-se êxito na redução das taxas de inflação e na promoção de grandes mudanças no quadro institucional da economia brasileira. O Estado, em plena ditadura, foi dotado de maior controle de suas contas e capacidade de intervenção. O sistema financeiro foi modernizado, proporcionando formas de viabilizar o crescimento econômico futuro.

Porém, com o PAEG observam-se impactos regressivos na distribuição de renda, devido à redução dos salários reais e à restrição monetária e creditícia que afetaram severamente as pequenas empresas. Ao se analisar as características de crescimento do período seguinte, observa-se que a concentração de renda se relaciona e é condição necessária para seu desencadeamento. O arrocho salarial foi visto inclusive como um dos elementos decisivos na predeterminação das condições para a retomada do crescimento (CARDOSO DE MELLO e BELLUZZO, 1998).

Como citado anteriormente, o PAEG, apesar de não ter proporcionado mudanças expressivas na estrutura produtiva brasileira, proporcionou mudanças institucionais importantes que viabilizaram o desenvolvimento da indústria brasileira no período seguinte. No entanto, as políticas fortemente restritivas do PAEG, principalmente de controle inflacionário – redução dos salários reais e contração creditícia – promoveu fragilidades no setor produtivo e aumento da concentração de renda.

Gráfico 5 - Brasil – Taxa de variação real do PIB, (% a.a.) e FBKF (R$ de 1980), 1964–1967

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do SCN/IBGE.

O período vivido pela econômica brasileira de 1964 a 1967 é de transformações estruturais que visavam viabilizar o crescimento almejado nos anos futuros. Conforme Gráfico 5, é possível observar que o crescimento em tal período é modesto, pois operava-se internamente reformas estruturais importantes que visavam conciliar crescimento e estabilidade, assim sendo, o crescimento existiu, mas foi menos arrojado do que se observará nos períodos futuros da economia e o que se observou durante o Plano de Metas. Apesar do modesto crescimento do PIB, a FBKF apresenta crescimento importante, 35% de 1964 a 1967.