Quadro 2 Quadro síntese: Heterogeneidade Estrutural e sua relação com a produtividade
4. Industrialização brasileira: transformações na estrutura produtiva
4.4 Instabilidade econômica e política(1961 – 1964)
Os anos de 1961 a 1964 são de grandes flutuações na política econômica do governo. Após os grandes desequilíbrios causados pelo
0 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0 2 4 6 8 10 12 1955 1956 1957 1958 1959 1960 PIB FBKF
Plano de Metas, estabilizar a economia e controlar a inflação eram medidas necessárias para retomar o caminho do crescimento. A política monetária e creditícia pós-1961 em seu caráter contracionista evidenciava a preocupação com a aceleração inflacionária como ponto central no cenário brasileiro da época. O setor produtivo sofria com a restrição devida principalmente à ausência de crédito produtivo (ALMEIDA, 2010).
Jânio Quadros, em seu discurso de posse em janeiro de 1961, expõe a situação crítica da economia brasileira: dívida externa de 2 bilhões de dólares a serem pagos durante seu mandato e 600 milhões que deveriam ser pagos já no primeiro ano. Além disso, o governo de Quadros defrontou-se com o aumento constante da influência do Estado na esfera econômica; o agravamento dos desequilíbrios econômicos; administração pública ineficiente; a necessidade de renegociar a dívida externa e conseguir novos empréstimos; planejar e executar um programa de investimentos governamentais e de incentivos às empresas. Além da aceleração inflacionária que se colocava em primeiro plano como o maior e mais urgente problema a ser resolvido. Prometendo reformas para solucionar tais problemas, Jânio iniciou o governo com grande iniciativa e mostrando que poderia mudar a situação econômica, mostrando-se um governo diferente do anterior no quesito estabilidade da economia brasileira (SKIDMORE, 2010; IANNI 1996).
Jânio anuncia corte de 30% nas despesas do funcionalismo público e das forças armadas e um programa de reforma cambial, retirando as taxas múltiplas de câmbio adotadas pelo governo de Juscelino, e instituindo uma única taxa para todas as transações comerciais ocorridas no mercado através da Instrução nº 204 da SUMOC. Com esta reforma o governo tinha por objetivo diminuir os índices de inflação e reforçar a parte financeira que estava em débito, além de beneficiar a burguesia agroexportadora e os investidores internacionais. Com a Instrução, o câmbio desvalorizou e dobrou seu valor frente ao dólar, o que levou a efeitos devastadores para a grande massa de brasileiros, pois reduziu os subsídios às importações de caráter essencial gerando custos diretos para a classe mais baixa da população. Apesar de todo impacto sobre a população, o efeito da adoção da taxa de câmbio única não foi sentido sobre os recursos para o Tesouro, pois as receitas dos leilões de cambiais, que ocorriam com as taxas múltiplas, foram substituídas por um recolhimento obrigatório sobre as exportações, criando uma nova forma de tributação e, desta forma, mantendo um efeito positivo sobre o orçamento público (SILVA, 2000; BENEVIDES, 1981; SILVA, 2000).
As reformas realizadas foram bem vistas pelo FMI e demais bancos internacionais, pois davam ao governo brasileiro maior credibilidade para resolver a grande crise deixada por JK. O novo presidente havia começado a cumprir suas promessas, pois a partir de um aperto financeiro rigoroso abriria precedentes para novos incentivos ao desenvolvimento. E para este novo impulso desenvolvimentista seriam necessários novos investimentos externos, pois não havia recursos nacionais para tal feito. Com o aumento da credibilidade brasileira aos olhos dos investidores internacionais, novo empréstimo foi concedido permitindo nova rolagem da dívida externa (SKIDMORE, 2010).
Jânio conduzia a política econômica restritiva compreendendo os desafios da estabilidade e sua importância para o desenvolvimento. Havia pressões da classe produtiva devido às diversa restrições, por mais que a inflação estivesse estabilizada. A política fiscal de Jânio reconhecia a necessidade de manter os investimentos, apesar do programa de estabilização, porém havia grandes desequilíbrios nas contas públicas que geravam inflação e impediam a realização dos mesmos. Nos últimos meses de seu governo, Jânio passa a ter dúvidas quando a seu programa de estabilização e passa a dialogar com intelectuais “desenvolvimentistas” verificando a importância da existência de ações de planejamento, assim cria a Comissão Nacional de Planejamento às vésperas de sua renúncia.
Em 25 de março de 1961, Jânio Quadros renuncia a presidência do Brasil em face de estar sofrendo fortes pressões de “forças” que se levantavam contra ele e que o impediam de governar a favor das massas e burguesia e com poderes excepcionais para implantar os projetos desejados por ele. João Goulart, seu vice, assume a presidência.
A tomada de posse de João Goulart ocorre em meio a um período de turbulência interna e desacordos políticos. João Goulart estava em viagem, assim assume a presidência o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli. Os militares buscam impedir de toda a forma a tomada de posse de João Goulart o que resultam no período parlamentarista de setembro de 1961 a janeiro de 1963 O primeiro gabinete, denominado de “união nacional”, assume neste contexto no dia 14 de setembro de 1961 e para presidi-lo é aprovado no Congresso Nacional o nome de Tancredo Neves, o último ministro da Justiça de Vargas, em 1954. Sendo este gabinete o de maior duração, até o final de junho de 1962, mais de nove meses (TOLEDO, 1986).
Como marco do governo de João Goulart, além da estabilidade política e social ocorrida no período, ressalta-se o plano Trienal – base do PAEG – iniciado com o retorno do governo presidencialista em 1963.
Pela primeira vez, era elaborado um plano com diagnóstico amplo e detalhado das condições e fatores responsáveis pelos desequilíbrios, pontos de estrangulamento e perspectivas para a economia do país nos próximos anos. A elaboração ficou a cargo de Celso Furtado, mas a execução seria feita pelo então ministro da Fazenda, San Tiago Dantas. O Plano exprimia a convergência das experiências práticas dos diversos governos brasileiros anteriores e dos debates técnicos e teóricos (IANNI,1996).
O Plano foi extremamente criticado tanto por organizações da esquerda como da direita. O CGT acusava-o de ser uma tentativa para uma política conciliatória com os setores mais conservadores da sociedade e com o imperialismo, já as entidades industriais, que a princípio, apoiavam o Plano, foram retirando esse suporte, pois necessitavam de um crédito flexível e do controle dos salários. E as resistências às medidas ortodoxas foram impulsionadas pela radicalização política do período. Diante das críticas, no segundo trimestre de 1963 haverá um relaxamento na política monetária e em suas restrições, o que iria influenciar no caminho do Plano e seria um dos fatores de seu fracasso (ALMEIDA, 2010).
Ao observar o malogro de seu plano econômico, Jango tenta salvar a credibilidade de seu governo com uma reforma ministerial. Nesta reforma assume a pasta do Ministério da Fazenda o ex-governador de São Paulo, Carvalho Pinto, um homem ligado à burguesia industrial paulista e que tinha por missão dar um novo fôlego à estabilização econômica. A escolha de Carvalho para a pasta revela a busca por maior flexibilidade e maior sensibilidade no atendimento das demandas, porém, um político conservador, que garantiria a tranquilidade aos mercados e ao empresariado nacional e estrangeiro (FONSECA, 2004).
Cogitava-se a necessidade de reforma tributária com intuito de modernização e integração do mesmo. O país sofria com questões cambiais em decorrência da desvalorização de 30% do câmbio ocorrida visando aproximação do câmbio oficial da taxa cobrada no mercado paralelo de cambiais. O pagamento da dívida estava comprometido assim como os royalties e remessa de lucros que impactavam negativamente as contas externas. Os investimentos externos apenas retornariam ao país com a volta da estabilidade, independente das negociações da dívida ou intenso controle sobre a balança comercial. As medidas adotadas pelo ministro foram na área cambial sobre a intensificação do controle sobre o mercado e, mesmo o câmbio não sendo desvalorizado, as exportações aumentaram, assim como os termos de troca, por conta da melhora no financiamento das exportações, pela concessão de benefícios para
exportadores e a prioridade na importação de matérias-primas industriais. Neste contexto, não foi declarada a moratória da dívida externa (SKIDMORE,2010).
No campo monetário, para não prejudicar a produção industrial, Carvalho Pinto, afrouxa o crédito, aumenta os meios de pagamento, porém, foi um aumento coordenado, o que o governo demonstra através da reação do ministro perante a tentativa de aumentar os limites dos redescontos em algumas agências bancárias por parte do Conselho de Redescontos. Através da Instrução 255 da SUMOC, o governo tem a meta de captar recursos para o setor público, retirando a liquidez do setor privado e satisfazendo novas demandas de crédito, para tal, o Banco do Brasil iria emitir letras com o prazo de 180 dias e juro zero, o que iria fornecer o dinheiro necessário para investimentos estatais e combater a inflação, mas esta ação governamental sofreu grandes críticas dos bancos privados. Por sua vez, na política fiscal, os déficits do governo aumentaram em função dos aumentos concedidos aos funcionários públicos e da maior flexibilidade da política. A reforma tributária não foi adiante, assim como a reforma bancária, pois foram encobertas pela tensão gerada no Congresso por conta da polêmica reforma agrária, que estava em discussão, mas os partidos conservadores votaram contra o projeto e vetaram-no no plenário, conforme (ALMEIDA, 2010).
O governo aprova o 13º salário mimo para aposentados e edita vários decretos nacionalistas, como o regulamento da Lei de Remessa de Lucros. João Goulart demonstra comprometimento com as reformas de base e projeta uma reforma administrativa criando o Ministério de Ciência e Tecnologia e uma lei que estendia o 13º salário aos funcionários públicos.
O governo de Goulart encaminha-se para o golpe com uma crise política e uma economia com desequilíbrios em todas as variáveis macroeconômicas – crescimento do PIB ligeiramente positivo, taxas de inflação e cambial em alta – o que gerava aumento do custo de vida e afetava toda a população, influenciando a produção e desestabilizando a indústria. E mesmo com melhoras na balança comercial e no balanço de pagamentos, não havia como negar a grande crise econômica pela qual o governo estava passando e que só poderia ser solucionada com uma política firme de estabilização que não houve tempo de ser promovida, pois em 31 de março de 1964 João Goulart é destituído do poder.
Gráfico 4 - Brasil – Taxa de variação real do PIB, (% a.a.) e FBKF (R$ de 1980), 1955 – 1960
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do SCN/IBGE.
O Gráfico 4 apresenta a variação do PIB de 1961 a 1964 e a evolução da FBKF do mesmo período. Como é possível observar, o crescimento do PIB se reduz ano a ano com crescimento bastante pequeno no ano de 1963. A FBKF apresenta leve tendência ascendente de 1961 a 1963 quando esboça inversão de tal trajetória. Tais dados evidenciam o agravamento da situação política e econômica do país no período, onde o crescimento se reduz persistentemente e o investimento se mantém estável.
4.5 Plano econômico como base para o crescimento