Quadro 2 Quadro síntese: Heterogeneidade Estrutural e sua relação com a produtividade
4. Industrialização brasileira: transformações na estrutura produtiva
4.2 Industrialização restringida (1933 – 1955)
A característica predominante do período industrial concernente a 1933 e 1955 é a mudança na dinâmica produtiva nacional, que se desloca do setor cafeeiro agroexportador, para o setor industrial. Assim é possível se afirmar que há industrialização, pois a acumulação começa a se assentar na expansão industrial e existe um movimento endógeno de
0 0,005 0,01 0,015 0,02 0,025 0,03 0,035 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 PIB FBKF
acumulação que possibilita a reprodução da força de trabalho e parte crescente do capital constante industrial. A industria então que passa a ditar a dinâmica da economia nacional, ainda assim atrelada aos movimentos da economia mundial, pois, não se consolida na estrutura produtiva brasileiro o núcleo dinâmico da indústria, principalmente representado pelos setores industriais de bens de capital e bens de consumo duráveis. Assim sendo, as bases técnicas e financeiras de acumulação são insuficientes para implantar, em um golpe, o núcleo fundamental da indústria de bens de produção, que permitiria à capacidade produtiva crescer adiante da demanda, autodeterminando o processo de desenvolvimento industrial (CARDOSO DE MELLO, 1988; TAVARE, 1998).
A década de 1930 é bastante sofrível e de crise para a economia mundial. Com o advento do crash da bolsa de valores americana em 1929, o mundo capitalista entra em crise que se estende quase até o pós-guerras. A política econômica brasileira, que visava amenizar a crise da grande depressão, promoveu uma recuperação econômica que propiciou com que a capacidade ociosa da indústria fosse preenchida e a lucratividade corrente das empresas fosse recomposta e até aumentada. A taxa de lucro esperada da indústria leve de bens de produção foi favorecida devido ao “protecionismo” externo gerado pela redução da capacidade de importar (CARDOSO DE MELLO, 1998).
A expansão econômica observada pós-1930, já não ocorre mais fundamentada na base do complexo agroexportador, mas sim do complexo industrial. Isso só foi possível, pois se dispunha de capacidade de acumulação, e devido às medidas de política econômica que sustentaram a capacidade para importar (as relações de troca se deterioram, porém, se o Estado não tivesse tirado o excedente de café do mercado internacional e o reservado, até 1937, elas teriam se deteriorado muito mais). Assim ocorre a ampliação da indústria leve de bens de produção, o que exigiu a sobreutilização da capacidade produtiva da indústria de bens de consumo assalariados (CARDOSO DE MELLO, 1998).
O setor industrial se liberta da dependência que o atrelava, pelo lado da realização dos lucros, da economia cafeeira, mas essa continua limitando a capacidade de importar. A questão central era saber com base em qual esquema de acumulação nasceria a indústria pesada de bens de produção no Brasil. No mundo, nenhuma indústria pesada surgiu a partir da expansão do mercado interno de bens de consumo final, esta nasceu apoiada à grande inovação e contou, nos países atrasados, com o suporte decisivo do Estado (CARDOSO DE MELLO, 1998).
Os obstáculos a transpor para consolidar a base industrial brasileira impunham que a indústria já não poderia ir se desenvolvendo a seu ritmo, em saltos mais ou menos gradativos, esse implicava numa descontinuidade tecnológica muito mais dramática, uma vez que se requeriam agora gigantescas economias de escala, maciço volume de investimento inicial e tecnologia altamente sofisticada, praticamente não disponível no mercado internacional (CARDOSO DE MELLO, 1998).
O investimento do setor privado na grande indústria era praticamente impossível, visto os riscos do investimento num capitalismo como o brasileiro da época, dotado de bases técnicas muito estreitas. Mesmo que o Estado definisse por fomentar um setor que servisse de apoio ao capital industrial restariam para serem enfrentados os graves problemas de obtenção de tecnologia no exterior, mobilização e centralização de capital e de financiamento externo (CARDOSO DE MELLO, 1998).
O capital industrial não tinha incentivos para inversão na indústria pesada, pois se expandisse para a indústria existente, promovendo a diferenciação limitada do setor de bens de produção do setor de bens de consumo, com a formação de indústria de bens duráveis leves, ou mesmo, converter-se em capital mercantil (invadindo o ramo imobiliário urbano e o de comercialização de produtos agrícolas) dispunha de oportunidades bastante lucrativas. Essa lucratividade advinha da natureza pouco competitiva do sistema industrial em condições de alto grau de proteção e do comportamento dos custos real e monetário da força de trabalho (CARDOSO DE MELLO, 1998).
Os problemas de mobilização e centralização de capital para importar poderiam ser enfrentados com facilidade pela grande empresa internacional, porém, as condições eram adversas para que isso ocorresse. Os anos compreendidos em 1930 e 1946 não foram favoráveis à exportação de capital por conta de uma sequência de eventos decorrentes da Grande Depressão. Durante os anos de crise, o grande capital oligopolista passou por períodos de severas restrições financeiras decorrentes da forte queda do volume de vendas deprimindo o lucro e gerando capacidade ociosa (CARDOSO DE MELLO, 1998).
É possível observar no período a volta a padrões de crescimento nacional-autárquicos, e em vários casos sob regime de força onde os Estados Nacionais passam a centralizar ainda mais o financiamento à acumulação capitalista, principalmente para os meios de produção e setores básicos. O clima de agressiva competição capitalista internacional apresentava-se também como restrição a exportação de capital produtivo pelos próprios Estados Nacionais querendo defender suas respectivas
vantagens tecnológicas e reservar capacidade básica de acumulação para sustentar a indústria militar (CARDOSO DE MELLO, 1998).
No período de 1933 a 1955, a industrialização brasileira – que era fortemente dependente da indústria dos países centrais – ainda encontrava como entrave o fato desses países estarem “fechados”, voltados para dentro, em vistas dos movimentos nacionalistas decorrentes da Segunda Guerra. Os avanços proporcionados pela segunda revolução industrial continuavam a representar trunfos tecno-produtivos que não eram livremente disseminados a todos os países. Desta forma, a difusão do progresso técnico à coletividade dos países não ocorreu, o progresso técnico se concentrou nos países centrais fortalecendo o dualismo do mundo e os traços de centro e periferia.
Ainda que internamente, o Brasil estivesse dando passos qualitativos em sua estrutura produtiva, a implementação do núcleo fundamental da indústria de bens de produção, que permitiria à capacidade produtiva crescer adiante da demanda, autodeterminando o processo de desenvolvimento industrial, não foi possível. Tal impossibilidade ocorre primeiramente, pois o rumo industrial brasileiro tinha de se consolidar sobre uma trajetória que, até então, ainda não havia sido traçada. Porém, deixar que a industrialização ocorresse de forma espontânea, era ratificar a não industrialização brasileira, devido às condições mundiais de geração e difusão do progresso técnico, assim, se fazia necessário um grande e concentrado esforço para consolidar as bases técnicas e financeiras de acumulação suficientes para sustentar o salto industrializante necessário.
Internamente, a mesma concentração do progresso técnico também era observada. A industrialização restringida devido às bases técnicas e financeiras insuficientes, restringida também majoritariamente à indústria de bens de consumo de salário e bens leves de produção, também se restringia territorialmente à região de São Paulo – que também era a região cafeeira. Com a mudança do centro dinâmico da estrutura produtiva brasileira – do setor agroexportador para o setor industrial – evidencia-se a superação produtiva da indústria sobre o café. Com isso, há evidencias para a constatação de um quadro de diferenciais produtivos entre setores da economia, entre regiões, mostrando que a mesma concentração do progresso técnico visível entre centro e periferia, também ocorria na própria estrutura produtiva periférica brasileira.
Em resumo, a fase industrial brasileira conhecida como industrialização restringida se caracteriza pela mudança na dinâmica interna de acumulação, que deixa de basear-se no café e translada-se à indústria, mas pela restrição da atividade industrial à insuficiência de
bases técnicas e financeiras que permitissem a implementação de uma indústria pesada, capaz de se adiantar à demanda e coordenar a dinâmica industrial. Mas, a implantação desse núcleo fundamental da indústria de bens de produção e a capacidade de ditar uma dinâmica industrial representava a capacidade de geração endógena do progresso técnico, inexistente na estrutura brasileira da época. Assim sendo, o Brasil tinha sua industrialização restringida e se tornava dependente primeiramente pela pouca receptividade da estrutura produtiva brasileira ao progresso técnico, mas fundamentalmente devido à incapacidade de geração endógena do mesmo.
Ainda destaca-se a ação do Estado como decisiva na instalação das indústrias do país. Esse processo não foi apenas um resultado inesperado das políticas anticíclicas, mas representou o estabelecimento de uma política de desenvolvimento econômico pelo Estado que tinha na industrialização um de seus objetivos prioritários. Os incentivos concedidos à indústria foram decisivos para que houvesse uma mudança estrutural produtiva, com deslocamento da acumulação capitalista para o setor industrial. Então conjunto ao controle, as intervenções praticadas pelo Estado, o padrão dos gastos públicos já em curso e o planejamento a industrialização foram decisivos para a consolidação da indústria brasileira da época (DRAIBE, 2004).
Gráfico 2 - Brasil – Brasil – Taxa de variação real do PIB, (% a.a.) e FBKF (R$ de 1980), 1933 – 1955
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do SCN/IBGE.
0 0,02 0,04 0,06 0,08 0,1 0,12 0,14 -4 -2 0 2 4 6 8 10 12 14 1 9 3 3 1 9 3 4 1 9 3 5 1 9 3 6 1 9 3 7 1 9 3 8 1 9 3 9 1 9 4 0 1 9 4 1 1 9 4 2 1 9 4 3 1 9 4 4 1 9 4 5 1 9 4 6 1 9 4 7 1 9 4 8 1 9 4 9 1 9 5 0 1 9 5 1 1 9 5 2 1 9 5 3 1 9 5 4 1 9 5 5 PIB FBKF
O Gráfico 2 ilustra a variação do PIB real brasileiro ano a ano do período de 1933 a 1955, onde a indústria brasileira se forma e começa a ser o núcleo central de acumulação nacional, porém, ainda de forma restringida, pois as bases capazes de implementar a indústria pesada ainda não estão presentes na estrutura produtiva nacional. Como é possível verificar, os anos deste intervalo de tempo, principalmente do final da década de 1940, início da década de 1950 é de forte crescimento – apenas em 1940 e 1942 se observou decréscimo do PIB. A FBKF tem nítida tendência ascendente durante toda a série, evidenciando os esforços realizados para modificação da estrutura produtiva.