CAPÍTULO 3 FORMULAÇÃO DAS HIPÓTESES E METODOLOGIA
3.2 TRANSPOSIÇÃO DA HIPÓTESE BÁSICA
3.2.3 Hipótese quanto ao impacto da ação do orientador/professor sobre os programas a
Pesquisas realizadas por Oliveira (2002) indicam que o professor é um recurso humano indispensável no processo de educação a distância, pois ele deve oferecer suporte efetivo aos alunos, construir materiais e conteúdos para o programa, indicar o método adequado para a abordagem do conteúdo, de modo a gerar aprendizagem efetiva, levando o aluno a produzir seu próprio conhecimento. Entretanto, outras obras repensam o papel do professor, à luz da mudança do paradigma educacional. Belloni (2003) relembra uma afirmativa de Keegan (1985, p.13) − “em EAD quem ensina é uma instituição” − para inferir que o papel do docente, suas funções e tarefas são redefinidos no projeto educativo de um curso na modalidade EAD. A princípio, a falta de domínio tecnológico dos principais meios utilizados na educação a distância (texto, áudio, fitas cassete, CD-Rom, filmes, televisão, videoconferências, satélite, CD-I) conduz à necessidade de um suporte técnico contínuo durante os cursos.
Dos meios citados acima, todos apresentam o conhecimento de um modo diferente, da maneira de organizá-lo até a programação e o acesso aos usuários. Nesse caso, a tecnologia é vista como o veículo que transporta esse meio. Rumble (2000) comenta que o texto está ligado à tecnologia de impressão e computador, o áudio manifesta o som através do rádio, da fita cassete, do CD-rom ou do telefone. A televisão e seus programas podem ser transmitidos por videocassete e DVD, por satélite, videoconferências e computadores. Todas essas tecnologias são utilizadas de algum modo na educação a distância.
O uso da tecnologia na EAD é classificado por gerações. Na primeira geração utilizava-se basicamente o texto impresso, era a conhecida educação por correspondência, a qual promoveu o aprendizado, durante o século XIX, principalmente nos Estados Unidos, na Austrália e no Canadá. Durante o século XX, após a década de 20, tivemos as experiências na antiga União Soviética, na África do Sul e no Brasil. Nessa experiência, o aluno tinha flexibilidade de tempo, mas o professor determinava todo o processo, juntamente com o setor de gerenciamento do curso.
Na segunda geração, desenvolvida durante as décadas de 60 e 70, utilizou-se largamente a TV e o áudio, concebidos como o projeto da TV educativa, para desenvolver cursos de extensão e cursos para adultos, principalmente para a conclusão do primeiro e do
segundo graus. Nessa fase foi muito utilizado o rádio como meio educativo. Toda a programação educativa do rádio e da TV educativa necessitava de uma estruturação prévia do curso, até sua gravação e emissão. Scheimberg (1997) afirma que os programas educativos são basicamente compostos de peritos, mas ocorrem em um espaço de comunicação unidirecional, onde falta o contato com o público. O telespectador ou o audiente encontra-se em locais distantes e tem como características a heterogeneidade e o anonimato. Na análise realizada, Scheimberg (1997) omite-se sobre o papel do professor, mas pode-se inferir que ele é substituído por peritos de conteúdo, que gravam os programas para os ouvintes ou telespectadores.
A TV educativa foi desenvolvida a partir do final da década de 50; as propostas estavam ligadas ao conteúdo curricular e tinham como objetivo promover a capacitação de recursos humanos e a profissionalização, em várias áreas. Segundo Roig (1997) a programação produzida pela TV era composta basicamente por um professor diante de um quadro negro, no qual fazia esquemas, explicava, usava desenhos para ilustrar – é o que conhecemos como teleaula. A TV educativa foi utilizada como apoio à tarefa docente e para permitir o acesso à informação atualizada e à imagem, considerada por muitos como a janela para a realidade. A discussão realizada por educadores focalizou-se no papel da linguagem audiovisual sobre o receptor. Das discussões entre pessimistas e otimistas sobre o impacto da imagem sobre os consumidores, constatou-se que o seu uso não resolvia todos os problemas de educação nem trazia a solução, esperada por muitos, de melhoria da qualidade. Hoje a compreensão do uso da tecnologia passa pela sua desconstrução, enquanto meio de comunicação em um contexto, como tentativa de edificar a construção de significados dos sujeitos consumidores. Por isso ao papel do professor – que, naquela geração, era de acompanhar os programas da TV educativa – hoje são colocadas novas exigências; ele deve ser capaz de desconstruir os programas, criar guias para explorar as produções, como forma de representação da realidade.
A terceira geração embutiu as duas primeiras fases em uma abordagem multimídia, na qual se utilizam textos, áudio e televisão. Os conteúdos transmitidos passam a ser vistos como meio de suplementar o material impresso e, em alguns casos, de substituir os professores. A computação é usada como meio de acesso aos bancos de dados e não como fonte de produção do conhecimento. Os professores passam a ser denominados monitores/instrutores ou orientadores. No presente trabalho, também se adotou essa denominação para os professores.
A quarta geração da EAD tem como característica a comunicação mediada por meios virtuais, na qual o professor associa o uso do computador e do correio eletrônico para ter
acesso a banco de dados, bibliotecas eletrônicas, e também para o contato direto com o aluno, com outros pesquisadores ou com grupos de trabalho, o que torna mais complexo o processo ensino−aprendizagem. Nas gerações anteriores, o papel do professor era basicamente o de instrutor; nessa quarta geração, o professor torna-se mediador do processo de aprendizagem − como sugerem Masetto (2000) e Moran (2000) − e se coloca como parceiro dos estudantes na construção do conhecimento, de forma colaboradora e interativa. Belloni (2003, p.83-4) indica que o professor assume funções múltiplas como formador, conceptor e realizador de cursos e materiais, pesquisador, tutor e monitor, entre outras. Sendo assim, constata-se que o papel do professor transita para um novo paradigma do conhecimento, o que requer das gestões universitárias um planejamento para a formação continuada dos professores, levando em consideração as inovações para promover a aprendizagem.
Blandin, citado por Belloni (2003, p.87) discorre sobre as novas competências que devem ser desenvolvidas pelos professores: cultura técnica (ligada ao audiovisual e à informática); cultura de comunicação (mediatizada ou não, e trabalho em equipe); capacidade de trabalhar com método (sistematização e formulação de procedimentos e métodos); capacidade de capitalizar (transposição de conhecimentos e experiência, e adequação às necessidades).
Nisso reside um dos fatores críticos de sucesso dos programas de EAD via internet. É necessário desenvolver essas competências nos professores que receberam formação voltada para o ensino presencial. A mudança da cultura educacional do professor se relaciona com a apropriação das inovações técnicas, a integração de materiais pedagógicos com o suporte tecnológico e a utilização de recursos multimídia. Destaca-se a necessidade de revisitar a dimensão pedagógica e didática das aulas referentes à orientação, processos de aprendizagem e da construção do conhecimento. Behrens (2003, p.73) afirma que “o desafio imposto aos docentes é mudar o eixo de ensinar para optar pelos caminhos que levam ao aprender.” A mesma autora indica alguns pilares que fundamentam a aprendizagem colaborativa: aprender a conhecer; aprender a fazer conhecer; aprender a viver; aprender a ser. Essa visão muda substancialmente a compreensão da educação, do mundo, do ser humano e suas responsabilidades, denotando um novo paradigma na educação.