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4. O PROCESSO DE ALTERAÇÃO DO PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO DE

4.1 A Lei Complementar nº 76/2010

4.1.1 Histórico

A Lei Complementar nº 76/2010 (LC nº 76/10) não modificou diretamente o texto da Lei Complementar nº 62/2009 (LC nº 62/09), que instituiu o Plano Diretor Participativo de Fortaleza. No entanto, incluímos a referida lei neste trabalho pelas inovações que apresentou relativamente a temas diretamente ligados ao PDPFor, especialmente à temática das Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS.

Publicada no Suplemento ao Diário Oficial do Município nº 14.226, a Lei Complementar nº 0076, de 18 de março de 2010, instituiu a Zona Especial de Interesse Social 1 (ZEIS 1) do Lagamar, composta por faixas de áreas dos Bairros São João do Tauape e Alto da Balança, bem como deu outras providências.

As Zonas Especiais de Interesse Social do Tipo I (ZEIS I) “são compostas por assentamentos irregulares com ocupação desordenada, em áreas públicas ou particulares, constituídos por população de baixa renda, precários do ponto de vista urbanístico e habitacional, destinados à regularização fundiária, urbanística e ambiental”, de acordo com o

art. 126, caput, do PDPFor. São, portanto, assentamentos urbanos precários, surgidos espontaneamente, em área pública ou privada, habitados por população de baixa renda. Convencionou-se chamar tais ocupações irregulares de “favelas”, termo com alta carga pejorativa. Como ZEIS I, a área passa a ser destino prioritário de recursos para regularização fundiária, implementada dentro de um plano integrado de regularização fundiária, cujas elaboração, execução e fiscalização ficarão a cargo de um Conselho Gestor da ZEIS.

Quando do processo de elaboração do Plano Diretor, na Câmara Municipal de Fortaleza, negociações políticas resultaram em um acordo segundo o qual a comunidade do Lagamar, representada na maior parte das vezes pela organização não governamental Fundação Marcos de Brüin, constaria do catálogo de ZEIS aprovados no texto final do PDPFor. A população local, por sinal, mobilizou-se durante anos para que o reconhecimento da área como ZEIS fosse alcançado. Contudo, quando a Lei Complementar nº 62/2009 foi publicada, a comunidade foi surpreendida pela não inclusão do Lagamar no rol de ZEIS, uma vez que preenchia todos os requisitos para que fosse classificada como tal. Houve, assim, claro desrespeito ao que foi debatido nas audiências públicas, problema já apontado no ponto 2.4 desta monografia. Esse processo foi descrito por Marília Gomes (2012, p. 07-08):

A partir de 2005, moradores do Lagamar, articulados em torno da Fundação Marcos de Brüin, passaram a participar de várias instâncias de deliberação popular sobre a cidade, como o Orçamento Participativo e os Conselhos de Desenvolvimento Social e de Segurança Pública. Estes atores sociais estiveram, também, presentes desde as primeiras audiências públicas para elaboração do Plano Diretor, e uma das moradoras integrou uma frente de movimentos sociais – o Campo Popular - para discutir os artigos propostos para a Lei do Plano Diretor. Segundo depoimentos de alguns moradores, havia um compromisso, por parte da Prefeitura de Fortaleza, de que o Lagamar, com a aprovação do Plano, seria uma das ZEIS. Entretanto, na lei do Plano Diretor aprovada pela Câmara Municipal de Fortaleza em 2008, o Lagamar não constava nem no texto, nem nos mapas referentes às ZEIS – ausência tanto mais chocante para os moradores, quando se considera que, dentre todas as comunidades que participaram ativamente nos debates na Câmara Municipal sobre o Plano Diretor, o Lagamar foi a única não incluída como ZEIS.

Percebendo que seus interesses estavam em jogo, o povo do Lagamar tornou a se mobilizar, desta vez ainda com mais força, em torno do reconhecimento legal da comunidade como ZEIS. Assim, durante o ano de 2009, sobretudo no segundo semestre, a Fundação Marcos de Brüin capitaneou um intenso processo de mobilização em torno da aprovação de um projeto de lei que transformaria o Lagamar em ZEIS. Nesse intuito, contou com preciosa participação de estudantes membros do Núcleo de Psicologia Comunitária (NUCOM), do Núcleo de Assessoria Jurídica Comunitária (NAJUC) e do Centro de Assessoria Jurídica Universitária (CAJU), todos projetos de extensão da Universidade Federal do Ceará - UFC. Estavam envolvidos ainda o Laboratório de Estudos da Consciência (LESC), o Escritório de

Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar (EFTA), o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) e o Movimento dos Conselhos Populares (MCP).

As ações de mobilização ocorreram nos meses de outubro a dezembro de 2009, por meio de “oficinas realizadas nas ruas da comunidade e em espaços organizados - como associações de moradores, grupos ligados à Igreja e entidades de apoio social - e de ações culturais que pautavam o direito fundamental à moradia adequada, a participação popular e a luta pela ZEIS do Lagamar” (MAIA; VIEIRA, 2010, p. 3380, nota 28). Como elemento simbólico da luta, foi composto o “Hino da ZEIS do Lagamar”, que era cantado pelos habitantes da comunidade93.

O ponto culminante da mobilização em torno da questão foi a Grande Marcha pela ZEIS do Lagamar, realizada em 17 de novembro de 2009. Centenas de moradores da comunidade, juntamente com estudantes, membros de ONGs e outras lideranças saíram em passeata até a Câmara Municipal de Fortaleza, onde protestaram, a fim de pressionar as autoridades, pela rápida aprovação de um projeto que incluísse o Lagamar na lista das ZEIS do Plano Diretor. Gomes (2012, p. 08-09) descreve o momento definidor da luta dos moradores:

Os participantes percorreram cerca de dois quilômetros ao longo da Avenida Murilo Borges, via de considerável fluxo de veículos. O ponto de chegada da marcha foi a Câmara Municipal de Fortaleza, onde foi realizado um ato pela votação da Lei Complementar referente à ZEIS do Lagamar. Esta manifestação contou com a participação de cerca de 500 pessoas, entre moradores, lideranças comunitárias, membros de ONG´s, estudantes e apoiadores do Lagamar, repercutindo junto ao Poder Público e às mídias locais. O objetivo da caminhada era dar publicidade ao movimento e reivindicar junto à Câmara e a Prefeitura a aprovação da Lei Complementar referente à ZEIS, em caráter de urgência, ainda no ano de 2009.

A marcha é citada de forma recorrente no discurso dos moradores que falam da “luta pela ZEIS”, como um ato importante para afirmação de seus direitos e de sua

expressão política, possuindo uma forte carga simbólica, perceptível mesmo nas conversas informais. De fato, o evento foi um marco para o movimento social, sobretudo porque em março de 2010 foi aprovada a lei que reconhece a ZEIS do Lagamar.

Em razão da pressão popular, foi aprovada em 18 de março de 2010, pouco menos de cinco meses após a Marcha, a LC nº 76, que reconheceu o Lagamar como ZEIS do Tipo I, bem como instituiu o Conselho Gestor da ZEIS do Lagamar. Mesmo após alcançados os objetivos da reivindicação, os grupos presentes no Lagamar tentam manter aceso o debate em

93 A letra completa do Hino da ZEIS do Lagamar encontra-se disponível em:

torno do direito à moradia, por meio do Fórum da ZEIS do Lagamar. Dessa forma, durante o ano de 2010,

o Fórum da ZEIS do Lagamar promoveu discussões sobre o significado desse instrumento urbanístico e seu conselho gestor, enquanto possibilidade de controle social das políticas públicas dentro da ZEIS. Especialistas das áreas do Direito e da Arquitetura, alguns inclusive técnicos da Prefeitura Municipal, prestaram esclarecimentos sobre o papel do Conselho, suas atividades, os direitos e deveres dos conselheiros, e ainda sobre a eleição de seus membros. (GOMES, 2012, p. 09).

Três razões podem ser apontadas para a ferrenha luta da população: 1) as ZEIS são o principal instrumento de reforma urbana no que concerne à garantia do direito à cidade, porque não apenas visam à regularização fundiária, como são capazes de efetivar a gestão democrática da política urbana, por meio de seu Conselho Gestor; 2) a classificação como ZEIS torna a região, em tese, destino prioritário de recursos públicos; 3) a previsão legal traz, novamente em tese, à comunidade apoio político-jurídico contra possíveis remoções ocasionadas por obras governamentais aqui e ali anunciadas, como o alargamento da Avenida Raul Barbosa, que margeia a comunidade. O Lagamar localiza-se em área de grande interesse imobiliário, em virtude de sua relativa proximidade com diversos equipamentos urbanos de destaque na capital, como o Parque do Cocó, o Parque Adahil Barreto, o Shopping Center Iguatemi, o Fórum Clóvis Bevilácqua, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, a Câmara Municipal, a Universidade de Fortaleza - UNIFOR e, sobretudo, as vias BR-116 e Av. Raul Barbosa, que dão acesso ao Aeroporto Internacional Pinto Martins e ao estádio de futebol Plácido Aderaldo Castelo, o Castelão, equipamentos fundamentais para os eventos da FIFA que ocorrerão em Fortaleza em 2013 (Copa das Confederações) e 2014 (Copa do Mundo). Além disso, existe projeto para que por sua vizinhança passe parte do percurso de um veículo leve sobre trilhos – VLT, uma das polêmicas obras de mobilidade urbana que se pretendem construir para os já citados eventos esportivos. Por tudo isso, podemos dizer que o Lagamar é uma região estratégica, visada pelo capital imobiliário. Daí Marília Gomes (2012, p. 02) entendê-la como uma “nova centralidade em Fortaleza”.