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Idem; 214 (EN, 202) 28 CSCS; p 130.

No documento COGITO E TEMPORALIDADE EM SARTRE (páginas 50-55)

20 do ser consigo mesmo “Nesse sentido, é preciso que nos façamos ser o que somos”.

27 Idem; 214 (EN, 202) 28 CSCS; p 130.

29 SN; p. 211. (EN, 200) 30 Idem; p.211. (EN, 199) 31 Idem; p.212. (EN, 200)

estágios dessa consciência. Desse modo, o transcender rumo ao Em-si-Para-si também se fará presente na consciência reflexiva.

Porém, parece que estamos frente a uma contradição: não dizíamos nós que a reflexão revela o ser da consciência por inteiro, e agora descrevemos uma objetivação do ser da consciência por ela mesma? Mas, a objetivação não quer dizer ao mesmo tempo, a relativização do conhecimento? E a relativização do conhecimento da reflexão não é também a relativização da evidência do cogitol Vejamos. Sartre distingue duas espécies de reflexão: a reflexão pura e a reflexão impura. Descreveremos inicialmente a reflexão pura, que é a forma original, mas menos comum de reflexão. Falávamos que na reflexão há um posicionamento da consciência refletida pela consciência reflexiva. Mas na reflexão pura a consciência refletida não é tomada como um objeto: Sartre diz que poderíamos definir a consciência posicionada como um “quase-objeto”. Ora, quando posicionamos um objeto, essa posição é feita de algum “lugar”. Assim, o objeto aparece segundo um ponto de vista e essa aparição pode ser sempre superada ou complementada por outra. Mas na reflexão pura não há um posicionamento desse tipo. “Com efeito, a consciência refletida ainda não se mostra como algo fora da reflexão, ou seja, um ser sobre o qual se pode ‘adotar um ponto de vista’, com relação ao qual pode-se tomar distância, aumentar ou reduzir a distância que separa um do outro”.32 Na reflexão pura a consciência reflexiva não toma a consciência refletida como algo estranho a ela: a consciência reflexiva “sabe” ser a consciência refletida. Assim, a relação entre a consciência reflexiva e a consciência refletida não é tanto um conhecimento, mas um “reconhecimento.” “(...) é um conhecimento que jamais se surpreende consigo mesmo, nada nos ensina, simplesmente posiciona. No conhecimento de um objeto transcendente, com efeito, o objeto revelado pode nos decepcionar ou surpreender. Mas na revelação reflexiva, há posicionamento de um ser que já era revelação em seu ser.”33 A consciência reflexiva tem a consciência refletida como algo “já revelado”. Mas essa revelação não é indiferente à consciência: a consciência refletida aparece à reflexão como algo que ela “tem-de-ser”. Desse modo, a reflexão pura revela a consciência em sua originalidade.

Mas como vimos a reflexão tem uma motivação em surgimento: ela procura recuperar o ser da consciência através de um olhar. “A reflexão, portanto, não é um surgimento caprichoso na pura indiferença do ser, mas se produz na perspectiva de um

32 SN; p.213. (EN, 201)

‘para’.”34 Mas enquanto a reflexão pura procura recuperar seu ser na sua originalidade, ou seja, na sua não-substancialidade, a reflexão impura procura recuperar esse ser como tal ou tal fenômeno. Isso ocorre justamente porque a reflexão impura adota um ponto de vista determinado sobre o refletido. A reflexão impura avança no projeto da reflexão. A reflexão procura, através de um olhar, alcançar seu ser (a remissão da estrutura reflexo-refletidor). A reflexão impura não se contenta em olhar para o refletido, ela quer tomar uma distância maior em relação a esse refletido, quer conhecê-lo como um outro. A reflexão impura procura realizar a síntese do reflexo e do refletidor suprimindo a distância entre estes dois termos. Para isso, ela projeta o refletido (e assim sua estrutura reflexo-refletidor) em um Em-si transcendente. A reflexão impura descaracteriza o refletido: reduz seu ser aos fatos, a um Em-si. Mas não víamos um movimento semelhante nas descrições da má-fé? Sartre esclarece:

“(...) esta reflexão é de má-fé, porque, se parece romper o nexo que une o refletido ao reflexivo, se parece declarar que o reflexivo não é o refletido, à maneira de não ser o que se é - ao passo que, no surgimento reflexivo original, o reflexivo não é o refletido à maneira de não ser o que se é -, isso ocorre para que a reflexão retome em seguida a afirmação de identidade e afirme a respeito deste Em-si que ‘eu o sou’. Em suma, a reflexão é de má-fé na medida em que se constitui como revelação do objeto que sou para

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mim.

Sartre nomeia a projeção da consciência no exterior, através da reflexão, de

Psique. A Psique é Para-si substancializado pela reflexão impura. Assim, a Psique ou Ego

(que é o polo que unifica a Psique) surge de um movimento do próprio ser da consciência, movimento que procura retomar o ser da consciência, no caso da reflexão impura, através da fixação em um Em-si. O Ego, ao contrário da consciência, é seus estados, qualidades e atos. Ele é esses predicados justamente porque seu ser é fixado em um Em-si. Se a consciência sempre escapa ao seu ser (ela é o que não é e não é o que é) o Ego, ao contrário, “é” todos esses predicados que giram ao seu redor.

1. 3. 4. AIPSEIDADE

Sartre mostrou que o Ego surge de uma tentativa de substancialização da consciência por si, e que este movimento é ocasionado pela consciência (de) si como ausência de ser. Porque a consciência busca ser si mesma, o Ego é a tentativa de fixar o

“si” através de um ato reflexivo. Mas o ser que a consciência tenta fixar no Em-si não é um ser instantâneo: ele está adiante de si, ele se relaciona com seus possíveis. O Ego, desse modo, revelará também essa relação da consciência com seus possíveis, só que de forma inautêntica. Mas vejamos antes como a consciência se relaciona com seus possíveis originalmente: a ipseidade. “Na ipseidade, meu possível se reflete sob minha consciência e a determina como aquilo que é.”36 Na ipseidade a consciência se faz ser em vista de um ser que ela ainda não é. Mas este ser que ela ainda não é, este ser ausente, não é uma simples presença abstrata ao Para-si: este ser ausente é consciência de um mundo. Ora, se a consciência apreende os possíveis no mundo, o Para-si tem em seu horizonte a possibilidade de presença a certo estado de mundo. “(...) esboça-se para além do mundo e confere sentido a minha percepção presente.” 37 O Para-si faltante, nesse caso, é um estado de mundo que complementaria o estado atual. Assim, a consciência remete a uma possibilidade de mundo que ela ainda não é presente, mas que está em seu horizonte. “Nesse sentido, o ser para além do qual o Para-si projeta a coincidência com si é o mundo,

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ou distância de ser infinito para além da qual o homem deve encontrar seu possível”.

Toda consciência atual e posicionai de mundo tem em seu horizonte uma consciência ausente e não posicionai que lhe confere sentido. Assim, a consciência lança suas possibilidades no mundo, tomando-as possibilidades de um mundo. A transcendência do Para-si alcança o mundo, estabelecendo-o como correlato do seus possíveis: “(...) o copo-bebido infesta o copo cheio como seu possível e o constitui como copo-para- beber.”39 Desse modo, a ipseidade do Para-si atravessa o mundo. A unidade das possibilidades do mundo surge porque estas possibilidades são correlatas aos possíveis do Para-si. “O mundo (é) meu porque está infestado por possíveis, e a consciência de cada um desses possíveis é um possível (de) si que eu sou; esses possíveis, enquanto tais, é que conferem ao mundo sua unidade e seu sentido de mundo.” 40

Voltemos ao problema do Ego. A própria ipseidade da consciência é refletida no

Ego. Mas agora a ipseidade surge degradada: os possíveis não se relacionam com o Para-si

como algo sustentado por ele, mas como uma “síntese psíquica” que o Para-si deve viver. A reflexão impura transforma em dados a ipseidade do Para-si. Assim, a unidade do Ego é derivada de uma unidade original da consciência: o “Eu Penso” não poderia unificar

35 Idem; p.220. (EN; 208) 36 Idem; p. 156. (EN, 148) 37 SN; p. 155. (EN, 147) 38 Idem; p. 154. (EN, 146) 39 Idem; p. 157. (EN, 149)

consciências instantâneas exteriores umas às outras; ele apenas revela uma estrutura sinteticamente ligada. A unidade da consciência não é centrada em um núcleo instantâneo: a consciência está em sua estrutura primeira envolvida em um transcender que a impede de fazer-se instantânea.

Até agora falávamos desse transcender (rumo ao valor e aos possíveis): no entanto, estava subentendido nessa descrição uma temporalidade. Se a consciência pode manter-se como um ser que é o que não é e não é o que é, ela deve estar sempre além do instante. O cogito não revelará um ser instantâneo: o cogito é uma evidência imediata de um ser disperso temporalmente. Se o cogito não tivesse por fundamento uma consciência pré-reflexiva, sua intuição não passaria do instante. Mas, o cogito evidencia uma consciência que sempre está além de si, uma consciência temporal. Temos agora os elementos para avançar no esclarecimento da temporalidade em Sartre.

No documento COGITO E TEMPORALIDADE EM SARTRE (páginas 50-55)