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Idem; p 147 (EN, 140) 22 CSCS; p 113.

No documento COGITO E TEMPORALIDADE EM SARTRE (páginas 47-50)

20 do ser consigo mesmo “Nesse sentido, é preciso que nos façamos ser o que somos”.

21 Idem; p 147 (EN, 140) 22 CSCS; p 113.

ainda não é. A evidência que o homem “espera” pode surgir ou não. Mas além disso, a dúvida revela a ligação da fmitude do Para-si com seus possíveis. O possível não pode ser apenas uma dedução do existente, uma extensão do real. Desse modo, a consciência (de) dúvida remete à consciência (de) evidência como uma consciência que lhe completará. Mas a evidência não está presente, é apenas uma possibilidade. “Assim, encontramos ao mesmo tempo uma implicação, no mundo, dos objetos uns pelos outros e uma implicação, na consciência não-tética, de uma consciência não presente e complementar por uma consciência presente e incompleta. Este jogo duplo de implicações é aquilo a que se chama precisamente “possibilidade.”24

A afirmação anterior é clara: o que Sartre afirma é uma necessidade da consciência não-tética, do cogito pré-reflexivo, que remeta a sua possibilidade. Assim, a presença a si do cogito pré-reflexivo não é uma presença somente ao ser “atual”, mas é presença às suas próprias possibilidades. Ora, isso não quer dizer que ele é presente ao seu ser atual isolado, e além disso, às suas possibilidades (como se ela fosse presente a um ser fechado em si mesmo, e presente a algumas representações desse ser). Mas o ser que o

cogito afirma já é ele mesmo remissão às suas possibilidades de ser. A consciência só pode

afirmar-se como remissão aos possíveis que a complementam enquanto Para-si. Desse modo, a presença a si revela um ser que está além de si. Devemos então descartar definitivamente a tese de Seel que afirma um núcleo independente (e alheio a temporalidade) do Para-si.

1. 3. 3. A TENTATIVA DA CONSCIÊNCIA RETOMAR SEU SER NA REFLEXÃO

Vimos que a consciência é desde seu surgimento transcendência ao ser Em-si e transcendência ao ser que ela deve ser (a totalidade Em-si-Para-si). A consciência está perpetuamente voltada para esse esforço de coincidir com a totalidade que ela deve ser. Mas, essa totalidade é inalcançável e a consciência persiste nessa transcendência. Porém, há na consciência um outro “esforço” para determinar seu ser. Esse esforço é a reflexão. A reflexão se caracteriza por ser uma espécie de conhecimento: na reflexão, a consciência reflexiva conhece a consciência refletida. E como vimos na descrição da absolutidade da consciência, o conhecimento que a reflexão tem da consciência irrefletida é absoluto: o

conhecimento que se verifica na reflexão não apresenta a relatividade do conhecimento do objeto exterior. O conhecimento que se dá na reflexão é “certo”.

No entanto, há um posicionamento da consciência refletida pela consciência reflexiva. A reflexão é o posicionamento de uma consciência que é originariamente irrefletida por uma consciência reflexiva. Portanto, ela se distinge do cogito pré-reflexivo, onde há uma remissão do reflexo ao refletidor e do refletidor ao reflexo sem, no entanto, haver um posicionamento propriamente dito entre esses termos. Desse modo, a relação que intermedia a consciência refletida e a consciência deve ser diferente daquela que intermediava no cogito pré-reflexivo reflexo e refletidor.

Mas será mesmo uma relação entre duas consciências? Não poderia ser assim. Se a consciência reflexiva fosse exterior à consciência refletida, o posicionamento da segunda pela primeira seria semelhante ao posicionamento de um objeto transcendente pela consciência. Mas nesse caso, os dados fornecidos pela reflexão perderiam seu caráter de evidência apodítica. Se a consciência refletida fosse exterior à consciência reflexiva, ela se revelaria à reflexão através de perfis: o ser da consciência refletida lhe seria apenas provável.

“Se concebemos primeiramente a reflexão como consciência autônoma, jamais poderemos reuni-la depois à consciência refletida. Serão sempre duas, e supondo o impossível, que a consciência reflexiva pudesse ser consciência da consciência refletida, tratar-se-ia apenas de um nexo externo entre duas consciências; quando muito, poderíamos imaginar que a reflexão, isolada em si, possuísse algo como uma imagem da consciência refletida, e recairíamos no idealismo: a consciência reflexiva e, em particular, o cogito, perderiam sua certeza e não obteriam em troca senão certa probabilidade, ainda por cima mal definível”.25

Mas o modo com que a consciência reflexiva posiciona a consciência refletida não é o mesmo com que é posicionada a “coisa”, o Em-si. Vimos anteriormente que a consciência posiciona seu objeto através de uma negação: ela é consciência desse objeto como não o sendo (negação expressa). Mas no caso da reflexão, o posicionado é a própria consciência (que mantinha-se no plano irrefletido). “Ora, precisamente, o reflexivo não pode se fazer inteiramente outro com relação ao refletido”.26 O reflexivo não toma o refletido como outro em relação a si e, no entanto, há posicionamento. Mas, nesse posicionamento, a consciência refletida não existe à distância para a consciência reflexiva: o reflexivo e o refletido não são dois seres distintos. Assim, a consciência reflexiva não

25 Idem; p.209. (EN, 197) 26 Idem; 214. (EN, 202)

apreende a consciência refletida parcialmente, mas em um só golpe. “Seu conhecimento é totalitário, é uma intuição fulgurante e sem relevo, sem ponto de partida ou de chegada. Tudo é dado ao mesmo tempo, em uma espécie de proximidade absoluta” 27

Apesar de não haver uma cisão entre a consciência refletida e a consciência reflexiva, a reflexão é justamente o esforço da consciência reflexiva em, ao se distanciar da consciência refletida, abarcá-la como totalidade acabada. A consciência, enquanto reflexiva, procura com seu olhar estabelecer seu ser, enquanto refletida, como algo dado. “A consciência é um esforço de saída e, ao mesmo tempo, de abarcamento da consciência por ela mesma” 28

Assim, o esforço para se fundamentar se repete na reflexão. No transcender rumo a si, o esforço era voltado para alcançar o Em.si-Para-si. Na reflexão, a consciência procura fundar seu ser na estrutura reflexo-refletidor. Mas, a reflexão é um esforço para fazer da estrutura reflexo-refletidor uma remissão acabada, fazer da estrutura reflexo-refletidor um ser fechado em si. A consciência procura objetivar seu ser para fazer dele um ser que é o que é , então “ter em si mesma” o seu fundamento. “(...) trata-se de reunir na unidade de um olhar esta totalidade inacabada”.29 A reflexão procura ser um olhar que se põe acima da dispersão da consciência refletida: um olhar que fixe no Em-si essa dispersão.

Mas a reflexão tem em sua própria estrutura o obstáculo que lhe impedirá tornar- se esse olhar. “Esse novo modo de ser [a reflexão] deixa subsistir (...) o modo reflexo- refletidor, a título de estrutura primária”.30 Assim, o esforço da consciência reflexiva, para a seus próprios olhos “ser aquilo que é”, esbarra na própria estrutura que a constitui como consciência. Na reflexão, a consciência deve ser “consciência tética da consciência refletida” e “consciência não-tética de si” como consciência reflexiva, ou seja, a díade reflexo-refletidor persiste na estrutura da reflexão. A negação que desestabiliza o ser da consciência enquanto identidade no cogito pré-reflexivo também está presente aqui. No próprio modo de recuperação de si, a consciência se mostra dispersa na remissão a si que a carateriza no seu estado irrefletido. “O ser que opera essa recuperação deve existir à maneira do Para-si”.31 Então, não há uma superação da estrutura pré-reflexiva com o surgimento da reflexão: essa estrutura primordial da consciência atuará em todos os

27 Idem; 214. (EN, 202)

No documento COGITO E TEMPORALIDADE EM SARTRE (páginas 47-50)