Percursos identitários no mundo atual
2.3 Reflexividade e fluidez identitárias no contexto da modernidade
2.3.2 Identidade, poder e a metáfora da fluidez
A mobilidade é um fator de extrema importância na análise do mundo atual, pois é capaz de rearticular as relações sociais, os comportamentos individuais e sociais e as relações de poder. A mobilidade assume essa posição estratégica apenas nas sociedades modernas, sendo fruto da revisão entre o vínculo espaço/tempo. Por isso, é usada por Bauman (2001, p. 15) na sua definição do que venha a ser modernidade:
A modernidade significa muitas coisas, e sua chegada e avanço podem ser aferidos utilizando-se muitos marcadores diferentes. (...) A modernidade começa quando o espaço e o tempo são separados da prática da vida e entre si, e assim podem ser teorizados como categorias distintas e mutuamente independentes da estratégia e da ação; quando deixam de ser, como eram ao longo dos séculos pré-modernos, aspectos entrelaçados e dificilmente distinguíveis da experiência vivida, presos numa estável e aparentemente invulnerável correspondência biunívoca.
A liquidez é a representação metafórica estabelecida por Bauman (2001) para designar a recente fase do mundo moderno. Segundo esse sociólogo polonês, os fluidos e os líquidos servem como alegoria para o mundo atual porque, diferentemente dos sólidos, não se prendem ao espaço e fluem com facilidade; por isso, aos fluidos e líquidos associamos a idéia de leveza, o que, por conseqüência, permite-nos estabelecer uma comparação com a inconstância e a mobilidade. Conforme Bauman (2001, p. 9), “essas são razões para considerar fluidez ou liquidez como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da humanidade”. Em resumo, a modernidade líquida é, para Bauman, a própria globalização.
A modernidade líquida é capaz de afetar as estruturas estatais, os comportamentos, a produção cultural, as relações humanas. É nesse contexto que introduzimos a discussão em torno das identidades no nosso mundo líquido e fluido. Identidades que “não têm a solidez de uma rocha” e “flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pelas pessoas em nossa volta, e é preciso estar em alerta para defender as primeiras em relação às últimas”, como postula Bauman na obra Identidade, um livro de entrevistas concedido ao italiano Benedetto Vecchi. Nesta obra, Bauman reitera que a discussão em torno das identidades é mais atuante na modernidade, pois, nos tempos antecessores, a identidade estava presa às “âncoras sociais” que a faziam parecer “natural”. Para Bauman (2005) a identidade é algo a “ser inventado e não descoberto”, pois
em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar fixo – ser ‘identificado” de modo inflexível e sem alternativas – é algo cada vez mais malvisto. (...) Em nosso mundo fluido, comprometer-se com uma única identidade para toda a vida, ou até menos do que a vida toda, mas por um longo tempo à frente, é um negócio arriscado. As identidades são para usar e exibir, não para armazenar e manter. (op. cit., p 35-96)
De todas as características dos líquidos, enfatizo mais a mobilidade, pelo fato de que ela se constitui, atualmente, na principal nascente das desigualdades sociais, bem como tem sido capaz de realinhar as estruturas de onde emana o exercício do poder.
As benesses que o mundo globalizado produziu como a velocidade, os aparatos tecnológicos, a Internet, entre outros, todos eles possibilitando que o homem moderno disponha de mobilidade para atravessar longas distâncias nos menores intervalos de tempo ou ter acesso a todo o planeta no clique de um segundo – não estão à disposição de todas as pessoas do mundo. Isso faz com que a mobilidade seja, para Bauman (1999), a principal fonte de estratificação social. Mais que isso, no tocante à questão identitária, a elite móvel, emancipada dos limites impostos pelo espaço e pelo tempo, acaba por possuir também maior capacidade de significação, o que não se verifica na mesma medida em relação àqueles que continuam confinados em espaços absolutamente locais. Estes últimos perdem “a sua capacidade de doar identidade” (cf. Bauman, 1999, p. 25). Nesse sentido, parece haver aqui, também, uma espécie de crítica ao projeto de construção reflexiva das identidades.
A mobilidade é capaz de reverter as possibilidades do exercício do poder. Do mesmo modo de outros fatores, o poder é agora fugidio, e não mais conhece as fronteiras da territoriedade. O poder é, agora, extraterritorial, cujas técnicas mais inovadoras podem ser ilustradas pelas recentes estratégias utilizadas nas guerras travadas na atualidade. Isso transcende a proposta do Panóptico8, em que o exercício do poder se dava mediante a fixação em termos de um espaço determinado. Isso, enfim, faz da sociedade líquida uma sociedade pós-Panóptica.
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O Panóptico é um princípio geral de construção idealizado por Geremy Bentham, e foi por muitos caracterizado como uma figura ideal da arquitetura. O Panóptico foi capaz de despertar o interesse aos mais diversos propósitos e ajudou a forjar uma nova forma de poder e confinamento no final do séc. XVIII, diferente do que se via nas masmorras frias e escuras da Idade Média. Isso levou Foucault (1997, 170) a proclamar que o Panóptico “é polivalente em todas as suas aplicações: serve para emendar os prisioneiros, mas também para cuidar dos doentes, instruir os escolares, guardar os loucos, fiscalizar os operários, fazer trabalhar os mendigos e ociosos”. Por possibilitar uma vigilância bastante eficaz, tem-se uma espécie de tecnologia do poder, passando-se, então, do Panóptico para o conceito de panoptismo.
Na época líquida, em que a distância é um produto social – “sua extensão varia dependendo da velocidade com a qual pode ser vencida” (cf. Bauman, 1999, p. 19) a mobilidade é o que possibilita à elite um empoderamento incorpóreo, não atinente a nenhuma condição espacial, a que Bauman (op. cit., p. 26) classifica como sendo “a combinação extraordinária e assustadora do etéreo com a onipotência”. Essa mobilidade tem dividido a humanidade em dois grandes grupos: os que possuem e os que não possuem condição humana.