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Identidades em movimento

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 47-50)

1 TECENDO AS IDENTIDADES

1.1 FALANDO DE IDENTIDADES

1.1.3 Identidades em movimento

As circunstâncias que propiciam os processos identificatórios e de diferenciação na construção das identidades permitem a existência de uma gama de diversas identidades convivendo simultaneamente, inclusive em situações opostas, podendo até serem contraditórias entre si. A unidade que se supõe ou pode-se

8 Entende-se que identidade cultural é o termo utilizado pelos teóricos que situam o estudo das

identidades na perspectiva contemporânea para marcar que as identidades são sempre construídas no processo cultural.

esperar que a identidade confira é, portanto, ilusória, mais próxima de um mosaico em movimento de que um todo estático unificado.

De acordo com Tomaz Tadeu Silva (2000, p. 86), as teorizações sociais contemporâneas têm recorrido a metáforas que sugerem a idéia de movimento, deslocamento e viagem para descrever a identidade, ao compará-la com “[...] diáspora, cruzamento de fronteiras, nomadismo.” O autor assegura que “[...] as metáforas que buscam enfatizar os processos que complicam ou subvertem a identidade querem enfatizar – em contraste com o processo que tenta fixá-las – aquilo que trabalha para contrapor-se à tendência de essencializá-las.” (SILVA, 2000, p.86).

A esse respeito, Antonio Ciampa9 (1987) já afirmava que a idéia de identidade

como algo dado ignora o contínuo processo de identificação que a constitui, confundindo-a com um produto. Reafirmando a característica de movimento. O autor assevera:

[...] re-atualizamos, através de rituais sociais, uma identidade pressuposta, que assim é vista como algo dado (e não se dando continuamente através da re-posição). Com isso retira-se o caráter de historicidade da mesma, aproximando-a mais da noção de um mito que prescreve as condutas corretas, reproduzindo o social. (CIAMPA, 1987, p. 163).

Em um texto marcado por uma orientação do materialismo histórico e dialético, Ciampa (1987) critica posicionamentos que consideram a identidade como algo que, ao ser conquistado, permanece no sujeito de uma forma fixa e imutável e propõe a compreensão de identidade como metamorfose, tentando desvendar a ideologia da não transformação do ser humano como condição para a não transformação da sociedade. Nesse particular, compreende a Identidade também como uma questão política e atrela ao estudo da identidade as categorias de atividade e consciência10 como indispensáveis para a compreensão do ser humano como produzido historicamente.

9 Antonio da Costa Ciampa, psicólogo brasileiro que, em 1987, publicou sua tese de doutoramento

defendida na PUC-SP sob o título A estória de Severino e a história da Severina, um ensaio em

Psicologia Social, na qual propõe a tese da Identidade como metamorfose, como morte-vida. Seu

estudo contribuiu de maneira decisiva para dar visibilidade a essa temática nas pesquisas na área da Psicologia, influenciando uma geração subseqüente que, adepta da Psicologia Social Crítica, estuda o tema.

10 Atividade e Consciência – dois conceitos propostos por Karl Marx e Friedrich Engels (1980). A

atividade é definida como o contínuo trabalho dos seres humanos para produzirem suas formas de sobrevivência. Consciência é a capacidade de simbolizar e representar essas ações, num movimento dialético que as torna interdependentes. Consoante os autores: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” (MARX; ENGELS, 1980 p. 307).

Kathryn Woodward (2000) ressignifica o pensamento de Ciampa (1987) e fala de uma perspectiva essencialista para definir a identidade, argumentando que isso acontece quando se lança mão de atributos como “verdadeira”, “autêntica”, “fixa”, dentre outros semelhantes para adjetivar a identidade. Este argumento também é partilhado por Tomaz Tadeu Silva (2000) e Stuart Hall (2000) quando asseguram que a identidade assim dita esgota-se em si própria. É, como afirma Tomaz Tadeu Silva (2000, p. 74) “[...] auto-contida e auto-suficiente.” Juntos, os dois autores concordam com a necessidade da existência de uma definição não essencialista para identidade. Referem-se a um “conceito estratégico e posicional” que se baseia na diferença, é constituído na teia relacional que forja os seres humanos com suas características e determinantes materiais e simbólicos e está estruturado em forma de linguagem. Este entendimento leva Stuart Hall (2000, p. 108) a afirmar:

Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas, que elas são na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas não são, nunca, singulares mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicas. As identidades estão sujeitas a uma historicização radical, estando constantemente em processo de mudança e transformação.

Neste caminho teórico, a pesquisadora Rosi Braidotti (2006, p. 1) concorda com os posicionamentos de Stuart Hall (2000) e afirma que a identidade é “[...] construída nos mesmos gestos que a colocam como ponto de ancoradouro de certas práticas sociais e discursivas.” Propõe a formulação de “sujeito nômade”, em oposição a qualquer compreensão de identidade como fixa e estável, entendendo que este sujeito dinâmico e mutante está identificado com transições e passagem e nunca com destinos pré-determinados ou retorno a lugares conhecidos. Enquanto teórica feminista, Rosi Braidotti (2006) identifica o nomadismo como uma consciência crítica de feministas ou de outros intelectuais que assumem posições de resistência a modos de pensamento hegemônicos, compartilhando com o que chama de rebelião de saberes subjugados.

É descartada a idéia de identidade como produto acabado, como traço inato ou um atributo fixo dos sujeitos ou grupos. É importante percebê-la como um processo, um vir-a-ser, ficando entendido, acredita-se, a impossibilidade de se pensar a identidade como algo privado que pertence à interioridade de cada ser humano, mesmo porque o mundo subjetivo, como uma apropriação simbólica do

real, impõe a subjetivação da realidade e a objetivação do mundo psíquico de cada um (em forma de ações), num movimento tal que seja possível às pessoas se reconhecerem e se denominarem no reconhecimento e denominação de seus pares e dos não pares, numa constituição objetiva/subjetiva de si e do mundo. Como nos ensina Fernando Rey (2003, p. 230): “A identidade não é uma formação intrapsíquica, é um sentido que aparece de forma simultânea nas configurações subjetivas do sujeito e nas emoções e significados produzidos pela delimitação social de seu espaço de ações e relações.”

Em função da complexidade que enreda a construção teórica da Identidade, pode-se perceber que esta não pode ser apropriada por uma única disciplina. O impulso que a emergência do pensamento contemporâneo proporciona, como sugere Stuart Hall (2001), com o conseqüente rompimento das fronteiras disciplinares, provocou o surgimento de um outro tipo de conhecimento — o temático —, que deu maior visibilidade a questões como a da identidade. Como expõe Boaventura Sousa Santos (2001, p. 47): “[...] a fragmentação pós-moderna não é disciplinar e sim temática. Os temas são galerias por onde os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros.” Entendemos que o estudo das identidades torna-se possível quando se percorre e reconstitui caminhos de indivíduos e grupos na tentativa de compreender o movimento que os constitui. E é nessa direção a proposta desta tese, de investigar, no cotidiano escolar de um Curso de Psicologia singular, como os alunos e alunas constroem as identidades profissionais de psicólogo e psicóloga, tomando como referência os Estudos Culturais que a concebem como produto do discurso.

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 47-50)