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Proposta Curricular do Curso

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 120-125)

los a botar o pé no chão.

3 ESTRUTURA E PROPOSTA DO CURSO DE

3.1 O CURSO DE PSICOLOGIA

3.1.1 Proposta Curricular do Curso

Em se tratando de uma instituição que tradicionalmente lida com as questões da saúde e considerando o peso que a formação em saúde dá a doença, foi necessário, no âmbito do Curso de Psicologia, discutir uma concepção de saúde que a compreendesse como o resultado da interação de diversas condições (materiais, sociais, econômicas, biológicas, afetivas, psicológica, políticas, jurídicas, dentre outras), nas quais está inserido o ser humano. Dessa forma, relativizou-se o peso do viés curativo, em prol de uma perspectiva preventiva em saúde.

Esse recorte, inclusive, é privilegiado por uma corrente teórica da Psicologia Social que compartilha desse entendimento de saúde (BOCK, 1999), considerando o psicólogo como promotor da saúde e a Psicologia como promotora de saúde. Isto significa apreender a saúde como um conjunto de condições criadas coletivamente, que permitem a continuidade da própria vida em sociedade. Essas condições dizem respeito a alimentação, moradia, saneamento, educação, lazer, dentre outras que propiciam ao ser humano a saúde física e psicológica. Assim sendo, fala-se da função social da Psicologia e dos psicólogos.

Com relação à função social dos psicólogos e da Psicologia, é necessário demarcar a especificidade do psicólogo como o profissional que lida com a

subjetividade humana e que precisa incluir questões objetivas da existência humana à subjetividade dos indivíduos, compreendendo seres humanos como concretos, que possuem um lócus espaço-temporal, são regidos por normas sócio-econômicas e culturais e produzem suas ações e relações, suas idéias e representações na intersecção de seu mundo pessoal com o mundo coletivo.

O Projeto Pedagógico do Curso (FBDC, 2003, p. 4) destaca desafios que a formação em psicologia precisa enfrentar para responder às demandas da contemporaneidade, propondo que uma formação universitária deva “[...] nortear-se, cada vez mais, pelas exigências de um profissional crítico, construtor de saber, sujeito de um processo de aprendizagem contínuo e integrado com outros conhecimentos e, eticamente preocupado com os novos compromissos sociais.”

Considera como desafios:

• Superar o modelo de formação dominante com ênfase tecnicista;

• Apresentar um saber teórico-prático organizado em torno de uma formação generalista assegurando-lhe uma visão interdisciplinar;

• Articular formação científica e formação tecnológica em diferentes contextos sociais;

• Estruturar uma prática pedagógica coerente com espaço de superação dos desafios supramencionados. (FBDC, 2003, p.4).

Estão contemplados no Projeto Pedagógico do Curso alguns pressupostos da ação educativa que o Curso propõe-se a praticar, pela indagação sobre qual psicólogo pretende formar, para que tipo de sociedade e as contribuições que esses profissionais poderão dar à coletividade. Nesse particular, refere-se à concepção de homem que preconiza, ao entendimento da escola como o lugar privilegiado para formação de profissionais para a democracia, considerando esta como uma forma de vida e não apenas como governo político, e destaca a construção de valores éticos e estéticos.

Estão contemplados no Projeto Pedagógico (FBDC, 2003, p. 5), objetivos gerais:

• Formar psicólogos cidadãos que atuem como agentes transformadores na construção de uma sociedade mais democrática e menos desigual, intervindo com seres humanos nas dimensões psicossocial, psicodinâmica, institucional e comunitária;

• Formar psicólogos comprometidos com a promoção da saúde e com a dignidade da vida dos seres humanos.

E como objetivos específicos (FBDC, 2003, p. 5-6):

• Entender/incorporar uma prática pluralista, crítica e transformadora, construtora de novas possibilidades profissionais, a partir de reflexões sobre a realidade histórico-social;

• Compreender a função social da Psicologia e do Psicólogo nas ênfases selecionadas;

• Apreender a multiplicidade de determinações dos fenômenos psicológicos assim como a possibilidade de múltiplos níveis de intervenção.

Com relação ao perfil profissional, o Projeto Pedagógico propõe “[...] a formação de um profissional pluralista para uma atuação generalista, crítico e sintonizado com as demandas da contemporaneidade.” (FBDC, 2003, p. 6). Define competências gerais para a área da saúde, para a Psicologia e para as ênfases curriculares que elege para seu Curso.

Como competências gerais para a Psicologia, relaciona:

• compreender as múltiplas determinações dos seres humanos; • entender como estes constroem o seu universo simbólico;

• incluir as dimensões histórico-sociais no universo dos processos psicológicos;

• compreender a sociedade como uma rede de significados simbólicos – como produção e produto da atividade humana;

• identificar, na concepção de saúde e doença, a complexa rede de fatores que promovem a saúde, reconhecendo as dimensões bio-psico-sociais da produção da saúde e dos distúrbios psíquicos;

• identificar o psicólogo como profissional que tem compromisso social e ético com a sociedade em que vive e atua.(FBDC, 2003, p. 7).

Como definiu duas ênfases, seguindo as orientações das DCN, quais sejam,

Práticas de Psicologia em Saúde e Práticas de Psicologia em Trabalho e Organizações, considera, com relação à primeira, que “[...] o foco desta ênfase será

o ser humano e a saúde nas dimensões preventiva, curativa e reabilitadora, com múltiplas possibilidades de configuração e intervenção.” (FBDC, 2003, p.7). E agrupou em torno dessa ênfase tanto o trabalho do psicólogo junto a instituições de saúde quanto ao trabalho clínico que se caracteriza pelo atendimento de consultório.

A definição por uma ênfase em saúde deve-se à própria vocação da instituição para a área da saúde, que viabiliza não apenas uma diversidade de campos de práticas em várias áreas da saúde tanto preventiva como curativa e reabilitadora, mas, além disso, proporciona a interlocução com outros campos do saber da saúde, como a medicina, a terapia ocupacional, a fisioterapia, a odontologia e a biomedicina, o que efetivamente acontece.

Com relação a Práticas de Psicologia em Trabalho e Organizações, O Projeto Pedagógico (FBDC, 2003, p. 8) delimita que o foco desta ênfase é “[...] o ser humano, as relações de trabalho, o processo produtivo e o contexto de trabalho” e também se refere às múltiplas possibilidades de configuração e intervenção.

Com este entendimento, o Curso propõe-se a promover uma formação (FBDC, 2003, p. 9-10):

→ generalista, consistente e abrangente;

→ ativa no sentido de compreender o aluno como construtor de seu conhecimento, estimulando a postura do agir-refletir-agir;

→ centrada em atitude científica e criativa no sentido de estimular o olhar curioso e investigativo, avaliando o que estuda e o que faz pensar, criticar, analisar, reformular, inventar;

→ que permita compreender as determinações econômico-sociais dos fenômenos psicológicos;

→ que proporcione interlocução (teoria e prática) com outros profissionais de outras áreas de Saúde através de atuação em equipe multiprofissional;

→ que amplie as ações profissionais do psicólogo de curativa/individual/ privada para preventiva/grupal/social;

→ que proporcione acesso à multiplicidade de aportes teóricos e de metodologias investigativas e de intervenção inerentes ao mosaico teórico-conceitual que propõe a Psicologia, de forma crítica e reflexiva; → com vivências de atividades curriculares que atendam a leituras

interdisciplinares dos processos e fenômenos psicológicos, além de procedimentos de intervenção;

→ com situações supervisionadas de intervenção (práticas e estágios) onde o aluno e usuários possam exercitar serviço ético adequado.

Para tanto, a proposta curricular contempla Eixos Estruturantes “básicos, específicos, e práticos” que se desdobram nos eixos temáticos propostos pelas DCN: “Fundamentos Epistemológicos e Históricos; Fenômenos e Processos Psicológicos Básicos; Fundamentos Metodológicos; Procedimentos para Investigação Científica e Práticas Profissionais; Práticas Profissionais e Áreas Afins

contempladas no Currículo” — a estrutura curricular agrupada em torno dos eixos temáticos assim como por semestre encontra-se no Anexo B.

A proposta metodológica do Curso de Psicologia a fim de garantir uma coerência entre concepção, princípios, fundamentos e características do PP se auto- refere como favorecendo “[...] o exercício dos pressupostos éticos, democráticos, de contextualizações, conectados interdisciplinarmente, articulando teoria e prática, contemplando temas emergentes de forma transversal e multirreferencial.” (FBDC, 2003, p. 63). Para atingimento desses objetivos, propõe “[...] ações e atividades metodológicas que ensejam ao aluno: participação efetiva, dinamismo, flexibilidade, crítica, criticidade, compromisso e responsabilidade.” (FBDC, 2003, p. 63) que possam proporcionar uma formação atualizada e humanizante, indicando o exercício de:

• uma prática contextuada;

• a utilização de procedimentos metodológicos de caráter emancipativo, indispensável ao exercício de tomada de decisões;

• interação precoce com a comunidade a partir do 1º semestre;

• abordagem por eixos temáticos em detrimento de conteúdos disciplinares isolados;

• articulação teoria/prática, observando-se o caráter, natureza e especificidade dos conteúdos da área/disciplina, sugerindo enfoques mais sistêmicos;

• utilização de procedimentos metodológicos que favoreçam a reforma do pensamento que detenham a fragmentação do conhecimento, procurando educar/ensinar/aprender de forma mais sistêmica, que favoreçam a conexão, a religação de conteúdos, disciplinas e áreas de estudo; e

• a interdisciplinaridade como forma de organização do trabalho acadêmico, ou seja, o estabelecimento de intercomunicação efetiva entre as disciplinas. (FBDC, 2003, p. 63).

Com relação à sistemática de avaliação, o PP adverte a necessidade de se rever posicionamentos autoritários que transformam a avaliação em mecanismo de submissão e dependência, em prol de atividades avaliativas que favoreçam a autonomia intelectual e a participação do estudante.

Fazendo uma análise comparativa entre o currículo original do Curso de Psicologia elaborado à luz dos princípios do Currículo Mínimo, e o novo Projeto Pedagógico, inspirado nas proposições das Diretrizes Curriculares, verifica-se que houve um avanço significativo, no que se refere à compreensão do processo ensino-

aprendizagem com adoção de práticas inovadoras como o agrupamento de disciplinas em Eixos temáticos (transversais), a introdução de Atividades Interdisciplinares, Atividades Complementares, Estágios Básicos e Específicos, Trabalho de Conclusão de Curso, articulação teoria-prática em diversas disciplinas, dentre outros. Além do mais, esse currículo foi construído com o envolvimento de toda a comunidade acadêmica da Psicologia da Bahiana, mediante reuniões periódicas do grupo que formulou o Projeto com os consultores e o coletivo de professores e alunos. Pode-se verificar, porém, que ainda há uma segmentação muito grande no currículo, com fragmentação dos conteúdos e uma seriação peculiar aos currículos tecnicistas.

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 120-125)