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PSICÓLOGOS E PSICÓLOGAS: PROFISSIONAIS DA ESCUTA

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 193-197)

5 VIVÊNCIA CURRICULAR – CONSTRUINDO AS IDENTIDADES

Aluna 1: Tem que ser ética Tem que ser uma pessoa acima de tudo ética Engraçado que a gente deu Ética duas vezes 37 , na cabeça da gente: é pra quê dar

5.7 PSICÓLOGOS E PSICÓLOGAS: PROFISSIONAIS DA ESCUTA

A concepção de identidade que se compartilha neste trabalho significa identificações em curso, sucessivas e ilimitadas. Pressupõe uma contínua avaliação do sujeito sobre si e sobre seus pares que, de uma forma viva e dinâmica, vai se configurando de diversas formas, relacionadas ao momento e ao contexto que cada pessoa vive no desenrolar de sua existência, nos discursos de que se apropria ao falar de si e do mundo. Na verdade, são múltiplas identidades em processo permanente de construção e desconstrução. Pode-se falar de identidade sexual, de

identidade profissional, de gênero, de raça, de etnia, de religião, de nacionalidade, de geração, dentre uma infinidade de outras identidades que se intercambiam e fazem sentido tanto para cada um em particular quanto para os grupos aos quais se identifica e se afilia, dando a cada um o sentimento de pertencimento.

Ao entrar no curso, como foi constatado no Questionário Inicial, analisado em capítulo precedente, os alunos e alunas definiam o psicólogo e a psicóloga como profissionais de ajuda, especificando que sua atuação consistia em ajudar as pessoas que estivessem com problemas ou vivenciando situações de sofrimento. Fica muito evidente também que esta ajuda seria profissional e qualificada e que ela deveria se dar, de preferência, em atendimentos clínicos realizados em consultório privado, naquela que se considera uma perspectiva tradicional para o exercício da profissão de psicólogo e psicóloga.

Reportando-se aos posicionamentos que interferiram na escolha da profissão, alunas do 2º grupo referem-se a:

Aluna 1 – As pessoas falam [...] psicólogo ele conversa né? como se fosse um amigo [...] [risos].

Aluna 2 – E amigo é aquele que dá conselho [...]

Aluna 3 – É tipo assim, quando você, antes de você entrar na faculdade, escuta

dizerem para você é, você devia fazer psicologia, você gosta de conversar, ouvir as pessoas [...]

Aluna 2 – As pessoas gostam de falar dos problemas e eu gosto de escutar [...]

Aluna 1 – Inclusive, eu, quando me perguntavam: porque você escolheu psicologia?

eu respondia, todo mundo me procura pra ficar falando dos problemas e eu adoro ficar ouvindo. Falava isso, eu tinha 17 anos [...]

Aluna 3 – Eu também, entrei na faculdade com 17 anos.

A análise desta questão do questionário inicial evidencia a relação que a psicologia estabelece com a sociedade, para oferecer uma visão estereotipada de atuação profissional, caracterizada pelo atendimento psicoterapêutico realizado em consultório individual privado. Nele, as pessoas podem falar de seus problemas, visto que o psicólogo ou a psicóloga é a pessoa privilegiada, que tem acesso a conteúdos íntimos e privados daqueles que o procuram, buscando ajuda. Esse exercício profissional é exatamente aquele que dá prestígio e poder ao profissional,

haja vista que lhe confere o estatuto de profissional liberal, como já discutido anteriormente, ainda que se trate de uma profissão feminina.

Na arena social, é notória a hierarquia entre as profissões. Aquelas que têm uma predominância masculina e priorizam a ação e o uso do raciocínio lógico são mais valorizadas socialmente, em detrimento daquelas voltadas para os conhecimentos das humanidades e referem-se ao cuidado com os outros.

Embora a Psicologia configure-se como uma profissão feminina de ajuda na perspectiva do “cuidar de”, do qual fala Joan Tronto (1997), e que exige o compromisso e a responsabilidade pelo outro, os profissionais da Psicologia não necessariamente se colocam em posição de subalternidade a outros profissionais, posto que podem exercer seu mister com independência, no espaço privado do consultório. Dessa forma, diferenciam-se de outras profissões femininas como a Enfermagem, o Magistério de séries iniciais, o Serviço Social. Nessa perspectiva, fala-se da dinâmica das relações de poder, em que se produzem saberes que estruturam as possibilidades de ação profissional dos seres humanos, numa configuração conjunta de saber-poder, referida por Michel Foucault (1979, 2001b).

É importante demarcar que a Psicologia, ao nascer como profissão no Brasil, tinha bem delimitado seu viés clínico, assegurado inclusive pelo parecer do MEC nº 403/62, que regulamentou a profissão e instituiu o Currículo Mínimo para os cursos superiores de Psicologia, ao “[...] assegurar à Psicologia a posição de relevo no conceito das chamadas profissões liberais.” (CFE, 2006, p.1). Todavia era marcante sua presença, desde a primeira metade do século XX, na área da educação, assim como nas indústrias, mediante a utilização de testes psicológicos nas instituições educacionais, nos serviços de seleção de pessoal, nos exames psicotécnicos de motoristas e no sistema judiciário (CFP, 2005), conforme visto no Capítulo 2.

Durante o Curso, ao entrar em contato com a diversidade teórico- metodológica da Psicologia e adentrar pelos caminhos da atuação profissional, os alunos têm a possibilidade de ressignificar alguns conceitos e perceber a profissão de um modo diferente. O que se verifica, no entanto, nos depoimentos coletados nos Grupos Focais, é que, como o curso trabalha aportes teóricos diversificados, é possível a alunos e alunas compreenderem o mosaico teórico-conceitual da Psicologia e até transitar por alguns deles com desenvoltura. Eles têm conhecimento também das múltiplas possibilidades de ação e inserção profissional, tanto no que se

refere a campos tradicionais de trabalho de psicólogos quanto àquelas áreas consideradas emergentes.

Com relação à escolha profissional, entretanto, o segmento que atrai o maior número de alunos para o Estágio Específico é o da área clínica, com atendimento individualizado em consultório privado, realizado no Serviço de Psicologia (a Clínica- escola patrocinada pelo próprio Curso), mantendo aquele posicionamento explicitado no início do curso e idealizado, como visto no Questionário Inicial.

A despeito do currículo do Curso privilegiar disciplinas que descortinam áreas distintas de interesse de ação de psicólogos como a Psicologia Social, Psicologia do Desenvolvimento Humano (bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos), Psicologia e Educação, Psicologia e Saúde, Psicologia e Comunidade, além de patrocinar Estágios Básicos em distintos espaços de atuação como em Projeto Saúde da Família, Centro de Educação Especial, Grupo de Apoio a Criança com Câncer, ambulatórios diversos, trabalhos em comunidade, hospitais, dentre outros, a área clínica é aquela que se oferece como a mais atrativa para os estudantes realizarem o estágio profissionalizante.

Acreditam os alunos que esse estágio, em particular, poderá possibilitar-lhes o exercício de uma escuta que lhe será necessária e fundamental em quaisquer espaços em que possam vir a atuar. E os estudantes, em adesão ao que lhes ensinam seus mestres, consideram o psicólogo e a psicóloga como os profissionais da escuta, que possibilitam a promoção da ajuda. Há, portanto, uma ressignificação do entendimento do psicólogo e da psicóloga como profissionais de ajuda para

profissionais da escuta, embora a profissão continue sendo considerada como

profissão de ajuda.

Em atendimento à demanda dos alunos e como uma decisão do próprio curso com relação aos Estágios Específicos, desde a primeira turma de alunos, a maior oferta de vagas para os estágios recai na área clínica, privilegiando orientações teórico-metodológicas diferentes, como é o caso de Psicanálise, Terapia Cognitivo Comportamental, Gestalt Terapia, Psicoterapia Analítica Junguiana e Psicanálise Infantil Winnicotiana. Como o Curso definiu duas ênfases curriculares, seguindo orientação das Diretrizes Curriculares (Práticas de Psicologia em Saúde e Práticas de Psicologia em Trabalho e Organizações), oferece ainda vagas para Estágio em Hospitais/instituições de saúde e na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho. Para as quatro primeiras turmas, matriculadas com orientações do

Currículo Mínimo, foram oferecidas vagas para Estágio na área da Educação, pois aquele projeto assegurava Estágio nas três áreas tradicionais da Psicologia e revelou-se como pouco atrativa para os alunos, em virtude, inclusive, do pouco investimento que o Curso fez nesta área.

Com a reformulação do Curso, à luz das DCN, isso foi modificado, ficando apenas as duas ênfases citadas: “Saúde” e “Trabalho e Organizações” O PPC, entretanto, considera que a ênfase de saúde corresponde às áreas de clínica, hospitalar e ambulatório.

Na Tabela 4 pode-se verificar a oferta e a escolha de vagas em Estágio Específico nas seis turmas que até o momento da pesquisa chegaram ao 9º semestre e, portanto, fizeram sua opção pelo citado estágio.

Tabela 4 – Opções de alunos para Estágios Específicos

No documento Construção de identidades em psicologia (páginas 193-197)