1 TECENDO AS IDENTIDADES
1.3 IDENTIDADES PROFISSIONAIS
Pode-se considerar o trabalho como uma categoria básica na relação do ser humano com o mundo, considerando-o como fator estruturante do modo social e humano de existência, fruto das relações sociais, nas quais a humanidade produz seus meios de vida. Como já haviam ensinado Marx e Engels (1982, p. 9): “[...] tal como os indivíduos manifestam a sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem, como com o modo como produzem.”
A despeito dos questionamentos sobre a importância do trabalho na contemporaneidade e as problematizações que são elaboradas sobre a teoria marxista, pode-se afirmar que o mundo do trabalho e as categorias profissionais são contextos produtores de subjetividade de onde emergem configurações identitárias tecidas no interjogo das identificações e diferenças que promovem sentidos, por meio do discurso, conforme se discute ao longo desta tese. No caso do trabalho e da formação profissional, pode-se falar em identidades profissionais, compreendendo-as como as posições que o sujeito assume, com base nas práticas discursivas às quais está exposto e que expressam a forma como determinada profissão impregnou sua vida, de modo a lhe proporcionar uma percepção particular
de mundo e determinados modos de agir diante do real. Está implicado nesse processo um movimento de construção, desconstrução e re-construção de significados que a profissão ou a formação profissional proporcionam; não apenas aquisições teórico-conceituais e procedimentos técnicos e metodológicos, mas, além disso, formas de compreender o mundo, os seres humanos e a profissão.
Quando se fala de profissão, é necessário que se delineie um tipo de trabalho especializado, teoricamente fundamentado, com recursos técnicos e metodológicos definidos, partilhado por um grupo de pessoas que se denomina e se reconhece como “iguais”. Para Fernanda Pereira e André Pereira Neto (2003), o reconhecimento de uma profissão exige um conhecimento estruturado e institucionalizado, além da estruturação de seus interesses em consórcios profissionais que regulam e controlam a atuação daqueles que partilham desse mister. Para os autores citados, deve existir um controle interno da profissão, exercido mediante a fiscalização das condutas profissionais, que devem se balizar no código de ética de cada profissão. É necessário, portanto, um reconhecimento oficial do Estado, por meio da regulamentação legal do exercício profissional.
Embora o estudo das profissões seja um campo específico da Sociologia, no qual não é pretensão deste trabalho aprofundar-se, é importante demarcar o que Maria da Glória Bonelli (1999) coloca como temáticas importantes desta área. Refere-se, a autora, às relações entre a profissão, o Estado e a política, às concepções de profissão e aos debates internos sobre seus conteúdos ideológicos, além da força social da profissão, seu grau de enfraquecimento, a autonomia profissional e a repercussão na sociedade.
Fica explícito que é no terreno das disputas, no atravessamento do saber- poder que se forjam as identidades profissionais. Nestas, há um forte conteúdo político, em particular, quando se fala no processo de inserção social nas sociedades capitalistas, cujas relações são hierarquizadas e excludentes. Falar de profissões remete à pirâmide social, na qual estão distribuídas as profissões. Existem aquelas de maior prestígio social e melhor remuneração que se sobrepõem a outras, cujo saber e prática são consideradas menos qualificadas socialmente. Nessa configuração, existem profissões, subprofissões, emprego, subemprego, concentração de renda, profissões masculinas, profissões femininas, profissões que curam outras que cuidam, profissões que exigem o exercício do pensar outras que são mecânicas, dentre outras possibilidades.
Em uma sociedade marcada por uma divisão sexista, tributária de uma lógica de dominação patriarcal, as profissões consideradas femininas são aquelas nas quais se deseja e espera que a mulher possa exercê-la, aproveitando seus “dotes naturais femininos” derivados de suas funções maternas.
Assim como a identidade de gênero começa a se construir desde o nascimento, quando se constata as características sexuais externas de meninos e meninas, as identidades profissionais também têm sua raiz na infância, quando, de acordo com os padrões de sociabilidade androcêntrico, as crianças recebem tratamento diferenciado e aprendem as normas e valores da sociedade com relação à vida coletiva de seu grupo e da sociedade da qual fazem parte.
É no cotidiano das relações familiares e, posteriormente, nos demais grupos de socialização como escola, igreja, vizinhança, amigos, dentre outros, que as crianças interagem e reproduzem a divisão sexual das relações sociais. Neles aprendem desde as diferenças na distribuição das atribuições dos afazeres domésticos até a forma como lidar com emoções e sentimentos por meio do uso de brinquedos e modalidades diferentes de brincadeiras de meninos e meninas. Os meninos podem desenvolver brincadeiras em que a violência, a agressividade, a competitividade e até a transgressão são tolerados e até estimulados enquanto o recato, a docilidade, a calma e a delicadeza são exigidos das meninas.
No decorrer do desenvolvimento, as mulheres são direcionadas pela vivência social a cultivar os “dotes femininos”, que se direcionam para os cuidados com o lar, o casamento e a criação de filhos.
Guacira Louro (1997, p. 96), ao falar do magistério como profissão feminina, defende:
Já que se entende que o casamento e a maternidade, tarefas femininas fundamentais, constituem a verdadeira carreira das mulheres, qualquer atividade profissional será considerada como um desvio dessas funções sociais, a menos que possa ser representada de forma a se ajustar a elas.
Nesse raciocínio, pode-se ampliar esse entendimento para outras profissões que são exercidas predominantemente por mulheres, como é o caso da Psicologia.
Há que se considerar que a complexidade do mundo contemporâneo, associada às conquistas das mulheres e ao cenário do mundo produtivo mutante e polivalente, oferece as condições para que as mulheres estejam ressignificando a
questão das profissões e das carreiras profissionais. Entretanto pesquisas como a de Elizete Passos (1997) sobre as presenças masculinas e femininas na universidade apontam para uma predominância do quantitativo de mulheres em profissões da área de ciências humanas, invertendo-se esta tendência quando se trata de profissões da área de ciências exatas.
O cenário das profissões, em que se constroem permanentemente as identidades profissionais, é marcado pela questão da disputa, do poder. Estão em jogo, além das profissões masculinas e femininas, questões outras que derivam dessa primeira separação, quando se atribui valor e prestígio a umas em detrimento de outras, o que se revela na forma como são remuneradas ou prestigiadas pela sociedade. Além disso, dentro de cada profissão há fronteiras simbólicas que hierarquizam saberes e fazeres.
Como se pode perceber, uma idéia de harmonia entre grupos profissionais ou mesmo dentro de um mesmo segmento é ilusória, porquanto a vivência profissional dentro de um grupo ocupacional é marcada por tensões e conflitos que aderem a valores determinados que os subdividem e instalam fronteiras para se preservar e demarcar seus espaços internos e externos.
É neste terreno de forças, de disputa, de jogo de interesses que a dinâmica saber-poder, no contexto social, forja a construção de sentidos. No entendimento de Michel Foucault (1979, p. 75), em sua conversa com Giles Deleuze:
[...] seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, freqüentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.
A construção de identidades supõe sempre o reconhecimento da diferença. No campo das profissões isso está presente de forma muito marcante nos sentidos, valores e regras que tecem as relações inter e intra profissões e constroem saberes e práticas inerentes aos discursos peculiares de cada segmento. Nessas situações, saber e poder nivelam-se na construção de sentidos possíveis para as posições de sujeito. O saber sempre é relativo, nunca absoluto e constitui-se em objeto de barganha nas lutas políticas e correlações de força entre os diversos tipos de discursos que circulam no “mercado profissional”. É no jogo do discurso que se
estabelece quem ocupará posições sociais de maior representatividade social e também quais as profissões mais valorizadas, mais respeitadas e melhor remuneradas.
Estudar identidades profissionais em psicologia é algo muito peculiar, pois refere-se a uma profissão que desde sua constituição apresenta questões ambivalentes quanto à definição de seu objeto de estudo, à diversidade de abordagens teórico-metodológicas, aos campos de atuação profissional e à clientela atendida. Além do mais é uma profissão exercida majoritariamente por mulheres.
Para se constituir como ciência, rompe com uma tradição filosófica e incorpora uma racionalidade instrumental para desenvolver pesquisas experimentais; enquanto profissão, promove uma formação nas ciências humanas e uma prática profissional que tem a medicina como um parâmetro. Além disso, oferece um vasto leque de possibilidades de atuação profissional caracterizado por contextos diversificados. Pode ser exercida na área da saúde, na da educação, no campo do trabalho, no jurídico, nos esportes, dentre outras possibilidades. Entre muitas profissões da área das ciências humanas é a única cujo profissional pode obter o status de profissional liberal, como assegura a Lei nº 4.119/62, que regulamenta o exercício da profissão. Ao ser escolhida predominantemente por mulheres, pode-se afirmar que se trata de uma profissão feminina.
O Catálogo Brasileiro de Ocupações (BRASIL, 2006e) considera os psicólogos como um grupo base identificado com a numeração 0-74, e segue classificando-os como (0-74.10) psicólogo, em geral, (0-74.15) psicólogo do trabalho, (0-74.25) psicólogo educacional, (0-74.35) psicólogo clínico, (0-74.45) psicólogo do trânsito, (0-74.50) psicólogo jurídico, (0-74.55) psicólogo do esporte, (0-74.60) psicólogo social e (0-74.90) outros psicólogos. No que concerne à descrição de psicólogo, diz:
Os trabalhadores deste grupo de base estudam a estrutura psíquica e os mecanismos de comportamento dos seres humanos. Desempenham tarefas relacionadas a problemas de pessoal, como processos de recrutamento, seleção, orientação profissional e outros similares à problemática educacional e a estudos clínicos individuais e coletivos. Suas funções consistem em: elaborar e aplicar métodos e técnicas de pesquisa das características psicológicas dos indivíduos; organizar e aplicar métodos e técnicas de recrutamento, seleção e orientação profissional, proceder à aferição desses processos, para controle de sua validade; realizar estudos e aplicações práticas no campo da educação (creches e escolas); realizar trabalhos em clínicas psicológicas , hospitalares, ambulatoriais, postos de saúde, núcleos e centros de atenção psicossocial; realizar trabalhos nos casos de famílias,
crianças e adolescentes, sistemas penitenciários, associações esportivas, comunidades e núcleos rurais. (CÓDIGO CBO, 2006, p. 1).
Observe-se que há uma definição geral para um saber que orienta a profissão, qual seja o entendimento de como funcionam os seres humanos. A seguir delineiam-se várias áreas de inserção do psicólogo na sociedade. As transformações do contexto produtivo, enquanto uma dinâmica que envolve questões econômico-sociais e tecnológicas, formatam novas possibilidades ocupacionais, nas quais profissões caem em desuso, outras são inventadas e ainda outras re-criadas. A Psicologia não está imune a essa trama do tempo e, conseqüentemente, suas possibilidades profissionais também estão continuamente se renovando e se recriando.
O Conselho Nacional de Saúde, por meio da Resolução nº 218, de 06 de março de 1997 (BRASIL, 2006d), reconhece as profissões de nível superior que compõem a área da saúde12 e nelas inclui a Psicologia. Tal resolução justifica-se, dentre outros motivos, pelo fato de que:
• a 8ª Conferência Nacional de Saúde concebeu a saúde como "direito de
todos e dever do Estado" e ampliou a compreensão da relação
saúde/doença como decorrência das condições de vida e trabalho, bem como do acesso igualitário de todos aos serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde, colocando como uma das questões fundamentais a integralidade da atenção à saúde e a participação social [...] (BRASIL, 2006d, p. 1, grifo do autor).
Está ainda relatada a necessidade de consolidar o Sistema Único de Saúde e a importância da ação interdisciplinar nesta área.
Há uma tradição dos Cursos de Psicologia abrigarem-se em Faculdades da área das Ciências Humanas, tendo em vista que o MEC incorporou essa profissão nesta área, mesmo que o maior peso na formação e a atuação do psicólogo tenha se constituído como o modelo clínico tradicional13, o que exigia, para o funcionamento do Curso, a instalação de uma Clínica Escola, denominada “Serviço de Psicologia”, que funciona nos moldes de atendimento médico de consultório.
12 Fazem parte deste grupo ocupacional, além dos Psicólogos, Assistentes Sociais, Biólogos,
profissionais de Educação Física, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Fonoaudiólogos, Médicos, Médicos Veterinários, Nutricionistas, Odontólogos e Terapeutas Ocupacionais.
13 Consultório privado para atendimento psicoterapêutico individual para pessoas com problemas
O Curso estudado nesta tese, no entanto, está sediado em uma Faculdade de Medicina que há 54 anos dedica-se a formar profissionais da área da saúde, sendo um tradicional reduto de ensino superior nesta área, o que poderia suscitar questões relacionadas à construção de identidades desses alunos e alunas. Há que se considerar que uma instituição de Ciências Humanas tem todos os elementos para formar uma cultura mais voltada para as artes e as humanidades, enquanto as instituições de saúde trazem o peso da doença, porquanto, numa visão tradicional, via de regra estão empenhadas em lidar com os enfermos, as doenças e a cura.
A construção das identidades profissionais, como a construção de quaisquer outras identidades, de acordo com os posicionamentos que se defende neste texto, constroem-se na interlocução do sujeito com o mundo, quer no plano individual, quer no coletivo. E a Psicologia, de qualquer sorte, pela própria multiplicidade em que convive desde sua constituição como ciência e como profissão, aprendeu a realizar diversificados diálogos.
A psicologia, acredita-se, possibilitou desde sempre a coexistência de múltiplas e mutantes identidades. Quando se fala do psicólogo organizacional, do clínico, do hospitalar, do educacional, para citar alguns, não se está falando da mesma coisa, embora se trate do mesmo profissional, que teve, em princípio, a mesma formação, pelo menos a básica. Ao invés de psicólogo, fala-se de psicólogos. Considerando que as identidades são históricas, fluidas e constituídas na rede discursiva que produzem os sentidos, estes, produzidos em diferentes momentos e contextos, dizem de movimentos de afirmação, resistência ou transformação de determinadas práticas realizadas com base nas interpelações discursivas. As identidades são forjadas na teia do social, do mesmo modo e com igual intensidade com que se produzem as diferenças, ambas constituídas pelas relações de poder (HALL, 2000; 2001; WOODWARTH, 2000; SILVA, 2000; GUARESCHI; BRUSCHI; MEDEIROS, 2003; BUTTLER, 2003; SOUZA SANTOS. 1996 dentre outros).
As identidades definidas nas redes discursivas são consideradas como produto do discurso. Discurso, nessa perspectiva, é entendido como prática, conforme propõe Michel Foucault (1999), em sua Teoria do Discurso, que não enfatiza discurso do ponto de vista lingüístico ou como um significado de palavras, mas como um conjunto de práticas que produzem efeitos no sujeito.
Importa demarcar que o termo discurso neste trabalho refere-se a uma apropriação das formulações foucaultianas que afirmam que o discurso produz o sujeito, tal como o fazem as formulações teóricas que se abrigam sob os Estudos Culturais. Nesse particular, os discursos ou práticas discursivas, como refere Michel Foucault (1999), não são pensados como uma dimensão isolada, como se fossem apenas atos lingüísticos, mas formam-se consorciados com todas as outras relações dos seres humanos na arena social, estabelecendo conexões com os acontecimentos de ordem técnica, política, econômica e social que circunscrevem as experiências humanas.
Como afirma Michel Foucault (1999, p. 193):
[...] as formações discursivas não têm o mesmo modelo de historicidade que o curso da consciência ou a linearidade da linguagem. O discurso [...] não é uma consciência que vem alojar seu projeto na forma externa da linguagem; não é uma língua, com um sujeito para falá-la. É uma prática que tem suas formas próprias de encadeamento e de sucessão.
Assim sendo, não é possível separar os acontecimentos discursivos dos não- discursivos, constituindo-se essa separação em uma questão apenas semântica. Os acontecimentos de ordem técnica, política, econômica e social, comumente pensados como externos aos saberes, do ponto de vista foucaultiano, devem ser considerados como inseparáveis e interdependentes. Nessa perspectiva, podemos inserir a questão da construção das identidades profissionais que se debatem na arena social em vários aspectos da realidade, em nível individual e coletivo, nas disputas pelo poder e por prestígio social.
Como se argumentou anteriormente, o poder tem um caráter produtivo. Nesse momento, enfatiza-se o poder como produtor de saber, tendo em vista que existem (poder e saber) numa relação de mutualidade, porquanto as relações de poder constituem campos de saberes e estes, por sua vez, constituem-se em relações de poder. E pode-se afirmar que o que nomeia uma profissão é um campo de práticas e um conjunto de conhecimentos e capacidades profissionais advindos do saber que caracteriza determinado mister.
Como as relações cotidianas dos sujeitos são atravessadas, em qualquer instância, pelas relações de poder, o indivíduo é concebido tanto como efeito como produtor de poder. Para Michel Foucault (1999), o sujeito produz-se nas relações de poder como um efeito do discurso. O sujeito não tem autonomia sobre seu discurso,
porquanto este se materializa pelas posições de sujeito que definem os discursos “[...] pela situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos.” (FOUCAULT, 1999, p. 59). Sendo assim, o sujeito não faz o que quer, mas aquilo que lhe é possível, condicionado às posições que ocupa em determinado tempo-espaço, subordinado a uma ordem disciplinar determinada. É, portanto, mediante as práticas discursivas forjadas nas práticas sociais que o ser humano transforma-se em sujeito do discurso, assumindo posições discursivas impregnadas das marcas do histórico e do social.
A fixação em determinadas posições de sujeito é possível pelo recurso da performatividade, conceito proposto pela teórica feminista Judith Butler (2001). Para esta autora, o discurso não narra fatos ocorridos no passado, mas formata acontecimentos, na medida em que, por meio de exercícios de repetição, vai proporcionando identificações sucessivas, que fazem com que o sujeito seja interpelado pelo discurso, assumindo posições por meio das quais fala de si e reconhece aquelas pelas quais é falado. Trata-se, portanto, de uma construção que se efetiva pela repetição de práticas discursivas (falas e atos) que estabelecem correspondência e reproduzem normas sociais vigentes, dentre elas aquelas relacionadas às profissões..
Judith Butler (1993, p. 155) afirma que a performatividade deve ser compreendida “[...] não como um ‘ato’ pelo qual o sujeito traz à existência aquilo que ela ou ele nomeia, mas ao invés disso, como aquele poder reiterativo do discurso para produzir os fenômenos que ele regula e constrange.” E considera que este é o efeito mais produtivo do poder.
Compreendendo o trabalho como uma prática de significação que produz modos de ser e sentir, numa relação social e de poder, as instituições de trabalho produzem saberes, ditos, mitos, ritos que são segredados e compartilhados pelos pares. Admitindo como verdadeira a assertiva de Boaventura Souza Santos (2001), de que as identidades são identificações em curso, pode-se considerar a educação superior como um lócus privilegiado para a construção de identidades profissionais. Nela estão em jogo a função social da profissão, o compromisso com a coletividade e as questões éticas.
Por meio dos discursos, os grupos constroem fronteiras simbólicas que marcam as especificidades profissionais, diferenciam-se das demais profissões e demarcam a atuação profissional no contexto social. O discurso profissional expõe a
disputa dos saberes e as ideologias subjacentes que estão inscritas nessas relações de poder.
Em se tratando de um estudo sobre a construção de identidades profissionais em psicologia, notadamente no âmbito de um curso de formação de uma profissão feminina, há que se pensar não apenas nos aspectos formais das interações próprias do ambiente escolar, mas nos aspectos ideológicos que direcionam o