• Nenhum resultado encontrado

Impacto do tráfico de droga em Moçambique

2. AS NOVAS AMEAÇAS À SEGURANÇA INTERNA ASSOCIADAS AO COT

2.2. Tráfico de droga em Moçambique: origem, circuito e impacto

2.2.2. Impacto do tráfico de droga em Moçambique

O tráfico de droga é um fenómeno que apresenta “múltiplos domínios”, representando uma das maiores ameaças à soberania e segurança dos Estados, devido à sua “origem bastante difusa, incerta e a forma discreta em que se mantém as chefias das redes dos narcotraficantes, com elevado poder económico e adopção de uma estrutura organizacional em rede ao longo do circuito, desde o ponto de partida até ao destino.190

É em nome de lucro fácil e ilícito que as organizações criminosas se dedicam a esta modalidade e tantas outras, criando desta forma instabilidade política, económica e social nos países, com enormes reflexos na segurança e no bem-estar social e familiar. Sousa, Ferreira e Agostinho indicam ainda que a “globalização e o actual contexto” de segurança do Estado, como sendo factores que ampliam as oportunidades para que as redes do COT encontrem espaço fértil neste, pelas razões que já foram elencadas atrás, já que o tráfico de droga tem sua origem o exterior das fronteiras estatais.191

Os contornos e esquemas que envolvem o fenómeno dificilmente se conhecem e se compreendem, por assumirem formas diferenciadas e bem concertadas de actuação das redes que se dedicam a essa modalidade, com aliados em muitos países, organização bem estruturada, financeiramente estável e com capacidade para corromper

189 Porta-Voz do Conselho de Ministros de Moçambique em 10.04.2018, disponível

em: https://observador.pt/2018/04/10/mocambique-detencoes-por-trafico-e-consumo-

de-droga-aumentaram-11/. (Acedido em 11.04.2018).

190 Francisco Xavier Ferreira de Sousa, José Augusto de Barros Ferreira e Nuno

Manuel Nunes Neves Agostinho, op. cit., pp. 16-17.

quem quer seja.192 Por isso mesmo o combate ao tráfico de droga tem-se mostrado ineficaz, apesar de políticas internacionais, regionais e nacionais193 sobre prevenção e combate a esse mal. Está provado que as economias dos países produtores são determinadas pela produção e tráfico de droga.194 Tal como foi referido anteriormente, o tráfico de droga é considerado o “negócio ilícito mais lucrativo do mundo, a seguir ao de tráfico de armas. Neste, as rendas atingem cifras de 3 000%, de tal forma que mesmo retirando-se o custo de produção, que é cerca de 0,5%, e “o custo de transporte e distribuição, incluindo o de suborno às autoridades da origem, trânsito e destino da droga, calculada em cerca de 3%, os rendimentos remanescentes continuam bastante altos. Sendo esta a razão para se entender o quão relevante é o tráfico de droga pelas redes do COT incluindo os processos de produção.195

A percepção é a de que as autoridades (policiais e judiciais) usam medidas repressivas por se mostrarem ineficazes as medidas preventivas. Alguns países, como a Tailândia, China, Indonésia e outros da Ásia, aplicam penas de morte por tráfico de droga, por acharem que penas de prisão encorajam a prática continuada do crime. Em todo o caso, há um consenso que o tráfico de droga, para além de afectar as áreas políticas, económicas, social e de segurança, é também um problema de saúde pública. Daí decorre a necessidade de se apostar na prevenção, através de dois planos que são cruciais, nomeadamente, a redução da procura e o controlo da oferta. Assim:

192 Carlos Costa e José Leal, op. cit. p. 4.

193 Em 2003, o Conselho de Ministros de Moçambique aprovou a Política e Estratégia

de Prevenção e Combate à Droga, através da Resolução nº 15/2003, de 4 de Abril, cujo objectivo assenta, essencialmente, na adopção de medidas de intervenção organizada, coordenada e articulada das diferentes instituições do Estado e todas outras, incluindo as comunidades locais e a sociedade em geral, para a necessidade de prevenção do consumo ilícito de drogas e combate ao narcotráfico.

194 Carlos Costa e José Leal, op. cit., p. 4. 195 Idem, pp. 45-46.

 Reduzindo a procura, também se reduz o interesse das pessoas pela droga, tendo em conta que é um mal que causa graves danos à economia e à Segurança Nacional de cada um dos países vítimas deste fenómeno, incluindo os produtores;

 Controlando a oferta, permite reduzir-se a disponibilidade da droga, através da criação de mecanismos que impedem que as redes de narcotráfico circulem livremente e tenham acesso aos locais previamente estabelecidos como de trânsito e de destino.

Tanto a redução da procura como o controlo da oferta, é exercício que exige cooperação e coordenação entre países, a fim de juntos puderem estancar este mal que afecta a todos, portanto, um problema global. As medidas de prevenção e combate mostrar-se-ão infrutíferas, caso não se privilegie o aspecto cooperação, coordenação e até partilha de informações entre as autoridades policiais ou entre os órgãos de justiça, porque é um problema que traz enormes consequências, na medida em que:

 Mina a base de uma economia legítima dos Estados;  Ameaça a estabilidade dos Estados;

 Ameaça a segurança internacional, regional e nacional;  Ameaça a soberania dos Estados.

Fez-se alusão que o combate ao problema de tráfico de droga, à semelhança do de tráfico de pessoas, da imigração ilegal, entre outras modalidades do COT, deve envolver um conjunto de países da região, do continente e do mundo. Ao nível da região da SADC, as autoridades demonstraram uma limitada capacidade para responder aos desafios relacionados com o problema, devido ao novo contexto, caracterizado por maior complexidade social e económica e maior liberdade de movimentos, tanto no âmbito doméstico como transfronteiriço. A

supressão de visto resultante de acordos bilaterais entre Moçambique e certos países da região, com enfoque para os países limítrofes, é um ganho, na medida em que permite a livre circulação de pessoas, bens, ideias e serviços. Mas, a medida é também vista como facilitadora dos problemas que afectam a segurança, como é o caso da circulação das redes criminosas que procuram os países com fragilidades no seu sistema de segurança.196

Dados fornecidos pelo Comando-Geral da PRM, dão indicação de registo de 1.629 casos relacionados com o tráfico de droga ocorridos entre 2011 e 2015. Desses, 1.022 (cerca de 62,7%) foram acusados pelo Ministério Público e parte considerável já condenados e a cumprir penas em vários estabelecimentos penitenciários do país.197

Em 1997 foi aprovada a lei que, para além de criminalizar198 veementemente o tráfico de droga, cria o Gabinete Central de Prevenção e Combate à Droga (GCPCD).199 Assim, são competências deste organismo, criado pelo Estado:200

 Garantir a coordenação das actividades que tenham por objectivo a prevenção do consumo e tráfico ilícito, bem como a luta contra a droga;

196 João Paulo Borges Coelho, “SADC-Cooperação e Segurança Pública. Desafios

para Moçambique”, Maputo, Instituto de Estudos Sociais e Económicos, 2011, p. 358.

197 Dados fornecidos pelo Comando-Geral da PRM em 2015.

198 O artigo 33 da Lei nº 3/97, de 13 de Março, refere que todo aquele que, sem estar

autorizado, cultivar, produzir, fabricar, extrair, preparar, oferecer, puser à venda, distribuir, comprar, ceder ou por qualquer título receber, proporcionar a outras pessoas, transportar, importar, exportar, fizer transitar ou ilicitamente detiver droga, será punido com a pena de 16 a 20 anos de prisão maior. A mesma pena será agravada nos seus limites mínimos e máximos a todo aquele que tenha autorização para importar licitamente estupefacientes para fins médicos, médico-veterinários, estudos científicos ou outras actividades reconhecidas legalmente, nos casos em que age de modo contrário aos termos da autorização concedida.

199 Lei nº 3/97, de 13 de Março, que criminaliza todas as actividades ilícitas

relacionadas com a droga constantes do artigo 33 acima indicado e cria o GCPCD na dependência directa do Conselho de Ministros e de âmbito nacional.

200 Competências do GCPCD previstas no artigo 29 da lei que criminaliza todas as

 Participar na definição de acções do Ministério da Saúde, Ministério que coordena a acção social, a Polícia, as Alfândegas e restantes serviços administrativos pelo controlo e fiscalização de actividades relacionadas com droga;

 Promover e incentivar a realização de acções de profilaxia, no âmbito do uso ilícito de droga;

 Apoiar a investigação sempre que se trate de situações particularmente graves ou complexas;

 Tomar providências necessárias sobre o prosseguimento das investigações no estrangeiro e acordar as formas de actuação, em coordenação com as autoridades competentes dos respectivos Estados;

 Contribuir para a formação de pessoal especializado na luta contra o consumo e tráfico ilícito de droga;

 Cooperar com instituições estrangeiras congéneres;

 Propor ao Conselho de Ministros a regulamentação das importações e exportações de estupefacientes;

 Executar as demais atribuições previstas por lei.

No que tange à criminalização, diferentemente do que ocorre nalguns países europeus, como é o caso de Portugal, em Moçambique o consumo de droga é crime, apesar de certas pessoas da sociedade civil, bem como alguns parlamentares terem tentado, sem sucesso, forçar o poder político a autorizar a descriminalização do consumo da cannabis

sativa. A tabela 8 abaixo dá indicação das penas, conforme as situações

Tabela 8: Denominação, penas e caracterização dos fenómenos relacionados com o

tráfico de droga em Moçambique

Denominação/ Atrigo Pena Caracterização Tráfico de droga (artigo 33) 16 a 20 anos de prisão

1.Todo aquele que sem estiver autorizado, cultivar, produzir, fabricar, extrair, preparar, oferecer, puser à venda, vender, distribuir, comprar ceder ou por qualquer título receber, proporcionar a outra, transportar, importar, exportar, fizer transitar ou ilicitamente detiver droga.

2. Todo aquele que agindo de modo contrário aos termos de autorização concedida, ceder, introduzir ou diligenciar para que seja colocado no comércio drogas. 3. Todo aquele que cultivar plantas, produzir ou fabricar substâncias ou preparados diversos dos que constam do título de autorização. Tráfico e consumo em lugares públicos ou de reunião (artigo 38) 12 a 16 anos de prisão

1. Aquele que sendo proprietário, gerente director ou, por qualquer título, explorar hotel, restaurante, cervejaria, café, pastelaria, casa de pasto, discoteca, boîte, clube, casa ou recinto de reunião, de espectáculo ou de diversão ou similares, consentir que esse lugar seja utilizado para o tráfico ou uso ilícito de droga.

Associações Criminosas (artigo 42) 24 a 30 anos de prisão

1. Aquele promover, criar ou financiar grupo, organização ou associação de duas ou mais pessoas que, actuando de forma concertada, tenha por objectivo o tráfico de droga.

2. Aquele que chefiar ou dirigir grupo, organização ou associação de duas ou mais pessoas que, actuando de forma concertada, tenha por objectivo o tráfico de droga.

20 a 24 anos de

prisão

3. Aquele que colaborar, de forma directa ou indirecta, aderir ou apoiar grupo, organização de duas ou mais pessoas que, actuando de forma concertada, tenha por objectivo o tráfico de droga.

Fonte: Lei nº 3/97, de 13 de Março, sobre droga em Moçambique.

Apesar das penas pesadas apresentadas na tabela acima, resultantes da lei que criminaliza o tráfico de droga, persiste a ideia de assumir o risco, havendo inclusive riscos da própria vida dos indivíduos que transportam determinadas quantidades de cocaína no estômago, geralmente os que se deslocam via aérea. De igual modo os gestores de camiões, autocarros e embarcações que arriscam-se a transportar droga, mesmo sabendo que consequências isso poderá acarretar. Não se descarta a hipótese de existirem grandes quantidades de droga que entram no país por via terrestre e marítima, mas também, em quantidades reduzidas de droga que entram por via aérea, sendo esse pequeno tráfico que tem por finalidade abastecer os mercados locais.201

2.3. Imigração ilegal em Moçambique: teorias da migração,