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Implicações para o desfecho da obra (XXXX)

2.3 O S FINAIS NÃO CONVENCIONAIS DE UM CRIADOR DO MEDO

2.3.2 Por que as pessoas gostam do terror?

2.3.2.2 O Cemitério

2.3.2.2.4 Implicações para o desfecho da obra (XXXX)

Por que essa, dentre uma coletânea de mais de sessenta romances de horror, é considerada a obra mais assustadora segundo King, e como o mesmo conseguiu alcançar esse status tão negativo para a obra, serão apenas algumas perguntas a serem estudadas a seguir. Veremos como o pacato médico Louis Creed se transformou em um ser completamente insano e assim conseguiu transformar uma família relativamente feliz em um conglomerado de monstros, sendo que o mais assustador dentre eles não sejam os mortos-vivos e sim o criador deles.

Enquanto lê O Cemitério, o leitor pode sentir que a obra ruma para um caminho cada vez mais sombrio, a cada página pode-se constatar que aquilo não acabará bem, que caso Louis não seja sensato em seu mais poderoso momento de desespero, a história só terá um caminho a seguir: a destruição de todos. Logo, conforme a cronologia da obra, vejamos os momentos principais a que farão referência para o nada convencional final, e analisemos cada momento para ser possível traçar um cronograma do por que dessa obra alcançar seu clímax tão obscuro.

O romance não teria o terrível desfecho se, primeiramente, Jud não tivesse apresentado o ―Cemitério de Bichos‖ para a família Creed. Pode-se dizer que a influência da visita ao local teve grande importância para o desfecho de Louis, e a atmosfera envolvida nesse breve passeio já dá pistas importantes do que está por vir, e o leitor observador já consegue perceber isso. A ideia de um cemitério para animais, em si, já é um pouco perturbadora, e todos os bons momentos da criança com o animal e seus sentimentos são colocados em prova. Pode-se dizer que esse tipo de encontro com a morte pode vir a mexer no subconsciente da criança e assim causar um tipo de trauma. Se não fosse apenas o local e a atmosfera do lugar, há ainda o ataque de pânico de Ellie, e a desaprovação agressiva de Rachel quanto ao assunto depois que chegam em casa. Esse primeiro momento da família Creed pode ser visto como um ensaio do que viria a seguir. Louis promete à filha que Church não morreria, não agora, e essa ação será muito importante para as atitudes futuras de Louis.

Seguindo, temos a cena da morte de Victor Pascow, nada incomum para um profissional preparado para isso. Louis deveria estar acostumado com a ideia da morte, mas parece que naquele momento o médico se sentiu desarmado, nada que seus anos da faculdade ensinaram poderiam salvar aquele menino, ou explicar o que aconteceu. O garoto diz:

— O solo do coração de um homem é mais empedernido, Louis — murmurou o moribundo. — Um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.

Louis, ele pensou, nada ouvindo de forma consciente depois do próprio nome. Oh, meu Deus, ele me chamou pelo nome. (KING,2006 p. 57)

Essa mensagem do garoto já é uma referência ao que irá acontecer. Esta é a primeira vez que Victor tenta ajudar Louis, fazendo menção com que o médico não ultrapasse os limites, que cuide do que tem e não tente obter algo acima do que um humano deve possuir, que um homem deve conceber apenas aquilo com que tem forças para cuidar, que não tente obter nada além de suas possibilidades, pois o que vem com aquilo que não se pode suportar é peso demais para, assim como diz Victor, o solo do coração de um homem.

Após esse incidente, Louis se vê um pouco abalado, sua mente pergunta como Victor sabia seu nome, e o que ele quis dizer com aquela frase. O médico chega cansado em casa e resolve deitar. Enquanto dorme, sonha com o garoto. Victor Pascow está encostado na porta de seu quarto. Ele quer levar Louis a um lugar, o médico levanta, achando ser um sonho, e vai até o ―Cemitério de Bichos‖ com ele. Lá Victor diz: ―A porta não deve ser aberta‖. Diz ainda que Louis está próximo de perder tudo o que ama, e que não deve atravessar aquele ponto. O médico acorda atordoado com o grito de Gage e quando se levanta vê que seu corpo está cheio de lama. O sonho não tinha sido tão irreal assim.

Essa cena é de grande importância para o futuro desastroso dos Creed. Victor, mesmo aparecendo como um espectro, algo como o pai de Hamlet, age como um protetor. Ele quer que Louis seja forte, prenuncia um desastre e diz que o protagonista não deve atravessar aquele ponto, que além dali o peso do que se planta é maior do que se pode carregar. Mas aqui Victor está colocando em cheque um dos princípios básicos da humanidade, a curiosidade, e essa curiosidade causará o terror final da obra.

— A porta não deve ser aberta — disse ele. Tinha os olhos voltados para

baixo porque Louis caíra de joelhos. A princípio, Louis tomou a expressão de seu rosto por compaixão. Mas não era absolutamente compaixão, apenas uma espécie medonha de paciência. Ele apontou a pilha de ossos que se moviam. — Não ultrapasse este limite, doutor, por mais que tenha vontade de fazê-lo. A barreira não foi feita para ser violada. Não esqueça: há mais

poder aqui do que o senhor imagina. Isto é um lugar velho e está sempre inquieto. Não esqueça! ( KING, 2006, p. 65)

A obra segue com a morte de Church. Eis aqui o fato que fundamentará as ações de Louis após a morte de Gage e concederá ao livro seu desfecho. No dia de Ação de Graças, Rachel recebe um convite de sua família para passar o feriado na casa de seus pais. Como Louis não tem uma convivência amigável com a família de sua esposa ele decide, mesmo com o protesto da mulher, ficar em casa enquanto ela e os filhos vão passar a data festiva com os pais de Rachel. Antes da viagem, Ellie deixa bem claro para Louis como cuidar de Church. Louis aceita as ―exigências‖ de Ellie e deseja boa viagem.

Interessante lembrarmos que, antes da cena em questão, Louis salvara a vida da esposa de Jud quando, durante uma festa na casa dos Crandall, a esposa de Jud sofrera um ataque cardíaco. Graças ao rápido atendimento de Louis ela foi salva, e Jud se sente em dívida com o amigo.

Pode-se dizer que nesse momento da trama acontecerá a maior influência de Louis para seu remate final, quando Jud diz que Church está estirado na grama em frente a sua casa, e seria interessante que Louis viesse constatar a situação do gato. Ao chegar, Louis percebe que o animal estava morto, havia sido atropelado por um dos caminhões que passavam na estrada em frente a sua casa, situação complicada para Louis. Como ele explicaria para Ellie que seu gato havia morrido? A menina havia tido um ataque de pânico com a idéia da morte alguns dias atrás e Jud sabia do ocorrido. Além disso, Louis havia prometido que nada aconteceria ao gato, que ele viveria até ela ficar velhinha, mas agora ela teria de entender. Isso se Jud não interrompesse o curso normal das coisas e usasse seu conhecimento do cemitério para reviver o animal.

Jud leva Louis para enterrar Church no ―Cemitério de Bichos‖ e Louis, mesmo achando um pouco estranho, acata a decisão. O caminho para o local até onde eles foram pela primeira vez parecia diferente, estava mais tortuoso, mais difícil passar pelos lugares, e ao chegarem no Cemitério de Bichos Jud surpreende Louis dizendo que eles iriam um pouco mais acima dessa vez. Victor Pascow vem na mente de Louis, Victor e seu conselho para não atravessarem aquele local, mas Louis ignora tais pensamentos e segue adiante. O caminho é extremamente difícil e Louis tem dificuldade para subir a íngreme encosta. Além da dificuldade, Jud e Louis começam a ouvir um barulho diferente, como um ruído alto no meio da mata, mas nada pode deter os dois. A cena parecia uma via sacra para Louis, enquanto Jud

Ao alcançarem o topo da encosta, Louis se depara com um grande clarão no topo do lugar, onde há um tipo de símbolo feito com pedras ao redor, e ali Jud pede que Louis enterre o gato. Mas Louis deveria fazer aquilo sozinho. Jud não fala nada durante a ação de cavar de Louis. O solo é pedregoso e difícil de abrir buracos. Após uma cansativa luta com a terra, Louis consegue enterrar o gato e eles retornam para casa.

Achava que, ao menos superficialmente, pensara no sonho com Victor Pascow, o sonho terrível que acompanhara seu episódio de sonambulismo. Mas não viu qualquer ligação entre aquela caminhada noturna e Pascow. Achava que toda a aventura do enterro de Church fora perigosa, não num sentido melodramático, tipo Wilkie Collins, mas de um modo muito real. (KING, 2006, p. 101)

Nada parecia completamente correto nas atitudes de Jud do dia anterior. Louis parecia um pouco aturdido com a situação e vai deitar, pois a caminhada havia sido realmente cansativa. Ao acordar e descer as escadas até a cozinha Louis toma um grande susto: Church está lá, fitando os olhos de Louis, parado no meio do cômodo. Milhões de perguntas permeiam a mente do médico e diversos pensamentos vem a sua mente, como, por exemplo, de que o gato não estava realmente morto, afinal ele não era veterinário, ou qualquer outra coisa que pudesse responder o porquê de Church estar ali. O gato renascera, assim como nos filmes de Romero com os humanos zumbis, Church estava ali. Após um breve período de adaptação, Louis vai à casa de Jud para receber respostas, e Jud conta sua história e de seu velho cachorro, que o cemitério pode trazer o animal de volta à vida. Quando a fatídica pergunta de Louis quanto a alguém ter feito isso a algum humano foi feita, Jud fica perturbado, derruba um copo e nega veementemente. No fim, aquilo poderia ser bom, afinal Ellie não sofreria com a idéia de morte e tudo poderia ficar bem.

Esse momento pode ser encarado como o marco inicial da perdição de Louis. É claro que Jud não imaginava que o garoto iria morrer tão cedo, pois como qualquer pessoa Jud tinha a idéia de que um filho deve morrer sempre depois de seus pais, e que a morte de um filho, ainda mais quando criança, é o maior dos castigos que um casal pode receber. Jud, não intencionalmente, com a atitude de ressuscitar o gato gera o final funesto para o romance, e nos guia para a mente obcecada de Louis.

Podemos ainda dizer que apenas o encontro de Louis com o sobrenatural já o tenha influenciado psicologicamente de maneira muito forte. Louis é um médico; logo, um tipo de cientista. São raros os casos de médicos que acreditam em algo sobrenatural, visto que eles estudam a natureza das coisas e com isso têm uma concepção de que o que nasce aqui morre

aqui e não há nada alem disso, que não existem anjos, demônios ou ―entidades‖, que tudo se resume ao real. Com isso, e a atitude que desmente todos os preceitos que estudou tantos anos para adquirir, a psique de Louis começa a se abalar, e o levará, devido à trágica situação que virá a seguir, a seu derradeiro final.

Veremos em seguida que Louis não iria ficar muito feliz com a ressurreição do gato, pois Ellie reclama constantemente do mal cheiro que Church possui agora e parece que o animal está agindo diferente, não mais o carinhoso gato, mas um animal selvagem. Ellie chega ao ponto de pedir ao pai que tire Church de sua cama, local onde o gato dormia, e dúvidas pairam pela mente de Louis. Parece que aquilo não era certo, Louis analisa que aqueles que voltam não são como antes. Assim como Jud havia falado, eles retornam como se tivessem outra personalidade, como se fossem outros seres vindos de um lugar que Louis imaginava não existir.

O momento que caracteriza toda a histeria da mente de Louis acontece quando, durante um piquenique, Gage começa a correr em direção à auto-estrada. Louis pressente o perigo e pede que o garoto volte, mas Gage ignora, imaginando estar num tipo de brincadeira, e continua correndo. Ao longe Louis escuta o barulho de um caminhão se aproximando e corre em direção ao filho, gritando e mandando que o garoto volte, mas Gage continua, e parte para seu destino final. Louis corre o máximo que consegue mas apenas toca o casaco do filho perante a morte eminente. Gage é fatalmente atropelado por um caminhão da Orinco e a família entra em colapso.

Durante o enterro do filho, como se não bastasse à situação em que se encontravam, Louis é acusado pelo sogro da morte do filho. Os dois chegam a ter uma briga durante o enterro onde o pequeno caixão de Gage cai revelando um de seus bracinhos. Rachel está paralisada, em casa, sem ter o que falar. Jud ajuda em todos os preparativos, e durante todo o enterro, os amigos de Louis pedem para ele ser forte, pois Rachel precisava dele naquele momento. Mas como ser forte em um momento como esse é a pergunta que paira no ar, a mente confusa de Louis começa a ter a terrível idéia de fazer com Gage o que fizera com Church.

A idéia exercia uma atração fatal. Havia um equilíbrio lógico que era impossível negar. Church fora morto na estrada; Gage fora morto na estrada. Lá estava Church (diferente, é claro, até mesmo desagradável sob certos aspectos), mas lá estava ele. Ellie, Gage, Rachel, todos mantinham um relacionamento bastante razoável com o gato. Ele matava pássaros, certo, e virava alguns camundongos pelo avesso, mas matar pequenos animais era

Frankenstein. Sob muitos pontos de vista, era tão bom quanto antes. (KING, 2006, p. 180)

Após o enterro, Louis pede que Rachel passe uns dias com seus pais fora da cidade, que aquilo seria interessante para acalmar e começar a entender o que havia ocorrido. Rachel está muito abalada e aceita o pedido do marido, mas Louis diz que irá em seguida, arrumará uma coisas e irá depois. Tudo isso como plano para desenterrar seu filho e trazê-lo de volta.

A obra caminha para um único final, a perdição da família Creed, sobretudo pelas atitudes de Louis perante a morte de seu filho e todas as contradições que as ações colocam perante suas crenças, Louis se vê como uma criança descobrindo as utilidades de um novo brinquedo. Sua aventura começará agora e acabará apenas com a vinda de um monstro e a inevitável destruição do que Louis ama.

Assim como o livro estudado anteriormente, O Cemitério traz ao leitor um sentimento profundo de pessimismo, mais uma vez a idéia do sobrenatural agindo como artefato para os atos de um homem sem qualquer resquício de sanidade. Tudo se molda para levar o leitor ao horrendo final, onde tanto os leitores como o próprio Stephen King se contorcem ao lerem algumas partes desse terrível entrelace. Mais uma vez aquele que devia ser visto como o protetor se torna o carrasco e faz as situações que já eram ruins se tornarem insuportáveis.