2.2 A S DUAS FACES DO HORROR EM PESSOA
2.2.3 Terror e suspense em Stephen King
2.2.3.1.4 O terror em sua maior escala
Diz-se que o medo maior de qualquer ser humano é a morte. Há pessoas que dizem não suportar a idéia da morte sem lhe dar calafrios, que essa palavra não deve sequer ser usada, entre outras afirmações. Mesmo não sabendo o que há depois da morte, se é que há, temos um medo irracional do que iremos encontrar do outro lado. Agora, o que seria pior de que apenas sua morte? e se simplesmente todas as pessoas da terra, ao menos 99,4%, simplesmentem fosse mortas por um poderosíssimo vírus, e aqueles que sobrassem tivessem
Randal Flagg? É disso que, primeiramente, A Dança da Morte trará, mas será visto que isso é apenas um pico no primeiro épico de King.
A Dança da Morte, assim como I’m Legend de Richard Matheson (1954), tratará de
um mundo pós-apocalíptico, em que o principal objetivo daqueles que sobreviveram é, além de enfrentar todo o caos, permanecerem sãos com a solidão com a qual convivem. Entretanto, diferentemente do romance de ficção científica de Matheson, King tratará de outros temas, pois, em suas 823 páginas encadernadas na versão original em inglês, o autor poderá explorar variados temas de um livro que, para King, parecia nunca ter fim.
Logo, o que temos com A Dança da Morte é o horror supremo, aquilo que faria todos nós repensarmos as atitudes que fazemos a todo o momento, e perceber se isso realmente vale a pena em nossa sociedade; afinal, no mundo da Dança da Morte de King, a sociedade em comunidade será de indissolúvel necessidade, e apenas assim os heróis poderão acabar com as trevas de Randal Flagg e vencer a guerra da luz contra as trevas. Por motivos de referência, creio que o próprio King pode dizer, em uma de suas entrevistas que formaram o livro Dissecando Stephen King sobre de onde veio sua ideia para criar o horror de A Dança
da Morte:
Penso que o verdadeiro ímpeto para escrever A Dança da Morte surgiu com o vazamento químico-biológico ocorrido em Utah. Aquela substância — parecida com o Agente Laranja, só que é mais mortal ainda — vazou e matou um rebanho de carneiros porque o vento soprava de Salt Lake City para o descampado. Num outro dia qualquer, se o vento estivesse soprando de outra direção, poderia ter envenenado Salt Lake City e tudo teria sido muito diferente.(MILLER, 1990. p. 21)
2.2.3.2 – 10 anos de muito trabalho
A década de 80 foi aquela com o maior número de obras publicadas de King. A década foi tão produtiva e tão diversificada, que o número final chega a quase dois romances por ano, número exorbitante para os padrões de qualquer escritor. Nesse período produtivo, King produziu dezesseis romances, entre estes cinco como Richard Bachman, duas coletâneas
de contos e um livro de não ficção chamado Dança Macabra15. Tendo-se isso em mente,
exemplificar o horror em King dessa década terá uma abrangência muito extensa, por isso
15 Em Dança Macabra King fará um aparato de tudo o que ele conhece por horror, passando pelos livros, quadrinhos e alcançando os filmes; entretanto, terá, primariamente, enfoque principal em três décadas especificas, de 60 a 80. Mas o interessante do livro é descobrir as aspirações do escritor, e como ele as atribui com o passar do tempo.
seremos limitados a falar apenas daqueles assuntos que nenhum de seus livros anteriores trataram, mostrando assim como King trata o horror desse período.
2.2.3.2.1 – O melhor amigo do homem
Para os homens, o cão é considerado o melhor amigo do homem, contudo, advindo da mente de um escritor de horror, o que se deve esperar não é um cãozinho que irá nos esperar na porta após o trabalho, e sim um cão com instinto assassino, capaz de pensar como um humano e agir como um animal.
É possível dizer que essa breve divagação seja o exemplo perfeito do livro Cujo
(1981). Aqui o horror será mostrado sob a forma daquilo que mais confiamos, e que acaba por
nos trair de uma forma extremamente pessimista. Mesmo King diz que a idéia de matar o garoto não estava planejada, ela simplesmente aconteceu. Em uma das entrevista de dissecando Stephen King, após o entrevistador, durante uma das perguntas, fazer menção que King é um Deus dentro de seus livros, King dá a seguinte resposta quanto a Cujo:
Recebi muitas cartas sobre o livro Cujo. Nele (mas não no filme) o menino morre e enviaram-me várias cartas indagando: "Como deixou aquilo acontecer?" Foi parecido com as coisas que acontecem na vida real. Minha resposta foi que às vezes as crianças morrem mesmo, morrem no berço, ou são atropeladas por um carro. Que Deus nos ajude, mas chegam até morrer por causa de cães. ( MILLER, 1990 pg. 85)
Logo, o que podemos dizer do horror nessa obra, é mais uma vez o real, o medo de não poder confiar em ninguém, que aquele em quem você mais confia pode ser aquele carrasco que dará fim a algo que você ama, e em alguns casos, de uma maneira muito violenta.
2.2.3.2.2 - Você acredita em lobisomem?
O romance mostra o clássico do horror The Wolf-Leader (1904) de Alexandre Dumas, porém com a mente de Stephen King. É isso que tratará A Hora do Vampiro (2010), um ser que mata desde animais até pessoas, uma a cada mês, e que será combatido por um menino de dez anos numa cadeira de rodas, o qual servirá como herói da narrativa.
Por se tratar de um livro que foi primeiramente planejado para ser um calendário, a obra de King funciona com uma coerência incrível, seu texto flui quase imperceptivelmente durante os meses que separam os capítulos e, com isso, King conseguiu fazer um personagem tão clássico da literatura do horror ser adaptado de uma maneira que apenas ele seria capaz de
2.2.3.2.3 – O horror em pequenas escalas
Nos duas coletâneas da década em questão, Tripulação de Esqueletos (2002) e
Quatro Estações16 (1982), diversos contos podem ser usados para exemplificar o que esse
capítulo propõe. Entre eles veremos O Macaco, onde um brinquedo cria vida, tem vontade própria e seu maior desejo é matar, ou Caim Rebelado, em que temos uma história parecida com Rage (1977), em que um aluno começa a matar pessoas aleatoriamente com uma espingarda, retratando o medo doentio da influência em nosso cotidiano. Temos também A
Balsa, em que vemos uma criatura engolir, literalmente, quatro jovens que estavam se
divertindo num rio. O interessante desse conto é o pessimismo que ele traz, pois mesmo o último garoto tendo chegado à margem é devorado pela criatura, evidenciando, talvez, uma idéia de não esperança, um medo do onipotente. Ou ainda o conto que trata do medo que algumas crianças, por vezes alguns adultos, têm de pessoas idosas ou doentes, em Nona: um garoto de cerca de doze anos vive o dilema de cuidar de sua avó doente em seu leito de morte, que ele descobre também ser uma bruxa.
Interessante nessas coletâneas é vermos como King emprega o horror com muito menos palavras que um romance, e ainda assim consegue criar personagens e uma atmosfera densa que nos conduz a um universo de pitadas de horror que, muitas vezes, superam diversos romances.
2.2.3.2.4 – A Coisa
É interessante como nomeamos determinado ser como ―aquela coisa‖ quando a descrição de algo nos foge do que compreendemos como normal. Talvez um termo muito bem empregado quando tratando dos seres do Dr. Moreau em The Island of Dr. Moreau, de H. G. Wells, ou do monstro em O Médico e o Monstro, de Stevenson, do mesmo modo, a obra de King A Coisa (2006) se encaixa com perfeição nesse significado.
O que temos nesse segundo épico, e considerado pelos fãs o melhor de seus livros, é a apresentação de um monstro que causa o terror numa pequena cidade quando os protagonistas do romance são ainda crianças, e anos depois quando eles achavam já ter destruído a criatura, ela volta a aterrorizar a pequena cidade, forçando as antigas crianças a travar mais uma vez uma batalha contra esse ser que os atormenta.
A Coisa é considerada a principal obra de King por Spignesi e Michael Collings,
ambos autoridades em Stephen King, além da grande maioria dos fãs. Essa também é a obra que retrata o fim da era ―monstro‖ de King, pois a partir desse romance ele irá tratar muito
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mais do horror psicológico do que do visual. Com isso, o épico do autor retrata o medo instintivo do ser inominável, aquela coisa bizarra que parece uma aranha gigante em conjunto com a imagem de um palhaço para atrair suas vítimas:
Em seu colossal épico, King brinca com múltiplos personagens, cronologias paralelas e sobrepostas, um diabólico desfile de monstros. Além de diversos temas socioculturais complexos. Estes incluem a infância e o envelhecimento, o abuso infantil, o abuso conjugal, a homofobia, a inveja, a natureza da existência, a eterna natureza do bem e do mal, o poder da fé, a verdade e o amor. (SPIGNESI, 2003 PG.22)
Como se vê, mais uma vez King abraça assuntos do cotidiano para dar uma visão mais abrangente à obra. Passando por variados temas e situações, o autor explora a psique de cada personagem para nos levar ao horror que cada um vivencia, proporcionando assim uma experiência muito mais focada do caminho que o escritor nos conduz.
2.2.3.2.5 – Bipolaridade
A Metade Negra17 (1989) trata da história de um escritor, Thad Beaumont, que
resolve ―matar‖ seu pseudônimo, George Stark, devido a alguns problemas. Porém, o que ele descobre após uma cirurgia em que cirurgião descobre um olho dentro de sua massa cinzenta, olho esse que seria um irmão gêmeo recessivo, é que seu pseudônimo não quer morrer, e agora ele tem um corpo capaz de fazer atrocidades para ―viver‖ novamente.
O que vale dessa obra para este estudo, é o teor psicológico que King expõe na obra, ao apresentar algo que em seu primeiro estágio existe apenas na imaginação de Beaumont, entretanto seu pseudônimo era seu maior sucesso e ele se eleva a um nível além do controle. Assim, a obra causa o terror em sua escala mais psicológica, o medo de perder o controle, o medo de não poder mais controlar aquilo que você criou, e a criatura se tornar contra você, tornando-o refém de sua criação, algo como Frankenstein, de Mary Shelley.