2. HISTÓRIA DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS
2.2 Editoras universitárias estrangeiras – um registro internacional da história da editoração
2.2.4 Inglaterra – difusora de conhecimento e saber
Segundo Ventura e Guerrini (2009), o fenômeno da editoração universitária é característico do mundo anglo-saxão. Com um perfil de difundir conhecimento e saber, essa imprensa se desenvolveu na Inglaterra, primeiramente, na Universidade de Oxford, em 1478,
com a publicação interna de um texto a respeito de um comentário sobre um excerto religioso, o Credo dos Apóstolos. Em seguida, segundo Sutcliff (1978), foram publicados mais 17 livros entre os anos de 1478 e 1486.
Oficialmente, a primeira editora universitária foi estabelecida na Universidade de Cambridge, em 1521, e, graças a um decreto real emitido pelo rei Henrique VIII, em 1534, ela teve permissão para imprimir qualquer livro (SUTCLIFF, 1978).
Outros exemplos de editoras antigas na Inglaterra são a Liverpool University Press (1899), a Manchester University Press (1904) e a Edinburgh University Press (1940) (LOCKETT; SPEICHER, 2016).
Para os ingleses, esse elo universidade-editora era fundamental para fazer escoar a produção acadêmica até a população fora da instituição, em uma atitude de tornar as obras acessíveis a um público maior que o da instituição de ensino superior. Já as editoras universitárias norte-americanas, em comparação, embora não visassem ao lucro no início, também compartilhavam da visão dos ingleses de difusão do conhecimento, aproveitando um espaço não explorado pelas editoras comerciais.
Nas palavras de Daniel Coit Gilman (apud LOCKET; SPEICHER, 2016, p. 320), “É um dos deveres mais nobres de uma universidade avançar o conhecimento e difundi-lo não apenas entre aqueles que podem assistir às palestras diárias, mas sim em toda a parte.”
Contudo, os americanos primavam mais pela qualidade do produto, destacando-se não somente por seu conteúdo, mas também pelo design gráfico, os chamados handcover books, algo bem semelhante, nesse quesito, às editoras universitárias francesas.
Mesmo assim, tratando-se de política editorial, a maioria das editoras norte-americanas adota um regime que é desvinculado daqueles da universidade. “Não há compromisso, nesse caso, entre a política da editora e o planejamento da universidade” (BUFREM, 2015, p. 228).
Voltando à história inglesa, atualmente Oxford e Cambridge continuam em atividade e são, segundo Braut (2011), muito mais do que editoras, são empresas consolidadas no mercado editorial, produzindo materiais valiosos e de grande prestígio, os quais colaboram para a difusão científica e cultural de suas pesquisas.
Conforme o autor (2011, p. 15), tanto Cambridge como Oxford procuraram imediatamente se expandir para além do território britânico, aproveitando-se da extensa rede comercial da coroa inglesa para distribuir suas publicações em todo o mundo.
A Oxford fundou um escritório em Nova York, em 1896, para aproveitar ao máximo o mercado potencial dos EUA, enquanto Cambridge criou uma parceria com a Macmillan, editora voltada para assuntos educacionais. Nos dois casos, essas iniciativas deram origem a empresas
independentes e levaram essas editoras a terem escritórios em território norte-americano (BRAUT, 2011, p. 15).
Mesmo com crises financeiras que começaram a aparecer no final da década de 1970, Cambridge e Oxford mantiveram suas lideranças diversificando suas atividades para além do universo acadêmico, com temáticas como comércio, ensino da língua inglesa, publicações educacionais e os livros clássicos da cultura britânica. Editoras universitárias menores, dedicadas exclusivamente ao mundo acadêmico, não resistiram e fecharam as portas. Isso pode ser observado com frequência a partir da década de 1990 (LOCKETT; SPEICHER, 2016).
Na Inglaterra, segundo Brown (2017, p. 369), o modelo adotado nas mais tradicionais editoras universitárias – Oxford e Cambridge – é semelhante ao brasileiro, em que há um conselho editorial formado por professores da instituição que escolhem quais livros serão publicados, depois de “rigoroso processo de parecer crítico desinteressado e anônimo, destinado a garantir que todos os livros são da mais alta qualidade acadêmica”.
No entanto, conforme esse mesmo autor, ocorre no Reino Unido, a cada cinco anos, uma pesquisa, auditada pelo governo, chamada Research Excellence Framework (REF)14, em que a verba pública designada às universidades é definida pelo total de publicações bem conceituadas produzidas por essas instituições durante o período em questão. Altamente polêmico por transformar a produção acadêmica em negócio e questionar o valor da importância dos materiais impressos, esse programa, por outro lado, não deixa de ser significativo para manter ativas as atividades nas imprensas universitárias.
Segundo Braut (2011, p. 16), as editoras universitárias, tanto inglesas como norte- americanas, podem contar com uma tradição histórica e, portanto, com a confiança (e o financiamento) não apenas do governo, mas também de empresas privadas e benfeitores.
As universidades a que pertencem e as quais representam estão entre as melhores do mundo e possuem o mais alto prestígio acadêmico, científico e social, reputação essa que é refletida na editora universitária e envolve autores publicando obras de alta qualidade e atingindo grande número de leitores.
A partir de 2015, observa-se na Inglaterra o retorno de algumas editoras universitárias à atividade. Esse movimento tem por base as novas tecnologias digitais que permitem a publicação de materiais via Open Access15, além de prestação de serviços como hospedagem
14 A primeira pesquisa foi feita em 2014; a próxima será em 2021 (REF, 2018).
15 É uma forma de publicar trabalhos acadêmicos, artigos de revistas científicos e relatórios técnicos e disponibilizá-los on-line para qualquer pessoa, sem custos. A ideia é que esses materiais possam ser lidos e inspirem outros pesquisadores a desenvolver pesquisas a partir de tais conteúdos.
de periódicos, serviços de publicação completos para monografias e periódicos e comissão de serviços editorias, marketing e vendas impressas (LOCKETT; SPEICHER, 2016).
Assim, na Inglaterra, verifica-se a força do conhecimento lá produzido, de forma que as editoras universitárias publicam obras relevantes, inteligentemente levadas a vários locais do mundo, assegurando o prestígio de suas instituições. Novas tecnologias têm permitido o ressurgimento de editoras universitárias que, embora com temas e público bem específicos, mostram sua importância na difusão do conhecimento.