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COMPARAÇÃO COM A LITERATURA EXISTENTE

2.5 INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DE COLHEITA DE DADOS

Tendo consciência de que nos estudos qualitativos, a informação a ser analisada deve ser recolhida de forma narrativa, uma vez que as descrições feitas pelos participantes são as melhores formas de ter acesso ao seu mundo, importava que os participantes relatassem a situação de forma consistente e pormenorizada desde o princípio até ao fim (77) (78) (79).

Teve-se em conta o que afirmam J. Corbin e A. Strauss baseados na sua experiência, que lhes tem permitido verificar serem as entrevistas não estruturadas,

ou seja, as que não têm um conjunto de questões pré estruturadas as que possibilitam maior densidade de dados. Procurou-se, também, ter um espírito aberto no sentido de deixar que a informação fosse fluindo livremente e começou-se com uma questão aberta, seguindo o exemplo sugerido por aqueles autores de se fazer uma pergunta inicial no género “Pode contar-me a sua experiência? Gostava de o ouvir nas suas próprias palavras. Depois de terminar, eu posso colocar questões sobre alguma coisa que não esteja muito clara para mim. Mas agora fale livremente.”. Os autores acrescentam que o facto de se utilizarem entrevistas não estruturadas não significa que o investigador não possa ter influência no curso da entrevista (84 pp. 27-28).

Assim, uma vez que se pretendia compreender de forma aprofundada um fenómeno, optou-se por iniciar o estudo com entrevistas abertas, começando por formular a seguinte questão: Pode descrever-me pormenorizadamente uma situação que tenha vivido em ensino clínico e que tenha considerado problemática?28 Além disso, teve-se sempre como lema as orientações de J. Corbin e A. Strauss e no final de cada entrevista foi-se questionando sobre algum aspecto que necessitasse ser clarificado. É de salientar que, à medida que se foi avançando na análise e interpretação dos dados, acrescentou-se questões consideradas pertinentes em novas colheitas de dados.

Para as entrevistas houve sempre o cuidado de seleccionar o espaço, de modo a que o ambiente fosse tranquilo, neutro e o mais livre possível de interferências (78).

Utilizou-se também relatos escritos feitos pelos estudantes durante os ensinos clínicos, os quais lhes foram solicitados pelos orientadores pedagógicos quando se apercebiam da presença de um problema ético29. Sempre que necessário colher informação adicional, após analisar e interpretar a informação contida nos mesmos, fez-se entrevistas aos estudantes no sentido de compreender, clarificar e completar alguns aspectos.

Numa fase posterior, após a colheita, análise e interpretação das entrevistas e relatos dos estudantes, já se detinha o conhecimento de algumas categorias e resultados; porém, a partir dos mesmos foram emergindo novos conceitos, algumas hipóteses que precisavam de ser confirmadas edúvidas que deviam ser esclarecidas.

28

Optou-se por pedir aos estudantes para descreverem uma “situação problemática” e não se utilizou o termo “problema ético” para evitar influenciar as respostas deles.

29

Solicitou-se previamente aos professores que orientam os estudantes em ensino clínico e promoveu-se um encontro com eles para que houvesse da parte deles rigor e uniformidade de critérios em relação ao que é considerado um problema ético.

Por exemplo, percebeu-se que os estudantes começam a conseguir identificar problemas éticos geralmente no final do 1º ano, após já deterem alguns conhecimentos e terem realizado um ensino clínico. Era necessário aprofundar melhor esta categoria, no sentido de se perceber se de facto os estudantes conseguem sempre reconhecer os problemas éticos com que se deparam, até porque a identificação dos mesmos constitui um ponto de partida para a reflexão e acção. Além disso, como os estudantes tinham referido não agirem muitas das vezes por falta de poder ou por insegurança, era fundamental compreender se eram apenas estas as razões que os levavam a não agir ou se era também por não terem suficientemente desenvolvida a capacidade de reconhecer no momento um problema ético.

Passou-se, então, a fazer observação não participante, que teve como objectivos:

 Clarificar se os estudantes conseguem identificar problemas éticos presentes e não apenas os que já ocorreram em ensino clínicos anteriores;

 Clarificar se os estudantes não agem apenas por falta de poder ou insegurança para tomarem uma decisão ou se é também porque não têm capacidade para identificar o problema;

 Confirmar se os estudantes do 2º ano estão demasiado concentrados no seu desempenho, não se apercebendo dos problemas éticos durante a prestação de cuidados.

Optou-se pela observação não participante, assumindo-se o papel de mera observadora e não tomando qualquer iniciativa no evoluir das situações observadas, no sentido de interferir o menos possível com o decurso habitual da aprendizagem clínica dos estudantes nos diferentes campos de ensino clínico, para a qual se elaborou um guião que servisse de orientação ao longo da sua realização (Anexo IV). A observação é, sem dúvida, uma das técnicas privilegiadas pela grounded theory, permitindo um contacto directo entre o investigador e o “objecto em estudo”. É um instrumento de colheita de dados que: (i) permite apreender os comportamentos não verbais; (ii) fornece uma melhor compreensão do contexto em que as problemáticas em estudo acontecem; (iii) permite que o investigador esteja atento a coisas que os participantes poderiam deliberadamente, ou não, omitir ou esquecer numa entrevista

e (iv) possibilita ao investigador uma maior compreensão da problemática, pois combina as suas percepções com as dos outros (78).

Considerando que a ocorrência de problemas éticos não é uma rotina, acontecendo em momentos por vezes inesperados e de forma imprevisível, escolheu- se momentos estratégicos para realizar as observações: prestação de cuidados (excepto cuidados de higiene e conforto), passagens de turno e reuniões entre estudantes e orientador/professor. Considerou-se estes momentos estratégicos porque: (i) a partir da interpretação dos relatos e entrevistas compreendeu-se que durante a prestação de cuidados de higiene os estudantes têm a preocupação de respeitar a intimidade dos doentes e pretendia-se perceber se também o faziam em relação a outros cuidados; (ii) durante as passagens de turno, havia oportunidade de se ver se os estudantes nos seus registos referiam alguma situação relacionada com um problema ético e que atitudes adoptavam perante o mesmo; (iii) durante as passagens de turno também era possível ver se os estudantes se apercebiam de algum problema ético enquanto ouviam as mesmas; (iv) nas reuniões entre os estudantes e o professor/orientador era possível ouvir-se discutirem alguma situação ou algum aspecto relacionado com um problema ético.

Durante as observações, foi-se fazendo notas de campo e, sempre que era necessário esclarecimento para a interpretação, realizou-se entrevistas informais com alguns dos estudantes. Procedeu-se de forma idêntica à descrita em relação às entrevistas e relatos, ou seja, a análise e interpretação dos dados foi sendo feita em simultâneo, observação por observação, a par de comparações constantes.

Se por um lado foi possível clarificar dúvidas e consolidar algumas categorias, a partir das observações emergiram novas questões.

Tendo, então, em conta os resultados já obtidos e as questões que emergiram, passou-se à aplicação de vinhetas a estudantes dos diferentes anos do curso, com o objectivo de refinar algumas categorias.

As vinhetas consistem na descrição breve de uma determinada situação ou evento, seguida de algumas questões colocadas aos participantes no sentido de estes referirem como reagiriam perante a mesma. Estas descrições/vinhetas permitem obter informações sobre as percepções, opiniões ou mesmo sobre o conhecimento dos participantes relativamente ao fenómeno que se pretende estudar. As vinhetas são, geralmente, descrições e narrativas escritas e as questões colocadas após as mesmas podem ser abertas ou fechadas. O pesquisador deve ter a preocupação de

planear a forma como vai ser feita a sua aplicação, nomeadamente quem vai fazer a recolha de dados e onde vai ser feita (82) (87) (88).

Construíram-se três vinhetas, tendo por base situações concretas descritas pelos estudantes nas entrevistas ou relatos anteriores (Anexo V).

Na vinheta 1, elaborou-se uma pequena história em que estão presentes dois problemas em simultâneo: um relacionado com o respeito pela intimidade e privacidade e um relacionado com a confidencialidade. Escolheu-se esta história pelo facto de ser constituída por um problema muito frequente e a que os estudantes fizeram referência durante algumas reuniões (privacidade) entre o grupo de estudantes e o professor/orientador e por um outro problema que nunca houve oportunidade de observar e ao qual os estudantes nunca fizeram referência durante as observações (confidencialidade), apesar de nas entrevistas e relatos alguns dos estudantes terem identificado este tipo de problemas.

A vinheta 2 relata um caso de défice de informação e foi escolhida por ser ainda frequente depararmo-nos com questões idênticas.

A vinheta 3 relata um caso de obtenção de autorização para actos médicos sem a informação devida. Foi escolhida por ser também um problema relativamente frequente e pretendia-se verificar se os estudantes apenas identificavama questão do consentimento ou se referiam também o direito do doente à autonomia.

Em síntese, a utilização das vinhetas permitiu:

 Confirmar se os estudantes identificam com facilidade os problemas éticos mais frequentes (como é o caso do respeito pela privacidade);

 Confirmar se os estudantes demonstram dificuldade em identificar problemas

éticos menos evidentes (como é o caso do respeito pela autonomia);

 Verificar se existem diferenças entre os estudantes dos diferentes anos na forma como identificam os problemas;

 Aprofundar a análise sobre o tipo de raciocínio feito pelos estudantes perante problemas éticos identificados;

As 3 vinhetas foram aplicadas por um colaborador30 e em simultâneo a estudantes de todos os anos.