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1. Funcionameno Emocional

1.3. Inteligência Emocional

A IE constitui um constructo psicológico recente, caracterizado como um dos aspetos da inteligência mais discutidos na atualidade (Woyciekosky & Hutz, 2009). Zeidner, Matthews e Roberts (2001) salientam que para se compreender a IE é necessário inicialmente compreender as emoções. Segundo Woyciekosky e Hutz (2009) a emoção consiste numa reação psico-biológica complexa, que envolve inteligência e motivação, além de aspetos sociais e da personalidade, que, acompanhados de mudanças fisiológicas, expressariam um

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acontecimento significante para o bem-estar subjetivo do sujeito no seu encontro com o ambiente. O vasto campo de investigação sobre a IE envolve a inter-relação entre os pensamentos, sentimentos e habilidades (Woyciekosky & Hutz, 2010). A maioria dos teóricos refere que as emoções estão na base da compreensão dos comportamentos humanos (Lazarus, 2000, Davidson, 1994; Ortony, Clore & Collins, 1988). Assim sendo, o ser humano demonstra os seus comportamentos de acordo com a obtenção de ganhos para atingir os seus objetivos; fruto das interpretações atribuicionais que confere às situações, como boas ou más (Gross & Tompson, 2007; Gimenes, 1998). Do ponto de vista psicológico, as emoções alteram a atenção, sendo determinantes em certos comportamentos, assim como também na ativação de aspetos relevantes da memória. Do ponto de vista fisiológico, as emoções organizam respostas rápidas, de diferentes sistemas biológicos, nomeadamente a expressão facial, o tónus muscular, a voz e a atividade do sistema nervoso vegetativo e endócrino, de modo a conseguir uma otimização do meio interno para uma resposta eficaz (Serra, 1999). Para Goleman, isto faz todo o sentido, pois o mesmo defende que o processo emocional é uma construção neuropsicológica que envolve diversas estruturas: cognitiva, fisiológica, expressivo-motriz, motivacional e subjetiva. A emoção é, sem dúvida, uma das mais marcantes experiências do ser humano; é um estado psicológico que diante das situações gera respostas reativas, automáticas e inconscientes. Além do cariz psíquico, as emoções possuem um cariz cognitivo que, em grande medida, determina o comportamento humano. Para Damásio (2004) uma emoção reúne uma coleção de respostas químicas e neurais que formam padrões distintos. Os investigadores descobriram, neste sentido, que cada emoção prepara o corpo para dar respostas distintas (Goleman, 1995). Assim, as emoções são quantificáveis (enquanto respostas químicas e neurais), e observáveis na pessoa “emocionada”, por uma terceira pessoa. Já os sentimentos são resultados da perceção dessas reações pela própria pessoa: ela sente a emoção. São, portanto, experiências subjetivas somente acessíveis à própria pessoa.

O conceito de IE surge entre os anos de 1994 e 1997, recebendo popularidade com a publicação do livro “Emotional Intelligence” de Daniel Goleman. O autor ampliou a definição deste constructo, passando a incluir aspetos da personalidade. Assim, definiu IE como “a

capacidade de a pessoa se motivar a si mesma e persistir a despeito das frustrações; de controlar os impulsos e adiar a recompensa; de regular o seu próprio estado de espírito e impedir que o desânimo subjugue a faculdade de pensar; de sentir empatia e sentir esperança” (Goleman, 1995). Por outro lado, Bar-On (2006), um outro importante teórico

deste tema, caracterizou a IE, em conjunto com a inteligência social, como “uma inter-

relação de competências, capacidades e facilitadores emocionais e sociais que determinam efetivamente a forma como o indivíduo se compreende e expressa a si próprio, compreende os outros e se relaciona com eles, bem como lida com as exigências diárias”. Ângelo (2007),

mais recentemente, definiu o conceito de IE (competência emocional) como relacionado com os conceitos de inteligência e emoção, não sendo, no entanto, equivalente a nenhum deles.

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Diversos autores atribuem assim a IE a qualidades como: autoconsciência emocional, automotivação e autocontrolo (Cerezo, Ortiz-Tallo, & Cardenal, 2009, Goleman, 2003, Roberts, Flores-Mendonça & Nascimento, 2002; Mayer & Salovey, 1997, 1999).

A relação entre a Alexitimia e a IE também já foi estudada e, de acordo com Stys e Brown (2004), existe uma associação inversa entre estas duas variáveis, isto é, os alexitímicos detêm uma baixa IE. Shutte e colaboradores (1998), num estudo com uma amostra de 25 estudantes, verificaram essa mesma correlação inversa entre a escala de autorrelato de IE (The Self Report Emotional Intelligence Test) e a Toronto Alexithymia Scale (TAS-20). A IE constitui, assim, um campo de investigação sobre a inter-relação entre os pensamentos, sentimentos e habilidades (Woyciekosky & Hutz, 2010).

1.3.1. Cancro e inteligência emocional

Em oncologia, o distress é definido como uma experiência emocional aterradora para o paciente oncológico, englobando componentes do foro psicológico, social e/ou espiritual (multifatorial), e interferindo diretamente na capacidade da pessoa em lidar com sentimentos, pensamentos e comportamentos, mediante os contornos da doença (diagnóstico, sintomas e tratamentos) (Ryan, Cockburn, Schofield, Butow, Tattersall, Bandaranayake & et al., 2005; Carver, 1993). O distress caracteriza-se por se alongar no tempo e, como é compreensível, traz vulnerabilidade, tristeza e medo, raiva, impotência e culpa. Quando estes sentimentos ganham proporções maiores conduzem normalmente a quadros psiquiátricos como depressão major, ansiedade generalizada, transtorno do pânico, isolamento social, crises existenciais e/ou espirituais. A presença de distress está ligada à redução da QV, falta de satisfação com os cuidados recebidos, menor adesão aos tratamentos e, possivelmente, sobrevivência reduzida (Mitchell, Lord, Slattery, Grainger & Symonds, 2012; Howell & Olsen, 2011). Também como associação relevante, revelam-se o baixo suporte social autopercecionado com o aumento de ansiedade e depressão (NCCN, 2013). O cancro é ainda hoje visto como uma doença de forte cariz discriminativo, desde o âmbito familiar até à vida social no seu todo. A inaceitabilidade social do cancro pode estar fortemente associada ao medo de sofrimento prolongado. Numa sociedade onde o indivíduo é analisado de forma mercantilista, a perda da capacidade laboral, em decorrência de uma doença, faz com que a pessoa doente se sinta desamparada socialmente (Linard, et al., 2002).

Em concreto no cancro da mama, Cerezo e colaboradores (2009) referiram que a repressão emocional e a dificuldade para descrever e comunicar as emoções negativas como ira, ansiedade e a dor, são formas com que a mulher com este tipo neoplásico tem que lidar. Os mesmos autores concluíram que estas doentes, após específicas intervenções psicológicas, conseguiram desenvolver estratégias para manifestar as emoções positivas e regular melhor as negativas; os autores concluíram ainda que a expressão emocional é importante nas doentes com cancro da mama, dado que as ajudam a lidar melhor com a sua situação médica.

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Ainda no âmbito oncológico, a realização de uma histerectomia no cancro cervical pode desencadear fortes reações emocionais nas mulheres que se submetem a ela (Rezende, 2002). Normalmente, esta cirurgia faz com que as mulheres experimentem ansiedades relacionadas à perda do útero. O medo da dor, em meio a todo o processo também pode provocar uma atitude esquiva em relação ao sexo (Segal, 1994). Também a realização do exame Papanicolau é suscetível de despertar na mulher sentimentos negativos, muitas vezes relacionados à sexualidade, podendo interferir bastante na adesão da mesma ao exame (Brito & Camargo, 2011). Nesse sentido, o resultado do exame representa expectativa e medo devido à possibilidade de ser positivo para o cancro (Nascimento, Nery & Silva, 2012).

Gomes (2011), num estudo transversal (N=60) e mais específico do tema deste trabalho, com o objetivo de caracterizar alguns parâmetros, numa amostra de doentes oncológicos em quimioterapia, investigou níveis de IE, QV, ansiedade e depressão e distress. Os resultados obtidos revelaram níveis elevados de IE (267 numa escala de 270), níveis satisfatórios de perceção de QV (Análise descritiva=60.3) e baixos níveis de ansiedade (M=0.2), depressão (M=0.2) e distress (M=0.2). Porém, não se verificou correlação significativa entre os níveis de IE e QV (r=0.02), entre outros resultados. Estes resultados nem sempre são consensuais, por exemplo, a investigação de Baker-Glenn, Park, Granger & Symonds & Mitchell (2011), num estudo semelhante, encontrou resultados diferentes, no sentido que doentes oncológicos em quimioterapia necessitaram de ajuda psicológica devido a elevado índice de ansiedade, depressão e distress.

No geral, a relação entre a saúde e a IE, investigada recentemente, revela que quanto mais elevada é a IE melhor é a saúde (Martins, Ramalho & Morin, 2010; Schutte, Mallouf, Thorsteinson, Bhullar & Rooke, 2007).