de solidariedade têm implicações
importantes para sobrevivência e
reprodução; por meio delas são
disseminadas informações cruciais
sobre alimentos e predadores
bora essa afirmação possa parecer abrangen- te, ela na realidade não é muito útil, porque o inato mais o adquirido incluem praticamente toda influência que se possa imaginar.
SINAIS DE INTELIGÊNCIA
Por essa razão, pesquisadores passaram a avaliar como o aprendizado por tentativa e erro também moldava o comportamento. Junto com as observações de campo, esses estudos resultaram, forçosamente, no reco- nhecimento de que animais eram muito mais espertos e inteligentes do que imagináva- mos: chimpanzés e corvos produzem e usam ferramentas; papagaios resolvem problemas usando lógica; elefantes desativam cercas elétricas com grandes pedras que deixam cair sobre elas. Enquanto estudavam esses sinais óbvios de inteligência, pesquisadores nota- ram também que alguns animais em grupos aprendiam comportamentos copiando seus companheiros mais próximos. E um membro do grupo em particular talvez notasse que es- tava sendo observado por outros que tenta- vam obter informações sobre ele.
É claro que, como físicos bem sabem, uma vez que você transpõe questões (de in- teração entre) entre dois corpos, as coisas podem ficar excessivamente complicadas. Por isso, as primeiras tentativas de estudar formas de interação entre indivíduos em um grupo social frequentemente envolviam dois ou três animais. Dezenas de estudos analisa- ram o modo como um animal imitava outro na escolha de um par, ou se concentraram em um membro do grupo espionando as habili- dades de luta física de potencial concorrente, ou em um aproveitador que roubava alimen- to de componentes mais produtivos do gru- po. Mas, quanto mais os etólogos estudavam
esses comportamentos, mais eles percebiam que essas interações entre alguns poucos in- divíduos eram apenas uma indicação do in- trincado conjunto de relacionamentos entre todos os membros de um grupo.
O que era necessário para uma compreen- são mais profunda e completa da vida social de animais era o reconhecimento de que mui- tos deles, assim como nós, humanos, estão in- seridos em complexas redes sociais, relações que conectam cada indivíduo aos demais.
A aplicação moderna dessa abordagem passou a ser consistente há uns 15 anos, quando etólogos começaram a adotar livre- mente métodos consagrados por cientistas sociais para o estudo de redes sociais huma- nas; primeiro, em locais de trabalho ou bair- ros e, mais tarde, em comunidades virtuais como o Facebook e o Twitter.
Em animais, redes sociais vão desde simples associações que envolvem apenas alguns indivíduos, como um cardume des- contraído de peixes que viajam juntos, a configurações muito mais complexas, como as encontradas em bandos de babuínos em que indivíduos são inseridos em múltiplas re- lações sobrepostas (como redes de acasala- mento, dominância ou higienização) capazes de influenciar o grupo direta e indiretamente. Redes podem mudar com frequência: mem- bros podem ir e vir, e os indivíduos podem mudar suas posições e conexões em resposta a doença, aquisição de conhecimentos e inte- rações anteriores.
Tanto em sociedades animais simples como complexas, interações da rede têm im- plicações importantes para sobrevivência e reprodução. A precisão de informações sobre alimentos, predadores e pares, assim como a velocidade com que essas informações são transmitidas em um grupo, dependem da es- trutura de uma rede social. Está relacionada a escolhas para brincar, desavenças e solidarie- dade. Além disso, doenças e parasitas podem ser transmitidos de um indivíduo a outro sem contato direto ao repassarem o patógeno através de intermediários.
Como parte de suas avaliações gerais, pes- quisadores identificam várias características de redes animais: os indivíduos-base (que têm muitas conexões e cujo afastamento/elimi-
nação interrompe a rede social); os “nodos” (qualquer indivíduo incluído na rede); a densi- dade da rede (uma proporção entre o número de vínculos reais e o número de todos os elos possíveis); o grau (o número de vínculos entre cada indivíduo e todos os outros); o alcance (o número de amigos dos amigos de um indiví- duo); e a centralidade (a porcentagem de to- das as conexões entre indivíduos que incluem determinado animal). A maioria das pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, tem baixa centralidade à escala do país, mas quase todas sabem quem é o presidente e estão conecta- das a ele por meio de suas autoridades locais; a centralidade dele chega perto de 100%. PAPEL DE POLÍCIA
Para ter uma ideia de como redes sociais operam na natureza, e de que maneira po- dem ser o principal impulsionador de todos no grupo se comportam em última análise, vamos tratar das vidas não tão privadas de três espécies não humanas.
Macacos-rabo-de-porco (Macaca nemes-
trina), por exemplo, estabelecem múltiplas
ligações, como as formadas por amigos de brincadeiras ou parceiros de higienização. Redes diferem em tamanho, e um macaco pode ter parceiros favoritos em diferentes re- des. Um animal também pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra.
Mas as várias redes compartilham um as- pecto comum: elas operam sob o olhar vigi- lante de algumas figuras de autoridade que mantêm a paz. Esses “policiais”, alguns dos machos da mais alta hierarquia do grupo, investem tempo e energia apartando brigas entre outros indivíduos de suas redes sociais. A cientista Jessica Flack, do Instituto San- ta Fe, no Novo México, e seus colegas (inclu- sive o renomado primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia) estuda- ram o papel desses animais policialescos em um bando de 84 macacos no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, em Emory, do início a meados da década de 2000.
Geneticistas frequentemente decifram o papel de um único gene em uma célula ou um organismo ao desligá-lo e observar as consequências de sua ausência. A equipe de
Flack adaptou essa abordagem de “neutrali- zação” aos Macaca removendo três animais machos com função de policiamento. Em se- guida, observaram e esperaram.
A ausência de um membro de baixo es- calão do grupo praticamente não afetou as redes sociais. Mas, como era de esperar, a ausência de “policiais” resultou em um au- mento de agressões e menos reconciliações após brigas na população. O que foi menos previsível é que, sem a presença dos “poli- ciais”, as redes de colegas de brincadeiras e higienização também sofreram uma comple- xa reestruturação.
Sem os policiais, diminuiu o número de parceiros de brincadeiras e higienização dos integrantes do grupo. Ou seja, o “grau” de suas redes de diversão e higiene diminuiu. E o “alcance” dos animais remanescentes – número de amigos de amigos de dado indi- víduo – também decresceu nessas redes. Ao mesmo tempo, a coesão de toda a sociedade enfraqueceu; a população passou por uma espécie de “balcanização”, dividindo-se em grupos menores e mais homogêneos que raramente interagiam com estranhos. Essas observações levaram Flack e seus colegas a teorizar que a presença de animais “poli- ciais” possibilitava uma rede mais saudável e densa, em que os membros tinham contatos mais amigáveis e mais frequentes com um número maior de seus companheiros.
Esse tipo de experimento de “neutraliza- ção”, sugerindo que alguns indivíduos em uma rede são especialmente valiosos para sua estrutura, mostra que a compreensão de
MACACOS-RABO-DE- PORCO estabelecem múltiplas relações: um animal pode desempenhar um papel mais proeminente em uma rede que em outra
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INTERAÇÕES INFLUENCIAM desde as oportunidades de acasalamento entre manakins-de-cauda- longa (ao lado), até a propensão de alguns golfinhos-nariz-de- garrafa de cooperar com pescadores humanos
redes sociais animais pode ser importante para a biologia conservacionista. Considere o caso de “baleias assassinas” (Orcinus orca), conhecidas como orcas. Fêmeas, tanto jo- vens individuais como agrupamentos de apa- rentadas, parecem ser polos importantes de transmissão de informações sobre oportuni- dades de forrageio e outros aspectos da vida no mar. Qualquer interferência humana que perturbe essas “centrais” de informações iso- ladas ou em grupo, da caça à poluição oceâni- ca, à construção de barreiras que as impeçam de nadar livremente em seu ambiente, pode interromper severamente a rede social das orcas e enfraquecer as perspectivas de sobre- vivência do grupo inteiro. Essa compreensão poderia, no mínimo, servir para esclarecer a
formulação de políticas, a fim de minimizar o impacto de nossas ações sobre essas criatu- ras maravilhosas.
PARCEIROS DE CANTO E DANÇA
As redes sociais de populações selvagens de aves em seus hábitats naturais também têm sido objetos de análise. Uma dessas espécies é o manakin-de-cauda-longa (Chiroxiphia li-
nearis) da América Central. Os machos são ex-
traordinariamente bonitos, diferenciados por suas penas de cor índigo, “capacetes” verme- lhos e, como o nome indica, caudas longas e finas. Encontre o par certo de machos empo- leirados em um galho, e um observador de pássaros pode testemunhar um comovente e encantador show de canto e dança. Manakins fêmeas também assistem a essas exibições e as avaliam quando escolhem companheiros. Para os machos, a chance de poder se apre- sentar é muito importante. Mas, infelizmente para eles, a competição pela oportunidade de participar de um desses duetos é altamente concorrida e muitas vezes bastante agressiva.
O pesquisador David McDonald, da Uni- versidade do Wyoming, observou essas aves na Costa Rica por mais de dez anos, totalizan- do 9.288 horas. Com técnicas de análise de re- des sociais, ele descobriu que os machos com um alto grau de conectividade no início de sua vida conquistam o privilégio de se exibir nessa “noite de microfone ao vivo” aviária.
Como em qualquer competição de dan- ça, tudo é bastante complicado, mas é algo mais ou menos assim: conjuntos de oito a 15 machos passam seu tempo em “zonas de poleiros”, áreas que contêm um ou vários ga- lhos onde as aves se apresentarão. Qualquer macho em um agrupamento pode praticar seu canto e dança em um poleiro fora do pe- ríodo de reprodução (do final de fevereiro ao início de setembro) ou até durante a época de acasalamento, desde que não haja fêmeas por perto. Mas na época reprodutiva, quando elas estiverem presentes, só os dois machos mais destacados, denominados alfa e beta, podem cantar e dançar em poleiros. De fato, os artistas concorrentes formam uma equipe para enxotar agressivamente todos os outros machos da área.
O macho alfa conquista quase todas as oportunidades de acasalamento em uma zona de poleiro. A recompensa para o macho beta é a sucessão à cobiçada posição no topo quando o alfa reinante morre. Esse sistema cria um enorme benefício para o alfa e o beta, vantagem que todos os machos querem, mas poucos conseguem.
À medida que jovens machos amadure- cem, entre um e seis anos, eles frequente- mente transitam entre zonas de poleiros, estabelecendo relações com muitos outros machos. A idade média de um macho repro- dutor bem-sucedido é de 10 anos, o que signi- fica que, à medida que amadurece, qualquer macho tem muitos outros companheiros em sua rede social. Em suas quase 10 mil horas de trabalho de campo, McDonald monitorou quais machos interagiam uns com os outros todos os anos durante mais de dez anos. Com seus dados, ele construiu um mapa de redes sociais para verificar se a estrutura da rede revelaria quais animais acabavam sendo “vencedores”, exibindo-se como bem-sucedi- dos cantores de dueto.
Suas análises de rede levaram em conta tanto os caminhos curtos, que conectavam um exemplar diretamente a outro, como ca- minhos indiretos, que podiam incluir inte- rações entre aves a vários elos de distância do primeiro indivíduo. (“Não conheço Bert pessoalmente, mas conheço Caco, o Sapo, que conhece Ernie, que conhece Bert” – re-
ferência a personagens de Vila Sésamo.) Por fim, McDonald determinou que o segredo de tudo era a “centralidade”: machos “centrais” eram muito mais propensos que animais me- nos bem relacionados a ascender na hierar- quia reprodutiva, ocasionalmente atingindo os status de alfa e beta que lhes permitiriam subir ao palco para conquistar os corações de fêmeas com seus cantos e danças.
Esse tipo de pesquisa identifica estrutu- ras de rede e as associa a comportamentos observados. Nesse caso, uma conexão direta entre estrutura e comportamento é presumi- da, não provada. É possível que, em vez de conquistarem poder graças às suas muitas conexões, machos alfa e beta tivessem esta- belecido muitas ligações por características que os tornavam populares entre seus pares.
Pelo fato de muitas ferramentas da teoria de redes terem sido importadas das ciências sociais, não é surpresa que alguns dos pri- meiros objetos de estudo de detalhadas aná- lises de redes sociais não humanas tenham sido golfinhos-nariz-de-garrafa, já reconhe- cidos como animais inteligentes, de cérebro grande e altamente sociais.
No final da década de 90, o então pós-gra- duando David Lusseau se apaixonou pelos golfinhos-roaz (Tursiops truncatus) do estreito Doubtful, um magnífico fiorde no sul da Nova Zelândia, a mais de 320 km a oeste da Univer- sidade de Otago, onde fazia sua dissertação de doutorado. Hoje na Universidade de Aber- deen, na Escócia, Lusseau monitorou os belos animais por sete anos. Uma de suas ferramen- tas foi a fotografia, que o ajudou a sistematizar marcas naturais de todos os 64 golfinhos no estreito Doubtful e monitorá-los.
Depois de ter observado mais de mil gru- pos de vários tamanhos, que incluíam subcon- juntos desses 64 animais, Lusseau verificou
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