• Nenhum resultado encontrado

Quadro de Informantes Jovens

Capítulo 3. A ASSEMBLÉIA DE DEUS NO CONTEXTO PENTECOSTAL: UM POUCO DA HISTÓRIA, REALIDADE LOCAL ATUAL E PERSPECTIVA

6. Uso de bebidas alcoólicas e embriagantes (Pv 20 1; 2 31; 1 Co 10;

4.3 Interagindo no “mundo secular”: Algumas considerações

Embora não se possa afirmar que já tenha havido no passado separação “do mundo” senão, enquanto representação; há indicação de transformações no sentido de uma maior interação nas diversas esferas da sociedade em que cada vez mais os/as jovens se envolvem na atualidade, conforme já anteriormente discutido. Ressaltamos neste ponto questões relativas a tal presença no “mundo”, destacando particularmente

193 alguns entraves e dificuldades mencionadas pelos interlocutores neste processo.

Os/as jovens assembleianos/as são instados/as a serem legítimos representantes da igreja nos espaços em que se movem; por sua vez, desejam ser aceitos nos lugares que cada vez mais ocupam na esfera pública. O que nem sempre se dá conforme o esperado, verificando-se queixas em alguns depoimentos sobre cerceamentos e discriminação em ambientes tais como trabalho e faculdade, o que os faz, muitas vezes, sentirem-se provocados, esboçando reações distintas.

Eles evitam conversar comigo. Eu gostaria de ter mais contato, mas se eu me aproximar eles vão aproveitar para na primeira oportunidade usar isso contra mim. Um exemplo bem claro é a questão da sexualidade, eu tenho um livro sobre isto, e assim: nenhum jovem deve negar que existe o impulso sexual, mas sim que têm que contê-lo. Por exemplo, se eu ver uma menina bela passando e expressar a beleza que estou vendo para alguém, a pessoa vai lhe dizer: “Olha Davi! Como está saidinho hoje, como está folgado! (Davi, 22 anos).

A discriminação é dos colegas, dos professores... Porque a gente é alienado, porque a religião é o ópio da humanidade, porque eu balanço a cabeça para o que o pastor diz, porque eu só uso um tipo de roupa. Esse espanto porque uma evangélica fazendo história. E tu vai pregar sobre o homem de Neanderthal ou Adão e Eva? (Jacilene, 25 anos).

Eu não me sinto excluída, mas eu me sinto assim: as pessoas não querem se aproximar muito, assim quando é algum trabalho eu entro; tudinho. Mas, quando é algum assunto de fora da universidade, eles acham que eu vou criticar; que eu vou dizer que não é coisa de Deus (Valéria, 25 anos).

No curso de radiologia o pessoal me chama de pastor e eu nunca tinha passado por isso, nem no trabalho. Aí de repente você quer brincar, mas todos pegam no teu pé e dizem logo: “Olha para o crentinho!”. Como se a gente fosse diferente deles. Eles mesmos criam essa barreira; só que de forma inconsciente, que não é ele; é o fato principal de não terem conhecimento da palavra (Geraldo, 23 anos).

É interessante essa perspectiva de “crítica da crítica do outro” que se sobressai na fala de alguns/algumas interlocutores/as mais escolarizados/as, indicando um lugar de reflexão em resposta ao que seria uma perspectiva preconceituosa ou estereotipada acerca da denominação e de seus/suas adeptos/as. Também, não por acaso, onde se faz ciência, ou no fazer científico (FRESTON, 1996; MOTTA, 2007; BURITY, 2007); sem dúvida, uma característica que denota estes/as enquanto atores e atrizes imersos em “contextos modernos”.

Faz-se referência à relação entre “ser diferente e ser normal” e mal-entendidos decorrentes na relação com “não crentes”. Como lidar com noções, pré-noções e provocações por parte de pessoas/instituições com as quais cada vez mais se é instado/a

194 a interagir, diante de certo estereótipo construído? Que talvez custe mais a ser transformado externamente que internamente, haja vista diferenças internas e nuances presentes na dinâmica da igreja, nem sempre apreensíveis pelos/as fiéis (e que faz sentido dentro do modo como esta se constitui e se apresenta na atualidade); que dirá pelos/as “incrédulos/as”.

As respostas dos/as interlocutores/as vão tanto na direção de um “fechamento”, retração ou apatia na vivencia e relação com tais ambientes; passando por interação nestes com restrições ou estabelecendo-se uma postura de confronto. Uma reação possível, ainda, condiz com a negação do “ser diferente”, observada em momentos de crise, o que pode se revelar como algo passageiro, que não traz, a depender do contexto e circunstâncias, maiores ônus; ou vir a resultar no afastamento momentâneo ou efetivo do/a jovem do seio da igreja.

Entre os/as jovens com os/as quais estabelecemos diálogo, predomina: a busca de interação com restrições, conforme acima sugerido. Até mesmo porque nem sempre o limite é dado pela pessoa, senão pelo outro, conforme fica mais evidente na fala dos rapazes, para quem, conforme sugerem alguns estudos seria mais difícil a condição de crentes, que tenderia a distanciá-los do modelo de masculinidade hegemônico vigente na sociedade (MONTEIRO, 1999; NOVAES, 2005; COUTO, 2001; RHODEN, 2005; MACHADO, 2005).

Se no passado a entrada na universidade era tida como um perigo para os/as jovens da denominação, não se incentivando ou mesmo se criticando o avanço nos estudos por parte destes; na atualidade verifica-se um incentivo e cada vez mais um incremento na presença de jovens nestes espaços. Conviver e vivenciar experiências nestes nem sempre é fácil para os/as jovens, que reconhecem a necessidade de fortalecimento espiritual e preparo para enfrentar os desafios e questões que lhes são colocadas, então.

Há por parte da igreja preocupação com uma melhor preparação dos/as jovens, discutindo determinados temas, buscando formar opinião ao invés de simplesmente tentar negar ao jovem esta possibilidade ou criticá-lo em função de escolhas de curso, por exemplo. O que não caberia, nem no ideário atual desta nem tampouco de seus/suas jovens. A idéia é preparar o/a jovem para que este entre e se saia deste espaço de saber, sem se “contaminar” por sua visão secularizante, ou, ao menos, sem perder a fé e os valores cristãos. Dando exemplo, e se possível, ainda, evangelizando os/as colegas, o que parece ser algo raro de se ver. Vejam-se as falas a seguir que refletem sobre reações

195 possíveis no passado e como entrevistados/as lidam com a universidade no presente:

Porque muitos têm aquela mente obsoleta, aquela mente pequena, quando eles entram na universidade é como se eles tivessem em outro planeta. Eu vi um jovem que era exemplo de vida na igreja, de comportamento, mas como foi fazer direito na UFPE, isso foi na década de 80, o cara virou a cabeça de uma maneira tal, que eu fiquei impressionado com aquilo. Virou o cabeção. Transava com todo tipo de menina na faculdade; passou a beber e ele não conseguia falar para a igreja. Eu vi, eu saquei que ele estava diferente porque eu já vivia no mundo; eu vivia no meio dos maconheiros e vivia no meio dos jovens da igreja. F- Mas, por que você acha que isto aconteceu a este jovem? J- Foi a criação que a igreja deu a ele; não preparou ele para o mundo, aí no mundo ou ele ficava de um lado ou do outro, né?(João, 33 anos).

Mas no início foi complicado, fazer história hein... Adão e Eva, na primeira semana eu entrei em parafuso, eu disse: Deus, que é que eu to fazendo aqui; eu escutei coisas terríveis, hora eu engolia, ora eu :“não, não é assim não”. Eu disse: “senhor: me ajude; eu to só, veja só o que eu estou tendo que estudar,” aí eu fui para um culto e ouvi uma mensagem que dizia:” jovem, eu te escolhi porque és forte, para pregar as boas novas aos quebrantados”, e eu tomei aquilo para mim; terminei o meu curso continuo firme na igreja (Jacilene, 25 anos).

Já há 2 anos que eu vinha tentando o vestibular e não passava; mas eu olho agora, eu precisava ter mais experiência com Deus, precisava de um contato com aquele poder, com aquela alegria da igreja pra quando eu chegar aqui não me chocar. Estar fortalecida; mas o fato de pedir que Deus estivesse comigo porque as experiências que eu venho tendo só vem a me fortalecer (Valéria, 25 anos).

Observa-se nas falas acima, por um lado, a constituição de um determinado habitus, e por outro, o quanto é preciso se estar preparado para as provações, sabendo se posicionar – ter “jogo de cintura”. Tendendo-se para um lado, pode-se abandonar a universidade, se tende para o outro, afastar-se da igreja e/ou de seus valores. Embora tal radicalidade esteja mais atrelada ao passado, vale ainda a noção de que é preciso se ter cuidado e se estar vigilante na fé, na busca de um equilíbrio ao trilhar-se um universo agnóstico/ ateu, concomitantemente à adesão religiosa pentecostal. Notadamente, certos campos das Ciências Humanas e Sociais -, forjando-se mecanismos para tentar articular discursos e práticas, por vezes, de difícil conciliação.

É marcante na fala das lideranças, notadamente das lideranças centrais, conforme tivemos oportunidade de assistir algumas vezes, a ênfase na importância de se dar “testemunho” nos lugares em que predomina o ateísmo e a amoralidade, em que “o inimigo domina”, antes de tudo “não se envergonhando do evangelho”, mas declarando o prazer e a alegria de ser um jovem crente.

196 “espaços hostis”, como a universidade, numa busca por ressaltar a distinção; marcando- se uma identidade evangélica e assembleiana. O que nos dias atuais adquire uma conotação por vezes diferenciada daquela do passado, onde o proselitismo parecia ser o motivo central para certos comportamentos. Veja-se a fala a seguir:

Tinha uma colega que dizia: você está no mestrado, mas continua a mesma Carmem, lendo a Bíblia no intervalo, então quando eu entrei no mestrado sempre eu tinha que lidar com essas questões e a pessoa acaba aprendendo (Carmem, 28 anos).

Embora tal perspectiva não possa ser generalizada, é importante pensar que as relações dos/as jovens crentes com tais instâncias numa época de maior respeito à pluralidade e afirmação de identidades, pode ganhar novas conotações. Inclusive, numa possibilidade de afirmação mais veemente da diferença que ostentam, por vezes apreendida como um jeito de ser e de viver: uma cultura.

Mas, se a Universidade é vista ainda que em termos decrescentes como espaço “hostil ao evangelho”; é importante destacar que, antes dele, a escola representa um espaço que se opõe à igreja, um lugar onde se desfruta de liberdade e menor vigilância; também onde costuma ser primeiramente testado/a (ou tentado/a). É lá que se é questionado primeiramente e que se coloca para os “mais jovens” a questão dos limites impostos e o modo como se lidará com eles.

Experimentações afetivas e sexuais costumam ser atreladas também à escola pelos entrevistados/as; o caminho da escola aparecendo, neste sentido, como local privilegiado para encontros furtivos (não legitimados pelas normas da igreja; é claro). O medo de ser visto é sempre uma questão que se coloca. Principalmente para aqueles/as que precisam defender a “honra da família” ou têm pretensões de uma ascensão na denominação, cuidados devem ser tomados no sentido de evitar certos flagrantes. Tais aspectos serão melhor desenvolvidos no último capítulo deste trabalho.

Precisa-se e pode-se conviver com outros/as jovens “do mundo”, tendo sempre cautela para saber até onde ir e como se conduzir; podendo-se nesta relação: capitular, endurecer; ou buscar-se algum termo de conciliação (BERGER, 1994), o que parece representar a tendência mais comum entre os/as interlocutores/as. Sempre, no caso de se estar numa igreja como AD, algo que tende a ser relativizado ou mesmo negado, já que a convivência com “o ímpio”, não obstante ser cada vez mais freqüente, não representa a melhor alternativa para o/a cristão. Não é à toa, que os/as jovens entrevistados, com

197 variações menores ou maiores em função da escolaridade e renda, costumam ter entre os pares da igreja seus melhores amigos, ou os amigos atuais. Estar entre os ímpios representa uma espécie de “sacrifício necessário”, cada vez mais comum, e não necessariamente conflitivo (COUTO, 2001); sem dúvida, capaz, de corroborar para a transformação de vivências, representações e identidades construídas ao longo do tempo.

4.4. Ser jovem é ser solteiro/a? Algumas considerações sobre divisão de sexo e

Documentos relacionados